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Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

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Capítulo 38 · Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Da conversão de São Paulo (1568)

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XXXVIII SERMÃO DA CONVERSÃO DE S. PAULO

— 1 5 6 8 — JESUS In ãie convertionis S. Pauli. 1568. Vos electionis est mihi iste. Act. 9. IX os desafios de pessoas grandes, como de príncipes e senhores que entram em desafio sobre alguma grande emprêza, como sobre um reino, condado, soe haver grande concurso de gente de parte a parte, desejando cada uma delas que seu príncipe saia com a vitória; e comumente os homens guerreiros e valentes folgam e gostam muito de vir a achar-se presentes em semelhantes espetáculos. Ora, somos chamados todos a um negócio semelhante; temos deante dos olhos um notável desafio e batalha, que se faz entre duas pessoas mui notáveis, que são Jesus e São Paulo: há mui grande concurso de gente de parte a parte; de parte de Jesus estão todos os coros angélicos e os santos, de parte do santo estão todos os exércitos infernais dos diabos e dos fariseus, desejando uns e outros ter a vitória de sua parte. Se somos guerreiros, como devemos ser, pois militia est vita homini super terram; se somos esforçados, como devemos ser, pois somos cristãos, e cristão não quer dizer outra coisa senão homem de Cristo, nosso verdadeiro e valentíssimo capitão, o qual, ungido com o óleo da graça proe consortibus suis, nos ungiu também a nós, para

sermos valentes e esforçados lutadores e guerreiros contra o Diabo e a Carne, devemos de gostar muito de vêr este tão grande desafio para nele aprendermos a vencer e ser vencedor, porque uma coisa e outra nos é necessária; vencer o Diabo, Mundo e Carne, que continuamente contra nós pelejam e trabalham por nos vencer; e deixarmo-nos vencer de Jesus, contra o qual trazemos contínua guerra, dando-lhe contínuos combates com os nossos pecados, porque o sermos vencidos dele eis a mais gloriosa vitória, que podemos alcançar. E para que entendamos alguma coisa desta batalhá de Cristo com Paulo, e a maneira de pelejar de um e doutro, ponho deante dos olhos um lobo crudelissimo e mui faminto, desejoso de se fartar de sangue, e de outra parte um cordeiro mansissimo, que não faz mais do que defender-se, com padecer e sofrer os bocados e dentadas que lhe dá o lobo, Paulo lobo cruel, Jesus manso cordeiro. Ouvi a S. Lucas o que vos conta desta batalha: Saulus autem devastabat ecclesiam, intrans per domos et trahens viros ac mulieres, tradebat in custodiam. Paulo, como lobo faminto e desejoso de se fartar de carne e sangue dos cristãos, depois de se ter cevado no sangue do glorioso mártir Santo Estevão, guardando as vestiduras dos que o apedrejavam, não somente consentindo em sua morte, mas também apedrejando-o com as mãos de todos eles, pois todas as pedradas que eles lhe deram com as mãos, lhe deu ele com o coração, folgando e gostando de o vêr assim apedrejar. Não contente com isto entrava pelas casas e tirava delas a rasto os homens e mulheres, com grande crueldade, e fazia-os encarcerar e açoitar, e em cada um dos cristãos, que assim perseguia, encarcerava e açoitava o mesmo Cristo. Era Jesus Cristo pacientíssimo; com incrível paciência e mansidão estava sofrendo todos aqueles golpes, e ainda que lhe davam muito trabalho e dôr, laborabat sustinens, trabalhava e sofria e vencia a ira de sua divina justiça, recordatus misericórdia} sues, lembrando-se daquela grandíssima misericórdia, que o constrangeu a tomar forma de cordeiro, e como tal ser esfolado e morto na cruz. E não contente com isto e em ter já dito a seu Padre Eterno: Pater, agnoces Mis, quia nesciunt quod faciunt, está incitando a seu mártir S. Estevão, que

