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Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

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Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Capítulo 11 · Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Ao Padre Geral, de São Vicente, a 1 de junho de 1560

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XI. Ao PADRE GERAL, DE SÃO VICENTE, A 1 DE JUNHO DE 1560

Resistência dos Brasis à catequese. — Conversões na hora da morte. — Padre Afonso Braz e Irmão Gaspar Lourenço. — Visitas às povoações. — Pràticas abortivas entre o Gentio. — Irmão Diogo Jacome. — Ofícios dos Jesuítas. — Castidade das índias Cristãs. — Padre Luiz da Grã. — Chuva de graniso. — Irmão Manuel de Chaves. — Batismo de dois cativos condenados à morte. — Irmão Gonçalo d'Oliveira. — Guerras com os índios do sertão. — Os Franceses do Rio de Janeiro. — Jean des Boulez em São Vicente. — Sua disputa com Luiz da Grã e partida, preso, para a Baía. — Expedição de Mem de Sà contra os Franceses do Rio. — Socorro enviado de São Vicente. — A tomada do forte de Coligny. — Vinda de Nóbrega. — Grã recebe a patente de Provincial. iyi o ano de 1558, no fim do mês de Maio escrevi, Reverendo em Cristo Padre, o que se passou, assim acerca de nós outros, como da conversão e doutrina dos índios, e de então a esta hora, nunca achàmos ocasião de poder escrever, visto neste último tempo não partir daqui navio algum, porque mais é para se compadecer de nós outros, que para se irar, que tanto tempo carecemos das cartas dos nossos Irmãos, e vimos a tanta falta, que até para dizer missa, nos faltou vinho por alguns dias. Darei agora conta do que depois sucedeu, e primeiramente que recebêssemos grande alegria com as cartas que agora recebemos, maximè em as de Vossa Paternidade, em as quais se mostrava o paternal amor e singular cuidado, que tem de nós outros, porque além de Vossa Paternidade não cessar de nos oferecer à Divina Majestade em suas orações, ordenou que todos nossos Irmãos nos encomendem mui particularmente a Nosso Senhor, do que està claro que nos hà de vir muita ajuda e proveito. Porque como era possível que pudéssemos sofrer tanto tempo, e com tanta alegria, tanta dureza de coração dos Brasis que ensinamos, tão cerrados ouvidos à Palavra Divina, tão fàcil renunciantes dos bons costumes, que alguns hão desaprendido, tão pronto relaxo aos costumes e pecados de seus maiores, e finalmente tão pouco e nenhum cuidado de sua própria salvação, se as contínuas orações da Companhia nos não dessem mui grande ajuda? Hà tão poucas coisas dignas de se escrever, que não sei que escreva, porque, se escrever a Vossa Paternidade que haja muitos dos Brasis convertidos, enganar-se-à a sua esperança, porque os adultos a quem os maus costumes de seus pais têem convertido em natureza, cerram os ouvidos para não ouvir a palavra de salvação, e converter-se ao verdadeiro culto de Deus, não obstante, que continuamente trabalhamos pelos trazer à Fé; todavia, quando caem em alguma enfermidade, de que parece morrerão, procuramos de os mover, a que queiram receber o batismo, porque então comumente estão mais aparelhados; mas quantos são os que conhecem e queiram estimar tão grande beneficio? Não são por dois outros exemplos que isto se pôde entender. Adoeceu um destes catecumenos em uma aldeia nos arrabaldes de Piratininga e fomos là para lhe dar algum remédio, principalmente para a sua alma: diziamos-lhe, que olhasse para a sua alma, e que deixando os costumes passados, se preparasse para o batismo: respondeu, que o deixàssemos sarar primeiro, e esta resposta somente nos dava a tudo que lhe dizíamos nós outros: declaràvamos abreviadamente os artigos da Fé, e os mandamentos de Deus, que muitas vezes de nós outros tinhà ouvido, e respondido, como enjoado, que jà tinhà os ouvidos tapados, sem ouvir ao que lhe dizíamos, em todas as outras coisas fora deste propósito, respondia prontamente, que bem parecia não ter tapados os ouvidos do corpo, e somente os do coração. Adoeceu outro em outro lugar, e como muitas vezes o admoestàvamos, o mesmo dizia, crendo que se sanaria; mas aumentando- se cada dia a enfermidade, visitei-o, e vendo por outra parte estar jà in extremis, com palavras brandas o persuadia a tomar o batismo, e ele mui indignado, levantou a voz, que não podia, gritando que o não molestasse, e que estava são: irava-se com tudo por todas as vias: deste jà alguns Irmãos haviam tentado ganhà-lo para o Senhor, trabalhando nisto com muitas palavras, que parecia jà haver dado consentimento, e disse: "Pois que assim é, te batizarão e alcançaràs a eterna salvação"; mas não somente não consentiu, que cobrindo a cara me