Leia agora
Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Universo da obra

Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Capítulo 10 · Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Ao Padre Geral, de São Vicente, ao último de maio de 1560

10 de 38 ≈ 50 min de leitura

Ao PADRE GERAL, DE SÃO VICENTE, AO ÚLTIMO DE MAIO DE 1560

Descrição das coisas naturais da Capitania de São Vicente. — Divisão das partes do ano. — Tempestades. — Disputa com um feiticeiro. — Enchentes dos rios. — Saída dos peixes. — Boi marinho. — Narração de uma tempestade no mar. — Entrada dos peixes. — Sucuriuba. — Jacaré. — Capivara. — Lontras. — Caranguejos. — Modo indígena de curar o cancro. — Jararaca, cascavel, coral e outras serpentes. — Piolho de cobra. — Aranhas. — Tatoranas. — Panteras. — Tamanduà. — Anta. — Preguiça. — Gambà. — Ouriços. — Macacos. — Tatu. — Veados. — Gatos monteses, gamos e javalis. — Lhama do Peru. — Bicho da taquara. — Formigas. — Abelhas. — Moscas e mosquitos. — Papagaios, beija-flores e outros pàssaros. —• Guarà e outras aves marinhas. — Aves de rapina. — Anhima. — Galinhas silvestres. — Mandioca e "Yeticopê". — Erva viva. — Árvores medicinais. — Pinheiros. — Raízes medicinais. — Pedra elàstica. — Conchas e pérolas. — Espectros noturnos ou demônios. — Raras deformidades entre os Brasis. — Criança monstruosa. — Um porco hermafrodita. Paz de Cristo seja conosco. Pelas tuas cartas, que hà pouco nos chegaram às mãos, vimos, Reverendo Padre em Cristo, que desejas (para que se atenda ao voto e desejos de muitos) que escrevemos acerca do que suceder conosco que seja digno de admiração ou desconhecido nessa parte do mundo. Conformando-me com tão salutar mandado, cumprirei diligentemente, quanto me fôr possível, a prescrita obrigação.

Em primeiro lugar certamente (o que fiz de passagem nas anteriores cartas) tratarei desta parte do Brasil, chamada São Vicente, que dista da Equinocial vinte e três graus e meio medidos de Nordeste a Sudoeste, na direcção do Sul, na qual a razão da aproximação e do afastamento do sol, as declinações das sombras e como se fazem, as diminuições e crescimentos da lua, não me é fàcil explicar; por isso, não tocarei nessas coisas, nem vejo nelas razão para que sejam diferentes do que aí se observa. Na divisão, porém, das partes do ano é coisa inteiramente diversa: são na verdade de tal maneira confusas, que não se podem facilmente distinguir, nem marcar o tempo certo da primavera e do inverno: o sol produz com os seus cursos uma certa temperatura constante, de maneira que nem o inverno é demasiadamente rigoroso, nem o verão incomoda pelo calor; em nenhuma quadra do ano faltam os aguaceiros, pois de quatro em quatro, de três em três, ou de dois em dois dias, uns por outros, alternativamente, se sucedem a chuva e o sol; costuma contudo em alguns anos a cerrar-se o céu e a escassearem as chuvas, de tal modo que os campos se tornam estéreis e não dão os costumados frutos, não tanto pela força do calor, que não é excessivo, como pela carência de àgua; algumas vezes, também, pela muita abundância de chuvas, apodrecem as raízes que temos para alimento. Os trovões no entanto fazem tão grande estampido, que causam muito terror, mas raras vezes arremessam raios; os relâmpagos lançam tanta luz, que diminuem e ofuscam totalmente a vista, e parecem de certo modo disputar com o dia na claridade; a isto se ajuntam os violentos e furiosos pègões de vento, que sopra algumas vezes com ímpeto tão forte, que nos leva a ajuntarmo-nos alta noite e corrermos às armas da oração contra o assalto da tempestade, e a sairmos algumas vezes de casa por fugir ao perigo de sua queda; vacilam as habitações abaladas pelos trovões, caem as àrvores e todos se aterram. Não hà muitos dias, estando nós em Piratininga, começou, depois do pôr do sol, o ar a turvar-se de repente, a