Universo da obra
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Depois, voltando-se para um rapaz que o acompanhava montado numa égua pequena, tão magra quanto ligeira, disse-lhe:
- Ouça, guia, não há um caminho que corte daqui diretamente para a fazenda de Santa Ana?
- Para a fazenda, não; mas conheço uma vereda que vai dar ao povoado de Santa Anita, e como fica tão perto da fazenda, é o mesmo.
- Pois bem, tome a vereda. É boa para a cavalaria?
- Um pouco pedregosa; mas muito pouco, é um pedaço ruim, o resto é como aqui.
- Bem: adiante.
O guia foi guiar o sargento, chefe da descoberta, e a coluna começou a desfilar pela vereda. Deixemo-la seguir para Santa Anita e voltemos ao lugar onde ficou a família.
Começava a raiar a aurora quando o pai de Clemência julgou escutar o ruído de uma carruagem. Pareceu-lhe fortuna demais para ser crível; mas, um momento depois, um moço destacado por aquele lado do caminho veio correndo dizer-lhe que, com efeito, era uma carruagem que se aproximava, puxada por seis mulas.
O senhor R... despertou a família, alvoroçado.
- Deus nos protege, minhas filhas; eis aí um coche que vem de Zacoalco.
As senhoras levantaram-se contentes. A carruagem chegou e se deteve. O postilhão apeou-se.
- Ah, senhor! Que grande fortuna! Antes de chegar ao povoado encontrei uma cavalaria. Quem a comanda é um jovem, pelo que pude ver, e logo que lhe disse que era Vossa Mercê quem estava aqui detido com a família pela quebra do coche, surpreendeu-se muito, afligiu-se como se fosse alguma coisa de Vossa Mercê, e deixou um oficial encarregado da tropa e foi comigo ao povoado. Ali entrou numa casa e saiu com esta carruagem, que diz ser de um amigo seu, que suplica a Vossa Mercê que a leve apenas até Sayula, para que dali volte a conduzir esse amigo, e que não pague nada ao condutor, porque tem ordem de não receber nem um vintém.
O cavalheiro, ao ouvir isso, ficou perplexo. Mas Clemência, com sua vivacidade de costume, disse comovida:
- Papai... esse oficial é Flores... estou certa. Quem além dele é capaz de tal traço de galanteria?
Isabel franziu as sobrancelhas ao ouvir isso.
- É muito possível que seja ele - concluiu o ancião. - Que sinais tem, rapaz?
- Senhor, não o vi bem: tinha a cabeça coberta por um capuz que lhe tapava parte do rosto; mas é jovem, pareceu-me alto, e monta muito bem a cavalo.
- É ele... não há dúvida, papai - tornou a dizer Clemência.
- O senhor conhece o oficial que envia a carruagem? - perguntou o pai de Clemência ao condutor.
- Não, senhor - respondeu este secamente -, é a primeira vez que o vejo agora.
- Mas não ouviu se se chama Flores?
- Parece-me que sim, senhor.
- Oh, nobre coração! - disse a mãe de Clemência, enquanto Isabel empalidecia e reprimia uma lágrima.
- E vamos encontrá-lo? - perguntou Clemência ao postilhão.
- Seguramente, porque vem para cá.
- Meu Deus! - murmurou em voz baixa a jovem. - E para onde vai, quando saio precisamente por estar perto dele?
E depois acrescentou em voz alta:
- O senhor acredita, papai, que as tropas liberais irão atacar Guadalajara?
- Seria um disparate abandonar uma praça para atacá-la depois de três dias. Creio que isso se faz quando se conta com outros elementos.
- Mas então para onde marcha essa cavalaria?
- Irá observar o inimigo. Pois não sabes que o general Uraga dispôs defender as Barrancas e estabelecer ali uma linha formidável de defesa?
Clemência entristeceu-se profundamente.
Mas os moços haviam acabado de arrumar a carruagem e colocar as cargas nas mulas. A família acomodou-se nos assentos, e o coche começou a andar.
- Lá vai uma tropa de cavalaria - gritou um moço que ia adiante, apontando, com efeito, uma longa fileira de cavaleiros que desfilava ao longe por um lado do caminho e que se via muito bem com a luz cada vez mais clara do dia. Começava a amanhecer.
As senhoras assomaram à portinhola.
- Ingrato! - disse Clemência para si. - E por que não quis me ver? Ah, temeria por seu coração!
E a loura, por sua vez, pensava que talvez, adivinhando ou sabendo que ela também vinha, ele não quisera vê-la para não sofrer com sua presença.
E as duas jovens se ocultaram uma da outra e das senhoras, para não deixar ver seus olhos cheios de lágrimas, e depois voltaram a assomar-se à portinhola até que a coluna se perdeu ao longe entre as sombras das colinas.
Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.
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