deixou, sem dizer mais palavra, e no outro dia, permanecendo na mesma obstinação, morreu. Que direi de outro, que voltando da guerra com flechadas e quasi para morrer, curâmo-lo com toda a diligência, o que fazemos a todos, até que cobrem a saúde? Aquele com a dôr das chagas prometia de receber o batismo, e de viver bem conforme os mandamentos de Deus, e ele não menos se tornou aos costumes antigos, como se nenhum mal houvera acontecido. Deixo outros que fazem da mesma maneira, para os quais seria mister longa oração, que nenhum cuidado têem das coisas futuras, para que não dê em nossas cartas a Vossa Paternidade maior motivo de dôr, que de alegria, vendo que aqueles que o piedoso Senhor de tão inumeràvel multidão sujeita ao jugo do demônio, não os deixou trazer à sua Igreja, e vestidos de gloria imortal nos Céus, não falando nos inocentes, que morrem muitos batizados, e vão gozar da vida eterna, os mesmos adultos tinham também muita ocasião de irem para o Senhor, receber grande consolação. Havia um Cristão, casado legitimamente, que havia muito tempo estava enfermo: fomos visità-lo ao lugar cinco milhas de Piratininga; consolou-se muito, confessou-se com muita dôr e contrição, e voltàmos para casa: chegou um benzedor do sertão: o enfermo, assim por leviandade do coração, como pelo desejo da saúde, se deixou esfregar por aquele, e chupar segundo o rito dos Gentios; mas como não sentisse sinal de saúde que esperava, arrependido com grande dôr, uniu-se a nós outros a confessar o seu pecado, e estando junto da Igreja, onde com freqüentes confissões pôde limpar a sua alma dos pecados, curâmo-lo, e, daí a alguns dias, achando-se melhor, se tornou para sua casa, onde caiu em uma doença incuràvel, pela qual se fez trazer a Piratininga, para aí acabar de expirar. Os dias que aí viveu não os passou ociosamente, mas antes confortando-se com assíduas orações, confissões e admoestações saudàveis dos Irmãos, se aparelhava para passar o restante da vida: chegando depois o termo dela, mandou chamar os Irmãos, e pedindo um Sacerdote com um intérprete, disselhes: — "Assentai-me um pouco, em quanto me dura o uso da razão, para procurar o que pertence à salvação de minhà alma; encomendai-me a Deus quando tiver falecido, enterrando-mê na Igreja; mulher e filhos morem aqui para aprender as coisas da Fé e bons costumes —", e dizendo estas e outras muitas coisas semelhantes com muita devoção, daí a pouco se partiu para a eterna, segundo cremos. Uma catecúmena que havia dois anos estava enferma de calenturas, fez-se trazer a Piratininga pelos seus parentes, para que a curàssemos: fizemos-lhe os remédios que podíamos, mas como a febre jà estava arraigada, curâmo-la mais da saúde da alma, incitando-lhe os desejos da eterna vida, a qual ela abraçando com todo o afeto do coração, rogava e pedia o batismo. Daí a alguns dias foi a uma aldeia vizinha, fazendo-nos saber primeiro, para que aí uma irmã tivesse cuidado dela; ali a visitàmos muitas vezes, e perseverando no mesmo bom propósito de seu coração,«depois de mui larga doença, esteve quasi meio dia fora de si, e tornando em si jà tarde, como que acordava de algum sono, mandou logo uns moços a chamar-nos: fomos sem tardança, sendo o sol posto, e achàmo-la em extremis jà, e dando-lhe de comer, a admoestamos que se aparelhasse para o batismo: respondeu ela que estava aparelhada e que o desejava muito; logo nessa hora a trouxemos a Piratininga de noite, aonde um irmão e outro que là havia diziam, que se deferisse para outras: instruimo-la mais compridamente na Fé, o que hà muitos meses havíamos feito, e a batizàmos: logo parece que se lhe mudou o rosto e se tornou mais alegre, quando antes pelas angustias da dôr estava afligida sem nenhum sossego: começou logo a repousar, e a duas ou três horas se passou para a vida. Depois de muitos dias duas de suas irmãs cairam em uma grande enfermidade; uma delas morreu em Piratininga, cristã e

casada: sangrei-a duas vezes, e ficou melhor; a outra, que ainda era catecúmena, e morava em outro lugar, bem instruída nas coisas da Fé, e que na bondade natural parecia exceder a todas as outras, adoecendo de febre no-lo fez saber: até que passaram quatro ou cinco dias fomos visità-la, sangrâmo-la, e juntamente lhe ensinàmos, e depois da sangria ficou melhor: depois de alguns dias, agravando-se mais a doença, mandou-me chamar para que a tornasse a sangrar: fui bem depressa, mas quando cheguei não tinhà os sentidos, nem sinal de vida, e o corpo estava jà frio, de maneira que parecia morta; mas como se lhe lançasse àgua na cara, começou a mover os olhos; emfim tornando a si lhe perguntei se queria que a batizasse: mas porque não queria ai, que toda sua vida nenhuma outra