enublar-se o céu, a amiudarem-se os relâmpagos e trovões, levantando-se então o vento sul a envolver pouco a pouco a terra, até que, chegando ao Nordeste, de onde quasi sempre costuma vir a tempestade, caiu com tanta violência que parecia ameaçar-nos o Senhor com a destruição: abalou as casas, arrebatou os telhados e derribou as matas; a àrvores de colossal altura arrancou pelas raízes, partiu pelo meio outras menores, despedaçou outras, de tal maneira que ficaram obstruídas as estradas, e nenhuma passagem havia pelos bosques; era para admirar quantos estragos de àrvores e casas produziu no espaço de meia hora (pois não durou mais do que isso), e, na verdade, se o Senhor não tivesse abreviado aquele tempo, nada poderia resistir a tamanhà violência e tudo cairia por terra. O que, porém, no meio de tudo isso, se tornou mais digno de admiração, é que os índios, que nessa ocasião se compraziam em bebidas e cantares (como costumam), não se aterraram com tanta confusão de coisas, nem deixaram de dansar e beber, como se tudo estivesse em completa traquilidade. Vou entretanto referir um fato, que por si mesmo julgaràs se mais digno de dôr do que de riso; lamentaràs certamente a cegueira e escarneceràs da loucura. Poucos dias depois de se passarem estas coisas, em uma certa aldeia de índios, a que vim com alguns sacerdotes aplicar a medicina da alma e do corpo a um enfermo, encontràmos um feiticeiro de grande fama entre os índios, o qual, como o exortàssemos muito que deixasse de mentir e reconhecesse um só Deus, Creador e Senhor de todas as coisas, depois duma (por assim dizer) longa disputa, respondeu: "Eu conheço não só Deus, como o filho de Deus, pois hà pouco, mordendo-me o meu cão, chamei o filho de Deus que me trouxesse remédio; veiu ele sem demora e, irado contra o cão, trouxe comsigo aquele vento impetuoso, que soprou hà pouco para que derrubasse as matas e vingasse o dano que me causara o cão". Assim falou ele, e respondendo-lhe o sacerdote: "Tu mentes!", não puderam conter o riso as mulheres jà cristãs às quais ensinàmos as coisas da fé, escarnecendo de certo da estulticia do feiticeiro. Omito outras coisas porque não são para aqui; menos aquilo que não fora fora de propósito para adverti-lo, nem a frase "tu mentes" parece proferida com menos reverência, pois os Brasis não costumam usar de rodeio algum de palavras para explicar as coisas; assim, a palavra "mentes" e outras nesse sentido são ditas sem ofensa alguma; pelo contràrio, pronunciam claramente, sem nenhum vexame, as palavras que significam os órgãos secretos de um e outro sexo, a cohabitação, e outras da mesma natureza. A divisão das estações do ano (se se considerar bem) é totalmente oposta à maneira por que aí se compreende; porque, quando là é primavera, aqui é inverno, e vice-versa; ambas, porém, são de tal modo temperadas, que não faltam no tempo de inverno os calores do sol para contrabalançar o rigor do frio, nem no estio, para tornar agradàveis os sentimentos, as brandas aragens e os humidos chuveiros, posto que esta terra, situada (como jà disse) à beira-mar, seja regada em quasi todas as estações do ano pelas àguas da chuva. Todavia, em Piratininga, que fica no interior das terras, a 30 milhas do mar, e é ornada de campos espaçosos e abertos, e em outros lugares que se lhe seguem para o Ocidente, a natureza procede de tal maneira que, se os dias se tornam extremamente calidos por causa do calor abrasador (cuja maior força é de Novembro a Março), a vinda da chuva lhes vem trazer refrigerio: coisa que aqui acontece agora. Para explicar isso em breves palavras: no inverno e no verão hà grandes chuveiros, que servem para temperar os ardores do sol, de sorte que ou precedem de manhã ao estio, ou vêm à tarde. Na primavera, que principia em Setembro, e no estio, que começa a vigorar em Dezembro, as chuvas caem