faça o mesmo e rogue pelo lobo que o está despedaçando, dizendo: Domine, ne statuas Mis hoc peccatum, quia nesciunt quid faciunt, ac si diceret, peço-vos, Senhor Jesus, cordeiro mansissimo, que por todos morrestes na cruz, que não acoimeis este pecado a São Paulo, que me apedreja, porque não sabe o que faz; vencei, Senhor, com vossa paciência sua ira, vencei com vossa mansidão sua fereza, vencei com vossa misericórdia sua crueldade, quia ne&cit quid facit, quia ignorans feci in incredulitate mea, como ele confessou depois de convertido. Vedes aqui travada a peleja de parte a parte, e tanto mais maravilhosa da parte de Cristo quanto menos usada no mundo; agora cuidam os homens, que não poderão vencer seus inimigos, senão dando e matando; cuidam, que se não vingam uma injúria que logo ficam afrontados e deshonrados; têm-se persuadido, ensinados de Satanaz, mestre infernal, que se uma palavrinha, que se soltou a seu próximo, se lhes passa sem responderem vinte, e sem fazerem grandes autos e papeladas sobre ela, que perdem todo o seu crédito, e lhes cuspiram os outros no rosto. E não olhando a seu capitão Jesus Cristo, que peleja sofrendo e vence padecendo, seguiam a Paulo, lobo cruel, querendo como ele, vencer e sopear seus irmãos a poder de dentadas; os ricos roendo aos pobres e os grandes aos pequenos, e os que se tem por sábios aos simples e ignorantes. O' irmão, que não sabes pelejar, e onde cuidas que vences, ficas vencido, porque no ponto que desprezas a teu próximo, te despreza Deus; no ponto que sopeias a teu irmão, te sopeia a ti o Diabo; ficas vencido de tua ira e do pecado, que é o mais baixo e vil senhor a que te podias sujeitar, como fazia Paulo. Mas tornemos á batalhá de Paulo com Jesus. Andava Paulo como lobo já encarniçado no sangue dos cristãos, mansos cordeiros, ouypara melhor dizer, no sangue do mesmo Jesus Cristo, cordeiro pacientíssimo, o qual com sua grandíssima paciência o ia amolentando e vencendo pouco a pouco, porque, se ela não fora tanta e tão grande (como diz S. Cipriano), não tivera hoje a igreja a São Paulo, que andava de casa em casa, com grande quadrilhá de gente, arrastando os homens, e dando com eles nas cadeias. E tudo isto era pouco para fartar a grande fome e sede deste lobo tragador, de quem tinhá já profetizado aquele grande patriar- ca Jaeob: Benjamin, lúpus rapax, mane comedet prcedam et vespere dividet spolia, vél justa aliam translationem, vespere dividet escas, o qual ad literam declara S. Agostinho de São Paulo, que diz de si mesmo, que era da tribu de Benjamin: Circumcisus octavo die ex genere Israel, de tribu Benjamin, Hebrceus ex Hebroeis. Pois este Saulo, da tribu de Benjamin, lúpus rapax, lobo voraz e tragador, não farto com o sangue dos cristãos que fazia prender em Jerusalém, ouvindo que em a cidade de Damasco havia homens, que criam em Jesus e confessavam seu santo nome, determina de se ir lá fartar, e assim diz o texto: Saulus adhuc spirans minarum et ccedis in discípulos Domini, Saulo ainda com a boca aberta, cheia de ameaças contra os discipulos do Senhor e desejoso de se encarniçar em sua matança, vai-se ao príncipe dos sacerdotes e pede-lhe cartas para a cidade de Damasco, que quer dizer potus sanguinis, onde determinava de se fartar de seu sangue, fazendo-os prender e maltratar, e fazendo que o nome de Jesus nem em Jerusalém, nem em alguma outra parte fosse nomeado. Cristo Jesus, que até aquele tempo como homem verdadeiro e cordeiro mansuetissimo, filho da Virgem sacratissima, ovelhá sem mácula, e crucificado pelos homens, esteve esparando a Saulo, com grandíssima paciência e misericórdia, enquanto andava pela cidade de Jerusalém perseguindo aos cristãos, vendo que já saia do campo como homem, que sai ao desafio, e se ia a outras cidades a o perseguir, determina deixar por um pouco a paciência e fraqueza de cordeiro e usar da fortaleza de leão, mostrando o poder de sua divindade, e sair com ele ao campo do desafio para o acabar de vencer: Catulus leonis Juda ad prendam ascendisti, lilii mei, quasi leo. Sai aquele grande leão da tribu de Judá, Cristo Jesus, da geração de Judá e de David, catulus leonis, filho de outro leão, que é o Padre Eterno, sai com o poder de sua divindade ad prcedam, sai ao encontro de Saulo, que era sua presa e enviara, que ele andava para arrebatar; encontram-se no caminho Saulo, lopo rapace, da tribu de Benjamim, e Cristo Jesus, leão da tribu de Judá, e porque muito maior vantagem, sem nenhuma comparação, levava Cristo a Saulo, do que leva um grande leão real a um lobo, não houve mister andar aos golpes naquele desafio, mas em arregalan- do os olhos o leão contra o lobo, em mostrando Cristo a Saulo uma faísca dos olhos de sua divindade, que fazia aquele resplendor, quo súbito circumfulsit eum lux de coelo, cecidit in terram, cai o lobo no chão vencido, ei vicit leo de tribu Juda, radix David, cai Saulo no chão vencido e fica Cristo vencedor. E. ainda que vença como leão com o poder de sua divindade, todavia faz pelos merecimentos de sua paixão, que padeceu como verdadeiro homem e da geração de David, porque a sua incrível paciência e mansidão de cordeiro, com que sofreu a Saulo, aplacou a ira da divina justiça e fez que aão somente lhe perdoasse, mas também o convencesse com um tão novo e tão estranho gênero de conversão. E notai, que é próprio do leão real e generoso contentar-se com o vencer, sem querer despedaçar nem tragar como lobo. Assim, Cristo, nosso senhor, fortíssimo leão e rei eterno, não quer tragar a Saulo, e entregá-lo aos lobos infernais, como mereciam suas obras, mas contenta-se com o ter vencido; não quer mais do que despedaçar-lhe o coração, e abri-lo para se lhe meter dentro, e para esse efeito lhe começa a dizer: Saule, Saule, quid me persequeris? Que males viste em mim, que más obras te tenho feito, Saulo, para que me persigas como a inimigo mortal? Quem cuidas que sou? Não me conheces, Saulo? Maior bem te quero eu a ti do que tu queres mal a mim: Quid me persequerisf Et Saulus: Qui es, Domine? Sabes quem sou? Ego sum Jesus, quem tu persequeris. Eu sou Jesus, teu salvador, que para te salvar desci do céu á terra, e tu andas me perseguindo; eu sou Jesus verdadeiro homem e filho da mulher, que andei trinta e três anos no mundo, buscando-te a ti, que andavas perdido, para te dar glória, e tu andas me buscando para me deshonrar. Eu sou Jesus, que como manso cordeiro coram me tondente non aperui os meum para me queixar, ainda que sempre a tive aberta para por ti a meu padre rogar, e tu andas como lobo com aj boca aberta para me engulir e fazer para que não seja o meu nome conhecido no mundo. Eu sou aquele Jesus, que viste com tanta deshonra num pau entre dois ladrões, como homem fraco, que não tinhá poder para se defender, e como tal me persegues agora, cui-