coisa mais desejava, assim que a batizei, e pronunciei às duas horas da manhã o Santíssimo Nome de Jesus, foi confessando a verdadeira Fé, até que deu o espirito ao seu Creador para ir receber o prêmio eterno. Depois de alguns meses sucedeu a outra irmã, que acima falei, mui firme na Fé, e confessada muitas vezes. Um só exemplo contarei por me não demorar em cada coisa particular, e que não serà causa de menor alegria. Faleceu hà pouco uma velhà que havia sido manceba de um Português quasi quarenta anos, e ainda gerando muitos filhos; esta como os nossos Irmãos houvessem muito admoestado, que olhasse para si, e não quisesse ir-se ao inferno por aquele pecado, logo arrependida, e conhecendo a maldade com que havia vivido, aborreceu o pecado perseverando na castidade, e trabalhava de purgar seus pecados com muitas esmolas que nos fazia. Agora, ferida de uma longa e incuràvel enfermidade, foi a Piratininga, onde deixou uma casa para seus filhos e escravos. Entendia somente as coisas tocantes à salvação de sua alma, confessava e comungava muitas vezes, e dandonos muitas esmolas, aparelhava eternos tabernaculos na vida. Visitavam-a muitas vezes os Irmãos, confortavam-a nas divinas palavras, principalmente quando jà no último, tendo Corruptos os membros secretos, (esta era sua enfermidade, que é mui comum nestas mulheres do Brasil, ainda virgens), mas o Padre Afonso k Braz, e o Irmão Gaspar Lourenço intérprete, tendo mais ânimo ao odor que sua alma havia de. dar^,. venceram, o fedor que aos outros" èra^tôTêravei^ estiveram.toda a noite sem dormir, esforçando-a conT"divinas palavras, em que ela muito se deleitava, até que expirou com ditoso fim, como é de crer. De outros muitos podia contar, maximè escravos, dos quais alguns morreram batizados de pouco, e outros jà hà dias que o foram: acabando sua confissão iam para o Senhor. Pelo que, quasi sem cessar, andamos visitando varias Povoações assim dos índios como de Portugueses, sem fazer caso das calmas e chuvas, grandes enchentes dos rios, e muitas vezes de noite por bosques mui escuros a socorrer os enfermos, não sem grande trabalho, assim pela aspereza dos caminhos, como pela incomodidade do tempo, maximè sendo tantas estas Povoações, estando longe umas das outras, que não somos bastantes a acudir tão varias necessidades como ocorrem, e, mesmo que foramos muito mais, não poderíamos bastar. A junta-se a isto, que nós outros que socorremos as necessidades dos outros, muitas vezes estamos mal dispostos e fati gados de dores, desfalecemos no caminho, de maneira que apenas o podemos acabar, e assim ainda que mais parece termos necessidade ainda de médico que os mesmos enfermos. Mas nada é àrduo a quem tem por fim somente a honra de Deus, e a salvação das almas, pelas quais não duvidamos dar a vida. Muitas vezes nos levantamos do sono, ora para os enfermos e os que morrem, ora para as mulheres de parto, sobre as quais pomos as relíquias dos Santos, e parem, e o que elas não ignoram, começando a sentir as dores, logo as mandam pedir, havendo-se primeiro confessado. Entre estas coisas acontece que se batizam e mandam ao Céu alguns meninos que nascem meio mortos, e outros movidos, o que acontece muitas vezes mais por humana malícia que por desastre, porque estas mulheres brasilicas mui facilmente movem: ou iradas contra seus' maridos, ou os não têem por medo; ou por outra qualquer ocasião mui leviana matam os filhos; ou bebendo para isso algumas beberagens; ou apertando a barriga; ou tomando alguma carga grande, e com outras muitas maneiras que a crueldade deshumana inventa (169-A). Isto me têem dito os doentes, porque o que se hà de julgar

verdadeiro fruto que permanece até o fim, porque dos sãos não o fazem contar nada a ninguém, por ser tanta a inconstância em muitos, que não se pôde nem se deve prometer deles coisa que haja de durar. Mas bemaventurados aqueles que morrem no Senhor, que livres das perigosas àguas deste mudavel mar, abraçada a Fé, mandamos ao Senhor, transladados à vida, soltos das prisões da morte! E assim os bemaventurados êxitos destes nos dão tanta consolação, que pôde mitigar a dôr que recebemos da malícia dos vivos, e com tudo trabalhamos com muita diligência em a sua doutrina, os admoestamos em públicas prèdicas, e particulares pràticas, que perseverem no que têem aprendido, confessando-se e comungando muitos cada domingo. Vêem também de outros lugares onde estão dispersados a ouvir as Missões e confessar-se, maximè quando querem ir à guerra. A' confissão e mais sacramentos têem muita reverência, e tanto, que muitas vezes afirmam os enfermos que se lhes abrandam as dores depois da confissão. Assim não hà dúvida, que se acharia muito fruto neles se estivessem