abundantemente, com grande tormenta de trovões e relâmpagos. Então, hà não, só enchentes de rios, como grandes inundações dos campos; nessas ocasiões, uma imensa multidão de peixes, que saem da àgua para pôr ovas, deixam-se apanhar sem muito trabalho entre as ervas, e compensam por algum tempo o dano causado pela fome que trouxera a subversão dos rios. Assim, este tempo é esperado com avidez, como alívio da passada carestia: a isto chamam os índios pirãcema, isto é, "a saida dos peixes"; porquanto, duas vezes cada ano, quasi sempre em Setembro e Dezembro, e algumas vezes mais freqüentemente, deixam os rios e se metem pelas ervas em pouca àgua para desovar; mas no estio, como é maior a inundação dos campos, saem em mais consideràveis

cardumes e são apanhados em pequenas redes e até mesmo com as mãos, sem aprêsto algum. Finalmente, os grandes calores do verão são moderados pela muita abundância de chuvas; no inverno, porém (passado o outono que, começando em Março, acaba numa temperatura agradàvel), cessam as chuvas; a força do frio torna-se horrível, sendo maior em Junho, Julho e Agosto; nesse tempo vimos muitas vezes não só as geadas espalhadas pelos campos a queimarem àrvores e ervas, como também a superfície da àgua toda coberta de gelo. Então esvasiam-se os rios e baixam até o fundo, de sorte que se costuma apanhar à mão, entre as ervas, grande porção de peixes. Aos 13 de Dezembro, completando o sol sua carreira em Piratininga, chega a maior altura; esse dia que é muito longo e em que não hà declinação alguma de sombras, dura 14 horas e não passa além do Sul; daí, porém, volta para o Norte, em cuja retirada sóe ser mais rigoroso o calor e febres agudas com dores de lado molestam os corpos. O undecimo dia de Junho, que é curtíssimo, e no qual o sol està muito afastado de nós, dura (segundo creio) cerca de dez horas desde o romper do dia até o ocaso. Até aqui falàmos do movimento do tempo; passo agora a tratar de outras coisas. Hà um certo peixe, a que chamamos boi marinho, os índios o denominam iguaraguâ, freqüente na Capitania do Espirito Santo e em outras localidades para o Norte, onde o frio ou não é tão rigoroso, ou é algum tanto diminuto e menos que entre nós; é este peixe de um tamanho imenso; alimenta-se de ervas como o indicam as gramas mastigadas presas nas rochas banhadas por mangues. Excede ao boi na corpulencia; é coberto de uma pele dura, assemelhando-se na côr à do elefante; tem junto aos peitos uns como dois braços, com que nada, e embaixo deles tetas com que aleita os próprios filhos; tem a boca inteiramente semelhante à do boi. E ' excelente para comer-se, não saberias porém discernir se deve ser considerado como carne ou antes como peixe: da sua gordura, que està inerente à pele e mormente em torno da cauda,

levada ao fogo faz-se um molho, que pode bem comparar-se à manteiga, e não sei se a excederà; o seu óleo serve para temperar todas as comidas: todo o seu corpo é cheio de ossos sólidos e duríssimos, tais que podem fazer as vezes de marfim. Convém relatar aqui algumas coisas que vêm a propósito e que, escritas hà mais de dois anos, pelo màu êxito da incerta navegação, julgo não terem chegado aí. Tendo eu e quatro Irmãos saido da cidade do Salvador (que também é chamada Baía de Todos os Santos), depois de fazermos 240 milhas por um mar tranqüilo à feição do vento, chegàmos a uns bancos de areia que, estendendo-se para o mar na distância de 90 milhas, e oferecendo uma como muralhà em linha reta, tornam difícil a navegação; aí deitando a cada passo a sonda, gastàmos todo o dia e, fundeada a embarcação, pelo meio de estreitos canais entrincheirados por montes de areia, por onde se costumava navegar; no dia seguinte, porém, reunidos felizmente todos à tarde, os marinheiros, julgando-se jà livres de perigo, tranquilizaram-se e não pensaram mais nele, quando, de