dando que não sou mais do que homem. E porém durum est tibi contra stimulum calcitrare, rija coisa é, mui trabalhosa para ti, dares coices contra o aguilhão de minhá divindade; sabe, que sou mais do que homem, sou Deusi verdadeiro, que tenho poder para pôr debaixo de meus pés a todos os meus inimigos. Como homem passei pelo aguilhão da morte, e porém como verdadeiro e poderoso Deus tenho o aguilhão da justiça divina em minhá mão para aguilhoar os pecadores, que como bois e brutos animais não sabem mais do que seguir aos apetites de seus sentidos e ofender-me. Durum est tibi contra stimulam calcitrare, trabalhosa coisa te é dares coices contra o aguilhão da minhá morte e paixão; por demais é quereres tu com tua perseguição, que me fazes, vencer a grande paciência e misericórdia, que mostrei á minhá paixão; porque quando me lembro, que aqueles duros aguilhões dos pregos transpassaram minhas mãos e pés, que ainda agora estão abertos; quando vejo este lado e coração aberto com o duro aguilhão da lança cruel; quando olho, que minhá sagrada cabeça foi tão aguilhoada com agudos aguilhões dos espinhos por amor dos pecadores, não me posso deixar vencer de teus pecados, ainda que por eles justamente merecias o inferno, antes com o mesmo aguilhão da minha morte te quero aguilhoar e vencer, usando contigo de misericórdia, e fazer-te vas electionis, vaso escolhido, em que eu infunda minha graça, e fazer-te meu pregador, os portet nomem meum coram gentibus et regibus et filiis Israel, para que por tua pregação se convertam os pecadores, e picados com o aguilhão da minhá morte alcancem o fruto de minhá paixão, que é a salvação de suas almas, castigando seus corpos com o aguilhão da penitência, e assim escapem do aguilhão de minhá divina justiça: Durum est tibi. Saulo, com tais coisas, que vos parece, que faria? Vendo-se derrubado no chão tão subitamente, que cuidaria? que responderia a tais palavras, que lhe penetravam o coração? Ele só sabe o que sente, ainda que o não pode declarar, porque ibi Benjamin adolescentulus in mentis excessu, ali aquele mancebinho doido e soberbo, da tribu de Benjamim, todo transportado e arrebatado em Deus, todo aguilhoado em suas entranhas com as palavras de Cristo, que o tinhá derrubado a seus pés, já não como mancebinho doido e sem

siso, senão como velho cheio da sabedoria divina, não como lobo soberbo e roubador, senão como humilde e manso cordeiro, stupens ac tremens responde a Jesus: Domine, quid me vis facere? Senhor, que me mandais, que faça? Njão tenho necessidade, que me digais quem sois, porque já vos conheço. Já sei, que sois Deus e Homem verdadeiro; vencestes a dureza de meu coração com a brandura de vossa misericórdia, vencido sou do vosso amor, aguilhoado estou com o aguilhão do vosso poder divino, traspassada está minhá alma com o duro aguilhão de vossa paixão. Quid me vis facere? Mandai, Senhor, que eu farei; mandai-me padecer, que eu padecerei, mandai-me morrer, que eu morrerei; porque daqui por deante absit mihi gloriari, nisi in cruce domini mei Jesu Cristi, omnia ut stercora arbitrabor, ut Christum lucrifaciam: mihi vivere Christus erit el mori lucrum. Não descansarei até pôr minhá vida por vós, pois com tanta misericórdia me chamais depois de terdes posto vossa vida por mim. Eis aqui concluído o desafio de Saulo com Jesus. Este é o fim desta batalha; vencedor fica Jesus, e Saulo vencido; tal vencimento viesse ora por nós, com que nos acharemos derrubados aos pés de Jesus, dizendo: Domine, quid me vis facere? E porque vos disse ao princípio, que o Diabo traz guerra conosco, e nós com Cristo, e que é necessário, que vençamos a um, e nos deixemos vencer do outro, quero vos dizer isto mais de raiz, para que vos deixeis venfeer de Cristo, porque com isto vencereis o Diabo. Sabeis, que coisa é a vida de um pecador? E ' um contínuo desafio, que traz com Cristo, nosso senhor, com que sempre o anda desafiando e provocando que tome a espada de sua ira, e se meta em campo com ele. Que vos parece, que faz um pecador, quando tão sem temor de Deus está fazendo um e dois e vinte pecados mortais? Está desafiando a Cristo, está dizendo com más obras que não é poderoso Cristo, para vingar suas injúrias, pois fazendo-lhe tantas em suas barbas, não sai por elas: Irritat adversarius nomem tuum in finem. Cada pecado mortal, que comete, é um cartel de desafio, com que o está incitando a ira, e motejando de homem para pouco, pois tal sofre e dissimula, e tanto mais cresce este desavergonhamento de um pecador, quanto menos atenta Cristo por suas injúrias, et dissimulai peccata hominum propter pwnitentiam. Tentaverunt me príncipes vestri probaverunt et viderunt opara mea. Cristo, nosso senhor, para não se tomar com uma pulga e menos que pulga, e com um cão morto, que é o pecador, que ainda que ladre e rôa, morto é e abominável deante de Deus, e a ninguém faz mal senão a si mesmo, matando sua alma e empeçonhentando com o mau cheiro de sua vida a seus próximos e vizinhos: Ne persequar pulicem unam et canem mortuum, dissimula com o pecador e faz que não atente para as suas injúrias, e em lugar de lançar mão da espada da sua injustiça e dar com ele no inferno, lança mão da sua misericórdia e aceita o desafio, não para o matar, sim para o converter e fazer seu amigo. E para mais clareza entendei, que Jesus, nosso senhor, converte os pecadores de duas maneiras: uma é violenta e forçosa, porque ainda que criasse a vontade do homem livre para poder dela fazer o que quiser, e escolher o bem e o mal, todavia fica-lhe a Deus poder, como todos os teólogos concluem, para arrebatar-lhe a vontade e fazê-la querer o que ele quer, de maneira que pode Deus fazer por força a um homem, que aborreça o pecado e ame a virtude, e que de nenhuma maneira possa querer pecar. Desta maneira converteu hoje a Saulo, que foi grandíssimo e especialissimo privilegio arrebatando-lhe a vontade e mudando-lhe o mal em bem sem ele poder a isto resistir, e da mesma maneira usou com S. Mateus, segundo S. Jeronimo, o qual diz, que, em chamando-o Cristo, viu nele alguma coisa grande e mostra de sua virtude divina; com o que não pôde fazer outra coisa senão segui-lo. Por esta maneira, irmão, não esperes tu, que não há mais que um São Paulo e S. Mateus. Outra maneira de converter é ordinária e comum a todos os pecadores, da qual, diz o sábio, reliquit Deus hominem in manu conpilii sui, adjecit mandato, apposuit ignem et aquam ad quod voluerit manum suam extendat. O pecador desventurado, deixando de lançar mão dos mandamentos de Deus e guardá-los, deixando de quentar-se ao fogo do amor divino, mete-se na água das deleitações do mundo e da carne, e assim se anda ofendendo a Deus e desafiando com os seus pecados. Cristo, nosso senhor, para o converter, dá-lhe tanta graça quanta lhe basta para ele mudar sua vontade do pecado em que está á virtude, e mete-se com ele aos golpes para derrubar e vencer, se o pecador deixasse de lhe resistir. Ora, lhe dá um golpe com a lembrança da morte, lembrando-lhe que pouco há de viver nesta vida, ah! triste de mim, em que ando, que amanhã morrerei, e cá me hão de ficar todas minhas vaidades e torpezas, em que ando amontoando, com tanto perigo de minhá alma e carrego de conciência. Outras vezes lhe dá um revés de fortuna, dando-lhe perda da fazenda, dando-lhe doenças, trabalhos e morte de filhos. Outras vezes fere com o temor do juízo e inferno, a que hei de estar a juizo deante de Deus, onde todos os meus pecados, que agora trago encobertos, hão de ser manifestos deante de Deus e de seus anjos e de todo o mundo, onde hei de ser envergonhado e deshonrado, e sobre tudo lançado no inferno em perpétua deshonra e tormentos infinitos. Outras vezes lhe dá uma estocada com a espada do amor divino, trazendo-lhe á memória quanto deve a Deus, que tanto o ama. Oh! desventurado de mim, como ofendi a Deus, que é meu pai verdadeiro, que me criou á sua imagem e semelhança! Como me não lembro, que se fez homem por amor de mim, e viveu trinta e três anos com tanto trabalho, e por derradeiro foi morto em uma cruz por amor de mim! Finalmente quantas pregações ouve um pecador, quantos exemplos vê de virtuosos, quantos bons conselhos lhe dá seu amigo, quantos momentos de tempo lhe dilata Deus a vida e o espara a penitência, tantos golpes lhe dá neste desafio, para o vencer e converter e fazer seu amigo. Pois que esparas pecador? Porque te arredas de Deus? Porque lhe pões deante este coração mais duro que a pedra e mais rijo que o escudo de aço, em que recebes todos estes golpes sem sentir nenhum? Deixa-te ferir de Cristo, que não fere senão para sarar; deixate derrubar dele, que não derruba senão para alevantar; deixa-te