juntos, onde se pudessem doutrinar, de que se fez agora experiência na Baía, onde juntos em umas grandes aldeias por mandado do Governador, aprendem mui depressa a doutrina e rudimentos da Fé, e dão muito fruto, que durarà em quanto houver quem os traga a viver naquela sujeição que temos. Nas Festas principais, maximè quando se celebra o Nascimento, a Paixão do Senhor, concorrem a Piratininga de todos os lugares, comarcas, quasi todos muitos dias antes; estão presentes aos Divinos Ofícios e Procissões, disciplinando-se até derramar sangue, para o que muito antes aparelham disciplinas com muita diligência. O mesmo fazem em outros tempos, quando por alguma necessidade se fazem procissões. O Ofício das Trevas fazemos na Igreja sem canto, que concluímos tomando uma disciplina com três miserere. Também pregamos a Paixão, infundindo grande devoção e muitas làgrimas nos ouvintes, as quais também derramam em abundância nas confissões e comunhões. Também se lhes ensina a rezar particularmente, e para isto lhes damos rosàrios, para que dizendo muitas vezes Ave Maria tenham principal amor e de-

voção a Nossa Senhora. Estes rosàrios fez Jacome, ao torno, mui polidos, o que ele nunca aprendeu, nem exercitou esta arte, porém constrangido pela obediência e caridade, sendo esta obra nunca antes dele usada, e ainda se fez de mestre de alguns escravos que gastam nisto algumas horas, maximè em fazer rosàrios, os quais distribuídos, assim aos índios, como a nós outros Cristãos, não são pequenos incitamentos de devoção. Para não deixar de dizer, pois, o que vem a propósito, quasi nenhuma arte das necessàrias para o comum uso da vida.deixam de fazer os Irmãos; fazemos vestidos, sapatos, principalmente alpercatas de um fio como canhamo, que nós outros tiramos de uns cardos lançados n'agua e curtidos, cujas alpercatas são mui necessàrias pela aspereza das selvas e das grandes enchentes dàgua: é necessàrio passar muitas vezes por grande espaço até a cinta, e algumas até ao peito, barbear, curar feridas, sangrar, fazer casas e coisas de barro, e outras semelhantes coisas não se buscam fora, de sorte que a ociosidade não tem lugar algum na casa. Prosseguindo, pois, o meu propósito, procedem os índios na doutrina da Fé, e em lugar dos catecumenos, que de Piratininga se foram, vieram outros de diversos lugares, que se vieram unir segundo a vida Cristã, fizeram casas de taipa para sempre mora. rem, para os quais deu grande ajuda o Padre Afonso Braz com incançavel trabalho. Vêem-se em muitos, maximè nas mulheres assim livres como escravas, mui manifestos sinais de virtude, principalmente em fugir e detestar a luxuria, e que como seja comum ruina do gênero humano, nesta gente parece que teve sempre não só imperioso senhorio, mas também tirania a mais cruel, que como seja verdade, é para espantar e digno de grande dôr, quantas vitórias e triunfos alcançam dela: sofrem as escravas que seus senhores as maltratem com bofetadas, punhaladas, açoutes por não consentirem no pecado, outros desprezando-as, as oferecem aos mancebos deshonestos, a outras por força querem roubar sua castidade, defendendo-se não somente, repugnando com toda a vontade, mas com clamores, mãos e dentes, fazendo fugir aos que tentam forçà-las. Uma que foi por um acometida, perguntada de quem era

escrava, respondeu "— De Deus sou, Deus o meu Senhor, a quem te convém falar, se queres alguma coisa de mim", — e com estas palavras ficou vencido, confundido, contando a outros com grande admiração. Indo outras a trabalhar por mandado do senhor, seguidas de um moço desavergonhado, como quisesse levar por força a uma delas, correram as outras depressa, exortando-a a propulsar aquela injúria, livrando a sua conserva, acharam ao homem em empurrões, de lodo em lodo, e pó, em que bem se poderà considerar a facilidade da torpeza e maldade que queria cometer. Podia acrescentar a estes muitos outros exemplos, que cada dia achamos, pelo que se pôde claramente ver, quanto vale àcêrca de muitos pela Divina Bondade, as exortações contínuas dos Irmãos, mas disto fàcil coisa serà conhecer quanto seja a força e virtude dà palavra Divina, que pôde fazer correr das pedras copiosas fontes dàgua que alegrem a soberana Cidade de Deus. Assim, nas coisas da doutrina se trabalhà com muito estudo e cuidado, assim em Piratininga, onde ultra da comum ordem em que cada dia dos meses são chamados à Igreja, de noite se ajuntam muitos machos em casa, dando-lhes sinal para isto, cujas mulheres e escravas trabalham com muita diligência em aprender o que conduz para a sua salvação, confessando-se muitos, e comungando todos os Domingos, vindo aos Sermões e Ofícios Divinos. No que trabalham os Irmãos que têem a seu