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Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

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Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Capítulo 37 · Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Sermão de 1567

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XXXVII SERMÃO DE 1567

Dominga 20 post Pent. 26-X-1567 — Sancti Vincenti. IESUS, Maria. ** Domine descende, priusquam moriatur filius meus. Há um pai rico e poderoso, que tem um filho que muito ama, a quem há de deixar por herdeiro de seus bens, o qual pretende que seja virtuoso e saiba estimar a fazenda, que lhe tem ganhada e empregá-la bem em boas obras e chegar a ser homem, que saiba reger casa e familia com siso e prudência; se vê que o muito mimo lhe faz mal e a muita fartura e abastança de riquezas e boa vida que tem com ele, é coisa de se perder, manda-o fóra a terras estranhas, onde padeça fomes, trabalhos e muitas necessidades, pelos quais venhá a conhecer e sentir a falta que lhe faz seu pai, e quanto lhe custou ganhar-lhe fazenda, e deseje tornar a ele. Deus Nosso Senhor, pai nosso tão rico e tão poderoso, tinhá um filho, que muito amava, que é o homem, ao qual havia de fazer herdeiro de todos os seus bens na glória, que é dar-se-lhe a si mesmo, que é todo o bem. Tinha-o posto em muito mimo no estado de inocência, dando-lhe toda a abastança de riquezas temporais, sujeitando-lhe todalas coisas ao seu mandado e fazendo que todas lhe obedecessem; dando-lhe todalas graças e dons espirituais, com que soubesse reger-se a si e a todos os que dele haviam de vir. Não soube este filho aproveitar-se de tanto mimo e riquezas, que tinhá naquele estado; antes deitou-se a perder, ensoberbecendo-se com elas. Que remédio? Manda-o Deus a terras estranhas, lança-o fora daqueles

mimos que tinhá no paraíso terreal, para que in sudore vultus sui com esse seu pão, e a terra spinas et tribulos germinarei, e come», casse a sentir fome e sede, frio, calma e outras necessidades, para que, já que naquele primeiro estado, com a muita fartura não soube conhecer a grande liberalidade e bondade de seu pai, agora com as muitas necessidades e trabalhos conheça a míngua, que lhe faz, e sinta de verdade que sem ele não pode viver e trabalhe por se pegar a ele em tudo. Por aqui poderemos entender quão grande é o proveito, que causam os trabalhos e necessidades aos amigos de Deus, pois os fazem chegar-se mais para ele; porque, ainda que é verdade que todos os trabalhos e misérias, que padecemos nesta vida, nos vieram pelo pecado de Adão, que foi a primeira causa dele, e depois pelos nossos, que foram a causa de se acrescentarem, todavia Deus Nosso Senhor, como é autor de todo o bem e non secundum peccata nostra ffi.cit nobis, ao menos enquanto vivemos, porque sempre nos espara a penitência, todos estes males e penas nos converte em bem, dandono-los para por eles nos livrar do mal maior de todos, que_ é o pecado, e da pena do inferno, que por ele justamente se merece. No qual claramente nos mostra suas misericordiosas entranhas o amor de pai, como ele mesmo nos diz na Sapiência: Quis est filius, quem non corripit pater: ac si diceret: Sabeis homens porque vos castigo? porque vos tenho por filhos, criados á minhá imagem e semelhança, e sou vosso verdadeiro pai, que vos amo eternamente. E este amor, que vos tenho vos amostro em vos castigar e dar trabalhos nesta vida, quia ego quos arguo et castigo. Aos que amo e tenho guardados para minhá glória, a estes repreendo eu de seus vícios e pecados; a estes dou eu açoites e castigos, mas porém é castigo de pai para filhos, que tudo procede de amor; e não pretende matar-nos, mas dar-nos vida eterna. Percutiam et ego sanabo, diz ele; ferirei e eu mesmo sararei. Sabeis, meus irmãos, para que vos fere Nosso Senhor ? Para vos sarar. Fere-vos com perdas temporais da fazenda, para que trabalheis por não perder os bens eternos, de que vos quer fazer herdeiros no céu; permite que sejais afrontados e vos venhá alguma deshonra, para que não vos fieis das honras do mundo, q*ue é falso, e honra para deshonrar e cuideis quanta maior deshonra será serem descobertos todos os nossos pecados deante de todo o céu e a terra no dia do juizo e dali virdes ter aquela deshonra eterna do inferno, e ser pisados debaixos dos pés dos demônios. E com medo disto, como diz David, imple fades eorum ignomínia et quaerent nomen tuum, Domine, vendo-vos afrontados do mundo e com o rosto cheio de vergonha, busqueis o nome e honra de Deus Nosso Senhor, guardando seus mandamentos, que é a verdadeira honra e caminho certo para alcançar a honra eterna do céu. • Fere-vos com enfermidades e doenças para que escapeis daquela doença incurável do inferno, ubi nulla est redemptio, onde não há mezinhá nem remédio, para que vendo-vos enfermos, cercados