Universo da obra
Universo da obra
Atravessaremos a grande porta de uma casa vasta e elegante, em cujo pátio, ladrilhado com grandes e polidas pedras, ostentam-se, em enormes caixas de madeira pintada e em grandes jarrões de porcelana, garbosas bananeiras, frescas e copadas laranjeiras, e limoeiros verdes e carregados de frutos, apesar da estação; porque em Guadalajara, inútil é dizer, não se conhece o inverno, nem se tem ideia de uma dessas noites que passamos no México em dezembro e janeiro, tremendo de frio, e nas quais, por mais belas que sejam, a lua, pálida de ira, umedece o ar e vai derramando reumatismos por toda parte, como diz Shakespeare.
Não: em Guadalajara, nos meses de inverno, as plantas e as árvores não perdem sua roupagem de verdura, nem as flores empalidecem, nem as brisas geladas vêm depositar suas lágrimas de neve nos cristais das janelas.
Sente-se menos calor, só isso, e as árvores se renovam segundo as leis da vegetação; mas a folha seca cai impulsionada pelo rebento que imediatamente mostra seu botão de esmeralda no tronco úmido. Assim, pois, as laranjeiras, os limoeiros e as magnólias do pátio, que estava perfeitamente iluminado, ostentam-se com toda a frescura e viço da primavera.
Uma graciosa fonte de mármore, decorada com uma estátua, ergue-se ao centro e, elevando-se apenas dois pés do solo, salpica com suas úmidas chuvas uma espessa guirlanda de violetas e verbenas que se estende ao redor da pedra branca, perfumando o ambiente. Aquilo não é um jardim, mas basta para dar ao pátio um aspecto risonho, alegre e elegante.
Sobe-se ao piso superior por uma escada larga, com balaustrada moderna, cujos remates e corrimãos de bronze são de gosto irrepreensível.
Quatro corredores amplos, também cobertos de lisas lajes de cor ligeiramente vermelha, apresentam-se à vista ao terminar a escada e formam um quadro perfeito no piso principal. O teto desses corredores, cujo forro está pintado com muita arte, acha-se sustentado por colunas de pedra, leves, aéreas e elegantes, que aparecem adornadas com belas trepadeiras. E nos parapeitos de ferro e ao pé deles encontram-se duas fileiras de vasos de porcelana, cheios de plantas requintadas, camélias belíssimas, roseiras, mosquetas, heliotrópios, malvarrosas, tulipas e outras flores tão gratas à vista quanto ao olfato. E gaiolas com sabiás, pintassilgos, clarins, canários, entre as cortinas formadas pela flor-de-cera e pela ipomeia azul; e formosos tibores do Japão contendo alguma planta ainda mais rara; e aquários de cristal, e repuxos de alabastro, e pequenas estátuas de bronze representando personagens mitológicos, e grandes grupos em baixo-relevo nas paredes: tudo isso aparece, à luz do gás encerrado em globos de cristal, naquela casa, revelando tanto opulência quanto gosto.
Os corredores são jardins em miniatura. Um daqueles corredores conduz ao salão, no qual se entra depois de atravessar uma ampla e magnífica antessala luxuosamente mobiliada. O salão é uma peça em que se respira desde logo esse perfume que não vem do dinheiro, mas do bom gosto, isto é, do talento.
Conhecem os senhores, no México, salões de famílias opulentas? Mas não esses em que uma fortuna insolente procurou aglomerar sem discernimento, sem graça, móveis sobre móveis, quadros sobre quadros, lâmpadas, colunas, consolos, jarrões, pregos dourados, tapetes, mesitas chinesas, bonecos ridículos, formando tudo aquilo o aspecto de um bazar de móveis, o caos a que só a inteligência dá ordem, e no centro do qual alguém se encontra tão mal, tão desgostoso, tão desejoso de maldizer, como na dependência dos fundos de uma mercearia, como na adega de um judeu usurário, esperando, enfim, a cada momento ver aparecer o senhor Jourdain, o burguês fidalgo de Molière, fazendo-se de personagem de qualité e perguntando o que achamos de seus móveis. Não: falo dos salões elegantes por seu bom gosto.
