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Clemência

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Clemência

Capítulo 23 · Clemência

Capítulo XXIII

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Capítulo XXIII

Muito poucas famílias se anteciparam às tropas republicanas na saída de Guadalajara para o sul de Jalisco. A maior parte o fez depois, por uma espécie de pânico que se apoderou delas ao sentir a aproximação dos franceses; embora seja justo dizer que a maior parte das referidas famílias era composta de liberais e bons patriotas, que preferiam as vicissitudes da peregrinação, e até o desterro, a viver entre os inimigos do México. Muitas dessas famílias partiram para a Califórnia; e para as mais abastadas, efetivamente, São Francisco era o melhor ponto que podiam escolher naquele tempo de borrasca e adversidade.

As tropas de Arteaga já tinham suas disposições tomadas em virtude das ordens superiores; mas permaneceram na praça até os primeiros dias de janeiro, como eu disse.

Henrique Flores e todos os chefes e oficiais do corpo a que pertencia, incluindo o coronel e também Fernando Valle, cuja tristeza aumentava a cada dia, assim como seu amor por Clemência, decidiram passar o mais ruidosamente possível aqueles últimos dias de sua permanência em Guadalajara.

O Natal estava próximo, melhor dizendo, era no dia seguinte. Como não passar com alegria essa festa da intimidade, essa festa do coração, em união com as pessoas queridas que logo ficariam abandonadas, talvez para nunca mais se tornarem a ver?

Depois do Natal estavam a guerra, as montanhas, as privações, a derrota, talvez a morte. Era, pois, necessário libar o último cálice de prazer até a derradeira gota; era preciso celebrar o último banquete da família com entusiasmo, com delírio.

Clemência disse a Flores, a Valle e a seus companheiros:

- O Natal será celebrado aqui em casa; faremos um grande baile, teremos uma agradável ceia, alegraremo-nos pela última vez com os nossos, e depois que venham os franceses e nos degolem.

Os oficiais ficaram loucos de contentamento.

Chegou a noite de 24; noite belíssima em nossa pátria como em todo o mundo cristão, e em que até os desgraçados e os maus se alegram e riem.

Os senhores já conhecem a casa de Clemência. Pois bem, na noite de 24 era um palácio de fadas. Iluminaram-se o pátio e os corredores, puseram-se por toda parte gigantescos ramos de flores e galhos de árvores cobertos de musgo e geada. Deu-se, enfim, à casa o aspecto tradicional das festas de Noite de Natal.

O inverno, com suas galas de neve, seus pinheiros e seus musgos, o que é um exagero em Guadalajara, onde quase não há inverno, contribuiu para embelezar aquela mansão opulenta em que, dentro de poucas horas, teriam lugar as alegrias íntimas.

No salão fora colocado esse precioso brinquedo alemão, como o chama Charles Dickens, a árvore de Natal, precioso capricho ainda não introduzido no México, e que é o objeto da ansiedade da infância, da alegria da juventude e da meditação da velhice nesses países do Norte onde ainda se mantém vivo, com o calor do lar, o amor da família.

Fora capricho de Clemência pôr essa árvore, em cujos ramos frescos colocara algumas de suas joias mais queridas, lenços e pequenos brinquedos que seriam repartidos entre seus afortunados amigos, com inteiro acordo ao estilo alemão; só que aqui, em vez de crianças, eram valentes oficiais republicanos que obteriam esses preciosos presentes, como mostra de eterna lembrança.

À meia-noite devia fazer-se essa distribuição, como é costume. Além disso, Clemência, prosseguindo suas imitações estrangeiras, dispusera que imediatamente depois de despida a árvore de seus adornos, a primeira valsa dançada fosse como a valsa da meia-noite no último dia do ano, o baile dos amantes, isto é, aquele em que os homens deveriam escolher suas preferidas, e estas os donos de sua alma. Talvez nem todos os amigos tivessem ali as amadas de seu coração, mas Clemência, em tudo isso, tinha uma mira inteiramente pessoal, e pouco se importava com o resto.

Isabel fora convidada, como era de supor; mas a pobre menina ainda sofria os tormentos do desengano, cada vez mais amargos à medida que o tempo passava.

Esse espaço ficava livre; no centro do salão começou-se a dançar. Henrique deu o sinal levando Clemência por companheira.