de dores e angústias e cheios de chagas, cuideis nas chagas, que têm feito os pecados em vossa alma e comeceis a gritar com dores de contrição e arrependimento deles, miserere mei Domine quoniam infirmus sum, sana me Domine; e corrais a buscar o remédio deles a Cristo Nosso Senhor; que para isso vos deu esta doença, para que, já que não sabeis conhecer o bem, que tendes quando vos dá saúde, antes usais dela para ofensa do Senhor, que vo-la dá, ao menos na doença vos saibais tornar a ele e alcançar perdão de vossos pecados, e dali em deante tragais sempre na mente o que ele disse a um enfermo, ecce jam sanus factus est, noli ampius peccare, ne tibi aliquid deterius contingat. Não te torne a dar outra doença de que não mais te alevantes, deixando-te encher de chagas ou outra coisa semelhante e o que é mais para sentir, não vos dar contigo naquele poço de doenças e abismo de misérias e penas infinitas para sempre. Finalmente todolos trabalhos e necessidades de qualquer maneira, que sejam, que vos permite vir nesta vida, são feridos de sua piedosa mão, que procedem do infinito amor, que nos tem e desejo de nos salvar, para que por elas conheçamos as feridas da alma e tratemos de as curar, chegando-nos a Cristo Nosso Senhor, verdadeiro médico e pai nosso, que, ainda que seja a poder de pancadas e de nos dar muitas feridas, nos quer levar á glória e dar-nos a eterna saúde. Como um cirurgião, que dá um botão de fogo a seu filho, ou lhe corta uma mão em que entram érpes, o qual, ainda que pareça crueldade, não é senão grande misericórdia e amor, pois com

aquela ferida lhe sara todo o corpo e de maneira que os trabalhos e misérias desta vida, doenças, perdas e outros castigos de Deus para nosso bem nos são dados e mostras são do amor, que nos tem Nosso Senhor se queremos ser seus verdadeiros filhos e com semelhantes castigos entrar em nós, deixando os pecados, que Deus aborrece e tornarmo-nos a ele de verdade, guardando seus mandamentos, como fizeram muitos, Esequias, Manasses, Jonas, e t c, os quais appropinquaverunt usque ad portas mortis et clamaverunt ad Dominum, etc. Mas tomemos o exemplo, que temos entre as mãos, deste regulo do qual diz o Evangelho quod venit ad Jesum et deprecabatur eum ut descenderet et sanar et filium ejus, incipiebat enim mori. Muitos dias havia que este regulo tinhá ouvido a fama de Cristo Nosso Senhor e que tinhá feito o milagre do vinho nas bodas e outras coisas, que se prègoavam de suas grandes virtudes, quia exierat opinio ejus in universam Syriam, que era uma região tão grande. Mas nada disto afastou para o trazer deante de Cristo Nosso Senhor, ainda que cria que era algum profeta. E, porém, como se viu ferido, vendo seu filho á morte, logo correu a Cristo pelo remédio. No qual se nos dá a entender que muitos cristãos há no mundo ou por melhor dizer, a maior parte deles et ex nobis os quais muito tempo há que têm ouvido a fama de Cristo Nosso Senhor, pois desde a sua meninice beberam a fé com o leite, que mamaram, e sem saber que é ele Deus verdadeiro feito homem por seu amor, bem sabem que morreu na cruz com grandíssimos tormentos pólos salvar, bem sabem que é o paraíso para os bons e inferno para os maus, bem ouvem contar os seus milagres e vida nos púlpitos, e porém estão tão descuidados que cuidam que não lhes toca isto nem falam com eles; e deixam-se estar em pecado um ano, e dez e vinte e mais, sem se chegarem a Deus Nosso Senhor, sem cuidarem de amar sua bondade, tão imensa e tão digna de ser amada, sem lançarem mão de seus santos mandamentos para os guardar e com eles honrar a sua divina magestade, até que lhes dá Nosso Senhor um açoite, acham-se numa doença perigosa, vêem-se ás portas da morte, então se chegam e vêm correndo a Cristo Nosso Senhor, a pedir-lhe remédio para seus males e perdão de seus pecados; então determinam de mudar de vida, e viver como homens, que hão de morrer e ir viver no céu ou morrer no inferno para sempre. Mas aviso-vos, irmãos, que assim como isto é grande misericórdia de Cristo Nosso Senhor, que usa convosco, assim é grandíssima ingratidão do pecador, que se esquece dela e se torna á sua má vida. É logo necessário e mui grande remédio para isto lembrarmo-nos sempre do incipiebat enim mori. É necessário que cada um de nós se ponhá a cuidar no tempo em que Deus Nosso Senhor lhe deu algum açoite destes com que o fez tornar a si. Quando eu estive á morte de tal doença, em que já não fazia conta da vida, quando me achei em tal tormenta ou perigo no mar, em que já estava com alma no papo e tudo dava já por acabado, quando em tal guerra estava cercado e quasi tomado dos inimigos sem esparança de poder escapar, quão grande sentimento tinhá de me ver cheio de pecados e vazio de boas obras, quão grande dor tinhá de haver vivido mal, com quão grandes e verdadeiros propósitos estava de me emendar e viver