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Capítulo 11 · Clemência

Capítulo XI: Os dois amigos

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Capítulo XI: Os dois amigos

- Por que vem tão calado, Valle? Deixou a alma naquela casa? - perguntou Flores a seu amigo, depois de terem andado algum tempo.

- Não.

- Sim; comigo, nada de reservas. O senhor está enamorado, meu filho, ou algo extraordinário lhe acontece, porque teve singularidades que não podem enganar olhos tão experientes quanto os meus.

- O senhor já me conhece. Sou tímido diante das mulheres, e isso foi o que me aconteceu hoje. Ontem se passou o mesmo. Eu sabia que essa família vivia em Guadalajara; que ela estivera no México e tivera intimidade com a família de meu pai, por causa do parentesco. Mas eu não a conhecia; perguntei por ela ao chegar; deram-me informações e apresentei-me em sua casa. Minha tia recebeu-me muito bem; mas, passados dez minutos de minha visita, eu já não sabia de que falar, e minha permanência ali foi um suplício. Como o senhor vê, minha prima é bela; sua visão causou-me uma impressão difícil de definir; desejava afastar-me dela e ao mesmo tempo o sentia. Não sei quantas barbaridades disse, e era porque me preocupava sua beleza, essa beleza inocente e encantadora.

- Isso se chama amor, rapaz. O senhor já esteve apaixonado alguma vez?

- Nunca. Confesso-lhe que, quando era estudante, vivia entregue aos livros, visitava poucas casas, e nelas, embora costumasse encontrar moças formosas, quase sempre as vi enamoradas de outros; e isso naturalmente me fazia afastar-me delas, assim como fazia com que elas pouco se interessassem em agradar-me. Além disso, sei que não sou simpático às mulheres; não tenho esses dons brilhantes que o senhor possui em alto grau para cativar o coração feminino. Meu caráter é sombrio e taciturno; já compreenderá que há motivo para que minha juventude tenha deslizado solitária e triste. Parecer-lhe-á ridículo, mas a verdade é que meu coração está virgem de todo amor.

- Homem! Ridículo, não; mas raro, sim, muito raro. Um coração virgem aos vinte e cinco anos! Neste tempo em que aos doze já se tem namorada, e muitas vezes amante! Concordo que o senhor não tenha amado, essa palavra agora é convencional; mas terá tido uma amante: quem não tem hoje, mal chegada a puberdade, uma triste amante?

- Tampouco; isso me teria sido difícil sem amar. As paixões dos sentidos não foram feitas para mim. Como desde criança careci do doce prazer de sentir-me amado, e como entesourei na alma um íntimo cabedal de carinho tão ardente quanto puro, desejei com avidez amar; mas teria acreditado profanar meus sentimentos entregando-me às paixões banais, que gastam a organização e quase sempre corrompem a alma.

- Santo Deus, que singular filósofo é o senhor, Fernando! O senhor não pertence a esta época. É um casto sonhador, talvez um poeta; mas, de todo modo, um homem perdido. Leu romances?

- Poucos.

- Frequentou os poetas?

- Um pouco; mas direi ao senhor: antes, muito antes de me afeiçoar a esse gênero de leitura, eu pensava e sentia o mesmo. As ideias que tenho não me vêm dos livros, mas das impressões que recebi desde a infância. Sofri, e o mundo, que poderia ter sido para mim um Éden, foi um inferno desde os primeiros passos. Feliz quem, como o senhor, só pisou rosas em seu caminho!

- Como poucas vezes havíamos falado desse modo, confesso-lhe que eu não havia observado essa particular disposição ao romantismo que agora noto no senhor, e da qual o teria curado radicalmente, como de uma doença odiosa. Quem diabos lhe pôs fuligem no cérebro? Quem lhe disse que este belo e querido mundo é um inferno? Só os tolos ainda creem no vale de lágrimas; e que se queixe de seu mau gosto aquele que queira receber a vida como um cálice amargo. Pois quê? O senhor leva as coisas a sério?

- E como não levá-las assim, quando não se me apresentam risonhas?

- O talento consiste, meu amigo, em mudar-lhes a cara. Eu nunca fui romântico.

- Mas o senhor sempre terá sido feliz.

- Feliz absolutamente, não; eu precisava de muitas, muitíssimas coisas para ser feliz. Minha ambição é insaciável, meus sentidos exigentes até o impossível.

- Seus sentidos? Mas o senhor não tem coração?

- Querido, o senhor acredita no coração?

- Como se acredito! Demais, e agora mais ainda.

- Arranque-o na primeira oportunidade, Fernando. Creia-me, é uma víscera cuja falta maldita falta nos faz, e que deve acarretar infinitos aborrecimentos. De mim sei dizer que nunca o tive, senão na acepção física da palavra, e ri alegremente daqueles que diziam ser desgraçados por excesso de sentimentos. Isso serve bem para urdir contos; o coração é como o diabo, só existe nas lendas.

- Mas que horrores está dizendo! Mal me atrevo a acreditar que fala a sério.

