Universo da obra
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- Doutor - disse-me -, venho causar-lhe um incômodo. Tenho de ajustar um assunto de honra com o comandante Flores, que me insultou ontem à noite. Não julguei conveniente encarregar o arranjo deste negócio a nenhum de meus capitães, e suplico que me sirva de testemunha. Entre o senhor e eu não mediaram relações de amizade; mas creio que não recusará prestar-me este serviço de cavalheiros.
- Não tenho inconveniente - respondi. - Estou à sua disposição.
Contou-me então o lance da noite anterior e deu-me suas instruções. Queria bater-se no mesmo dia, e escolhia como arma a espada. Era um duelo de morte.
Fui ver Flores; recebeu-me com arrogância, designou como sua testemunha um amigo seu de Guadalajara, a quem citou para uma hora depois.
- Não haverá dificuldade alguma - disse-me. - Dentro de três horas Valle estará satisfeito.
Despedi-me imediatamente e fui avisar Fernando do rápido arranjo daquele negócio; mas ainda estava falando com ele quando um ajudante veio chamá-lo da parte do coronel, com urgência. Encontrou seu chefe indignado.
- Sei que o senhor desafiou de morte o comandante Flores, por não sei que palavras que ele lhe disse ontem à noite no baile.
- Ele lhe disse isso, meu coronel?
- Ele me disse.
- Pois bem, é certo; ofendeu-me gravemente, e julguei conveniente reparar esse agravo desafiando-o. Eu seria um homem desprezível se não o fizesse assim.
- E o senhor não sabe que nossas leis militares proíbem o duelo sob severíssimas penas? Não sabe que vai fazer-se réu de delito grave, e que estou resolvido a impor-lhe um castigo terrível se insistir em seu propósito? Cavalheiro, não permito em meu corpo, menos ainda nestas circunstâncias, semelhantes lances de espadachins; farei fuzilar, conforme a Ordenança, aquele que sequer tente, estando como estamos diante do inimigo, promover duelos por qualquer motivo. O senhor é valente? Está ofendido? Pois há tempo para provar seu valor combatendo por sua pátria e para lavar sua ofensa, procurando no primeiro combate portar-se melhor que a pessoa que o insultou. Um militar não pertence a si mesmo, sua vida é da pátria, e arriscá-la em outra coisa que não sua defesa é trair suas bandeiras. Haveríamos de dar o escândalo de um desafio diante dos franceses! Batalhas são o que o senhor deve desejar, e não lances de honra; matando ou morrendo, ficaria desonrado num desafio pessoal. O comandante Flores provou seu temperamento de alma nos combates, não precisa dar novas provas disso; e quanto à ofensa que possa ter-lhe inferido, ele o convidará, chegado o caso, a avançar sobre o inimigo, e então aquele que ficar para trás será o que terá de confessar-se vencido. Assim devem fazer-se os desafios em tempo de guerra, e não expondo à vergonha seu corpo e os chefes com rixas pessoais, estéreis para a causa que defendemos e criminosas aos olhos da sociedade. Ordenei a Flores que não aceite seu desafio, e se tanto ele como o senhor tentarem levá-lo a cabo apesar de minhas ordens, o general terá conhecimento disso, e eu lhes prometo que os farei fuzilar. Assim é que o senhor desiste de seu propósito, retira toda indicação, e dentro de poucos dias eu lhes proporcionarei uma liça mais nobre, mais honrosa; e como é preciso castigá-lo por esta tentativa de infração do Código Militar, permanecerá preso até sairmos de Guadalajara, o que será muito em breve.
- Está bem, meu coronel - respondeu Valle, compreendendo que seu chefe tinha razão em tudo; mas indignando-se interiormente de que Henrique tivesse corrido a denunciar ao coronel aquela ocorrência.
O raciocínio do chefe era inteiramente justo; mas a cólera ainda fervia no peito do jovem ofendido, e aquele desprezo lançado por seu inimigo diante de Clemência manchava-lhe o rosto como uma bofetada ou um chicote. Algo teria dado para não pertencer ao exército ou para achar-se longe da guerra, frente a frente com rival tão soberbo quanto insolente.
O duelo não se levou a cabo, e Valle se desesperava pensando que Clemência suporia que ele se resignara a sofrer em silêncio a atroz injúria que recebera em sua presença.
- Doutor - disse-me, chorando de desespero -, não me resta outro recurso senão o suicídio.
- O suicídio seria pior, meu amigo - respondi-lhe -, e espanta-me que o senhor, regularmente tão ajuizado, não possa dominar agora esse sentimento de cólera pueril. Realmente o coronel tem razão; um desafio quando os franceses vão chegar seria imperdoável. Sua espada não deve cruzar-se senão com a dos inimigos da pátria. No primeiro combate o senhor se cobrirá de glória ou morrerá, e de uma ou outra maneira ficará bem posto aos olhos de seu rival e aos daquela senhorita, que seria a primeira a censurá-lo por uma querela pessoal justamente nos momentos em que o inimigo se apresenta diante de nós. Que duelo, que suicídio! O combate amanhã, e esqueçamos hoje essas misérias de salão que só podem afetar quem, levando vida ociosa, não tem campo mais belo em que demonstrar o temperamento de uma alma altiva e honrada.
Consegui por fim convencer Valle, que se resignou a calar e sofrer, com a esperança de fazer-se matar no primeiro encontro. Entrementes permaneceu preso e não tornou a ver ninguém em Guadalajara, encerrado como estava em seu alojamento, onde passou ainda uns seis dias de tormento e impaciência.
Por fim deu-se a ordem de marcha, e o corpo saiu de Guadalajara em direção a Sayula. Isso aconteceu em 2 de janeiro de 1864. No dia 1º, quando se faziam os preparativos de marcha, o coronel do corpo, em nome do general Arteaga, pôs nas mãos de Flores o despacho de tenente-coronel, que o general em chefe do exército acabara de enviar-lhe por recomendações de bons amigos que o comandante tinha no quartel-general.
Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.
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