bem, se Nosso Senhor me livrasse daquele trago, incipiebam enim mori, pois porque me esqueço agora daquele tempo e daqueles tão bons propósitos, pois sou certo que me hei de tornar a achar em outros tais, pois que um dia ou outro hei de morrer, pois porque me não confesso, porque não faço agora boas obras e trabalho de estar sempre em graça e amizade com Deus que me há então de valer mais que todo mundo! Incipiebam mori. Grande mercê de Deus dar a conhecer a uma alma que começa já a morrer e ditosa quando o conhece todalas vezes que Nosso Senhor dá conhecimento de um mau caminho, que levávamos, em que vamos perto de fazer algum pecado mortal ou receber algum dano notável, tantas vezes me dá a entender isto, incipiebat mori. E é de grande misericórdia sua. Quantas vezes acontece a uma alma temente a Deus incipiebat mori, quia initium vitae est initium mortis que trabalhá por guardar seus mandamentos e antes morrer que quebrantar nenhum deles quantas vezes lhe acontece descuidar-se de Deus e fazer pouco caso das coisas pequenas, senão quando se achá quasi quasi nas grandes. Exemplo: começa a tomar conversação com uma mulher ainda que seja com mui boa intenção e sem nenhum mal; senão quando ele por descuido e pouco caso que fez disso, começa a sentir em si maus pen-

samentos, começa já a olhá-la ou ela para ele com olhos pouco casrtos, começa a desmandar-se em risos e palavras; e o diabo atiça por sua parte quanto pôde; a carne pela sua. Todavia como ele traz o tento de sua alma posto em não fazer nenhum pecado mortal, torna em si pela bondade do Senhor e larga a tal conversação, dizendo comsigo, incipiebam mori, eu já começava a morrer, perto estava de fazer algum grande mal ou pelo menos consentir num pecado mortal e dar escândalo com minhá muita conversação. Nisi quia Dommus adiuvit me paulo minus habitasset in inferno anima mea. Incipiebam enim mori. A um religioso que deve de fiar ainda mais delgado, que deve de trazer o tento não somente em não pecar mortalmente mas também em andar dependendo da vontade de Deus, desatado de toda a afeição da terra e atado com ele somente, muitas vezes cuidara que tudo estava em paz dentro de sua alma e que não mora nela nenhuma outra afeição senão o amor de Deus. E, porém, ele estava afeiçoado a se confessar ou pregar e ser conhecido do povo. Manda-o seu superior á cozinhá e que não entenda mais em confissões . Então sente a ferida e lhe dói muito tirarem-no do foro em que estava posto e então conhece o laço que lhe tinhá sua soberbia armado de dentro e começa a dizer incipiebam mori. E ele estava afeiçoado e tinhá lançadas raizes na terra com devotos e amigos. Mandam-no mudar para outra parte. Sente nisso trabalho; e então conhece que nem tudo era Deus; torna em si, dizendo, incipiebam enim mori. Tinhá dentro de si criado um desgosto de um seu irmão; não o tinhá ora em tanta conta; não lhe pareciam muito bem as suas coisas. Ordena a divina providência que lho façam seu Superior. Começam então a descobrir-se os desgostos que antes não se sentiam; faz-se-lhe de mal sujeitar-se a ele; parece-lhe desordenado e de má condição, e que basta para fazer perder o siso aos outros e dar com eles fóra da religião. Então cai na conta e conhece quão longe estava da verdadeira humildade e caridade e começa a dizer: incipiebam mori, etc, e corre com grande pressa a Cristo Nosso Senhor, cuidando de raiz em suas grandes virtudes e abraçando-se com ele, dizendo-lhe com David, quia mihi est in ccelo et a te quid volui super terramf Ah, triste de mim, quão enganado vivia, que cuidava que não havia outra coisa em minhá alma senão o vosso amor, meu Deus, e que todo estava já metido no céu, e, porém agora vejo que quid mihi est in ccelo! Vejo que não tenho lá nada, pois não vos amo a vós puramente sem outra mistura das criaturas e de meu próprio amor: Et a te quid volui super terram? Que coisas andava eu amando sobre a terra, sem vós e fóra de vós, pois me traziam roubado meu amor e meus apetites e afeições; estava namorado da minhá soberbia e própria estimação e cuidava que vós só ereis o amor de meu coração, que o tinheis todo ocupado. Incipiebam mori, meu Senhor, se me não acudíreis com a vossa divina graça. Desta maneira se acolhem a Cristo Nosso Senhor os que se sentem em semelhantes necessidades, como fez este regulo, vendo seu filho á morte. Mas vejamos que lhe respondeu Nosso Senhor, em que lhe acudiu. Nisi signa et prodigia videritis, non creditis. Dixit in Ma. Nosso Senhor com ele, e mudou-lhe a prática; e emfim não quer ir com ele a curar-lhe o filho, mas de cá lho sara, dizendo-lhe: Vode, filius tuus vivit. Do centurio escreve S. Mateus, que indo pedir remédio para um seu criado, que estava doente, logo se ofereceu Nosso Senhor: Ego veniam, et curabo eum. E era a este regulo, que era uma pessoa tão poderosa, que lhe pedia que fosse