Universo da obra
Universo da obra
Estendeu sua mão pequena e fina, primeiro a Valle e depois a Flores, e comoveu-se ao sentir a branda pressão dos dedos deste; seus lábios se agitaram procurando balbuciar algumas palavras de saudação, desprendeu-se ainda mais ruborizada e saiu ligeiramente do salão, dizendo aos oficiais:
- Vou avisar mamãe: sentem-se, por favor.
- Serão apreensões minhas - disse Fernando - ou Isabel ficou rubra e depois pálida ao ver-nos chegar? O senhor notou?
- É natural - respondeu Henrique. - O senhor não está no México; as provincianas são sempre tímidas.
- Mas ontem não observei essa emoção.
- O senhor certamente não prestou atenção. Mas, rapaz, é o senhor quem está agora notavelmente pálido e comovido; parece um delinquente diante de seu juiz.
A essa altura chegou a senhora com Isabel. A primeira trocou com os jovens os cumprimentos de costume, depois do que Henrique, fiel à promessa de não fazer a corte à prima e de proporcionar a Valle a oportunidade de consagrar-se inteiramente a ela, entabulou com a senhora uma conversa interessante, como sabia fazer o galante oficial, muito acostumado ao trato das mulheres de toda idade, cujo gosto e propensões adivinhava logo para poder lisonjeá-las com mais segurança.
Mariana, assim se chamava a senhora, que, diga-se de passagem, beirava os quarenta anos e era mulher distinta, de educação superior, conservando ainda uma beleza fresca e notável, pareceu encantar-se com Henrique. As numerosas relações deste no México permitiam-lhe informar Mariana, que vivera ali algum tempo e conhecia perfeitamente o melhor círculo, acerca das novidades ocorridas durante aqueles últimos anos em todas as famílias.
Henrique fazia a descrição do estado da sociedade mexicana naquela época de guerra, retratava com habilidade sem igual as formosuras em voga, referia a história dos casamentos recentes e dos amores célebres; mas tudo isso com tal tino, com tal donaire, com um tato tão requintado, que Mariana acabou por crer que aquele jovem era adorável.
A senhora ria frequentemente, demonstrando o maior prazer ao escutar os ditos agudos, os epigramas delicados, as observações picantes que saíam a cada momento dos lábios de Henrique, e ainda se voltava para dizer à filha, chamando-lhe a atenção:
- Mas ouves isto, Isabel?
E então a jovem deixava de escutar a pobre conversa de Fernando para ouvir Flores, que acabava por interessar vivamente ambas em seu relato.
Enquanto isso, Fernando murmurava algumas frases tímidas para entreter a prima, que não estava atenta senão a Henrique, a quem olhava por longos intervalos sem prestar atenção às suas palavras. Henrique parecia-lhe mais belo, mais interessante que no dia anterior.
Nem sequer reparava que seu primo Valle parecia mais triste, mais pálido e mais sombrio. E como este notou que Isabel apenas lhe respondia em monossílabos e desviava dele os olhares para fixá-los no garboso militar, acabou por ficar em silêncio, dissimulando com ar de distração o sentimento que começava a pungir seu coração como um punhal.
Já tinha ciúmes. Era certo que Isabel amava seu amigo ou, pelo menos, sentia-se disposta a amá-lo.
De repente, uma carruagem deteve-se à porta.
- É Clemência! - disseram a senhora e Isabel, e levantaram-se para recebê-la.
Com efeito, a formosíssima morena apareceu à porta, abraçou e beijou suas amigas, e estendeu risonha uma mão enluvada e aristocrática aos dois oficiais.
- Alegro-me muito de vê-los por aqui - disse-lhes. - Falamos tão pouco ontem que me permitirão, na qualidade de provinciana, esperar notícias minuciosas de minhas amigas do México, e de muitas coisas que, para nós que vivemos tão longe, interessam sobremaneira.
- O senhor Flores - disse Mariana - acaba de contar-me coisas daquela capital que me encantaram. Não há talento como o seu para conversar, e ninguém pode informar melhor... conhece todo o mundo.
