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Clemência

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Clemência

Capítulo 34 · Clemência

Capítulo XXXIV

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Capítulo XXXIV

Sua pobre mãe, com os olhos inflamados de chorar, rezava de vez em quando, e em outros momentos falava com Mariana, que sofria horrivelmente da cabeça e via com angústia a pobre filha, que tinha o aspecto de uma moribunda.

Acabavam de dar meia-noite, e Clemência rasgava um lenço de cambraia entre as mãos, com impaciência febril, quando bateram fortemente à porta da casa.

O criado velava e foi perguntar quem era.

- Abra, abra depressa - disse do lado de fora uma voz.

O criado correu os ferrolhos e abriu.

Era uma casa baixa, como geralmente são em Colima. Ouviram-se passos no corredor e ruído de esporas.

- Um oficial! Será enviado por Henrique? - disse Clemência, levantando-se apressadamente.

Bateram à porta da sala, todas as senhoras correram até lá e abriram. Um militar precipitou-se para dentro com ar assustado. Baixou o capuz que cobria seu semblante: era Henrique.

Isabel caiu desmaiada; as senhoras tremiam; Clemência, com os olhos fixos no amante, ficou pasmada e não pôde falar.

- Sou eu, Clemência; estamos sós?

Clemência fez sinal afirmativo, sem poder articular palavra.

- Não há por que se assustar, meu amor, serei breve: eis o que aconteceu; mas, antes de tudo, há algum criado de confiança na casa?

- Há, sim - respondeu por fim Clemência, refeita de sua emoção.

- Pois que me ensilhe um cavalo, depressa, e se houver outro, que o prepare para levá-lo pela rédea; é preciso que eu fuja agora mesmo.

A senhora saiu logo para dar as ordens e voltou.

- Eis o que aconteceu. Fernando foi meu salvador!

- Fernando! - disseram a uma só voz as quatro senhoras.

- Sim, Fernando, que tem uma grande alma, uma alma imensa, a alma necessária para morrer no lugar de um inimigo.

Clemência sentiu que lhe faltavam as forças.

Henrique contou brevemente o que acabava de se passar na prisão, referindo palavra por palavra o que Fernando lhe dissera. O assombro das senhoras crescia a cada instante. Henrique acrescentou:

- Não conheço o caminho do Naranjo, e me perderia; preciso primeiro disfarçar-me com traje de paisano, e depois levar um guia que, depois de atravessar o passo, me dirija a Guadalajara.

- A Guadalajara? - respondeu Clemência.

- Sim, Clemência, a Guadalajara; só estarei seguro ali.

- Mas ali estão os franceses.

- Precisamente por isso. Este já não é o momento de ocultar a verdade. Saibam que, com efeito, os documentos que Valle tomou eram meus. Eu estava em comunicação com aquela praça, e ali me oferecem uma faixa de general. Devia passar-me com todo o meu corpo e com alguns outros, mas infelizmente me retardei e fui descoberto.

- Então o senhor traía? - perguntou Clemência, interrompendo-o com violência.

- Trair não é a palavra, minha vida; em política, essas mudanças não são novas, e o rancor dos partidos as batiza com nomes espantosos. Mas o tempo voa e é preciso salvar-me. Senhora, teria a bondade de trazer-me um traje e arranjar o dos cavalos?

- Sim, senhor, tudo.

Trouxeram-lhe um traje completo, que Henrique vestiu com maravilhosa prontidão. Depois o criado, também disposto, avisou que os cavalos esperavam.

Henrique abraçou depressa as senhoras e Isabel, que mal teve forças para mover-se; mas, ao chegar a Clemência, a quem estendia os braços com ternura, a jovem, erguendo-se com altivez que iluminou seu semblante com o brilho de uma beleza divina, estendeu uma mão para repeli-lo.

- Vá com Deus, senhor Flores - disse-lhe -, vá com Deus, e que Ele o salve.

- Mas, Clemência, que é isto? A senhorita me repele? Meu Deus! Por quê?

- Quisera morrer esta noite, cavalheiro, antes de saber tudo isto. Afaste-se: compreendo tudo.

- De modo que não poderei esperar vê-la em breve em Guadalajara?

- O senhor nunca me verá, senhor, nunca.

- Senhor, fuja - disse a mãe de Clemência, empurrando Henrique.

Este saiu vacilando como um bêbado, montou a cavalo seguido do criado, atravessou o saguão e afastou-se a passo pela rua; momentos depois ouviu-se o galope dos cavalos, que acabou por perder-se no silêncio da noite.

As quatro senhoras haviam ficado mudas e cabisbaixas. Clemência não pôde mais e caiu desabada numa cadeira.

- É que ainda o amas? - perguntou-lhe Isabel timidamente.

- É que o desprezo com toda a minha alma. Aqui não há senão um homem de coração, e é aquele que vai morrer - respondeu Clemência, convulsa e próxima de desmaiar.

- Que horrível é tudo isto! - disse Mariana depois de um instante.

- Que horrível é - disse Clemência com uma indignação que lhe devolveu toda a energia - ter amado semelhante miserável, ter corrido por Colima como uma louca, suplicando e chorando, e ter exposto todos os dias a dignidade de um pai ancião para salvar um homem que acabou por aceitar o sacrifício da vida de outro e por confessar com vaidade que é traidor. De modo que esse infeliz Fernando não era um caluniador, de modo que o ultrajamos injustamente, de modo que ele terá tido um inferno no coração e vai morrer assassinado por nossa crueldade...!

E Clemência, que até ali contivera as lágrimas, rompeu a chorar; mas com tanta violência que as senhoras se aproximaram dela e a estreitaram entre os braços.

Isabel também chorava silenciosamente.

- Isto é verdadeiramente para morrer, minha mãe - continuou Clemência, banhada em pranto. - O desengano foi terrível; mas ele não me destroça o coração como a ideia de que sou eu quem vai matar esse nobre jovem. Antes acreditei que eu também era a causa de Henrique ser caluniado por seu rival ciumento; mas agora vejo que não foi assim; seu crime o condenava. Fernando, sim, sou eu quem o mata.

Depois dessas palavras já não houve senão silêncio, soluços e abatimento de Clemência, que mesava em sua dor os belos cabelos negros, devorava suas lágrimas e dava sinais do mais frenético desespero.

Clemência

Sinopse

Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.

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