repente, sem ninguém o esperar, o leme salta fora dos eixos e encalhà o navio; sobrevem ao mesmo tempo uma repentina tempestade de vento e aguaceiros, que nos atira para apertados estreitos; o navio era arrastado sulcando areias e, por causa dos freqüentes solavancos, temíamos que se fizesse todo em pedaços. Entretanto, levados para um lugar baixo e inclinando-se a embarcação toda para um lado, lembràmo-nos de implorar o socorro divino, expondo as relíquias dos Santos, que conosco trazíamos, e lançando às ondas um Agnus Dei, aplacou-se a tormenta; caimos em um pego mais fundo, onde, deitando-se a cada passo a ancora e colocado o leme em seu lugar próprio com pequeno trabalho e com grande admiração de todos nós, esperàvamos ficar tranqüilos até o romper da aurora. Era um lugar fechado de todas as partes por cachopos e monticulos de areia e somente para o lado da proa havia uma estreita saida; quando no entanto se começava a descansar, eis que tudo se perturba na ameaçadora escuridão da noite, os ventos sopram com violência do Sul, caem

imensos aguaceiros, e, revolvido em todos os sentidos, o mar abalava violentamente a embarcação, a qual, jà gasta pelo tempo, pouca resistência oferecia: aberta embaixo para as ondas, estava tudo coberto dàgua; exgotava-se o porão em c-ma para as chuvas quatro ou cinco vezes por hora e, para dizer a verdade, nunca se esvasiava; ninguém podia conservar-se a pé firme, mas andando de gatinhas e para dizer corriam uns pelo tombadilho, outros cortavam os mastros, aqueloutros preparavam as cordas e amarras: neste comenos, a lancha, que estava atada à extremidade • do navio, foi arrebatada pelo mar, partindo-se o cabo que a prendia; então começàmos todos a tremer e a sentir veemente terror: viase a morte deante dos olhos; toda a esperança de salvação estava posta em uma corda e, quebrada esta, a nave ia inevitavelmente despedaçar-se nos baixios que a cercavam pela popa e pelos lados; corre-se à confissão: jà não vinhà cada um por sua vez, mas dois a dois e o mais depressa que cada qual podia. Em uma palavra, fora fastidioso contar tudo que se passou; rompeu-se a amarra: "Està tudo acabado"! gritaram todos. Todavia, no meio de tudo isso não deixàvamos de confiar com toda a fé em Deus, se bem que cada um contasse com certeza morrer ali, e mais curasse salvar a alma do que o corpo; confiàvamos não só nas relíquias dos Santos, como também no patrocínio da Santíssima Virgem Maria, na véspera de cuja Apresentação tinham acontecido estas coisas. Muitas vezes (creio) nos veiu isto ao pensamento; a mim, de certo, e muita consolação me dava a idéa de que, naquela mesma ocasião, muitos dos nossos Irmãos que andavam por diversas regiões, tinham todos o espirito alçado para Deus, e cujas orações, subindo à presença divina, pediam auxilio para nós outros, e que, por seus suspiros e gemidos, finalmente movida, a divina piedade pudesse trazer-nos os benefícios da sua costumada misericórdia. Entretanto, não nos servindo das velas nem de auxílio algum humano, éramos levados sãos e salvos pelo meio dos escolhos, para onde a corrente nos arrebatava, e esperando a todo o momento que se despedaçasse a embarcação, expostos à chuva, flagelados por tremenda tempestade, vendo a morte a cada instante, passàmos toda aquela noite sem dormir. Ao romper do dia, recobrando al- gum alento, concertàmos da melhor maneira as velas e, procurando a terra, desejàvamos ao menos encalhar o navio na praia; mas, levados por uma corrente mais favoràvel do que esperàvamos, chegàmos a um porto bastante seguro, habitado por índios, onde nos acolheram eles benignamente, e nos trataram com humanidade. Finalmente, quão grande fora a misericórdia do Senhor para conosco, a qual não duvidamos que nos fosse propícia, não só pelos merecimentos e preces da bemaventurada Virgem, como dos Santos, cujas relíquias