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Clemência

Capítulo 31 · Clemência

Capítulo XXXI

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Capítulo XXXI

Chegou à praça, passou revista e depois se aquartelou. O chefe, que era um general, foi à casa do governador e comandante militar, falou longamente com ele, entregou-lhe comunicações do quartel-general do Exército do Centro, ao qual estava subordinado o referido governador; depois disso o citado chefe voltou ao quartel, informou-se se os presos estavam incomunicáveis, deu várias ordens e retirou-se para seu alojamento.

No dia seguinte, soube-se que um dos presos era um coronel acusado de traição à pátria. Já se compreenderá que esse coronel era Henrique Flores. O general em chefe quis que esse delinquente fosse processado em Colima e não em Zapotlán. Para isso tivera suas razões. Presumia que Flores agia de acordo com alguns chefes mais caracterizados do exército, segundo se deduzia de suas próprias comunicações, e para dar maior independência ao fiscal e aos juízes quis que esse julgamento se seguisse numa praça que, sem estar longe do quartel-general, estivesse inteiramente separada do exército.

Com efeito, em Colima, onde eu estava havia uns quinze dias, pois meus enfermos iam aumentando, havia então uma brigada mista às ordens do governador do Estado, que era tida como reserva naquele tempo.

Colima, como a cidade mais importante das que o exército republicano ainda possuía, e próxima a Zapotlán, onde o general em chefe fixara residência, estava então cheia de oficiais, tinha uma maestranza em atividade e servia, enfim, de armazém do exército. Além disso, estava cheia de emigrados de Guadalajara que, seja por repugnância, seja por falta de recursos, não quiseram embarcar para São Francisco. Havia, pois, grande animação nessa linda e coquete cidade, tão pitoresca por sua fertilidade e situação, e tão alegre pelo caráter de seus habitantes.

Como o general estava impaciente por descobrir todos os segredos da conspiração que suspeitava, e como, por outro lado, a famosa Lei de 25 de janeiro de 1862 não permitia demoras, um fiscal militar que começara desde Zapotlán a causa do tenente-coronel Flores continuou-a em Colima no dia seguinte ao da chegada do preso, e continuou-a com atividade febril.

Dois dias depois, a causa achava-se em estado de ir a Conselho. O réu não quisera reconhecer suas comunicações desde Zapotlán, e negou obstinadamente ter mantido relações com o inimigo, atribuindo ao ódio do comandante Valle tudo quanto se provava contra ele. Tampouco reconheceu os papéis encontrados em suas malas e no lindo escritório que conhecemos, e que eram comunicações do inimigo, nas quais lhe ofereciam a faixa de general e outras coisas, em nome de Bazaine e da Regência.

Mas estava inteiramente convicto. Nem poderia ser de outro modo, denunciado como estava pelo sargento apreendido por Valle e por vários oficiais de seu corpo, a quem conseguira seduzir.

O fiscal pediu à comandância a reunião do Conselho; esta a dispôs, prévia consulta do assessor, e na mesma tarde o tribunal militar esteve reunido. Flores se defendeu quanto pôde, embora esperasse salvar-se não por alegações, que nenhuma tinha, mas por recomendações e influências com que contava junto ao quartel-general.

Assim é que às dez da noite o Conselho o condenou a ser fuzilado. A comandância aprovou a sentença no dia seguinte, e ordenou-se a execução para a manhã seguinte.

Devo advertir que, com a força que chegara custodiando Flores, viera também um esquadrão de seu corpo, comandado por Valle. Esse jovem não podia ocultar seu desgosto por vir ao lugar em que supunha que seria executado seu inimigo.

Sua consciência não o acusava, é verdade, de haver feito mal ao apresentar as provas da traição de Flores. Defendera-se, e em tal caso nem era ele quem o levava à morte, nem era também para um oficial republicano motivo de pesar que se castigasse exemplarmente a traição à Pátria naqueles momentos de luta e provação.