sarar seu filho, não quer ir. Usou Nosso Senhor com cada um destes segundo a fé, que tinha. Ao centurio, porque cria, bastou uma só palavra de Cristo, como ele disse: Domine, non sum dignus, e t c, oferece-se para ir com ele a sua casa, porque sua grande fé o merecia. E ao regulo, porque cria que Nosso Senhor não podia sarar, se não estivesse presente, porque o não tinhá mais que por um homem santo, não quer ir com ele, mas de cá lho sara, para que ereia que é verdadeiro Deus, que em todas as partes está presente. E assim foi que com isto acabou aquele de crer, vendo que naquela mesma hora sarara, em que lhe disse Nosso Senhor: Vade, filius tuus vivit. Credidit ipse et domus ejus tota. Outra causa por que Nosso Senhor se houve desta maneira com

estes dois homens, (como diz S. Gregorio) é porque nos quis ensinar a ser humildes e que não desprezemos os baixos. Como quer que Cristo, filho de Deus, venhá a abaixar a soberbia dos homens e dar-lhes exemplo de toda a humildade em si mesmo, em tudo lhe quis dar, a um filho de um regulo, um homem tão poderoso, que lhe estava pedindo, não quer ir; e a um servo do centurio, que era um homem muito mais baixo, oferece-se de muito boa vontade, quia excelsus Dominus et humilia respicit et alta a longe cognoscit. Altíssimo é o Senhor e olhá para os baixos e folga de conversar com eles e servi-los; e os altos, os que cá na reputação do mundo são tidos por grandes, a longe cognoscit; de longe, não cura muito da sua conversação. Para que entendam os homens sua grande soberbia e se envergonhem deante de Deus; pois sendo tão baixos como são, que não são mais que pulvis et cinis, se querem subir sobre eles, egentes, augustiati, afflicti, quibus non erat mundus, diz São Paulo. Não merecem os mundanos, não são dignos mundanos soberbos, de ter em sua companhia aos pobres necessitados, angustiados, afligidos com fomes e trabalhos, porque estes são mui grandes e de muita estima aos olhos de Deus. Outra causa vos direi eu porque de tão boa vontade se oferece ao servo e não quer ir ao filho do regulo. Sabeis qual é ? Porque omne animal diligit simile sibi; porque era seu semelhante, era servo como ele. Semelhante era Cristo Nosso Senhor a este filho do regulo, pois era verdadeiro e natural filho de Deus Padre, Rei dos céus, cum in forma Dei esset, non rapinam arbitratus est esse se o&qualem Deo. Mas, porém, depois que tomou carne humana, depois que por amor do homem, que era escravo do diabo, se abaixou tanto que exinanivit semetipsum formam servi accipiens, todo o tempo que andou neste mundo encobrindo a forma de filho de Deus, não se tratando como Rei nem como filho de Deus, que era; e mostrou sempre por fóra a forma e semelhança de escravo, que tinhá tomada, tratando-se como escravo, servindo como escravo, sujeitando-se a todos como escravo, quia filius hominis non venit ministrari sed ministrare, dizia ele. Eu que sou verdadeiro homem e filho de mulher, não vim ao mundo a tratar-me como Deus e ser servido como filho de Deus, essa imagem e forma de filho de Deus a tenho, e não uso agora dela, não vim

senão a servir e a tratar como escravo, pois tomei forma de escravo, por fazer senhor ao homem, que era escravo do pecado. Esta é a causa porque Cristo Nosso Senhor deixou de ir curar o filho do rei e se ofereceu tão liberalmente para ir sarar o escravo, para condenar a negligência dos homens do Brasil que tão pouco caso fazem de seus escravos, que os deixam estar amancebados e morrer ás vezes sem batismo e sem confissão, e para que saibamos estimar as coisas segundo seu valor, não olhando no escravo, que é boçal e bestial e que me custou meu dinheiro, senão vendo nele representada a imagem de Cristo Nosso Senhor, que se fez escravo para salvar este escravo e me servir como escravo trinta e três anos, por me salvar a mim, que era escravo do diabo, para que eu também me faça agora seu escravo, trabalhando por seu serviço, em salvar-me a mim e a alma do meu escravo. De maneira que por estas causas todas se estava Nosso Senhor excusando de ir com este regulo a sarar seu filho, e também para que ele o desejasse mais e o pedisse com maior eficácia, como fez, dizendo-lhe: descende prius quam moriatur filius meus. O' que petição esta tão justa e tão necessária para nosso remédio e saúde! Vai-nos tanto em descer Cristo Nosso Senhor, que sem isso não podemos sarar. Vejamos, pois, quem é este regulo e seu filho e como desceu o Senhor a o sarar. Este regulo é nosso primeiro padre, Adão, o qual foi criado no estado de inocência, como rei e senhor de todas as coisas corporais, e cheio de todalas graças espirituais. E porém chama-se regulo em comparação dos anjos, quia minuisti eum paulo minus ab angelis. Seu filho é todo o gênero humano que dele procedeu. Não se contentou com ser regulo; quis ser não somente tão grande como os anjos, mas ainda