Henrique cumprimentou agradecido a senhora e, voltando-se para Clemência:
- Serei muito feliz, senhorita - disse-lhe -, se puder dar-lhe notícias de suas relações no México. Com efeito, conheço todo o mundo ali, e possuo todo esse cabedal de notícias íntimas que nem se encontram nos jornais nem cabem nas cartas, e que só se conservam na memória dos iniciados como eu em certos círculos.
Generalizou-se então a conversa. Henrique desdobrou toda a riqueza de suas faculdades; como conversador, homem de mundo e de educação distinta, fez conhecer, sem ostentação, o numeroso e distinto de suas relações sociais; era amigo das mulheres mais belas do México, dos homens mais elegantes e aristocráticos, e se a isso se acrescenta que viajara muito e que era dotado desse talento especial dos que frequentaram muito os círculos distintos, e que, sem ser profundo em nada, deslumbra à primeira vista, compreender-se-á muito bem que Henrique cativou seu belo auditório. Isabel escutava-o com enlevo. Clemência fixava nele seus lânguidos olhos negros, banhando-o com seus olhares ardentes e voluptuosos. Mariana ria alegremente.
Fernando estava esquecido: triste destino dos humildes, dos taciturnos e dos esquivos.
- Falaram-me - disse Clemência a Henrique - de seu talento ao piano, e asseguram os que me informaram, e que o conhecem muito bem, que não têm lábios para elogiá-lo. Segundo isso, o senhor é um militar como se veem poucos em nossos dias, porque os artistas não se encontram regularmente no exército. Já se vê, o senhor não é soldado de profissão, mas tomou a espada para defender sua pátria, não é isso?
- É verdade, senhorita; não sou soldado de profissão, e nesta parte declaro-me profano diante de Fernando. Ele sim é soldado, e tão soldado que começou sua carreira carregando o fuzil. Não se ruborize, vamos! Isso não é desonra; foi servindo à pátria, e nada importa a classe quando, a partir dela, o senhor soube elevar-se.
- Não; eu não me ruborizo por essa causa - murmurou Fernando.
- Soldado raso? - perguntou Mariana. - É estranho. O senhor gostaria de me explicar por que foi assim? Não é comum que jovens de seu nascimento assentem praça como soldados rasos.
- Senhora... - balbuciou Valle, notavelmente comovido.
- Mas Mariana, não seja indiscreta - apressou-se a dizer Clemência. - Essas coisas não se perguntam... Voltemos ao piano, que estamos esquecendo... Há de saber, Flores, que Isabel é uma verdadeira artista, conhece a música admiravelmente, e ao piano tem uma força que o surpreenderá encontrar nestas regiões apartadas...
- Clemência! - interrompeu Isabel, cheia de rubor.
- Minha filha, é a verdade; para que ocultá-la? Tu sempre o negas, e é natural, porque antes de tudo és modesta; mas tuas amigas temos orgulho de teu talento e haveremos de louvá-lo devidamente.
- Oh, que fortuna, Isabel, que fortuna! - disse Henrique com entusiasmo. - Isto é um achado, um tesouro... é a ventura que nos sorri no caminho do sacrifício.
- Clemência - observou Isabel, cheia de vergonha -, tu terás culpa se o senhor me achar espantosamente torpe... Por que és assim?
- Mas é a verdade, cavalheiro, é a verdade, e o senhor vai convencer-se disso... Eu também toco; mas Isabel fica muito acima de mim. E para que o senhor possa comparar, vou sentar-me ao piano; depois ela tocará, e por último esperamos que o senhor nos confunda a ambas; mas seremos as primeiras a oferecer flores ao vencedor.
E, dizendo e fazendo, a encantadora morena levantou-se de seu assento e, vergando-se como um junco, dirigiu-se ao piano. Henrique a acompanhou e, por indicação dela, procurou num aparador de madeira de rosa a partitura que desejava, permanecendo de pé a seu lado, devorando-a com os olhos.
Clemência preferia tudo aquilo que estava em harmonia com seu caráter, e em música desdenhava o puramente melancólico e terno, assim como se impacientava com as elevadas e intrincadas combinações da escola clássica.