Já desde esse momento Fernando notou certas inteligências entre seu pérfido amigo e a formosa jovem, inteligências que haviam começado nas visitas que nos últimos dias Henrique fizera à coquete, seguramente novo objeto de seu galanteio depois da repulsa de Isabel, repulsa de que Valle não tinha conhecimento, pois também fazia tempo que deixara de visitar sua prima. O pobre jovem colocou-se num canto, e dali procurou observar tudo, palpitando-lhe o coração de dor e medo, porque já lhe dava medo pensar que Clemência se enamorasse também de Flores.

Isso se explica: Fernando estava entregue cegamente a seu amor por Clemência, e não havia para ele meio-termo entre ser amado por ela ou morrer.

O baile seguiu alegre. O relógio deu meia-noite, e todos vieram agrupar-se em redor da árvore de Natal.

Começou a rifa. Cada um tirou seu número, e Clemência foi distribuindo a joia ou o brinquedo correspondente àquele número.

Chegou a vez de Fernando. Tirou o número 13, número fatal entre os fatais. Clemência baixou de um ramo da árvore um lindo lenço de cambraia que tinha esse número.

- Valle - disse a jovem, estendendo o lenço a Fernando -, Isabel e eu bordamos juntas este lenço... por isso ele deve ser-lhe duplamente querido.

- Guardá-lo-ei como uma relíquia sagrada - respondeu Fernando.

- E quando receber alguma ferida, embeba-o em sangue generoso; essa será a melhor maneira de honrá-lo.

- Eu prometo - murmurou Fernando, empalidecendo. Acabara de sentir aquele estranho temor que a visão de Clemência lhe causara na primeira vez em que a viu.

Depois de distribuídas as joias, os presentes, formando grupos para examinar o objeto que lhes coubera em sorte, foram se dirigindo à peça em que estava posta a mesa para a ceia.

Fernando, pensativo e cheio de funestos pressentimentos, em vez de seguir os demais, colocou-se junto a uma porta do salão que dava para o corredor, e quase se pôs a coberto de uma grande cortina.

De repente, duas pessoas passaram junto à porta, pelo lado de fora, caminhando lentamente. Eram Clemência e Henrique.

- Será uma joia querida - dizia Henrique -, mas eu teria preferido o lenço bordado por ti. Que fortuna de rapaz! Da outra vez uma flor, agora um lenço.

- E tenho eu culpa, Henrique? Mas não sejas criança... toma e consola-te: tua árvore de Natal é minha mão, e ela te estende isto. Estás contente?

- Ah, que ventura! - e soaram dois beijos abafados que Henrique dava ao objeto que Clemência lhe estendeu.

- Retrato e cabelo que pediste... Agora, aborrece-te.

Os jovens se afastaram. Fernando caiu desabado sobre uma cadeira. O que acabava de escutar era quanto podia acontecer-lhe de imprevisto, de horroroso, de terrível.

Pouco depois precisou sair ao corredor; sufocava... estava louco. Se alguma vez fez propósitos insensatos, foi então. Seu peito era um vulcão, seu cérebro ardia, e não lhe vinham à boca senão blasfêmias. Lembrou-se de que trazia guardada e cuidadosamente envolta a flor que Clemência lhe dera alguns dias antes. Tirou-a do peito e arrojou-a com cólera sobre o mesmo jarrão japonês em que estava a planta que a havia produzido.

- Conservá-la - disse - seria adorar a burla.

Mas sua ausência fora notada na ceia, e Clemência, acompanhada de Henrique, veio logo procurá-lo.

- Fernando, não vem cear? - disse-lhe a jovem.

- Não, mil graças; sinto-me um pouco mal; prefiro estar aqui - respondeu Valle secamente.

- Homem, está se fazendo de romântico numa noite como esta?

- Amigo Flores, contente-se em ser feliz e deixe-me em paz - replicou Valle, sem poder conter-se.

- Amigo Valle, o senhor diz isso com um acento tão trágico que me causa terror e, sobretudo, a esta senhorita. Dir-se-ia que está raivoso!

- Raivoso não é a palavra; indignado, sim, como um homem sincero que descobre uma perfídia...

- Perfídia de quem?

- Homem, o senhor me interroga muito, e por sua vez se torna trágico, o que também me causa terror e, sobretudo, a esta senhorita.