Pois bem; como o mais elegante desses é o que vemos em Guadalajara. De certo pertence, diz-se ao vê-lo, a uma família muito rica, mas que tem talento. A esse salão, que é o da família de Clemência R..., dirigiram-se os dois jovens oficiais na noite seguinte ao dia em que haviam estado na casa de Isabel.
- Parece-me que vamos passar uma tarde e uma noite deliciosas - disse Flores a seu amigo. - Aqui há aristocracia, rapaz; aqui não é a modéstia graciosa da casa de Isabel, mas a opulência do dinheiro junto ao bom-tom. Já vê, este é o palácio de sua rainha. Forme ideia de seu caráter por tudo isto.
- Quase me arrependo de vir - respondeu Valle. - Não estou acostumado a estas reuniões nem a este luxo.
- O senhor?... Mas, homem, o senhor, nascido numa casa tão opulenta como esta!
- E que importa? Acaso a conheço? Acaso me criei nela? Então o senhor não sabe que desde minha infância sou filho da miséria? Creio que me ruborizaria até diante de minha mãe, se a visse em seu salão do México.
Henrique e Valle penetraram no salão, onde sua chegada provocou um silêncio de alguns segundos. Esperavam-nos, e achava-se reunida ali uma sociedade seleta e distinta. Havia uma dúzia de belíssimas jovens, outros tantos cavalheiros, e toda a família de Clemência esperava os oficiais com certa ansiedade. Naturalmente, Mariana e Isabel estavam entre a companhia.
A encantadora morena apresentou os dois amigos a seu pai, ancião respeitável e ainda vigoroso, personagem notável não só por sua fortuna e talento, mas ainda mais pela rara qualidade de ser um bom patriota e, por conseguinte, odiar a dominação francesa, que em breve se estenderia até aquelas regiões.
A mãe de Clemência era uma matrona, ainda bela como Mariana, e amável ao extremo. Clemência era a filha única daquela família afortunada.
Depois, os oficiais foram apresentados a todas as belas senhoritas da reunião, pertencentes às mais distintas famílias de Guadalajara.
Henrique foi acolhido com as marcadas provas de simpatia que sua garbosa presença e a finura de seus modos sempre lhe proporcionavam; mas Fernando foi recebido como se recebe o ajudante depois de seu general, como se recebe o pobre depois do rico, ou como antigamente se recebia o pajem depois do príncipe: com urbanidade, mas friamente. Ao vê-lo, as formosas que ainda sorriam seguindo com o olhar o bem-apessoado comandante punham-se sérias e mal se dignavam conceder-lhe uma inclinação protetora de cabeça. A própria Isabel saudou-o com certa frieza, acabando de dirigir a Henrique algumas palavras de terna confiança.
O jovem teria se desmoralizado, se Clemência, com sua franqueza característica, não se houvesse dirigido a ele e, pondo uma mão entre as do pobre oficial, não lhe tivesse dito:
- Esperava-o com impaciência, Fernando; desde as duas da tarde os minutos me pareciam séculos; em compensação, de hoje em diante as horas me parecerão segundos. Vamos conversar muito, não é verdade? Deixaremos os artistas exibindo suas habilidades ao piano, e nós falaremos dos assuntos do coração. Vamos ser amigos, não duvide.
A conversa animou-se logo. Henrique chegou a ser o centro dela, e as belas estavam pendentes de seus lábios, como sempre lhe acontecia.
Mas o piano, um soberbo Pleyel, aguardava; e, depois de algum tempo de amena conversa em que Henrique soube ganhar a confiança e a simpatia de suas ouvintes formosas e de seus ouvintes graves, a instâncias de Clemência, foi tocar.
Para ele qualquer música era indiferente; executava-a por difícil que fosse. Mas perguntou às amigas Clemência e Isabel, e ambas lhe indicaram uma magnífica peça alemã sobre temas de A Sonâmbula.
Henrique alcançou um triunfo completo. Era artista em toda a extensão da palavra, e o piano obedecia a seus dedos como um ser inteligente.
Aqui, ainda se recorda esse formoso jovem como um dos melhores executantes mexicanos, e em Paris obteve não poucos triunfos nos salões. Poderia ter chegado a ser um grande artista; mas, demasiado rico para contentar-se com esses louros que só lisonjeiam a ambição do pobre, logo abandonou a arte para dedicar-se aos prazeres do amor e aos trabalhos da política.