vencer dele, que não vence senão para coroar e fazer-te vencedor de teus inimigos. Não esperes, que tome a espada de sua ira, et acuat duram iram in lanceam contra ti; não esperes, que lance mão do seu rigoroso e justo poder et arcum conterat et confringat arma et scuta comburat igni; não esperes, que esmiuce esse arco de tua obstinação e pertinência, que tens sempre armado contra ele; não esperes, que faça pedaços todos os sentidos e membros do teu corpo, que sunt arma iniquitatis, com que pelejas contra Deus, e ofendes sem cessar, e te dê uma morte subitanea, quando estiveres mais descuidado, e que por derradeiro scutum comburat igni, queime com este fogo infernal este teu coração mais rijo que escudo de aço, que não se molenta senão a poder do fogo e marteladas dos diabos, ferreiros infernais. E se porventura me dizes, irmão, que tu não persegues a Cristo como Saulo, como suspeito, que estás dizendo em teu coração, este é ainda maior mal, e é sinal, que estás já no cabo; érpes tens nas feridas, pois estando tão chagado não o sentes. Porventura Saulo perseguia a Cristo em sua pessoa? Não, que já estava no céu glorioso, e Cristo está lhe dizendo: Saule, Saule, quid me persequeris? Porque perseguis aos cristãos, que são seus membros e ele tem dito no Evangelho: Quod uni ex minoribus fratribus méis fecistis, mihi fecistis, sive in bonum sive in málum. Dou-te um desengano, irmão, sabe que todas as vezes que pecas, persegues a Cristo e pisas o seu precioso sangue, que por ti derramou; todas as vezes que injurias e queres mal a teu próximo, injurias e queres mal a Deus, que é seu irmão; todas as vezes que o avexas e persegues com o poder de tua vara e teus cargos, a Cristo persegues; todas as vezes que andas subtilizando maneiras, com que lhe leves o seu ou lhe tires o ganho que podia haver cristãmente, a Cristo persegues e roubas todo o tempo; todas as vezes que tens a fazenda do pobre órfão e não lhá queres pagar, podendo, a Cristo persegues, e lhe bebes o sangue, como lobo faminto; todas as vezes que olhas para a mulher do teu próximo e a queres deshonrar, persegues a Cristo, seu verdadeiro esposo e marido muito mais cioso de sua honra do que seu marido; todas as vezes que mo- ves a pobre negra a pecar ou por força ou por vontade, ou consentes em seu pecado, quando ela te busca, a Cristo persegues, que é o seu verdadeiro senhor e pai, que para a salvar e tirar do pecadd quis tomar fôrma de pecador neste mundo e ser condenado á morte de cruz; finalmente qualquer pecado, que cometes contra tua alma, perseguição é que levantas contra Cristo, mais verdadeiro senhor dela do que tu mesmo. Ouve, surdo pecador, ouve a voz de Cristo, que está bradando: Pecador, pecador, porque me persegues ? Ego sum Jesus quem' tu persequeris, eu sou Jesus, a quem persegues, quando pecas; eu sou Jesus, a quem outra vez crucificas em teu coração, quando cometes um pecado mortal; eu sou Jesus, teu salvador, a quem ainda persegues e injurias, e ainda estou aparelhado para te salvar, se tu deixares de pecar. Abre, irmão, as orelhas dalma, e ouve estas tão piedosas palavras do teu pai; abre o coração e deixa-o ferir com a espada do amor e misericórdia de Cristo, deixa-te derrubar a seus pés, dizelhe: Domine, quid me vis facere? Et sua serva mandato, se queres entrar na vida eterna; e para o melhor fazeres, derruba-te aos pés do confessor muitas vezes, dizendo-lhe: Domine, quid me vis facere? Senhor, e confessor, e pai, que estais em lugar de meu senhor e meu Deus, que quereis, que faça para tornar em graça com ele? Vêdeme aqui a vossos pés, mandai, que eu farei, cortai por mim e tiraime as érpes, de que já quasi estava comido sem sentir meu mal; aparelhado estou para fazer o que mandardes para salvação de minhá alma. Desta maneira te converterá Deus e te fará seu amigo, como fez hoje a Saulo, o qual, derrubado no chão do cavalo de sua soberba, de Saulo, soberbo que era se tornou São Paulo, que quer dizer pequeno, humilde e obediente, e como tal perguntou logo: Domine, quid me vis facere? Responde-lhe Cristo, nosso senhor: Procedere civitatem et dicebo tibi te oprteat facere, onde notas, que a ninguém ensina Cristo o caminho da sua salvação, nem se pode salvar, se primeiro não entra na cidade da santa Igreja, sujeitando-se á santa fé católica e aos prelados dela, como é o papa, bispos, vigários e seus superiores seculares, como são capitães, ouvidores e juizes, quando

