Universo da obra
Universo da obra
Clemência dirigiu-se apressada à casa da amiga, a quem encontrou em estado lamentável. A bela loura tinha impressas no semblante as marcas do mais terrível sofrimento. As belas cores haviam desaparecido de suas faces, seu rosto estava emagrecido e seus olhos azuis pareciam apagados pelas lágrimas.
Assim que Isabel viu Clemência, levantou-se e lançou-se em seus braços, soluçando com amargura.
- Mas que é isto, Isabel? - perguntou Clemência, beijando a amiga. - Que te acontece? Por que te vejo assim? Estás doente?
- Sim, da alma, Clemência; estou morrendo, e te chamo porque, em meu desespero, preciso confiar-te minhas penas, preciso que as alivies!...
- Pois bem, minha filha, diz-me: que aconteceu? Há uma semana que não te vejo; acreditava-te feliz, muito feliz, já que me esquecias... e encontrar-te assim me surpreende. Senta-te e fala...
- Alegro-me que tenhas vindo agora; minha mãe está ausente e poderei te dizer tudo. Henrique...
- Ah, eu já esperava. Henrique...
- Henrique não me ama nem me amou nunca; esse homem não tem coração, e tinhas razão de sobra ao aconselhar-me que não confiasse em suas palavras. Sabes o que esse libertino queria? Queria minha desonra, queria minha vergonha.
- Como! É possível? Atreveu-se o infame a insultar-te?
- Começou, como te disse, por falar-me de amor com a linguagem da sinceridade: duas semanas, compreendes? Duas semanas de um trato constante acabaram por me fazer perder a pouca reserva que eu tivera para ele. Vê-lo era uma necessidade para mim, necessidade tanto mais irresistível quanto minha paixão chegou ao extremo. Estou louca, não penso senão nele, não falo senão dele, não queria viver senão para ele; mas antes da minha felicidade estava minha honra, que Deus me dá forças bastantes para conservar intacta e defender ainda à custa da paz da alma, porque não te ocultarei: jurei não voltar a falar-lhe; mas o amarei toda a minha vida. É um libertino, é um malvado, mas me é impossível apagar sua imagem do coração, me é impossível odiá-lo e desprezá-lo como merece.
- Pois bem - interrompeu Clemência, cada vez mais assombrada com o que ouvia -, que te disse, que te fez?
- Já há seis ou oito dias suas palavras me eram suspeitas; sua voz perdera aquele acento de respeitoso carinho que fizera tanta impressão em minha alma, sem por isso alarmar minha delicadeza. Seus olhares não eram os do esposo, mas os do sedutor mundano e atrevido que se detém a examinar sua vítima antes de sacrificá-la. Seus olhos me faziam mal e me obrigavam a desviar deles os meus, cheia de perturbação. Eu tinha medo de me achar a sós com ele. Minha mãe, confiante como eu no caráter cavalheiresco desse homem, não desconfiava de nenhuma intenção depravada de sua parte, nem ainda desconfia, porque nada quis confiar-lhe; eu morreria de vergonha se tivesse de dizê-lo. Ele me falava de provas de amor, de preocupações sociais, de que a paixão não conhecia limites nem reservas, de que amaria por toda a vida a mulher que se sacrificasse por ele, tanto mais quanto maior fosse seu sacrifício. Já verás por todas essas frases que ia encaminhando-se ao seu objetivo. Eu nada lhe respondia a isso, e escutava tremendo semelhantes expressões sem parecer fazer-lhes caso; ou então falava-lhe de nosso casamento e de nosso futuro. Mas ontem veio e me encontrou sozinha, como outras vezes; vi-o desde logo pensativo e triste, perguntei-lhe o que tinha e respondeu-me que Uraga, com os restos de seu exército derrotado em Morelia, já chegara a Jalisco, que o exército francês se pusera em marcha para Guadalajara e que suas avançadas já chegavam a León; que o general Arteaga sairia daqui dentro de dois ou três dias, e que naturalmente teria de ir com ele. Que nosso casamento, por todas essas razões, talvez nunca pudesse realizar-se, e que estava resolvido a morrer antes que me perder; que me suplicava, que me pedia de joelhos que fugisse com ele, ou, se eu não me resolvesse a abandonar minha mãe, que queria levar a última, a maior prova de meu amor para marchar tranquilo e não se desesperar pensando que eu pudesse esquecê-lo por outro; que dessa maneira eu seria sua esposa diante de Deus, embora faltassem à nossa união as tolas fórmulas do mundo. Ai, Clemência! Tu compreenderás minha surpresa e minha dor. Fiquei muda e temi morrer. Ele, Henrique, o homem a quem em tão poucos dias pude amar com frenesi porque acreditava que me amava com tanta ternura quanto pureza, porque julguei que nele se reuniam todas as qualidades do amante, do esposo e do cavalheiro, ele me fazer semelhante proposta! Ele me acreditar uma dessas moças sem pudor que se entregam ao primeiro oficial que as seduz; ele me confundir com essas desgraçadas criaturas que abandonam a casa paterna e, com ela, a honra, e seguem seus amantes no exército, sendo o ludíbrio de todo o mundo! Meu Deus!