igual ao mesmo Deus. Ecce Adam, factus est quasi alter ex nobis, e t c Caiu e foi causa que caisse todo o gênero humano, e enfermasse este seu filho.. E sabeis quem lhe fez este mal? Outro regulo como ele, Lucifer, que sendo um anjo tão excelente, não se contentou com isso, mas ensoberbecido, quis se levantar e ser simüis altíssimo. E caiu; e de rei que era, ficou regulo, ficou feito cobra e basilisco peçonhen- to, que isto quer dizer regulo, do qual se diz no Gênese coluber in vias, regulus in semita (juxta translationem D. Jeronymi, juxta Vulgatam et ) mordens ungulas equi ut cadat ascensus ejus retro. Salutare tuum expectabo Domine, etc. Esse cavalo é nosso padre Adão, o qual como é um cavalo poderoso e gordo, cheio de todos os dons e virtudes foi posto por mão de Deus no paraíso terreal. O cavaleiro, que andava em riba dele, era todo o gênero humano, o qual andava sobre seu pai, porque toda nossa substância estava ainda nos lombos de Adão, pois dele haviamos de proceder e ser gerados. Vendo-o aquele maldito regulo e basilisco de Lucifer tão poderoso, e que era criado para lhe suceder nas cadeiras, que ele perdeu no céu, cheio de inveja e peçonhá infernal, vai-se ao caminho, coluber in vias, et regulus in semita, a lhe fazer cilada, para o morder. Este caminho era o mandamento, que lhe Deus tinhá posto, ex ligno scientiae boni et mali non comedes, pelo que Adão havia de andar para poder chegar á glória. A este caminho vai o diabo esparar para lho fazer traspassar e dar com ele d'avesso, para que não possa ir adeante até á gloria; mordens ungulas equi, dá-lhe uma dentada nos pés de suas afeições e desejos. E sabeis que dentada? Eritis sicut dii, scientes bonum et malum. Move-o a desejar de ser maior e querer ser semelhante a Deus. Com a dôr desta dentada, com o desejo de subir e ser grande, com esta peçonhá que lhe deu logo no coração, deu um salto tão grande e tão descompassado este cavalo de nosso primeiro padre, que passou fóra do caminho, quebranta o mandamento de Deus, et cadit ascensor ejus retro, dá com o cavaleiro no chão, perdendo a graça, e dando causa que seu filho, o gênero humano, ficasse sem ela. E ficou tão maltratado desta queda que não teve outro remédio para sarar, senão salutare tuum expectabo Domine. Bradaram tanto tempo os santos Padres por este Salvador, estavam-lhe sempre dizendo: Domine descende, priusquam moriatur filius meus. Assim que foi forçado a descer a o salvar. E para que vejais mais claro como desceu, ouvi uma história que se escreve no 4o livro dos Reis, do Eliseu e Sulamite. Venit ad viam Dei in montem, et apprehendens pedes ejus, non dimittam te. Incubuit super puerum et posuit os suum super os ejus, et óculos suos

super óculos ejus, et manus suas super manus ejus et incurvavit se super eum etc Caput meum, mput meum. Este menino inocente é o gênero humano, o qual sem culpa própria estava morto e privado da graça divina e da entrada da gloria, o qual bem sentia ele, que se queixava na caput meum, caput meum, dando a entender que a doença da cabeça lhe procedia de nosso padre Adão, que dessa cabeça nos veiu todo o nosso mal, pois que por seu pecado morremos todos. A cobra mordeu a ele e a peçonhá espalhou-se por todolos membros do corpo. Está morto o menino; vai-se sua mãe ao monte, ao profeta Eliseu et apprehendit pedes ejus etc. Estava morto o gênero humano por culpa de seu pai Adão; os santos Patriarcas e profetas, que foram como uma mãe que o criaram sempre com o leite da doutrina e conhecimento de Deus vão-se ao monte do céu e lançados aos pés do filho de Deus, verdadeiro Eliseu, outra coisa faziam senão rogar-lhe que descesse já a o sarar, estando sempre repetindo com grandes desejos, Salutare tuum expectabo, Domine, até se chegar ao tempo da gloriosa Virgem Maria, a qual como nossa verdadeira mãe, que nos havia de parir com tantas dores ao pé da cruz, quando lhe havia de dizer: Mulier, ecce filius tuus, que havia de ser muito mais que todolos Padres antigos continuamente ao alto monte do céu, e apprehendens pedes ejus, abraçada aos pés da Divina Misericórdia, vendo que o regulo e basilisco tinhá mordido a Adão nos pés, enchendo-o de soberba e por ali o tinhá empeçonhentado a ele e á sua geração, faz-se a mais humilde e mais baixa mulher do mundo, pedindo a Deus misericórdia e dizendo-lhe: Descende, priusquam moriatur filius, non dimittam te; até que desçais a lhe dar remédio. Tanto chorou a Santíssima Virgem, tanto se humilhou esta nossa piedosa mãe, até que respexit humüitatem ancillae suce, e desce a salvar o gênero humano. Entra Eliseu em casa daquela mulher, fechá a câmara, põe-se sobre o menino boca a boca, et incurvavit se, etc. Desce o filho de Deus do monte do céu e entra em casa da gloriosa Virgem que lhe estava importunando, fechá a câmara de seu sacratissimo ventre, sendo concebido nela sem corrupção de