cargo, principalmente o Padre Luiz da Grã, com um trabalho incançavel e contínuo, procurando a salvação das almas; três, quatro e cinco vezes reparte o pão da doutrina aos famintos, e tão alegremente se ocupa em ensinar dois ou três, como se estivesse a Igreja cheia, pondo grande cuidado em visitar os enfermos, admoestar particularmente a uns e a outros, e ouvir confissões. Os dias passados, depois do sol posto, veiu um grandíssimo vento com chuva de graniso, que fazia tremer as casas, arrebatou os telhados, e fez grande estrago nos bosques: mandou o Padre que se ajuntassem os escravos, e o solito confugio da oração, e tomando comsigo ao Irmão Manuel Chaves intérprete, andava de casa em casa visitando a todos, para saber se havia acontecido al- gum desastre com a caida das casas, acudindo com a medicina corporal e espiritual, e a todos fez ajuntar na Igreja, que parecia lugar mais seguro, admoestando-os, que pedissem a Divina ajuda: alguns velhos doentes e meninos fez trazer à casa até o outro dia, que finalmente em todos se viu também um sinal da Divina Sabedoria, que parece que nenhuma coisa se podia, e devia fazer melhor do que se fez. Pelo que, não sem razão, estiveram todos com o Padre, assim índios como os Portugueses, a quem também pregou mui a miúdo aqui, e em outras povoações com grande, edificação dos ouvintes. Muita coisa parece que se conta dos índios, às quais ajuntarei algumas, de suas guerras, nas quais como tinham posto quasi todos os seus pensamentos e cuidados, e neles se se pudesse ver, quão vagas são a virtude e doutrina da vida Cristã, os dias passados sendo encontrados os inimigos vieram a um lugar, e tomaram muitos cativos. Um deles dizia haver de se matar em uma povoação perto de Piratininga; com seus cantos vimos as festas como é costume: sabendo o Padre Luiz da Grã foi a ela, para batizar aos moradores, que não quizessem cometer aquela maldade, prometeram-lhe que não haviam de deixar sujar seu lugar em que havia tantos Cristãos com derramamento de sangue inocente. Mas como houvesse fama que se aparelhava todo o necessàrio para a morte, tornou là uma e outra vez, estando aquela aldeia quatro milhas de Piratininga, e os que jà eram batizados prometessem que tal não se faria, todavia um só cativo infiel, que havia ali, vindo doutra parte para ganhar aquela misera e torpissima honra, induzido por conselho de algumas velhas, determinou matà-lo, e tomar o seu nome e insígnias de honra. Sabendo nós outros que assim estava determinado, fomos là, como quem iamos negociar em outra coisa, porque nos escondessem como costumam, para que o batizàssemos, e a sua alma inocente fosse participante dos gozos eternos. Eira um menino inocente até três anos, mui elegante e formoso, que fizemos trazer deante de nós outros, e batizamos, pesando-nos, uma parte por se haver de matar um menino inocente com tanta crueldade, e em cuja morte tantos vi, jà batizados, haviam gravemente pecar, e por ou- tra parte alegramo-nos muito, porque logo sua inocente alma havia de ir passar-se à vida eterna. Isto acabado, e jà a causa estava segura, e não havia perigo de esconder: começamos diante de muitos a detestar aquela maldade, e notar-lhes de cobardes e frouxos que queriam em meninos pequenos vingar as injurias e mortes que recebiam dos inimigos, e ameaçar-lhes com o Divino JUÍZO, e com a morte, se fossem comer o menino jà batizado. Depois de alguns dias estando nós outros ausentes, o mataram com as costumadas solenidades, mas não o comeram, estando presentes alguns dos moradores; e outros que jà haviam deixado mais altas raízes na Fé, foram para outros lugares, não querendo manchar os olhos com tal espetàculo. E ' também muito para espantar e dar muitas graças ao Todo Poderoso Deus, que nem estes, nem os outros dos lugares vizinhos que jà em algum tempo ouviram de nós outros, e ainda agora muitas vezes ouvem a palavra de Deus, não comam carne humana, não tendo eles sujeição alguma, nem medo dos Cristãos. Ainda contarei outro exemplo que darà muita alegria. Pouco hà que cativaram outro, que levaram a um lugar para matar, e detendo-se uma noite em Piratininga, foram os Irmãos a combatê-lo com as armas da palavra Divina, a ver se podiam tomar aquela Fortaleza, que hà tanto tempo havia estado ocupada de Satanaz, e convertê-lo ao senhorio de nosso Salvador. Logo ao primeiro combate fugiu o demônio, que estava na sua alma, querendo perdê-lo para a Fé: era um moço que parecia ter quinze anos, de um bom natural, e respondia com tanta prontidão e fervor de coração às coisas da Fé, que lhes perguntavam, que parecia havê-las aprendido: instruído pois pelos Irmãos, foi advertido que se oferecesse com bom coração às injúrias que os índios lhe fizessem. No seguinte dia foi levado a outro lugar, e o seguiu o Padre Afonso Braz à tarde, e os Irmãos Manuel de Chaves e Gonçalo d'Oliveira, intérpretes. Perguntando-lhe depois o Irmão Gonçalo, que tomou o cuidado de o instruir, como o haviam tratado, respondeu: "Uma vez somente me deram uma punhalada, mas recordando-me das tuas palavras, não a senti". Tomaram então os Irmãos a seu cargo de o instruir mais perfeitamente na