- Pois não duvide, meu amigo, e lhe asseguro sob minha palavra de honra que não sou daqueles que, por haverem sofrido algum terrível revés em suas esperanças ou em suas paixões, fazem-se interessantes dizendo que seu coração morreu, que não têm no peito senão cinzas, com outras mil tolices tão ridículas quanto impertinentes. Não; se alguém pode agradecer à fortuna por suas coqueterias e lisonjas, sou eu, que sem fatuidade saboreei desde muito cedo os prazeres, e fiz de minha vida uma espécie de orgia de bom-tom. Não é meu ânimo fazer-lhe minha biografia, mas o senhor não deixará de crer-me se lhe digo que até aqui a sorte nunca me contrariou, e que mal lhe pedi algo, apressou-se em estender-mo de bom modo. Nasci rico e ainda o sou; não milionário, isso virá depois, mas o suficiente para haver tomado assento, durante alguns meses, no banquete que o prazer oferece na Europa aos sibaritas do século XIX. Ainda me restam, como é de supor, mil gozos por saborear; mas isso, longe de ser um contratempo, é um incentivo para seguir meu caminho; é uma esperança que me sorri, chamando-me; é uma garantia de que não terei um porvir enfadonho. Que teria ficado para meus quarenta anos, se houvesse esgotado todas as delícias na juventude? Voltei ao país e, por algum tempo, não tive outra ocupação senão galantear; o galanteio é um entretenimento interino, e bom quando proveitoso. Eu não sou platônico; e, com seu perdão, creio que o platonismo é manjar de tolos. Neste tempo em que se vive tão depressa, sacrificar os melhores dias aos gozos daquilo que vocês chamam alma é passar uma bela manhã de primavera estudando geografia num gabinete; é passar uma bela noite de estio traduzindo a Arte de amar. Assim, pois, quanto às mulheres...

- Ah, sim! Quanto às mulheres, sei muito bem quão afortunado o senhor tem sido.

- Fiz chorar alguns belos olhos aqui em minha inculta pátria, onde ainda se usam a cor natural e as lágrimas sinceras; mas reflita que seria pior para mim ver-me obrigado a lamentar o rigor das desditas. Com as mulheres não há remédio: ou se engana, ou se é enganado. O senhor preferiria ser o último?

- Mas quando o coração se interessa...

- Meu amigo, não se esqueça de que eu lhe disse que não tenho essa desvantagem. Se eu houvesse possuído um ápice desse sentimentalismo antiquado, o livro de minhas aventuras estaria em branco como o seu. Teria topado com a primeira Dalila dessas que andam por aí, e a esta hora, tonsurado e miserável, teria composto algumas endechas cheias de dor, mas não teria arrancado da ingrata nem uma só dessas lágrimas que tantas vezes regaram minhas mãos e meu pescoço.

- Mas, Henrique, por Deus, nem todas são Dalilas!

- Todas, Fernando, todas. Não o são por maldade; são-no por natureza, inocentemente, sem saber o que fazem, talvez sem querê-lo; mas o fato é que, mesmo amando, acabam com as forças de um homem, enervam-no e o entregam aos furores do destino desarmado, impotente; e o amor não deve ser mais que o embelezamento do caminho da ambição.

- O senhor me espanta... Eu acreditava que o amor era um dos grandes objetos da existência; eu acreditava que a mulher amada era o apoio poderoso para a viagem da vida; eu acreditava que seus olhos comunicavam luz à alma, que seu sorriso adoçava o trabalho, que o fogo de seu coração era uma seiva vivificante que impedia o desfalecimento.

- Poesia! Poesia! Deixe de acreditar nisso, e veja que lhe falo como não falaria a ninguém, porque é perigoso revelar as opiniões íntimas de uma pessoa, assim como é perigoso para um espadachim descobrir o corpo aos olhos de um adversário hábil. Isso lhe provará que eu o estimo.

- Mas diga-me, Flores, com semelhantes ideias, cuja origem já não me é desconhecida, como é que o senhor serve no exército, e num tempo como este, em que a República anda de capa caída? Flores sorriu e perturbou-se um pouco diante do olhar fixo de Valle.

- Precisamente por isso venho aqui. O senhor tem fé no triunfo da independência?

- Tenho grande fé, uma fé inabalável.

- E acredita que não morrerá na luta?

- Isso não sei: nada difícil é que eu morra; mas morrerei com a consciência de que, cedo ou tarde, a República triunfará.

- Pois bem; eu também tenho fé, e há algo que me diz que sobreviverei à guerra. O senhor compreenderá que restaremos muito poucos, e desses poucos proponho-me ser um. Assim o caminho se torna mais curto, e eu chegarei ao meu fim.

- De modo que o patriotismo entra muito pouco em seus propósitos.

- O patriotismo tem móveis de espécies diferentes; para uns é questão de temperamento, para outros é a simples glória, esse outro platonismo dos tolos. Para mim é a ambição. Quero subir.

- E tudo para afundar-se depois nos prazeres?