mandam o que é justo; porque nesta santa Igreja, que é cidade de Deus, tudo se rege e governa por obediência, et sicut non est aliud nomem sub coélo nisi Jesus, ita nec alia ecclesia nisi Romana, sponsa Jesu, in qua oporteat nos salvos fieri. Levanta-se São Paulo do chão cego na vista do corpo, mas dentro dalma todo cheio de sabedoria celestial, e alumiado com o resplendor da fé, entra na cidade de Damasco, já não a beber sangue dos cristãos como lobo cruel, mas a banhar-se todo no sangue de Jesus Cristo como manso cordeiro, e lavar com água do santo batismo o muito sangue, que tinhá derramado, com que sua alma estava ensangüentada; está orando três dias in mentis excessu, onde ouviu arcana verba quoz non licet homini loqui, e aprendeu o Evangelho per revelationem Jesu Christi. Vai Ananias, por mandado do Senhor, a batizá-lo, com o que sua alma, que estava rubra sicut vermiculus pelo muito sangue dos cristãos, que tinhá feito derramar, ficou alba sicut nix, lavada no mar cristalino do santo batismo. Dali a poucos dias ingressus synagogas confundebat Judeos et predicabat Jesum, quoniam hic est Christus filius Dei, e o mesmo fez por todo o mundo, pregando e advertindo os gentios, e assim o bom de São Paulo, de roubador que antes era, se faz guardador, de lobo pastor, de perseguidor pregador e doutor das gentes; e acabou-se de cumprir a profecia. Benjamim, lúpus rapax, mane comedit prcedam et vespere dividet escas vel espolio. São Paulo, dai tribu de Benjamim, pela manhã, que foi em sua mocidade e no principio de sua vida como lobo tragador, andava comendo a presa, perseguindo os cristãos e fartando-se em suas carnes, et vespere dividet escas, e logo á tarde, que foi depois da sua conversão, anda a repartir manjares, apascentando as ovelhas de Cristo como pastor da palavra divina e ensinando e repetindo os mistérios da fé com os gentios, que são verdadeiros manjares dalma, como ele diz de si mesmo: Sic nos existimet homo sicut ministrus Christi et dispensatores mysteriorum Dei. Vespere dividet spolia, á tarde reparte os despojos, convertendo muitos á fé e despojando o Diabo, que os tinhá cativos na mão e pondo-os na mão de Cristo e debaixo de sua obediência, entregando-lhes como despojos tomados na guerra com a espada da palavra divina, que ele pregava, qui penetrabilior omni gladio ancipiti, dos quais despojos lhe cantaria a santa Igreja:Deus, qui multitudinem gentium beati Pauli apostoli predicatione docuisti. Este é, irmão, nosso mancebinho Benjamim figurado no outro Benjamim, filho do patriarca Jacob e muito mais excelente que ele. Dos filhos de Jacob (como sabeis) o mais pequeno foi Benjamim, gerado já na velhice do pai e nascido no caminho, vindo para Belém. Dos filhos do nosso verdadeiro Jacob, Cristo, que são os apóstolos, Paulo foi o derradeiro convertido depois de Cristo subir ao céu e nascido na cidade de Damasco. E ainda que na verdade não era o mais pequeno dos apóstolos senão porque se converteu por derradeiro de todos, porém nos trabalhos e perseguições por amor de Cristo ele era dos primeiros, pois abundantius omnibus laboravit, e assim como Jacob amava mui ternamente a São Paulo, comunicando-lhe grandíssima abundância de graça, da qual ele diz: Gratia Dei sum id quod sum et gratia ejus in me vácua non fuit, tanto que omnia possum in eo qui me confortai. E ainda que tudo isto é verdade, com tudo era tão grande sua humildade que se tinhá por o mais pequeno dos apóstolos e indigno de ser chamado apóstolo: Ego sum minimus apostolorum, qui non sum ãignus vocari apostolus, quia persecutus sum ecclesiam Dei. E como quer que ele trazia deante dos olhos dalma a estremada humildade de Cristo, seu pai e senhor, de quem dizia: libenter gloriabor in infirmitatibus méis, ut inhabitet in me virtus Christi, o qual se tinhá feito e chamado vermis et non homo, opprobrium hominis et abjectio plebis, e porque o próprio dos bichinhos é andar nos monturos, fazia-se São Paulo monturo e estéreo do mundo, não somente tendo-se por um monturo de pecados, chamando-se a si mesmo persecutor et blasphemus, mas também sendo tido do mundo por tal, e gloriando-se que o tivessem e tratassem todos como tal: facti sumus tamquam purgamenta hujus mundi, omnium peripsema usque ad huc, e nisto me glorio, por que mofe em mim a humildade de nosso senhor Jesus Cristo, que se fez bichinho por amor de mim.