sua pureza virginal, ficando sempre fechadas as portas da sua virgindade: Et incubuit su- per puerim, deita-se sobre o menino, que estava morto, fazendo-se menino pequeníssimo, encerrando-se e encolhendo-se todo sobre ele, de maneira que, assim como Eliseu ficou tão pequenino como o menino que se deitou sobre ele e o menino ficou tão grande como o Eliseu, assim tomando Deus carne humana ficou Deus tão pequeno como o homem e o homem tamanho como Deus, pois ficou concebido Cristo Nosso Senhor, Deus e homem, homem e Deus. E ainda isto pareceu pouco á sua imensa bondade e misericórdia para sarar este enfermo e ressuscitar este morto, mas além disso põe seus olhos sobre os olhos do menino e cobrindo com seus misericordiosos olhos os pecados que o gênero humano tinhá cometido com os seus e cobrissem com um pano de Caif az, põe sua divina boca sobre a boca do menino, não somente bafejando-lhe nela o bafo de sua doutrina, que é palavra de vida e dando-lhe seu santo e divino amor, mas também encobrindo com ela as muitas blasfêmias e pecados que haviam saido pela boca dos homens, bebendo o fel e vinagre de tantas e tantas amarguras que eles mereciam padecer, põe suas divinas e inocentes mãos sobre as mãos do menino, encobrindo os muitos e grandes pecados que o gênero humano tinhá feito com as suas, fazendo ele a penitência, com aqueles duros pregos, que lhas traspassaram com grandíssima dôr e crueldade. Finalmente ficou David, scuto circumdabit te veritas ejus. Deus, que é verdade eterno como um escudo, recebendo em si todolos golpes e feridas, que houveram de cair sobre nós, do qual escudo tinhá já profetizado David, sento circumdabit te veritas ejus. Deus, que é verdade eterna, que não pode mentir, que tem prometido de salvar o gênero humano, ele te cobrirá com um escudo, e dando-lhe seu próprio Filho, o qual como escudo grande e fortíssimo receberá sobre si todolos golpes que tu haverás de levar por teus pecados, et scapulis suis obumbrabit tibi; far-te-á sombra com suas costas para refrigerio de tua febre, guardando-te do sol e quentura da divina justiça, que te houvera de queimar para sempre, recebendo ele sobre elas todolos açoites e castigos para te acabar de sarar, quia ejus livore sanati sumus. Vedes aqui o regulo, que pede saúde para seu filho doente; vedes aqui Adão, que não se contentou com ser regulo e quis-se

XXX Vil. — SERMÃO DE 1567 fazer maior rei e semelhante a Deus; vedes aqui o cavalo gordo, mordido daquele regulo e basilisco infernal, que deu com o cavaleiro no chão, et cecidit ascensor ejus retro; vedes aqui salutare tuum expectabo, Domine. Já chegou o Salvador nosso, o nosso salvar; já desceu Eliseu do monte a se pôr sobre o menino, tomando carne humana para nos ressuscitar da morte; já o sarou com os seus açoites e tormentos. Hora septima réliquit eum febris ao filho do regulo, que é uma depois do meio dia até ás 3, porque aquelas horas esteve Cristo Nosso Senhor dependurado na cruz, por salvar o gênero humano. E fica posto sobre ele, como escudo, para o amparar e defender. E contudo não se pode deixar de ter grande mágua e sentimentos e devera eu de dizer isto com muitas lágrimas e dôr de meu coração, ver sua cegueira e ingratidão, os quais ás abenças deste escudo cuidam que podem fazer todolos males, sem por isto lhes vir nenhum mal, ás abenças da paixão de Cristo Nosso Senhor, não fazem senão pecar dizendo, pelos pecadores morreu Cristo, sempre está como os braços abertos esparando a penitência; bom escudo tenho sobre minhas costas para me defender dos golpes da ira de Deus. Ai, irmão que te engana o diabo! Mordeduras são essas daquele regulo e basilisco infernal, com que tem sua alma cheia de peçonha. Olhá que Cristo Nosso Senhor, ainda que morreu por todos, não há de salvar a todos, quia positus est in ruinam et resurrectionem multorum? para ressurreição dos que dela se quiserem aproveitar e para queda dos que ás abenças dela não fazem senão pecar. Afirma-se em verdade, irmão, creia-me porque te digo com todalas entranhas de meu coração pela paixão de Cristo Nosso Senhor, quanto mais tempo te espara a penitência tanto mais gravemente te há de castigar se a não fizeres; afirmo-te em verdade que ainda que sempre está com os braços abertos, muitas vezes não quer dar ajuda ao pecador, e o deixa viver e morrer em seus pecados, porque não é justo que Cristo Nosso Senhor com a sua paixão ajude e haja misericórdia daqueles que ás abenças dela lhe estão fazendo mil injúrias. Olha, irmão, que este escudo não se há de durar mais que nesta vida e que depois da morte to hão de tirar, e então glaudius meus devorabit carnes de cruore occisorum et de captivitate mundati inimicorum capitis, diz Deus. Mjnhá espada tragará carne de pecadores e se fartará do sangue dos mortos e cortará á sua vontade pela cabeça descoberta e nua dos meus inimigos. Então terão