Fé, e defendê-lo dos que lhe quisessem fazer algumas injúrias, que naquele tempo costumavam fazer aos moços. Davam-lhe também uma moça, como era costume, para manceba e guardadora; mas os Irmãos não o consentiram, e o mesmo o aborreceu muito, dizendo que nunca fora encasado com o pecado. Não faltaram índios que queriam o sacassem do poder dos escravos, e o enviassem para as casas a bailar toda a noite, e como não quisessem os escravos, lhes falaram palavras insolentes e injuriosas. Outros, passando junto do moço, lhe diziam: — "Morreràs", — que era palavra solene daquele tempo, o que ele não sentia; e como os Irmãos o quisessem proibir, diziam-lhes que o deixassem, e jà ele não sentia aquela coisa; A' meia noite o batiz'àram, estando mui bem instruído na Fé, e admoestado que se entregasse todo a Deus, e se esquecesse desta vida em que tão pouco havia de estar: mas o Senhor que o havia predestinado,, ab eterno, estava jà tão apoderado da sua alma, que não lhe deixava pensar nem dizer outra coisa. E porque o Irmão Manuel de Chaves perguntasse que determinavam os inimigos, se nos queriam fazer guerra, como soiam, respondeu-lhe: — " Oh, meu avô, deixa agora isso, que me quero ir para Deus." Um pouco antes da manhã em que o haviam de matar, um índio de Piratininga, Cristão mui estimado entre nós, fez uma fala ao redor dele e casas (como é costume) admoestando aos seus que deixassem aos Irmãos fazer com o inimigo tudo que julgasse ser necessàrio para a sua alma, sem o que o teriam por inimigo e destruidor. Vindo a alva, quando a sua alma havia de ser vestida dos resplen dores do Sol da Justiça, o levaram para o terreiro, estando presente uma grande multidão, atado pela cintura com cordas compridas, pegando muitos por uma parte, e a outra toda solta, chegou-se a ele, o que o havia de matar, usando primeiro das suas ceremonias e ritos com a solene palavra — "Morreràs". — Gritàram-lhe os Irmãos que se pusesse de joelhos, o que logo cumpriu, levantando os olhos e as mãos para os Céus, chamando pelo Santíssimo Nome de Jesus, lhe quebrou a cabeça com um pau, e voou a alma ditosa da gloria imortal dos Céus. Praza ao Senhor que tal morte nos dê, sendo-nos quebrada a cabeça por amor de Cristo. Ao morto lhe tiraram as cordas, o

deixaram sem fazer mais coisa alguma, e os Irmãos o meteram em uma rede, e trazendo-o às costas para Piratininga, o enterraram na Igreja para se entoar cânticos justos pela vinda do Senhor. Bemdito seja Deus, cuja infinita sabedoria chama de diversas partes os seus escolhidos, para que ocupem o número daqueles que hão de ser admitidos à sorte dos filhos de Deus. Dos moços que falei no princípio foram ensinados não só nos costumes Cristãos, cuja vida quanto) era mais diferente da de seus pais, tanto maior ocasião dava de louvar a Deus e de receber consolação, não queria fazer menção por não refrescar as chagas, que parecem algum tanto estar curadas; e daqueles direi somente, que chegando aos, anos da puberdade, começaram a apoderar-se de si, vieram a tanta corrupção, que tanto excedem agora a seus^pais em maldade, quanto' ântés em bondade, e com tanta maior senvergonhà e desenfreamento se dão às borracheiras e luxurias, quanto com maior modéstia e~ obediência se entregavam dantes aos costumes Cristãos e divinas instruções. Trabalhamos muito com eles, para os reduzir ao caminho direito, nem nos espanta esta mudança, pois vemos que os mesmos Cristãos procedem da mesma maneira. Quanto aos índios do sertão, muitas vezes estamos em guerra com eles, e suas ameaças sempre padecemos: mataram hà poucos dias a alguns Portugueses que vinham do Paraguai, ficando ensoberbecidos com esta maldade, ameaçando-nos com a morte. Também os inimigos com contínuos assaltos que dão nos lugares, destróem os mantimentos, e levam a muitos cativos. No ano passado deram em uma casa aqui junto da Vila, e cativaram muitas mulheres que tinham saido de casa, e iam fugindo: embarçandose nas canoas as levaram, mas entre aqueles uma mestiça, que freqüentava aqui a doutrina e confissões, com animo varonil resistiu aos inimigos para a não levarem, e como trabalhassem muito para a embarcar, e não podiam conseguir, a mataram com feias feridas, e é de supor que ela obraria com aquela intenção, que muitas vezes dizia às outras