trazíamos conosco, ficou bem manifestado pelo desgraçado naufràgio de outro navio que nos precedera, o qual, depois de ter saido para lugares de vau, impelido por um vento próspero, arrebatado todavia não só pelo vento Sul, mas também pela violência do mar, encalhara na praia e se despedaçara; com seus aparelhos e utensílios nos ressarcimos dos que havíamos perdido, e concertàmos o nosso jà meio despedaçado navio. No dia seguinte ao da nossa arribada, visitando eu com alguns Irmãos as habitações dos índios, foi-nos apresentada uma criancinhà quasi prestes a expirar e falando nós a seus pais para batizà-la, eles anuíram de boa mente a isso; batizàmo-la, e algumas horas depois foi levada para o céu. Feliz naufràgio que conseguiu tal resultado! Aí demoràmo-nos oito dias por causa dos ventos contràrios que reinavam; e como pouca provisão nos sobrasse para o resto da viagem, lançaram os marinheiros a rede ao mar, e colheram de um só lanço dois dos tais bois marinhos, os quais, apesar de serem tão grandes não romperam a rede, quando um só deles era suficiente para rasgar e despedaçar muitas redes: e assim, provendo-nos com fartura a munificencia divina, fizemos o resto da viagem. Falo, porém, disso só de passagem; torno de novo ao propósito e, como começara a fazer menção de peixes, prosseguirei. Em certa quadra do ano apanha-se uma infinita quantidade de peixes; a isso os índios chamam pirà-iquê, isto é, "entrada dos peixes"; porquanto vêm inúmeros deles de diversas partes do mar, entram para os lugares estreitos e de pouco fundo do mar, afim de porem as ovas.

O que vou agora referir é admiràvel, mas unanimemente comprovado e verificado por notória experiência: dez ou doze dos r.iaiores sobem à tona dàgua como exploradores, e olhando e examinando o lugar todo, se porventura lhes fazem alguma ofensa, voltam, como que pressentindo a traição, para conduzir a outra parte o seu rebanho. Se porém (o que jà foi acautelado, para que com certeza nenhum mal façam aos que têm de entrar) tudo lhes parece estar em segurança e vêm que o lugar é apropriado, introduzem, voltando, uma inúmera multidão de peixes por estreitas entradas (pois que jà todo o sítio està cercado, deixando apenas uma pequena abertura, a qual se pôde com facilidade fazer, por causa da pouca porção de àgua); encurralados aí, e embriagados com o suco de um certo lenho que os índios chamam iimbó, são apanhados sem o minimo trabalho muitas vezes mais de doze mil peixes grandes. Isso é de tal sorte comum em muitos lugares que, quando os apanham em abundância, os deixam atirados na praia. Os peixes são mui saudàveis nesta terra e podem-se comer todo o ano sem prejudicar à saúde, e até na doença, sem receio da sarna, que aqui não existe em parte alguma. Encontram-se no interior das terras cobras a que os índios denominam sucuryúba, de maravilhoso tamanho: vivem quasi sempre nos rios, onde apanham para comer os animais terrestres, que a miúdo os atravessam a nado; saem porém às vezes para a terra e os acometem nos atalhos, em que costumam correr daqui para ali. Não é fàcil acreditar-se na extraordinària corpulencia destas cobras; engolem um veado inteiro e até animais maiores; isto tem sido observado por todos; alguns dos nossos irmãos o viram com espanto, e até um deles vendo uma serpente a nadar no rio, pensou que era um mastro de navio. Dizem que não têm dentes e só se enroscam nos animais, matam-os introduzindo-lhes a cauda pelo ânus, e triturando-os com a boca os devoram inteiros. A este respeito contarei coisas estupendas e não sei se serão criveis; mas, tanto os índios, como os Portugueses que passaram muitos anos de sua vida nesta parte do globo, uno ore as afirmam. Estas cobras engolem, como disse, certos animais grandes, que os índios