os maus a cabeça descoberta porque todos os seus pecados que agora a misericórdia cobre com o escudo da sua paixão então serão manifestos a todo o mundo. Terão a cabeça descoberta, porque não os há de então cobrir a paixão de Cristo Nosso Senhor, nem lhes há de valer. E eles vos apontarão nela os cruéis golpes da espada da ira de Deus, que os despedaçará para sempre com tormentos infinitos, que é a pena. Então terão a cabeça descoberta, porque o diabo, que cá nessa vida tiveram por sua cabeça e por seu senhor, então estará sempre deante de seus olhos, espantando-os com sua terrível figura, e Cristo Nosso Senhor verdadeira cabeça dos escolhidos, se lhes esconderá e perderão a vista de sua face e carecerão dele para sempre, que é a pena Domini, que chamam os teólogos, que será remate de todos os seus males. Nisto vêm parar os pecadores, que agora pecam mui soltamente ás abenças do escudo da paixão e misericórdia de Cristo Nosso Senhor. Pois quê remédio? Não havemos de confiar em sua paixão? Dessa maneira desespararemos se nos faltar esta confiança. Confiai muito embora, que sem ela não teremos vida nem saúde; mas seja como fizerdes isto, que pede o regulo: Descende, priusquam moriatur filius meus. Queres, irmão, que te aproveite a paixão de Cristo Nosso Senhor? Descende, priusquam moriatur filius tuus, antes da morte, antes que morra este teu corpo, que tens mimoso como filho. Desce da tua soberba, humilhando-se aos mandamentos de Deus, desce de teus pecados, em que anda alevantado e ensoberbecido, porque em todolos pecados há soberba, porque em todos eles se levanta um homem com a menagem e se ensoberbece, desacatando a Deus e a suas leis. Queres, irmão, que a paixão de Cristo seja in resurrectionem et non in ruinam tuamf Descende priusquam moriatur filius tuus; desce enquanto tens vida, á consideração de tua baixeza, e olhá que não és outra coisa senão pulvis et cinis, terra e cinza sem proveito; e humilha-te deante dos olhos daquela suma Majestade, dizendo-te a ti mesmo, quid superbit, terra et cinisf De que te ensoberbeces até alevantar contra os mandamentos de Deus; quia qui se humiliat exaltabitur. Descende a outra consideração de tua baixeza considerando que pelos pecados, que cometeste, te fizeste a mais vil e baixa criatura do mundo, fazendo-te de filho de Deus, que eras, escravo do Diabo. E, vendo-te tal, bradarás a Deus dizendo: Vide, Domine, et considera quoniam factus sum vilis; olhai, Senhor, para mim e vede quão vil e baixo me fiz por meus pecados; dai-me graça, com que me aparte deles e torne a cobrar a honra perdida de ser vosso filho. Queres, irmão, que se cubra a paixão de Cristo Nosso Senhor como escudo e não te fira a espada de sua justiça e dê contigo no inferno? Descende priusquam moriatur filius tuus; desce agora, enquanto vives ao inferno como te aconselhá David, descende in infernum vi/vens; vai-te agora emquanto vives a considerar a graveza daqueles tormentos; desce a cuidar que por um só pecado mortal, com que te ache Deus á hora da morte, por uma só mentira, por leve que seja que afirmasses, com juramento, por um breve deleite, que não te durou mais que um momento por levantares os olhos com má intenção á mulher do teu próximo, por um só pensamento mau em que consentires, te há de lançar no inferno para sempre, onde todolos membros do teu corpo de dentro e de fóra hão de ser atormentados com penas crudelissimas, enquanto Deus for Deus. Queres, irmão, escapar de todos estes males? Descende priusquam moriatur filius tuus: desce á confissão, antes que morra essa tua alma, que deves amar mais que a todos os teus filhos; confessa-te muitas vezes antes que morra esse teu filho em algum pecado mortal; não queiras como muitos outros ignorantes e bestiais, que esparam que caiam em pecados mortais para os confessar. Não esperes por isso', irmão, antequam moriatur filius; confessa-te muitas vezes, por que não morra tua alma, que a virtude da confissão muito mais se mostra em guardar nossas almas que não pequem mortalmente, que em livrá-las depois de haverem pecado. Descende muitas vezes a confessar os pecados veniais e faze muito caso deles, guardando-te deles quanto puderes, priusquam moriatur filius tuus,

porque eles são como postos da morte, porque abrem a vontade e a fazem mais prestes para receberem em si o pecado mortal, que é a morte deste nosso filho tão amado, pelo qual o filho de Deus morreu. Queres finalmente que te receba Deus Nosso Senhor em seus braços? Descende priusquam, e t c, desce a considerar a grandíssima baixeza e humildade do mesmo Senhor, que com tão infame gênero de morte quis morrer por teus pecados; e esta consideração te guardará de pecar. E sabeis de que morreu? De peçonha, mordido de cobras. Veiu o filho de Deus ao mundo a tomar todas as nossas enfermidades sobre si para as curar; estamos todos empeçonhados da mordedura que deu a cobra e regulo infernal a nosso padre Adão no horto do paraíso terreal. Era necessário que também Cristo Nosso Senhor tomasse sobre si esta doença para a curar, e assim o fez, bebendo a peçonhá de nossos pecados, deixando-se morder doutro regulo e basilisco tal como aquele. Este foi o ladrão de Judas, de quem está escrito em Isaias, de radice colubri egredietur regulus. A primeira cobra tinhá mordido a Adão da paixão. Nasce de sua raiz outro regulo peor, que foi Judas; cum diabolus misisset in cor, ut traderet eum Judas Himonis Iscariotes para morder a Cristo Nosso Senhor, segundo Adão, no horto. Coluber in via, regulus in semita, mordens ungulas equi ut cadát ascensor ejus retro. Cobra peçonhenta e regulo traidor que vai a Jesus caminho do horto, acompanhado de grande multidão de cobras, que eram os algozes e homens d'armas, a fazer cilada àquela sacratiss.ima humanidade de Cristo Nosso Senhor, cavalo da divindade, chega-se a ele e dá-lhe a primeira dentada, beijando-o no seu divino rosto com aquela boca peçonhenta. Açodem as outras cobras dos algozes, et injiciunt manus in Jesum. Deixa-se o Senhor morder deles, dizendo-lhes: Ho3c est hora vostra et potestas tenebrarum. Mordei-me, que esta é a hora, em que é dado poder a todalas cobras do inferno e a vós outros para me morderdes e matardes, á vossa vontade. Começam aqueles cruéis basiliscos a morder naquele saeratissimo corpo do filho de Deus, dando-lhe bofetadas e coices e cuspindo em seu divino rosto; levam-no de casa em casa mordendo-o e despedaçando-o, porque cada um dos açoites e pancadas, que lhe de- ram, era uma dentada daquelas cobras; até que o pregaram na cruz onde das muitas feridas, que lhe deram, ficou como homem mordido de muitas cobras, todo rilhado, vulnus et livor et plaga tumens, non est circumligata, nec curata medicamine nec fota óleo. Não tinhá outra triaga que beber senão o fel e vinagre; não teve outra mezinha, com que resistir a esta peçonhá senão o grandíssimo amor, que nos tinha, sem ter outro azeite com que untar as suas chagas senão sua infinita misericórdia, com que morria por nós, com a qual temparava a grandeza das dores. Lavrava a peçonhá das dentadas daquelas cruéis cobras por fóra em todo o seu corpo. Lavrava a peçonhá de todos os nossos pecados, que tinhá bebido, por dentro até que chegou ao coração, et expiravit cadit aseensor ejus retro; cai sua santíssima alma, que é o cavaleiro, para trás, dando consigo no limbo dos santos Padres, e ainda depois de morto lhe deram outra dentada, abrindo com a cruel lança seu sagrado lado e divino coração. E porém salutare tuum expectabo Domine; quia tertia die resurgit gloriosus. Deixa-se Nosso Senhor morder de cobras, para que escapes das dentadas das cobras infernais, morre de peçonhá de teus pecados, para que tu não morras com ela. Descende priusquam moriatur filius tuus. Desce-te, irmão, da soberba e dos mais pecados e não te deixes mais morder com nenhum pecado mortal. Descende priusquam moriatur filius tuus. Desce-te, irmão, da soberba e dos mais pecados e não te deixes mais morder com nenhum pecado mortal. Desce vivo ao inferno a cuidar nos tormentos, que se dão por um pecado, desce á confissão muitas vezes, para que não peques; desce a cuidar na extrema humildade e baixeza do filho de Deus com que quis morrer por teu amor e humilha-te a seus santos mandamentos, priusquam moriatur filius tuus, enquanto estás nesta vida. E desta maneira terás segura confiança na sagrada paixão de Cristo Nosso Senhor. Cobrir-te-á como escudo sem te deixar ferir de seus inimigos. Et sub pennis ejus sparabis, e debaixo de suas asas espararás de alcansar misericórdia e graça nesta vida; e estarei dizendo, salutare tuum expectabo, Domine; espero, Senhor, por vós, que sois meu salvador; espero que desçais a me sarar; espero que venhais por mim, cntequam moriatur filius meus, antes que torne a fazer pecado, com que morra este meu filho; antes que morra esta minhá alma, pela qual morrestes. Salutare tuum expectabo, Domine; espero, Senhor, pelo dia, em que verei vosso divino rosto, que é verdadeira salvação e vida eterna, á qual por vossa misericórdia nos queirais levar, qui cum Padre et Spiritu Soneto vwis et regnas in secula seculorum. Amen.

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Leia gratuitamente Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, de José de Anchieta, obra colonial brasileira em domínio público. Esta edição digital consolida cartas, informações, fragmentos históricos e sermões quinhentistas em 38 capítulos internos, com texto curado a partir da edição de 1933 via BLPL/UFSC e Etnolinguística/Mindlin, notas editoriais separadas do corpo principal, espelhos HTML e preparação para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA no Literunico.

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