Todo o mundo concordou, entretanto, naquela noite, que ele era apenas superior a Isabel; e o próprio Flores tornou a confessar-se inferior à loura filha de Guadalajara, que, dizia ele, o superava em expressão, em sentimento e, sobretudo, em idade; pois era certo que, quando chegasse à que ele tinha, Isabel não teria rival.
Foi ela, acompanhada por Henrique, mostrar os prodígios de sua habilidade; depois ocuparam aquele assento outras senhoritas; de novo Flores arrebatou a todos com sua assombrosa execução; várias amigas de Clemência cantaram em seguida, enquanto esta, mostrando seus álbuns a Fernando para ter pretexto de falar com ele, procurava em vão arrancar-lhe os segredos de sua vida. Valle encerrava-se numa reserva que não era possível romper; mas desfalecia ao sentir aquele olhar magnético que tanta influência tinha em seu ânimo, e sentia palpitar o coração a cada palavra que lhe dirigia, com seu acento de sereia, aquela mulher encantadora.
Clemência empregava todo gênero de seduções para fascinar e vencer aquela natureza demasiado fraca para lutar com ela. Fernando sentia-se subjugado.
Clemência conhecia a fundo a arte de olhar e de sorrir; seus olhos sabiam languidescer como fatigados pela paixão e, olhando assim, transtornavam a alma do pobre jovem; sua boca, sobretudo, tinha esse não sei quê irresistível que só as coquetes de bom-tom sabem usar: o sorriso de Eva, infantil e carinhoso, o tremor dos lábios, como se a emoção os agitasse, e depois aqueles lábios vermelhos e sensuais, aqueles dentes de uma brancura deslumbrante, aqueles suspiros que pareciam arrancados a um peito prestes a estalar, aquele acento turbado e às vezes cortado e brusco... Tudo aquilo era novo, era surpreendente para Fernando, que não conhecia a mulher senão de longe, que não estava em guarda contra as armas mortais de uma sereia do grande mundo.
- Nota-se que o senhor sofreu muito, Fernando - dizia Clemência ao oficial, inclinando-se para mostrar-lhe os versos de um álbum junto a uma mesa apartada do centro da reunião. - Eu também sofri, e digo isso para lhe dar uma lição de franqueza.
- A senhorita, sofrer?... A senhorita tão bela, tão rica, tão jovem...
- A beleza... o dinheiro... a juventude! Acredita que tudo isso dê a felicidade? E o coração?
- Teve desenganos, foram ingratos com a senhorita?
- Ah, não!... Nunca amei; cortejaram-me muito, mas todos os meus adoradores foram tão frívolos, tão tolos... que, vivendo no meio deles, vivi no deserto... Acusam-me de coquete aqui em Guadalajara, onde a maledicência é o pão cotidiano; mas o senhor não encontrará ninguém que possa assegurar haver obtido de mim alguma prova de afeto... meu coração permaneceu de neve.
- Que feliz é a senhorita!
- Fernando, não me diga senhorita, diga-me Clemência. No México os amigos demoram tanto a chamar uma pelo nome? Esse "senhorita" me parece bom para tratar uma companheira de viagem... Voltará a me dizer senhorita?
- Oh, não!... É demasiada felicidade ter permissão de pronunciar seu belo nome, para que eu não me apresse em desfrutá-la.
- Não; felicidade não é precisamente; mas me será grato ouvir-me chamar assim pelo senhor... Há tantos estúpidos que me tratam com familiaridade, que me parece uma compensação que o senhor use de um privilégio que eu lhe concedo com gosto; e é a primeira vez que o concedo... sim, senhor, os demais o tomaram por si mesmos.
- Clemência, a senhorita me enlouquece!
- Por quê? - disse a jovem, levantando docemente seus olhos negros e ardentes até fixá-los nos de Fernando, que tremia de emoção. - Faço-lhe mal?
Fernando ia talvez responder uma tolice, quando o pai de Clemência convidou todos a tomar chá, que se achava servido numa peça contígua.
- O senhor se senta junto a mim, Fernando, se for tão amável.
- Tão feliz, pode dizer, Clemência.
E Valle ofereceu à formosa sultana seu braço, no qual ela se apoiou com languidez e confiança.
Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.
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