- Claro; em todos os prazeres: do orgulho, do poder, da riqueza, do amor, da glória. Todos juntos se saboreiam quando alguém está colocado muito acima de seus semelhantes. Sem alcançar isso, terá um deles ou dois, mas não todos, e minha ambição os busca todos. Se eu me tivesse feito banqueiro, soprando-me o vento da fortuna, teria chegado a milionário; mas talvez tivesse de inclinar-me alguma vez diante do homem de armas ou do governante. Prosseguindo minha carreira de galanteios, talvez chegasse a possuir todas as mulheres que desejasse; mas, em primeiro lugar, tenho medo do fastio, e depois, um Dom Juan... que é um simples Dom Juan? Um reizinho de salão, uma potência de alcova que se eclipsa diante de um guerreiro afortunado, diante de um milionário besta, e ainda muitas vezes diante de um homem de talento, o que é dizer muito. Um Dom Juan tem de ocultar no mistério a satisfação de sua ventura e, quando a torna pública, limita-se a receber incenso de uma pequena corte de aduladores vulgares, que são para o grande libertino o que os lebréis são para o caçador; isto é, apenas lambem a mão para obter os restos da presa. Isso é enfadonho! Quero algo mais que semelhantes gozos mesquinhos... Mas, rapaz, estamos nos engolfando numa conversa extravagante, e noto que estou impertinentemente comunicativo. Deixemos isso; já o curarei do platonismo que o está secando. Falemos da priminha, que foi a primeira coisa que se ofereceu à minha imaginação quando começamos a conversar. Sabe que é uma criatura lindíssima? Uma conquista que valeria a coroa mural.

Fernando empalideceu.

- Sim, é linda - murmurou secamente.

- Pensa fazer-lhe a corte?

- Não sei, e ainda não me dou conta da verdade do que se passa em minha alma. Já lhe disse que a impressão que me causou desde que a vi é estranha: hoje, ao vê-la falar tão amavelmente com o senhor, foi uma espécie de ódio; mas eu queria estar sempre olhando para ela.

- Pobre Fernando! O senhor é sincero demais. Pois bem, isso é amor; o senhor a ama e sentiu ciúmes. Colhi flores demais no campo do mundo para querer arrebatar-lhe essa pequena rosa. O senhor pode lançar-se; fale, enamore-a, e depressa, porque não tardarão a tocar para montar, e veja que não nos ficam em perspectiva senão algumas flores silvestres, cujo aroma não será precisamente uma delícia para nosso olfato de cortesãos.

Valle sentia-se mal ao ouvir o libertino falar desse modo. Havia erguido em seu coração um altar a Isabel, e via seu ídolo ser tratado como Flores tratava sempre as vítimas de sua lubricidade.

- Estou resolvido: nada lhe direi - respondeu. - Essa jovem não merece que dois militares como nós façam dela objeto de uma distração passageira.

- Por quê? Porque é sua prima? Pois, homem, as primas da gente...

- Não diga mais, Henrique, por sua vida; causa-me pena que o senhor não veja numa mulher tão angelical senão um objeto de cruel diversão e de ignóbil prazer.

- Platônico... O senhor se curará. Mas, decididamente, a loura é belíssima; dificilmente, se o senhor não estivesse a seu lado, eu me resignaria a não lhe dizer nada. Assim é: o senhor ou eu, escolha. Com o senhor ela estará garantida; comigo, não ousarei dizer que a seduziria, seria ofendê-lo, mas é certo que chegaria a amar-me. Livre-a de mim. Eu me consagrarei à deliciosa morena; essa me seduz, é uma sultana, em cujos olhos negros beberei fogo. Vamos, decida-se.

Fernando pensou que seu amigo falava sinceramente, apesar de sua libertinagem; compreendeu que sua prima estaria perdida se a deixasse em poder de Flores, que já a fizera sentir a funesta influência de seu olhar irresistível; compreendeu que a única defesa para ela consistia em seu amor, amor que, por outro lado, parecia haver avassalado seu coração tão rápida quanto imperiosamente. Além disso, recordou a sensação dolorosa que experimentara ao aproximar-se de Clemência, cujos olhos negros lhe haviam causado movimentos nervosos, presságios de algum mal terrível. Deixar essa beldade poderosa e fatal em luta com Henrique não era uma vilania, porque iam encontrar-se duas potências igualmente fortes; e, depois de tudo, se alguma desgraça acontecesse, não valia mais que recaísse sobre a altiva morena, sobre a leoa aristocrática e soberba, antes que sobre a débil virgem que não parecia contar com forças suficientes para lutar sem morrer?

- Está bem - disse Fernando resolutamente. - Consagro-me à minha prima. Faça o senhor guerra à formosa dos olhos negros.

- Combinado. Agora, pensemos na manobra. Voltaremos à casa de sua prima, porque é preciso que eu seja introduzido na de Clemência, pois não devo esperar encontrá-la sempre em outra casa que não a sua. Uma vez conseguido isso, o senhor ficará frente ao seu inimigo e eu frente ao meu, e veremos quem domina primeiro a posição.

Com tal resolução, depois de haverem passeado por várias ruas solitárias, entraram no quartel, dirigindo-se Henrique ao alojamento do coronel e Fernando ao seu aposento, onde se sentou pensativo e sombrio.

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Sinopse

Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.

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