chamam tapiiara, de que tratarei ao deante; como porém o seu estômago não os pode digerir, caem por terra como mortas, sem poderem mover-se, até que apodreça o ventre juntamente com a comida: então, as aves de rapina rasgam-lhes a barriga e a devoram toda com o seu conteúdo; depois a cobra, disforme, meio devorada, 'começa a reformar-se, crescem-lhe as carnes, estende-se-lhe por cima a pele, e volta à antiga fôrma. Hà igualmente lagartos que vivem do mesmo modo em rios, e a que chamam jacaré. São estes animais de excessiva corpulencia, de modo que podem engulir um homem; cobertos de escamas duríssimas e armados de agudissimos dentes; passam a vida na àgua; às vezes sobem até as ribanceiras, onde acontece seiem mortos enquanto dormem, não todavia sem bastante custo e perigo, como sucede com o elefante. As suas carnes, que são boas de comer-se, cheiram a almiscar, maximè nos testículos, que é onde està a maior força do cheiro. Hà também outros animais do gênero anfíbio, chamados capiyüàra, isto é, "que pastam ervas", pouco diferentes dos porcos, de cor um tanto ruiva, com dentes como os da lebre, exceto os molares, dos quais alguns estão fixos nas mandibulas e outros no meio do céu da boca; não têm cauda; comem ervas, donde lhes provém o nome; são próprios para se comer; domesticam-se e criamse em casa como os cães: saem para pastar e voltam para casa por si mesmos. Hà muitas lontras, que vivem nos rios; das suas peles, cujos pelos são muito macios, fazem-se cintos. Hà também outros animais quasi do mesmo gênero, designados no entanto por nome diverso entre os índios e que têm idêntico uso* Há pouco tempo tendo um índio atravessado com a flechà a um deles e saltando na àgua para apanhà-lo, apareceu uma multidão de outros que estavam debaixo dàgua, acometeram-o com unhas e dentes, de tal maneira, que trazendo com dificuldade o que havia morto, saiu quasi em pedaços, e passaram-se muitos dias primeiro que lhe sarassem as feridas. Estes animais são quasi pretos, pouco maiores que os gatos, munidos de dentes e unhas agudissimas. Seria fastidioso referir os gêneros dos caranguejos, e suas variedades e diversas fôrmas. Deixo de falar dos que são terrestres, que vivem em cavernas subterrâneas, que para si mesmos cavam; em toda a parte são freqüentes, exceto entre nós; de côr verdemar e muito maiores do que os aquàticos. Alguns dos aquàticos estão sempre debaixo dàgua: a natureza deu-lhes os últimos braços planos próprios para nadar; os mais cavam cavernas para si nos braços de mar (mangues); destes, alguns têm as pernas vermelhas e o corpo negro; outros são um tanto azulados e cheios de pelos; outros ainda têm duas cabeças, uma quasi do tamanho do corpo todo e outra proporcional a este. O "cancro" (que é aí de tão dificil cura) é facilmente curado aqui pelos índios. Dão a essa doença o mesmo nome que entre nós; curam-a, porém, deste modo: aquecem ao fogo um pouco de barro bem amassado, com que se fazem vasos, e tão quente quanto a carne possa suportar o aplicam aos braços do cancro, os quais morrem pouco a pouco, e tantas vezes repetem este curativo até que, mortas as pernas, o cancro se solta e cai por si. Isto foi hà pouco provado com experiência em uma escrava dos Portugueses, a qual sofria desta doença. Até aqui tenho falado dos animais que vivem na àgua; tratarei agora dos terrestres, alguns dos quais são desconhecidos dessa parte do mundo. Primeiramente direi das diversas espécies de cobras venenosas. Algumas, chamadas jararacas, abundam nos campos, nas matas e até mesmo nas casas, onde muitas vezes as encontramos: a sua mordedura mata no espaço de vinte e quatro horas, posto que se lhe possa aplicar remédio e evitar algumas vezes a morte. Isto acontece com certeza entre os índios: se forem mordidos uma só vez e escapam à morte, mordidos daí por deante, não só não correm risco de vida, como sentem até menos dor, o que tivemos mais de uma vez ocasião de observar.