que andavam na mesma doutrina, principalmente um dia antes que a matassem, quando se despedira delas, a quem costumava dizer, que, se os contràrios dessem em casa de seu Padre e a cativassem, não havia de se deixar levar viva, para que a não tomassem por manceba, como faziam a todas as outras, porque se havia de deixar antes matar do que ir com eles, pois sabia de certo que corria perigo padecer força a sua castidade. Antes disto vieram outros, e, com eles, quatro Franceses, que, com o pretexto de ajudar aos inimigos na guerra, se queriam passar para nós outros, o que não puderam fazer sem muito perigo. Estes, como depois se supôs, apartàram-se dos seus, que estio entre os inimigos em uma povoação que chamamos Rio de Janeiro, daqui a cincoenta léguas, e têem trato com eles; fizeram casas, e edificaram uma torre mui provida de artilheria, e forte de todas as partes, onde se dizia serem mandados por El-rei de França assenhorearem-se daquela terra. Todos eles eram hereges, aos quais mandou João Calvino dois que lhes chamam Ministros, para lhes ensinar o que haviam de ter e crer. Daí a pouco tempo, como é costume dos hereges, começaram a ter diversas opiniões uns dos outros, mas concordavam nisto que servissem a Calvino e a outros letrados, e logo que eles respondessem isto, guardariam todos. Neste mesmo tempo um deles ensinava as artes liberais, grego e hebraico, e era mui versado na Sagrada Escritura, e por medo do seu Capitão que tinhà diversa opinião, ou por querer semear os seus erros entre os Portugueses, uniu-se aqui com outros três companheiros idiotas, os quais como hospedes e peregrinos foram recebidos e tratados mui benignamente. Este que sabe bem a lingua espanhola, começou logo a blasonar que era fidalgo e letrado, e com esta opinião, e uma fàcil e alegre conversação que tem, fazia espantar os homens para o estimarem. Escreveu também uma breve carta ao Padre Luiz da Grã, que então estava em Piratininga, na qual lhe dava conta de quem era, e o que havia aprendido, dizendo que depois que o mestre de sua adolescência, varão singular, o havia metido nas escolas das Pierides, havia bebido da fonte cabalina amenissimos arroios de sabedoria, e se havia passado ao estudo da Sacra Teologia e Divina Escritura, a qual para mais facilmente poder alcançar, havia aprendido a lingua Sacra, isto é a hebrêa, dos mesmos

Rabís, dos quais tinhà ouvido de muitos peritos, e que praticaria com o Padre quando se vissem. Estas consas quasi compreendia no fim da Epístola, que concluiu com um dístico. Passàram-se muitos dias quando começou a arrotar do seu estômago cheio de fedor dos seus erros, dizendo muitas coisas sobre as imagens dos /Santos, e o que aprovava a Santa Igreja do Sacratissimo Corpo de Cristo, do Romano Pontifiee, das Indulgências, e outras muitas que adubava com certo sal de graça, de maneira que ao paladar do povo ignorante não só não pareciam amargas, mas mesmo doces. Sabendo isto o Padre Luiz da Grã, veiu logo de Piratininga a opôr-se à pestilencia, e arrancar as raízes inteiras deste mal que começava o brotar. Tendo receio disto, e pensando que tal bastasse para indignar o Padre, e tornà-lo suspeito, se porventura fugisse dele, mandou-lhe logo uma invectiva, cujo princípio era este: Adeste mihi coelitos, afferte mihi gladios ascipites ad faciendam vindictam in Luduvicum Dei osorem &c, na qual o acusava e repreendia mui grandemente porque não repartia o pão da doutrina com os Portugueses, por trabalhar na conversão dos Infiéis, e disto se nos amontoou muitas outras coisas, com que esperava se exasperaria o Padre. Mas o Padre que tratava da causa de Deus não fugiu, tendo mais respeito à comum salvação de todos, que à sua própria glória; foi ao Vigàrio, requerendo que não deixasse ir adeante esta peçonhà luterana, e com sermões públicos admoestasse ao povo que se acautelasse daqueles homens, e dos livros que trouxeram cheios de heresias. Porém o vulgo imperito, em freqüentes pràticas, louvava aos Franceses, maravilhando-se de sua sabedoria e eloqüência, apregoando os conhecimentos que tinham dos atos liberais, e pelo contrario caluniava ao Padre Luiz da Grã, dizendo, que enojado pela invectiva que lhe mandara, o perseguia. E o que é mais, jà a pestilencia pouco a povico grassava nos corações incautos da imperita multidão, que sem dúvida muitos se infeccionàram da peçonhà mortal, sem haver a menor resistência. Tanto valeu de repente a sua autoridade deante de todos, que muito se diminuiu a do Padre, que todos tinham em muita reputação, por seu exemplo de vida e singular doutrina. Depois