Benjamim nasceu com grande dôr e trabalho da sua mãe Raquel e quasi abortivo e movido, e ela em nascendo lhe chamou Bennomim, que quer dizer filius doloris mei. São Paulo nasceu com grandíssimo trabalho e dôr de sua mãe a santa Igreja, e ele se chama a si mesmo abortivo e quasi movido: Novíssimo omnium tamquam abortivo, cujus est mihi. E sua mãe lhe chama Bennomin filius doloris mei, filho de minhá dôr, que tantas dores me causaste primeiro que te parisse, fazendo prender e maltratar a tantos de meus filhos. Benjamim em certa maneira foi matador de sua mãe Raquel, porque de seu parto morreu ela; São Paulo foi matador e destruidor de sua mãe a sinagoga, porque nenhum dos apóstolos tanto trabalhou por desarraigar as cerimonias da lei velhá como ele para edificar a nossa e a fé de Cristo, nosso senhor, sofrendo muitos trabalhos e perseguições, até ser muitas vezes açoitado e derramar seu sangue para desfazer a sinagoga e suas cerimonias, que já não aproveitavam para a salvação, como se vê em muitos lugares de suas epístolas, e imprimir nos corações dos homens a liberdade dos filhos de Deus e a graça da lei evangélica. E com razão lhe chama ela Benjamim, pois tão grande dôr e raiva lhe causava, vendo que por suas pregações se desfaziam suas cerimonias e se aumentava a fé de Jesus Cristo, cujo nome ela desejava totalmente tirar do mundo. E ainda que Raquel chama seu filho Bennomin, porém seu pai Jacob lhe chama Benjamim, filius dextroz, ainda que a sinagoga e a igreja chamam a São Paulo filho da minhá dôr, todavia seu pai Cristo lhe chama filius dextrce, porque a mão direita e favor e graça de Cristo, nosso senhor, o trazia sempre debaixo de seu amparo, como se vê em todo o decurso de sua vida; filius dextrce, porque com o'poder da mão direita de Cristo vencia a reis e tiranos, pregando deante deles a fé sem nenhum temor, e fazia muitos milagres, virtudes que non quaelibet faciebat Dominus per manus Pauli; filius dextrce, porque ele andou pregando por todo o mundo o poder da mão de Cristo, nosso senhor, e da sua divindade, fazendo que tanta multidão de gente se sujeitasse e pusesse debaixo de sua mão; finalmente filius dextrce, porque no dia do juízo há de estar á sua mão direita, não como qualquer dos escolhidos, senão com mui especial privilegio sentado numa cadeira como juiz, judicando duodecim tribus Israel. Este é o nome, que põe Cristo a este seu filho, que hoje lhe nasceu, que é o que hoje lhe chamei, dizendo: Vas electionis est mihi iste, vaso escolhido, vaso d'ouro lavrado com muitas pedras preciosas de virtudes, vaso tão puro e limpo, em que Cristo, nosso senhor, infundia tanta abundância do suavíssimo licor de sua graça, vaso sagrado, que tantos milhares d'almas recebeu em si e pôs* na mesa de Cristo. E porque não vos pareça novo este nome de vaso escolhido, que Cristo, nosso senhor, põe a São Paulo, ouvi e entendereis. Havéis de imaginar, como é verdade, que Deus é uma fonte viva e perenal de misericórdia e justiça, que é impossível exgotarse; e todas quantas almas criou e há de criar são vasos, em que ele há de infundir este licor. E como diz o mesmo São Paulo, assim como in magna domo non solum sunt vasa áurea et argentea, sed et lignea et fictilia, et aliud quidem in honorem, aliud sunt in contumeliam; assim, nesta grande casa de Deus, rei eterno, há vasos de ouro e prata, que São Paulo com os outros apóstolos, mártires e santos qui tanquam aurum in fornace probati et examinati sunt sicut argentum, dignos de ser postos na mesa. de Cristo para neles ele comer e beber grande mutidão de almas, que se converteram, que é seu verdadeiro manjar, quia sicut cibus meus ut faciam voluntatem patris mei, que in ca&lis est, assim o meu verdadeiro manjar são os que fazem a vontade de meu padre. Há também outros vasos de pau e de cobre e outros metais, que são os que trabalham por guardar os mandamentos de Deus e a poder de machadadas e marteladas da penitência e confissões e boas obras se lavram para receber em si o licor da misericórdia e graça divina. E todos estes vasos são vasos in honorem et gloriam eternam escolhidos. E dos pecadores que diremos? Lastima é grande e mágua dizê-los, mas di-lo Jeremias, com grandes suspiros e dôr de seu coração: Reputati sunt in vasa testea, opus manuum figuli. São vasos de barro, obras das mãos do oleiro infernal; enquanto são homens, verdade é, que são obra de Cristo, nosso senhor, soberano