A pobre jovem escondia o semblante entre as mãos emagrecidas e gemia com desespero.
- E depois? - perguntou Clemência com ansiedade, a quem aquele relato pusera na maior agitação.
- E depois, esse homem esperou sorrindo minha resposta; acreditava haver me convencido; pensava que meu silêncio, primeiro meu rubor, depois minha palidez, o tremor dos meus lábios, a palpitação do meu peito eram sinais de que o amor me vencia... enlaçou-me com os braços e olhou-me de uma maneira singular.
- E então, Isabel? - perguntou-me.
- E então, cavalheiro - respondi-lhe, levantando-me violentamente e desprendendo-me daqueles braços atrevidos -, a essa ofensa que acaba de me inferir, a mim que o amava porque não o conhecia... não posso dar-lhe outra resposta senão apontar-lhe a porta desta casa para que saia imediatamente.
- Mas, Isabel - disse ele, assombrado.
- Cavalheiro, saia por piedade, saia!
- Isabel, a senhorita vai desmaiar; rogo que escute, que me perdoe...
- Deixe-me morrer... Saia, Flores; cada instante que permanece aqui me ultraja... Eu estava prestes a desfalecer; aquilo era superior às minhas pobres forças. Por fim Henrique saiu com a cólera retratada no semblante. Era um libertino humilhado, e não um amante que cometeu um erro.
Esta é a história. Adiantei-me, vacilante de pesar e vergonha, até uma poltrona, e ali permaneci sem saber de mim, sufocada pelos soluços, transtornada, muda, sentindo que duas lágrimas, como duas gotas de fogo, calcinavam meus olhos. Clemência, Clemência, isto é horrível; não ames nunca, se hás de sofrer assim!
Passaram algumas horas; minha mãe encontrou-me abatida, chorosa e pálida, e perguntou-me o que eu tinha. Não sei o que lhe respondi; mas, febril, delirante, lancei-me em meu leito, e ali dei rédeas ao pranto que estava rompendo meu coração. Não dormi esta noite, isso deves supor; ainda não saio de meu aturdimento, pesa-me a vida, não posso arrancar da alma este amor, e, no entanto, é preciso sufocá-lo; o objeto que o inspira é indigno dele... Minha honra antes de minha felicidade, antes de minha vida! Esse é hoje o grito da minha consciência. Minha irmã! Minha irmã, dá-me coragem!
Clemência chorava também, acariciando em seu seio o semblante da infeliz amiga. Depois de alguns momentos, respondeu:
- Fizeste bem, Isabel minha, foste digna de ti. Uma jovem como tu, virtuosa e altiva, deve sacrificar primeiro a vida a consentir em receber tamanha ofensa. Esse homem não é um cavalheiro e, como eu te dizia, é um libertino gasto nos galanteios e nos prazeres. Não depende de ti deixar de amá-lo; isso nunca depende de nosso coração. A fatalidade se mistura em tudo isto; mas, já que resististe tão nobremente a essa prova penosa, tem coragem e não temas; essas tempestades passam. É teu primeiro amor, e por isso, pobre menina, sofres violentamente; mas a luta não será mortal, tu esquecerás...
- Temo muito que não seja assim, Clemência; amo Henrique cada momento mais; e, desprezando sua conduta, não me é possível desprezá-lo... isto é o que me acontece... ignoro se é loucura, mas o que sinto é extraordinário. E ele irá embora de Guadalajara, e parece-me que vou morrer!
Isabel mal teve tempo de sufocar seus soluços, porque Mariana entrou naquele momento.
- Clemência - disse, ao ver a amiga de sua filha -, o amor desse homem funesto está matando Isabel... Ele parte, e minha filha não pode resistir à sua ausência...
- Oh! veremos, Mariana - replicou Clemência. - Seu amor e o meu a consolarão.
E, sentando-se as duas junto à bela loura, que desfalecia, puseram-se a acariciá-la, chorando também amargamente.
Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.
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