Universo da obra
Universo da obra
- Clemência, que te parece meu sobrinho? - perguntou a senhora à bela morena.
- Parece-me um jovem instruído e bom, um tanto acanhado.
- Fernando deve estar doente - acrescentou Isabel com certa compaixão. - Sua palidez não é natural, e além disso, não notaste, mamãe? Suas mãos tremem.
- Será nervoso - observou Clemência.
- É um rapaz estranho - tornou a dizer a tia -, e em sua vida deve ocultar-se algum mistério. Estivemos no México e em Veracruz, visitamos com frequência sua casa: jamais o vimos. Ao perguntar por ele, pois sabíamos que além dos três filhos de meu primo que ali vimos havia outro, sempre nos respondiam que estava ausente; mas eu observava certo desagrado ao falar dele, o que, por outro lado, se fazia de maneira breve e seca. Sua família, rica e de caráter alegre, dava festas com frequência, ora em seus salões do México, ora em suas fazendas do Estado de Veracruz, mas jamais parecia estranhar nelas a falta de um filho; jamais suas irmãs, que são muito lindas, lhe consagravam uma lembrança; jamais os amigos da casa o nomeavam: havia certo cuidado em evitar as conversas que pudessem recair sobre sua ausência. Enfim, suponho que esse pobre jovem deve ter causado a seus pais, há tempos, algum profundo desgosto, ou cometido alguma falta gravíssima; e que, em consequência disso, incorreu no desagrado da família e foi lançado fora do lar paterno. Tanto mais provável é minha suposição quanto sua família pertence a um partido mortalmente inimigo daquele em cujas fileiras anda servindo meu sobrinho. Verdadeiramente estou admirada de ver Fernando com o uniforme liberal, quando seu pai é um dos mais notáveis conservadores e prestou a seu partido serviços de grande consideração, o que fez com que nele fosse visto com muito respeito. Isso não pode explicar-se senão existindo uma profunda divisão entre pai e filho, pois de outro modo creio que meu primo teria preferido matar o filho a vê-lo oficial no exército republicano. Mas, como vocês hão de supor, qualquer que seja a origem de semelhante divisão entre Fernando e seu pai, não se pode ter boa ideia de um filho assim, e é preciso suspeitar de sua conduta.
- Mamãe - disse a doce Isabel -, confesso-lhe que vejo em meu primo algo que me causa antipatia; e por Deus que meus olhos nunca me enganam, e que tudo aquilo que me desagrada à primeira vista resulta mau.
- Bem pode ser - replicou a senhora -, mas enquanto averiguamos tudo o que há nesse assunto, temos de tratar Fernando como parente nosso e ocultar-lhe nossas suspeitas, que bem poderiam carecer de fundamento.
- Talvez vocês o condenem depressa demais - objetou Clemência com ar de pena. - Não vejo nele nada de repulsivo, como Isabel. Não é gracioso, não é simpático, e além disso seu acanhamento, que não parece próprio de um mexicano, prejudica-o muito. É muito sério; talvez seu caráter se tenha azedado com alguma doença, porque de fato está muito pálido, muito magro, e agora nos pareceu ainda mais porque o comparávamos com seu amigo, que está brilhante de saúde e frescor.
- Oh! Quanto a esse - disse Isabel, ruborizando-se ligeiramente -, que simpático é! Que bonito!
- Agrada-te, Isabel? - perguntou Clemência com imperceptível malícia.
- Sim, tem muita graça, é muito fino.
- É um jovem distinto, e não há dúvida de que pertence a uma boa família - observou a senhora.
- Não há muitos oficiais assim - disse Clemência. - Este é um modelo de elegância e cavalheirismo. Viste que olhos ele tem, Isabel?
- E como fala bem!
- E com que garbo veste o uniforme!
- Meu pobre primo Fernando, na primeira vez que nos fez uma visita, falou-nos da atmosfera de Jalisco, das árvores e do lago de Chapala. Já podes compreender, Clemência, que isso seria muito bom, mas não era oportuno nem tinha graça. Meu primo será um observador, mas não é nada divertido nem galante; creio que nunca esteve em sociedade, pois gagueja, envergonha-se e fica calado como um camponês. Flores é diferente, já o viste.
Clemência ficou pensativa e depois dirigiu à amiga um olhar perscrutador e profundo.
Isabel, quase envergonhada de haver dito tanto, e pondo-se vermelha como escarlate ao sentir o olhar malicioso de sua amiga, respondeu então, como para gracejar:
- E tu, querida, achaste bem meu primo? Apaixonaste-te por ele?
- Sim; encantador é teu primo, por minha vida.
Isabel sentiu algo como uma leve dor no coração ao ouvir sua amiga falar assim. Compreendeu que o garboso Henrique causara uma impressão agradável no ânimo de Clemência, como no seu, e talvez pressentiu que teria uma rival, e rival temível, pois Clemência, por seus encantos e por seu talento, era mais perigosa que ela para os homens.
Mas que se passava? Isabel já estava apaixonada, e tão depressa? Não; mas sucedia então o que sucede sempre que duas beldades se encontram pela primeira vez com um homem superior. Estabelece-se entre elas uma rivalidade momentânea; cada uma procura atrair a atenção daquele amante em botão, e cada uma teme ver-se preterida por sua antagonista.
Isabel e Clemência eram duas mulheres bastante lindas para que carecessem de adoradores. Tinham-nos em grande número em Guadalajara, e estavam acostumadas a dominar como rainhas, alternadamente ou juntas, em toda parte.
Assim, pois, não era o desejo de ser amada pelo primeiro que aparecesse que as fazia disputar naquele instante a preferência do belo oficial, mas o amor-próprio, inato no coração da mulher, e maior no coração da mulher bela, que quer conquistar sempre, vencer sempre e jungir mais um escravo ao carro de seus triunfos.
Além disso, já disse quais eram as vantagens físicas e sociais de Henrique, e será fácil compreender quão superior o acharam as lindas jovens a todos os amantes rendidos que até ali as haviam rodeado. Serem amadas também por aquele garboso e brilhante jovem do México, que prazer e que orgulho!
Clemência estava convidada a almoçar na casa de Isabel. Sentaram-se à mesa e almoçaram alegremente; mas qualquer um teria podido notar no semblante e na conversa das belas que uma preocupação oculta as agitava e as punha, de vez em quando, pensativas.
Iam ser rivais, ou, melhor dizendo, já o eram.
Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.
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