mestre e criador, que omnes homines vult salvos fieri, e porém eles, por seus pecados fizeram-se obra das mãos do oleiro infernal, que é o Diabo, feitos na roda do pecado, da qual diz Daniel: In circuitu impii ambulant. Os maus e pecadores andam sempre na roda como vasos de barro postos na mão do oleiro, sempre andam na roda do pecado, acabando donde começaram, e começando donde acabaram, tão maus no princípio da vida como no cabo dela, tão maus na velhice como na mocidade, sem nunca acabarem de dar voltas nesta roda e irem caminho direito da glória. Verdadeiramente sunt vasa testea, pois podendo com a graça divina, que nunca falta, fa-. zer boa obra, e ser vasos escolhidos in honorem, eles por seu» pecados se fazer recolher em si toda a sujidade do mundo e com ela serem lançados á perpetua deshonra do inferno. Este é o pregão, que Jeremias dá ao pecador. Quereis ainda ouvir outro? Dir-vo-lo-ei. Não somente é vaso de barro, mas também esburacado e fendido, que lança fóra de si quanto lhe lançam dentro; tantos buracos e fendas tem a quantos vicios e pecados é sujeito. Deseja Deus, nosso senhor, fonte divina, que nunca se exgota, infundir no pecador o suave licor e óleo de sua misericórdia pelos canos de seus mandamentos e salvá-lo; e o pecador derrama-o pelos buracos de seus vicios e condena-se; quer Deus derramar no pecador o óleo de sua misericórdia, dizendo-lhe: Non assumes nomem Dei tui in vanum, e o pecador lança fóra de si pelo buraco de sua boca infernal, jurando e perjurando, mentindo e blasfemando o nome de Deus e de seus santos. Quer Deus lançar no pecador o licor de sua misericórdia pelo cano do amor do próximo, dizendo-lhe: Non occides, non furtum facies, non falsum testimonium dices. E o pecador derrama pelos buracos da sua ira e avareza, a inveja, tendo-lhe ódio, e perseguindo-o, furtando-lhe a fazenda e roubando-o, pesando-lhe com seu bem e folgando com seu mal, infamando-o e mexericando-o, e fazendo que os outros também o roam. Vasa iniquitatis bellantia in concilium eorum non ineret anima mea, quia in furore suo oceiderunt virum, maledictus furor eorum, quia pertinax, dividam eos in Jacob et disperdam in Israel. Vasos de maldade e injustiça, que

nunca andam senão buscando guerras e discórdias com seus próximos, e por fartar o apetite de sua ira matam com a lingua e com o coração a seus irmãos; não entre minhá alma no ajuntamento destes. Livre-me Deus de tão má companhia. Maldito é e será de Deus seu furor e ira, pois com pertinácia e sem razão perseguem a seu próximo; e o castigo destes, sabeis qual será? Dividam eos in Jacob. Apartá-los-á Deus da companhia dos vasos escolhidos de Cristo, verdadeiro Jacob, e não terão quinhão na gloria com os filfios de Israel, mas serão espalhados no caminho do Inferno: Quia qui non diliget, manei in morte. Quer Deus infundir no pecador o óleo de sua misericórdia, pelo cano da castidade dizendo: Non fornicaberis, e ele lança-o fora pelos buracos de sua luxuria. Meretrix ut stercus conculcabitur in vw transeuntibus; a mulher, deshonesta e desavergonhada, não há dúvida, que é senão um vaso de sujidade posto no caminho para ser sujado e enxovalhado de todos os que passam, e a alma de um luxurioso e sem vergonhá é outra tal, vaso é de estéreo posto no caminho deste mundo, onde os porcos infernais se revolvem, deleitam-se e fazem sua morada. Quer Deus infundir no pecador o licor de sua misericórdia, dizendo-lhe: Sabbata santifices, e ele derrama fora pelos buracos de sua cobiça, estando quinze, vinte dias e um mês e mais na sua roça, e queira Deus, que não seja trabalhando os dias santos, por princípio do trabalho, que há de ter no inferno, se se não emendar, e de pouco cuidado, que tem de sua alma, vem não ter conta com sua gente; não lhe dá nada, que seu escravo não se converta á doutrina ou missa, antes ele mesmo os não deixa vir; não lhe dá nada, que sua negra cristã esteja amancebada com o indio infiel; não tem de vêr de que seu escravo não conheça a Deus e as coisas da fé para se salvar, e que morra sem confissão; não há de gostar das pregações e missas e confissões, nas quais infunde Deus o óleo de sua graça e misericórdia; se em alguma hora se tapam estes buracos com a confissão e com um jubileu como este, logo se tornam a destapar com os pecados, não cumprindo o que ficam com os confessores.

Per estes buracos se tem coado e derramado todo o licor da antiga devoção deste povo. P. P. quis te fascinavit? Muita devoção e virtude havia em ti; que olhos de bruxas infernais te enfeitiçaram e te lançaram a perder! Bene currebas, vila de São Paulo, para caminho dos mandamentos de Deus para seres vaso escolhido como ele. Quem te esburacou e fendeu e fez entornar o licor da graça, que tinhas? O' pecador desventurado, morador do Brasil, vaso de barro esburacado e fendido com mil vicios e pecados, que não podes guardar em ti o óleo da misericórdia divina, de que Deus quer usar contigo, que esparas senão seres feito vaso de ira cheio de borra? E porque assim como por um vaso fendido ainda que se côe o licor subtil e delgado, todavia lhe fica dentro a borra, que é grossa, assim tu, que és vaso fendido, lanças fóra o licor subtil da misericórdia e graça de Deus e ficas cheio da borra de teus pecados, com a qual se mistura a borra da ira de Deus, a qual não se pode coar, quia fex ejus non est exinanita, diz David; a borra da ira de Deus não se pode adelgaçar nem coar; e sabes por quê? Porque não se côa a de teus pecados; entesouras a borra de pecados, também thesaurisas tibi iram, fartas-te da borra dos pecados, também te has de fartar da borra da ira de Deus, ainda que te pese, quia bibere omnes peccatores terrce: e sabes que borra é? Ignis et sulphur et spiritus procellarum pars calicis eorum. Desta te has de fartar, se te não emendas; e sabes quando? Quando Cristo, nosso senhor, com a vara de ferro da sua justiça, tamquam vas figuli confringet te, dando contigo no inferno para sempre. Mas porque a paciência e misericórdia de Cristo, nosso senhor, é tão grande que inspirou a Paulo, tão grande perseguidor, e o converteu e fez vaso escolhido, também podes confiar, que te inspirará a ti, se tomares o remédio, que a ele lhe deram, que foi ingredere civitatem. Já que nesta cidade da santa Igreja tens entrado por fé, pois és cristão e batizado, entra também nela por caridade et serva mandato como bom cristão, que sem isto por demais esparas. E para que isto melhor possa-se fazer, dar-te-ei outro remédio mui singular, e é ingredere civitatem, entra na cidade da glória, para a qual foste criado, cuidando nela muitas vezes.