- Vamos, enlouqueceu, Fernando; por sorte, eu o desprezo bastante para fazer caso.

- Meu Deus! Meu Deus! - disse Clemência muito agitada, ao notar o gesto de Valle, que, prestes a estourar, pôde, no entanto, dominar-se e contentou-se em sorrir, olhando Henrique com gesto de supremo desdém.

- Senhorita, não tema - acrescentou. - Este cavalheiro e eu nos conhecemos há tempo, e ele sabe que sou respeitoso em certos lugares... em outros já é diferente, tempo nos resta... Quanto à senhorita, peço-lhe mil perdões por minha descortesia hoje, e por minha candura antes, e... permissão para retirar-me.

- Mas, senhor Valle, vão notar que se ausenta assim de maneira singular... dir-se-á...

- Nada... rogo que manifeste a seu papai que me retiro porque estou um pouco enfermo. Já me conhecem e não estranharão.

E então, voltando-se para o lado de Flores, tomou-o por um braço e disse-lhe surdamente:

- Amanhã!

- Sim, amanhã - respondeu este, levando Clemência, que perdera inteiramente seu ar altivo e parecia trêmula de emoção.

- Por Deus, e o que vai acontecer?

- Vai acontecer que o matarei, Clemência; há tempo esse personagem de Byron me fastidia, e agora com mais justiça. Talvez se acreditasse com direito ao teu amor? Tomara compaixão e amabilidade por carinho. Pois é modesto o jovem.

- Henrique, promete-me que não lhe farás nada.

- Oh! Quanto a isso, estou acostumado, meu amor, a fazer engolir as ameaças a quem mas dirige. Mas não temas; não é espada o que ele verá diante de si, mas meu chicote.

Clemência, generosa por caráter, sentiu-se mal ao escutar essa fanfarronada que ultrapassava os limites do verossímil.

- Oh, não! Dizem que Fernando é muito valente.

- Apesar disso, sentirá meu chicote.

- Adeus, alegria de Natal! - murmurou Clemência, enxugando as lágrimas. - Já não terei gosto em toda a noite, e é melhor que isto acabe logo.

- Mas por quê, minha vida? - disse Henrique, inclinando-se para beijar os perfumados cabelos de Clemência. - Preocupas-te muito com as palavras de um imbecil. Vais ver se te tiro a pena. Dançaremos a primeira valsa, não é o combinado?

- Sim, mas tudo acabará depois.

Entraram. A ceia concluiu-se alegre, mas a fronte de Clemência permaneceu nublada e triste.

Tocou-se a valsa combinada. Henrique fez prodígios de galanteria e imaginação para distrair Clemência; mas esta sorria tristemente, ocultava sob seus longos e sedosos cílios alguma lágrima que assomava aos radiantes olhos negros, e, num descanso, disse a Henrique, olhando-o fixamente com os olhos semicerrados e cheios de paixão:

- Tu me amas, Henrique?

- Mais que a minha vida...

- Pois não faças caso de Valle... desgraçado! Ele também me quer...

- Essa é uma razão a mais...

- Essa é uma razão para ter piedade dele... talvez eu tenha culpa de que esteja assim enamorado e ciumento.

- Tu gostas um pouco dele, Clemência.

- Que gosto dele?... Se não amo senão a ti, a ti somente, e desde o primeiro momento, e teu amor me custou lágrimas e sofrimentos atrozes... Amo-te, amar-te-ei sempre.

A ardente jovem dizia essas palavras com esse aparente disfarce com que os enamorados sempre falam num baile, quando parece que apenas conversam sobre a música, os candelabros e os vestidos. Mas a voz da jovem era tanto mais enérgica quanto mais apagada, cheia de ternura e resolução.

E seus dedos comprimiam convulsivamente o braço de Henrique, e as batidas de seu coração pareciam sufocar suas palavras.

Estava apaixonada freneticamente.

O baile terminou logo; Clemência já não estava contente. Temia por Henrique? Temia por Fernando? Quem sabe! O provável é que temesse por qualquer um dos dois, pois bem sabia que ela era a causa do que ia acontecer.

Assim é que outra vez, ao recolher-se naquela aristocrática e deliciosa estância que já conhecemos na noite do chá, voltou a repetir pensativa e cheia de remorsos as mesmas palavras:

- Que fiz, meu Deus? Que fiz?

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Sinopse

Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.

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