Leia agora
Clemência

Universo da obra

Clemência

Capítulo 9 · Clemência

Capítulo IX: A apresentação

9 de 37 ≈ 8 min de leitura

Capítulo IX: A apresentação

Os dois jovens atravessaram alegremente os umbrais da linda casinha, depois um pequeno pátio que parecia uma gruta de verdura e flores, com uma risonha fonte de mármore; e, sob uma cortina de trepadeiras, penetraram no corredor e detiveram-se à porta da antessala.

Já os esperavam. A bela loura adiantou-se para eles e disse-lhes com a mais doce das vozes humanas:

- Entrem, senhores.

E introduziu-os no pequeno e fresco salão, onde se achavam reclinadas num sofá uma senhora de quarenta anos e a jovem que antes cobria o rosto com um véu, e que mostrava agora o mais lindo semblante que um poeta muçulmano poderia sonhar.

Era branca, de olhos e cabelos negros e lábios de murta. Os jovens ficaram deslumbrados.

- Querida tia - disse Valle à senhora mais velha -, tenho a honra de apresentar-lhe meu bom amigo Henrique Flores, comandante como eu no exército.

Flores inclinou-se graciosamente e murmurou as palavras sacramentais de cortesia.

Depois Valle apresentou-lhe sua prima Isabel, que se ruborizou visivelmente ao encontrar-se frente a frente com o belo oficial.

- Agora, como compensação - disse a senhora - pelo prazer que o senhor nos deu apresentando-nos seu amigo, apresentarei por minha vez a melhor amiga de Isabel e uma das senhoritas mais distintas de Guadalajara. Querida Clemência, meu sobrinho Valle e seu amigo.

Os dois inclinaram-se respeitosamente.

Valle sentiu, ao encontrar-se com o olhar de Clemência, que o coração se lhe comprimia. Evidentemente, nos olhos negros e lânguidos daquela beleza terrível havia algo mais que o brilho da languidez. Havia um presságio, quem sabe se feliz ou desgraçado; seja porque todos tenhamos uma sibila na alma que nos faz pressentir a influência que exercerá em nosso destino a pessoa que vemos pela primeira vez, seja porque Valle, pouco acostumado a aproximar-se de mulheres belas, se encontrasse perturbado e confuso, o fato é que estremeceu visivelmente e teve uma sensação de medo e dor.

- O senhor está passando mal, meu filho? - perguntou a senhora, com interesse, ao sobrinho.

- Não, tia, não tenho nada.

- O senhor está muito pálido.

- Fernando tem uma aparência enfermiça - disse Flores -, mas com esse corpo delicado que as senhoras veem, goza de saúde robusta. Foi ferido há pouco; mas isso já passou. Talvez o deixe assim a agitação do momento, o clima novo para nós ou, antes, a timidez de seu caráter, porque Valle é tímido de uma maneira rara.

- Tímido? - replicou a senhora. - Pois será uma exceção em sua família. Seu pai, meu primo, e seus irmãos não pecam por acanhamento. Ao contrário, são a personificação da alegria e da franqueza. E por que razão - acrescentou, perguntando a Valle - se deu a circunstância de que, quando estive no México e até em Veracruz, jamais o vi em sua casa? Sempre me diziam que o senhor estava ausente.

- Senhora, desde muito pequeno - respondeu Valle - afastei-me do lado de minha família para estudar; depois entrei a servir no exército; mal conheço meus irmãos, e por muito pouco tempo permaneci sob o teto paterno.

- Que triste é isso! Mas nem mesmo nas reuniões íntimas, naquelas em que não é costume faltarem os filhos, como, por exemplo, nos dias do papai ou da mamãe, eu o vi em sua companhia. E os outros irmãos vinham, uns de Veracruz e outros do estrangeiro, ocupar seu lugar no banquete da família; só o senhor faltava sempre.

- Eu estava doente algumas vezes; outras, chegava alguns dias depois, por motivos independentes de minha vontade; mas não havia outra causa...

Essa conversa fazia mal a Valle, e era perceptível que desejava que ela não continuasse. A senhora assim o compreendeu e voltou-se para falar com Flores.