Ela precisava de música enérgica para traduzir os sentimentos de sua alma ardente e poderosa. Precisava da desordem, da inspiração robusta e atrevida, do delírio na harmonia. Verdi era o mestre favorito de Clemência. O piano exprimia os arrebatamentos furiosos da paixão sob aquelas mãos de deusa.
Henrique estava subjugado e sentia-se, a despeito de si mesmo, preso nas malhas terríveis com que parecia envolvê-lo a magia irresistível daquela mulher.
- Isto é inexplicável - dizia interiormente. - Eu dominado! Pois isso não deve ser.
Fernando, por sua parte, estava no auge do desespero. Notara no belo semblante de Isabel as contrações da dor e dos ciúmes. Cada vez que Clemência se voltava para Henrique com seu olhar de fogo e seu sorriso de sereia, um leve tremor agitava o corpo da angelical loura, que ora apertava convulsivamente o braço da poltrona em que se apoiava, ora parecia reprimir penosamente as lágrimas que os ciúmes faziam assomar aos seus olhos.
De modo que, para Valle, já não era duvidoso que Isabel amava Henrique. Isso o fazia reclinar-se na poltrona como desfalecido pelo tormento. Jamais sentira no coração a cruel punhalada dos ciúmes; aquela dor lhe fora inteiramente desconhecida, e perguntava a si mesmo se não seria mais sensato para ele, que pensara sacrificar-se pela pátria, retirar-se daquela casa, não voltar a ver sua prima e refugiar-se em seus deveres de soldado, para escapar aos perigos de uma paixão que lhe acabava com as forças.
Ele era ali um condenado. Aquelas duas mulheres, tão formosas quanto o mais belo ideal que ele sonhara em seus delírios de jovem, estavam pendentes de Henrique, daquele galã sempre afortunado que não precisava mais que olhar para vencer; aquelas duas mulheres, tão adoráveis por sua inteligência e por seu coração, não tinham olhares senão para o belo oficial, não tinham sorrisos senão para agradá-lo, não tinham elogios senão para envaidecê-lo, não tinham lágrimas de fogo senão para sofrer ciúmes por seu amor.
E enquanto isso, para ele, o pobre oficial, tão desgraçado desde a juventude, tão triste e pobre, cujo coração acabava de abrir-se depois de tantos anos de sofrimentos para pedir amor, amor não como recompensa, mas como consolo, para ele, digo, nem um olhar, nem uma palavra, nem uma lembrança. Coisa estranha! Estando ali presente, estava tão esquecido como se se achasse na mais profunda das grutas do mundo.
Então, desviando os olhos daquele quadro que presenciava no salão, fixou-os em uma das janelas por onde se via o sol que, ao pôr-se, dourava as cúpulas distantes e as copas das árvores; e viu o céu azul e limpo do inverno e, já não escutando nada da música nem da alegre conversa que se tinha ao redor, pensou dolorosamente que toda aquela luz, que toda aquela serenidade do céu nada valiam sem o amor, que é o sol da alma; sem a esperança, que é o céu da vida. Então viu horrível todo esse mundo que se revelava a seus olhos pelo estreito espaço de uma janela, e... uma lágrima, que não foi bastante forte para reprimir, saiu de seus olhos como uma gota de fogo e correu silenciosamente por sua face.
Apressou-se a enxugá-la com a mão e, voltando o rosto, embora ninguém tivesse percebido, voltou com a alma ao salão.
Henrique, embriagado, felicitava Clemência por seu talento, dizia-lhe mil coisas encantadoras e a conduzia sorrindo ao seu assento.
- Não seja lisonjeiro, Henrique, porque não acreditarei no senhor. O que eu toco, mil medianias tocam; isso não vale nada... agora o senhor vai ouvir coisa melhor. Isabel, vai ao piano.
Isabel, já refeita e com semblante risonho e ruboroso, acompanhada também por Flores, obedeceu à amiga e foi buscar no aparador um livro ricamente encadernado.
Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.