Mas, apesar de tudo, Fernando, generoso por natureza, deplorava aquela circunstância; pensava no pesar profundo que a morte do garboso jovem causaria na alma da mulher que ele amava, pesar que levaria a paixão de Clemência até o delírio, e isso bastava para que lhe fosse repugnante semelhante morte, e mais repugnante ainda a consideração de que estava exposto ao ódio justo ou injusto da jovem enamorada e de sua família.

Havia mais ainda. Henrique, que, como sabemos, era adorado por seus soldados, dispostos a segui-lo não só às fileiras inimigas, mas que o teriam acompanhado até no banditismo da estrada real, murmuravam em voz alta contra a conduta do comandante, que ainda não contava nem mesmo em seu esquadrão senão com poucos defensores.

Essa malevolência, essas considerações enchiam Fernando de tédio, e ele desejava que aquele horrível assunto se concluísse logo, para pedir que o empregassem imediatamente em outro corpo.

Para cúmulo de fastio, o comandante militar da praça, quando se confirmou a sentença de Flores e se dispôs que este entrasse em capela, como se costuma dizer, chamou Fernando e lhe disse:

- Comandante, o general em chefe do exército acaba de prevenir-me que as companhias de seu esquadrão fiquem refundidas nos corpos de cavalaria de minha brigada, pois tem motivos para suspeitar que estejam minadas pelas sugestões de seu antigo coronel, e convém que os soldados fiquem perfeitamente vigiados e na impotência de fazer traição. Hoje mesmo disponho isso na ordem geral da praça. Mas, como o senhor é um bom chefe a quem o quartel-general quer distinguir, dispõe também que fique comandando um dos esquadrões do corpo que veio custodiando o réu. Comuniquei ao general que o comanda tal disposição, de modo que neste momento o senhor vai pôr-se às suas ordens, e provavelmente ele lhe dirá que se encarregue da custódia do réu que será executado amanhã.

- Meu general - disse Valle com desgosto -, suplico-lhe que...

- Comandante, o senhor é soldado e deve saber que não se replica...

- Obedeço, senhor.

Com efeito, Valle recebeu o comando do esquadrão e a ordem de custodiar o réu na capela.

Seu mau humor foi indizível. Quase o obrigavam a vingar-se de seu inimigo. Na realidade, as razões para confiar-lhe tão triste missão eram as de supor-se que ele, por causa de seus ressentimentos, seria quem vigiasse com mais rigor o réu. Este contava com numerosos amigos, tanto em seu antigo corpo como no que o havia custodiado, e temia-se qualquer maquinação de sua parte.

Colima inteira estava comovida. Os numerosos emigrados de Guadalajara, em sua maior parte amigos de Flores, e excitados pela família de Clemência, que estava desesperada, faziam esforços inauditos para obter que se suspendesse a execução enquanto se corria a Zapotlán para ver o general em chefe.

Não perdoaram meio algum; acudiram ao comandante da praça desde que se soube a sentença do Conselho, fizeram representações, empenharam os personagens principais da população junto ao comandante, prometeram grossas quantias em troca da vida do jovem e não descansaram um momento.

Mas tudo foi inútil. O quartel-general estava demasiado interessado naquele castigo para que ele se suspendesse.

Por último, Clemência, apaixonada até a loucura e enérgica por natureza, apelou ao maior extremo. Obrigou o pai a marchar numa cadeira de posta a Zapotlán para obter o indulto, ou ao menos a suspensão da morte de Flores, e o velho comerciante partiu resolvido a oferecer ao general em chefe do exército metade de sua fortuna, para cumprir os desejos da filha. Ele via que, se não o fizesse dessa maneira, a impetuosa jovem, exaltada por sua paixão e pela desgraça de seu amante, era capaz de dar-se a morte. Correu o senhor R... com tal celeridade que, antes das seis da tarde, chegava ao quartel-general.

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Sinopse

Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.

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