Queres, irmão, não embaraçar-te nos deleites e tratos deste mundo? Ingredere civitatem, entra com tua consideração na cidade do céu, lembrando-te que non habes hic permanentem civitatem, sed futuram inquiris, lembrando-te que és hospede e degradado neste mundo, e que no céu está tua própria natureza, e a cidade em que has de morar para sempre. Queres, irmão, não sentir o trabalho dos mandamentos de Deus e da penitência? Ingredere civitatem, entra na cidade da glória, cuidando que ainda tu só poderás sofrer os trabalhos Mesta vida juntos muitos mil anos com um só momento, que te dessem entrada naquela gloriosa cidade, te pagarão muito mais do que merecias, quia non sunt condignos passiones hujus temporis. Queres, irmão, ser vaso escolhido de Deus? Ingredere civitatem, entra na cidade da glória, lembrando-te que a poder de marteladas e pancadas se lavram os vasos, que lá entram, e com isto te parecerá suave o peso da obediência, pobreza, castidade, fome, sede e trabalhos que padeces. Queres finalmente não pecar? Ingredere civitatem, entra na cidade da glória, lembrando-te que diz S. João, que lá nihil coinquinatum introibit, não entra lá a soberba, nem a inveja, nem outro pecado, não entram lá olhos deshonestos nem orelhas aparelhadas a ouvir mexericos, nem lingua maldizente, nem mãos que obram maldade. Ingredere civitatem, irmão, desejando de ver já a formosura da glória, e dize como David: Gloriosa die dicent de te civitas Dei, et concupiscit anima mea in atria Domini. E. se queres ainda remédio para entrar nesta cidade, dou-te o mesmo: Ingredere civitatem, entra na sacratissima humildade de Cristo, que é cidade da divindade, cuidando nas estremadas virtudes, de que é edificada, e lembrando-te que trinta e três anos padeceu o desterro neste mundo para ensinar o caminho desta cidade da glória, e abriu suas mãos e pés e o coração para te abrir a porta do céu. Desceu o filho de Deus ao mundo a tomar nossas enfermidades sobre si para as curar, vere languores nostros ipse tulit, fez-se pobre, faminto, hidropico, leproso e paralitico. Estávamos degrada- dos do paraíso pelo pecado; era necessário para remédio de nosso degredo, que tomasse também esta pena sobre si. Desterra-se o filho de Deus daquela sua santa cidade da glória trinta e três anos, tão desconhecido como um estrangeiro peregrino: Extraneus factus sum fratribus méis et peregrinus, tão degradado e desconhecido que posto no horto com o suor de sangue, desconsolado e desamparado como estrangeiro, te está cavando o pão, com que te sustenta no caminho desta cidade. Tão degradado e desconhecido que, posto na cruz, está bradando com Barrabraz ad dexteram et videbam et non erat qui cognosceret me, porque ainda que á sua mão direita estava a Virgem Santíssima, sua mãe, que mui bem o conhecia, todavia estava posto em tão grande estremo de miséria e deshonra e tão desfigurado que mui bem pudera desconhecê-lo; pois via o rei da glória posto entre dois ladrões, e aquele que est speciosus forma pro füiis homirmm in quem desiderant angéli prospicere, tão afeiado que non est ei aspectus neque decor, e parecia um leproso et percussus a Deo; e aquele a quem decies centena mülia angelorum expectant in cozlo era desamparado na terra de seus discípulos e cercado de inimigos. Pouco é o que digo para o muito que o nosso bom Jesus padece por nosso amor. Está tão desconhecido e desterrado naquela cruz, que nem seu pai celestial o conhece e nem lhe açode, pois bradando ele: Deus meus, Deus meus, quid dereliquisti me? dissimula com ele, e faz que o não ouve, como quem diz: Pois se fez tão amigo dos degradados que se quis fazer degradado como eles, que morra como degradado e desamparado na cruz. E morre o filho de Deus e despojára-se aquela cidade de sua humanidade, apartando-se a alma do corpo para romper os muros da cidade celestial, por onde tu entres. Rompe tu também, irmão, este teu duro coração, para que entre Cristo nele; deixa de pecar, pois vês, que na cidade do céu não entra o pecado. Deixa-te vencer de Cristo, sujeitando-te a seus mandamentos, que poderoso é ele com sua graça para de vaso de barro que és fazer-te vaso de ouro e de prata escolhido, e posto á, sua mesa celestial: Ad quam.

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Sinopse

Leia gratuitamente Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, de José de Anchieta, obra colonial brasileira em domínio público. Esta edição digital consolida cartas, informações, fragmentos históricos e sermões quinhentistas em 38 capítulos internos, com texto curado a partir da edição de 1933 via BLPL/UFSC e Etnolinguística/Mindlin, notas editoriais separadas do corpo principal, espelhos HTML e preparação para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA no Literunico.

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