disto o mandaram para a Baía, para là se conhecer mais amplamente da sua causa, e o que là e aqui se fez acerca dele, e para que por cartas particulares se saiba e não é coisa que convenha para carta geral, calarei: somente direi que se tratou a coisa de maneira, que terà Vossa Paternidade ocasião de grande dôr, considerando quão pouco caso se fez entre os Cristãos fieis da causa da Fé. Deste, soube o Governador os projetos dos Franceses e com naus armadas veiu combater a fortaleza. Daqui foi socorro em navios e canoas, e nós outros demos o costumado socorro de orações, além das particulares que fazia cada um: diziam-se cada dia umas litanias na Igreja, acabada a missa: também se mandou daqui um Padre, com o Irmão intérprete, a rogos do Governador, para que se ocupasse em confessar os soldados, e ensinar aos índios que com eles haviam vindo. Voltou o Irmão mui doente de febres e cameras de sangue, pelo muito trabalho e frio que sofreu, mas logo sarou pelo favor da Divina Bondade. Era a fortaleza mui forte, assim pela natureza e situação do lugar, toda cercada de penhas, que se não podia entrar senão por uma subida estreita e alta por rochas, como pela muita artilharia, armas, alimentos, e grande multidão de bàrbaros que tinha, de maneira que pelo juizo de todos era inexpugnàvel. Acometeram com tudo isto por mar e por terra, confiados no Poder Divino e no seu próprio: defendiam-se os Franceses com os inimigos, travando-se grande e cruel peleja: de ambas as partes morreram muitos, e os mais deles dos nossos, e veiu a tanto, que jà tinham perdida a esperança da vitória, e tomaram conselho como sem perigo se poderiam embarcar e transportar as munições que estavam em terra, como pelos perigos, o que por certo não puderam fazer sem morrerem muitos; mas tendo os nossos cometido coisa tão àrdua, e ao parecer de quasi todos temerària, pela justiça e fé foram ajudados do Senhor dos Exércitos, e quando jà nos navios não havia pólvora, e os que pelejavam em terra estavam desfalecidos pelo muito trabalho, fugiram os Franceses, desampararam a torre, recolhendo-se às Povoações dos bàrbaros em canoas, de maneira que é de crer que muitos fugiram mais com o espanto que lhes pôs o Senhor que com as forças humanas. Tomou-se, pois, a fortaleza, em que se achou grande cópia de coisas da guerra e mantimentos, mas cruz alguma, imagem de Santo, ou sinal algum de católica doutrina se não achou, mas grande multidão de livros heréticos, entre os quais (se por ventura isto é sinal de sua reta Fé) se achou um Missal com imagens roidas. Socorra o Senhor as suas ovelhas. Com o Governador veiu o Padre Manuel da Nóbrega, mui doente, magro, com os pés e cara inchada, pernas cheias de postemas, e com outras muitas enfermidades, das quais, como aqui chegou, começou a se achar melhor, e esperamos na bondade do Senhor que pouco a pouco lhe irà dando saúde. Os Irmãos também adoecem às vezes, mas em breve tempo convalescem; os quais com entender com a saúde dos próximos muito mais trabalham pela sua, servindo ao Senhor com alegria, dando-se aos solitos exercícios da oração, obediência e humildade, e exortando-se com muitas pràticas à virtude. A maior parte està sempre em Piratininga, onde alguns filhos de Portugal aprendem gramàtica: aqui estão sempre dois sacerdotes. O Padre Luiz da Grã não tem assento firme para melhor acudir a todos: agora està em Piratininga, onde har muitos Portugueses com toda a sua familia, e aí e em outros lugares vizinhos trabalhà na doutrina dos índios, agora aqui, e em outros lugares ao derredor procurando o proveito espiritual dos Portugueses e seus escravos. Hà pouco recebemos cartas em que se lhe encomendava o cargo desta Província, o que ele disse aos Irmãos, chamando a todos na Igreja, e mandando-os sentar, posto ele de joelhos, acusando-se gravemente, afirmando não ser apto para tal cargo, e depois prostrado por terra, beijando os pés a todos os Irmãos. Isto é, Reverendo em Cristo Padre, o que queria saber daqui; resta que com assíduos rogos encomende a Nosso Senhor estes mínimos filhos da Companhia, para que possamos conhecer e perfeitamente cumprir sua Santíssima Vontade. Colégio da Ilhà de São Vicente, ano de 1560, o Io de Junho. Mínimo da Companhia de Jesus.

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Leia gratuitamente Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, de José de Anchieta, obra colonial brasileira em domínio público. Esta edição digital consolida cartas, informações, fragmentos históricos e sermões quinhentistas em 38 capítulos internos, com texto curado a partir da edição de 1933 via BLPL/UFSC e Etnolinguística/Mindlin, notas editoriais separadas do corpo principal, espelhos HTML e preparação para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA no Literunico.

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