O galante oficial, que primeiro observara rapidamente, e à maneira de homem conhecedor, as duas belas jovens, passava de uma a outra os olhos alternadamente, como num estudo comparativo, e acabara por compreender que as duas rivalizavam em formosura e encantos.

Uma era branca e loura como uma inglesa. A outra, morena e pálida como uma espanhola. Os olhos azuis de Isabel inspiravam uma afeição pura e terna. Os olhos negros de Clemência faziam estremecer de deleite. A boca encarnada da primeira sorria com sorriso de anjo. A boca sensual da segunda tinha o sorriso das huris, sorriso em que se adivinham o desfalecimento e a sede. O colo de alabastro da loura inclinava-se como o de uma virgem em oração. O colo da morena erguia-se como o de uma rainha.

Eram belezas incomparáveis, e Flores, sem decidir-se por nenhuma delas, fez o que em semelhantes casos costumava fazer: deixou-se arrastar pela mão do destino. Entregou à sorte a escolha e, como era preciso começar por alguma coisa, aproximou-se de Isabel e entabulou com ela uma dessas conversas frívolas de primeira visita, sobre a cidade, o clima, a catedral, as senhoras, a casa, as flores e tudo quanto fornece elemento para formar diálogo. Isabel sentia-se perturbada e feliz; Henrique a encantava; aquele caráter leve, agradável, risonho, aquelas palavras cheias de chispa e agudeza pareciam soar pela primeira vez em seus ouvidos e tinham todos os encantos da novidade.

Por outro lado, já dissemos que Flores era belo, e Isabel era dessas mulheres para quem a forma é tudo. Seu pobre primo não podia sustentar uma comparação física com o jovem e garboso louro.

Clemência se parecia muito nisso com sua amiga. Adorava a forma, acreditava que ela era a clara revelação da alma, o selo que Deus pôs para que se distinguisse a beleza moral; e em suas amigas e amigos examinava primeiro o tipo e concedia depois o afeto.

E isso não dá direito a supor que as duas jovens carecessem de talento e critério, não; a natureza fora pródiga com elas em dons físicos e intelectuais. Clemência passava por ter uma das inteligências mais elevadas do belo sexo de Guadalajara. Isabel era citada por seu talento. Ambas estavam dotadas do sentimento mais requintado. Eram mulheres de coração.

Mas julgavam como julgam quase todas as mulheres, por elevadas que sejam, e isso em virtude de sua organização especial. Amam o belo e o buscam antes na matéria que na alma. Há algo de sensual em seu modo de ver as coisas. Particularmente as jovens não podem prescindir dessa singularidade; só as velhas escolhem primeiro o útil e o antepõem ao belo. As jovens creem que no belo se encerra sempre o bom, e, por minha fé, muitas vezes têm razão.

Assim, pois, Clemência, desde que chegaram os oficiais, por uma inclinação irresistível, não cessou de dirigir olhares frequentes para examinar Flores, que, por sua vez, fazia-a sentir o poder de seus olhos audazes e imperiosos.

O triste Valle continuou sua conversa com a tia e falou-lhe de plantas e árvores frutíferas. Era algo botânico, e como estava pouco habituado às conversas de sociedade, procurava misturar sempre seus pequenos conhecimentos para não ficar calado.

Nem por isso deixou de observar a impressão que seu amigo causara nas duas belas moças, e mais de uma vez ficou distraído e contrariado.

Começava a amar? Pode ser; e, nesse caso, a pura, a virginal Isabel, aquela que inspirava amores castos e bons, devia ser o ídolo de seu coração. Ele precisava de um anjo, e sua prima era um anjo que encerrava na alma todos os consolos, todas as esperanças que poderiam mudar o aspecto de sua vida solitária e triste.

Mas a loura sorria a Flores de maneira insinuante; era uma escrava que se rendia sem combater ao seu futuro senhor.

Um momento depois, e com os cumprimentos de estilo, os jovens saíram daquela casa; Valle taciturno, Flores alegre, falador e risonho.

Clemência

Sinopse

Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.

Clemência

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Clemência

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Clemência

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Clemência Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 9 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Clemência

Capa de Clemência
Continue a leitura Capítulo IX: A apresentação Capítulo 9 · 9 de 37 · ≈ 8 min
Todos os capítulos 37 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir