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Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Capítulo 9 · Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Quadrimestre de setembro até o fim de dezembro de 1556, de Piratininga, abril de 1557

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IX QUADRIMESTRE DE SETEMBRO ATÉ O FIM DE DEZEMBRO DE 1556, DE PIRATININGA, ABRIL DE 1557 Doutrinação dos meninos. — Ida do Padre Luiz da Grã às vilas do mar. — Notícias dos catecúmenos. — Os pagés. — Ataque dos índios. — Destruição de três aldeias pelos castelhanos do Paraguai. — Entrada para a Companhia de um Irmão intérprete.

Em as cartas passadas escrevi brevemente o que se oferecia, agora em poucas palavras o que ocorre. Guarda-se a mesma ordem de doutrina que dantes aqui e em Jaraibatiba e peculiar cuidado acerca da instituição dos meninos, dos quais alguns perseveram, outros se mudam com seus pais a outras moradas, onde sossegam, o que parece haver de produzir fruto, porque como dos pais nenhuma ou mui pequena esperança haja (porque não faltam alguns que queiram seguir os costumes dos Cristãos), tudo se converte em os filhos, dos quais alguns inocentes se vão para o Senhor, os outros que são mais grandes se instruem e ensinam sempre diligentemente na fé. Assim que insistimos com os contínuos sermões aqui e em outros lugares ao derredor; agora é ido o Padre Luiz da Grã ao mar a ensinar os escravos de Portugueses e pregar aos senhores, aonde sem cessar os ensina, colhendo muito fruto de confissões, e admoestações, maximè dos escravos com os quais principalmente entende, aos quais quase todos traz à confissão, ensinando-lhes os rudimentos da fé de que carecem; movem-se eles a isto com grande fervor e devoção, e alguns deles há que sabem dar melhor conta das coisas, que tocam à fé, que os mesmos senhores. Batizamos todos os pequenos, e algumas moças, as quais depois que crescerem possam casar com os moços que se ensinam na escola. Um desses Catecúmenos pediu-nos uma destas moças cristãs por mulher, negamos-lha porque ele já tinha outra, e filhos dela, e não tinha nenhum aparelho para se poder batizar. Mas ele (como têm por costume) foi-se ao irmão da moça, pediu-lha e houve-a, a qual depois que esteve com ele sete, ou oito dias, repreendida por nós outros, arrependida se apartou dele, e saiu-se de casa para nunca mais tornar a ele. Ele tomando-a por força, a tosquiou e como não quisesse consentir com sua má vontade a queimou, e lhe fez muitas chagas, a qual, deitando-o de si, se acolheu à casa de uns Cristãos, querendo antes morrer que consentir no pecado. E como ele a quisesse tirar e levar por força, acudimos nós outros esforçando-a a que estivesse firme, e repreendendo ao outro, porque queria ter por manceba esta que era já batizada, tendo ele outra mulher, e não sendo Cristão. Vencido com as nossas palavras se foi e depois nos ameaçou que nos havia de matar; a moça tomou-lhe tanto aborrecimento que o fez cessar de seu danado propósito e vontade. E não somente este mas outros dos catecúmenos nos ameaçaram com a morte, mas não são para tanto, que perfeiçoem tais obras. Nós outros aparelhados para tudo o que vier, tendo ao Senhor por defensor, nada tememos. E eles amansando sua ira nos mostram amor e nos fazem esmolas de seus frutos. A maior parte destes (como nas cartas passadas disse) fez outras moradas não longe daqui, onde agora vivem, porque ultra de eles não se moverem nada às coisas divinas, persuadiu-se-lhes agora uma diabólica imaginação, que esta igreja é feita para sua destruição, em a qual os possamos encerrar e aí ajudando-nos dos Portugueses, matar aos que não são batizados e aos já batizados fazer nossos escravos, isto mesmo lhes dizem outros índios, scilicet que os ensinamos para que a eles, filhos e mulheres, façamos cativos e são eles de tal natureza e condição que mais creem a qualquer mentira dos seus, que a quanto lhes pregamos, e se lhes diz isto al- gum de seus feiticeiros a que chamam Pagés nenhuma coisa têm por mais verdadeira ainda que destes nenhum ousa vir aqui senão ocultamente porque os repreendemos mui gravemente. Pelo sertão anda agora um ao qual todos seguem e veneram como a um grande santo. Dão-lhe quando têm, porque se isto não fazem creem que ele com seus espíritos os matará logo. Este, metendo fumo pela boca, aos outros lhes dá seu espírito, e faz seus semelhantes; aonde quer que vai o seguem todos, e andam de cá para lá, deixando suas próprias casas. Contudo alguns dos mesmos índios o têm por mentiroso, como nos disseram de dois Catecúmenos, que daqui foram, em cuja casa o santo com os seus ousou entrar. Diz ele que há de passar por aqui a guerra aos contrários, e que da tornada há de destruir esta igreja cuja fama anda por todo o sertão, do qual nenhum medo temos, senão ele desta maneira quer ser temido dos seus. Porque se ofereceu fazer menção dos contrários, direi algumas coisas, não fora do propósito. Veio, poucos dias há, grande cópia deles, e combatendo um lugar de Portugueses, o roubou; acolheram-se à fortaleza, sete ou oito Portugueses, que se acharam presentes, e como quisessem entrar com eles os inimigos foram mortos muitos deles; por outra parte acometeram uma casa onde estavam dois Cristãos e saltando como símios no telhado, derrubando as telhas, os tomaram por força e levaram com muitos dos escravos e demais presa. Não muito depois se seguiu uma peste de que morreu grande número dos contrários, tiravam os mortos de casa e deitavam-os às onças, as quais de noite vinham e os comiam. Desta maneira os castigou a destra do Senhor, e depois indo a eles os Portugueses em navios, tomaram mais de 50, que estavam fazendo grandes festas com muito vinho e cantos sobre a morte dos dois Portugueses Cristãos que já tinham comido. Depois de tornados ao porto sentenciaram dois à forca, os quais o pastor que tem as vezes do Bispo, pouco há defunto, que pouco antes tinha chegado, consolou e instruiu na fé (porque não estava presente nenhum de nossos Irmãos) e assim recebidos a batismo, chamando sempre o nome de Jesus, foram enforcados. Torno aos nossos, os quais estão divididos em três habitações,

para que possam livremente beber, porque este costume de beber, ou, por melhor dizer, natureza, mui dificultosamente se lhes há de extirpar, o qual permanecendo, nem se poderá plantar a fé de Cristo. Aconteceu pouco há em uma delas uma verônica, ou por melhor dizer diabólica façanha. Convidava um a seu irmão mais moço que fosse a seguir e acabar (?) aquele grande feiticeiro que anda pelo sertão; este outro, que já era Catecúmeno, tendo aquilo por mentira, não quis ir, pelo qual se indignou muito seu irmão. E assim achada ocasião, em anoitecendo, depois de haver bebido, começou a pelejar com seu irmão, e tomando um manchil o feriu mui mal, e dando-lhe três feridas, o deixou meio morto. Por isso a mãe deles, já Catecúmena, começou a pelejar mui gravemente com uma nora, mulher do que ferira, a qual cuidava haver sido causa desta discórdia; pôs-se em meio delas um mancebo para as desapartar, mas a velha tomando duas flechas lhas meteu pelo estômago, e deu a ele em terra, o qual, ao canto do galo, expirou. Depois disto tomando um tição em a mão deu a fugir, mas não foi muito adiante, que logo não tornou a seus filhos dizendo-lhes que não na deixassem estar muito tempo solícita, e triste, mas que logo a matassem. Ao dia seguinte seu filho mais velho que tinha ferido ao outro, fez uma cova para enterrar o morto, e tomando a sua mãe pela mão, lhe deitou uma corda ao pescoço, e a enforcou, a enterrou, e pôs em cima dela ao que ela tinha morto. Nenhum de todo o povo lho impediu, não lhe falou uma só palavra, porque assim soem vingar os semelhantes homicídios, porque não façam guerra os parentes do morto, e se comam uns aos outros. Ao outro dia nos fomos lá mui depressa, para curar o ferido e aparelha-lo para o batismo, e encontrando-o em caminho, que o traziam a nós outros para que o curássemos, nos tornámos, curámos-lhe as feridas até sarar, e entretanto por remediar as chagas de sua alma o instruímos em os rudimentos da fé. Aprendeu ele de boa vontade boa parte, e determina daqui adiante viver segundo o que Deus manda, de maneira que por mui fera que seja a sua natureza, trabalharemos com todo cuidado pela domar, pois não estão cerradas aquelas entranhas de misericórdia, em as quais nos visitou o Senhor nascendo do alto, para que também a estes abra caminho para entrar no tabernáculo do Senhor. Em Jaraibatiba se ensinam pela mesma ordem, onde alguns inocentes batizados se passam ao Senhor; na doutrina dos outros se tem diligente cuidado, e peculiar na instrução dos meninos, mas também estes se dividiram em três moradas, onde não se podem ensinar com tanta facilidade. Não me pareceu bem calar uma coisa, que fez um destes já batizados. Não há dias que alguns Castelhanos daqueles que moram em a cidade do Paraguai, da qual em as passadas se fez menção, não podendo sofrer a malícia e soberba destes índios, que já em diversos tempos têm mortos muitos Cristãos, os acometeram e destruíram três aldeias, matando alguns e cativando os outros com mulheres e filhos; e tornaram-se por rogos de alguns Portugueses, que em aquela sazão andavam pelo sertão, mas ameaçando e determinando de tornar a destruir esta brava nação. Por esta coisa os índios mui irritados, vendo que não se podem vingar dos Castelhanos, tornam-se aos Portugueses, os quais dizem que todos são uns e assim roubaram cinco ou seis que andavam entre eles, em diversos lugares, e agora novamente mataram um, ao qual despindo, arrastaram pelo campo, e deitaram em um bosque, e acometendo um seu companheiro não puderam matar, mas roubaram, tomando-lhe os escravos e quanto trazia. A este acompanhava um índio já batizado dos que se ensinam em Jaraibatiba, e vendo uma imagem mui formosa de Nossa Senhora em mãos dos ladrões, arremeteu com eles, pondo-se em perigo de vida e tomou-lha das mãos e guardou-a, e não somente em isso se mostrou sua fé mas também em outras coisas, sendo desonrado e injuriado dos seus, que lhe chamam escravo dos Portugueses. Se disto nascer alguma discórdia entre os índios e Cristãos não será pequeno impedimento para a doutrina e conversão deles, mas, por agora, não se há procedido com o negócio, mais adiante. Pouco há que o Padre Luiz da Grã recebeu um Irmão intérprete que dá boas mostras de si. Todos estamos bem e louvamos ao Senhor, o qual nos deu graça e fortaleza interior, para que com

nenhuma adversidade nos apartemos da conversão destes para o qual não será pequena ajuda a oração de nossos Irmãos. Em Piratininga e casa de S. Paulo da Companhia de Jesus, em o fim de Abril de 1557. Minimus Societatis Jesu.

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Sinopse

Leia gratuitamente Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, de José de Anchieta, obra colonial brasileira em domínio público. Esta edição digital consolida cartas, informações, fragmentos históricos e sermões quinhentistas em 38 capítulos internos, com texto curado a partir da edição de 1933 via BLPL/UFSC e Etnolinguística/Mindlin, notas editoriais separadas do corpo principal, espelhos HTML e preparação para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA no Literunico.

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