A outra variedade denominam bóicininga, que quer dizer, "cobra que tine", porque tem na cauda uma espécie de chocalho, com o qual sôa quando assalta alguém. Vivem nos campos, em buracos subterrâneos; quando estão ocupadas na procreação atacam a gente; andam pela grama em saltos de tal modo apressados, que os índios dizem que elas voam; uma só vez que mordam, não há mais remédio: paralizam-se a vista, o ouvido, o andar e todas as ações do corpo, ficando somente a dôr e o sentimento do veneno espalhados pelo corpo todo, até que no fim de vinte e quatro horas se expira. Entretanto, quasi todos os índios torram ao fogo e comem dessas cobras e de outras, depois de lhes tirarem a cabeça; assim como também não poupam aos sapos, lagartos, ratos e outros animais desse gênero (106-A). Hà também outras admiravelmente pintadas de vàrias cores, de preto, de branco, de encarnado semelhante ao coral, as quais os índios apelidam ibtbobóca, isto é, "terra cavada", porque elas no rojarem fendem a terra à maneira de toupeiras; estas são as mais venenosas de todas, porém mais raras. Hà também outras, que são denominadas pelos índios bóiguatiàra, isto é, "cobras pintadas", por causa das suas diversas variedades de pintura; estas são igualmente mortíferas. Hà também outras quasi semelhantes, chamadas jararaca e também bóipeba, isto é, "cobras chatas", porque, quando feridas, contraem-se e ficam mais largas; a mordedura dessas é também mortal. Hà ainda outras, que se chamam bóiroiçanga, isto é, "cobras frias", porque a sua mordedura comunica ao corpo um grande frio; estas, conquanto maiores do que as outras, são menos venenosas (por isso que não causam a morte); têm toda a boca armada de dentes agudos, o que não se dà com as outras, pois as outras têm apenas quatro dentes curvos, tão subtis e ocultos que, se não se observa com cuidado, poder-se-hà supor que os não têm; neles é que està a peçonhà. Todas estas, porém, exceto as que são venenosas, das quais há, não só grande cópia, mas também grande diversidade, são tão fre-

quentes, que não se pôde viajar sem grande perigo: vimos cães, porcos e outros animais sobreviverem quando muito seis ou sete horas à mordedura delas. Não raro temos caído em semelhantes perigos, tendo-as encontrado muitas vezes correndo pelos caminhos de um lado para outro em alguns povoados, a que nos tem chamado o nosso dever. Uma vez, voltando eu para Piratininga de certa povoação de Portugueses, para onde a obediência me fizera ir com outro irmão a ensinar a doutrina, encontrei uma cobra enroscada no caminho; fazendo primeiramente o sinal da cruí, batilhe com o bastão e matei-a. Pouco depois começaram três ou quatro pequenos filhos a andar pelo chão; e admirando-nos de onde aquelas que antes não apareciam tinham saído tão de repente, eis que começaram a sair outros do ventre materno: e sacudindo eu o cadàver, apareceram outros filhos ainda, em numero de onze, todos animados e jà perfeitos, exceto dois. Ouvi também contar, por pessoas dignas de crédito, de uma outra em cujo ventre foram encontradas mais de quarenta. Todavia, no meio de uma multidão tão grande e freqüente delas, o Senhor nos conserva incólumes, e confiamos mais nele do que em contra-veneno ou poder algum humano; só descansamos em Jesus, Senhor nosso, que é o único que pôde fazer com que nenhum mal soframos, andando assim por cima de serpentes. Hà também outras como pequenos escorpiões, que habitam em certos montes de terra feitos pelas formigas: a estas chamam os índios bóiquíba, isto é, "cobras de pés pequenos", piolhos de cobras; são vermelhas, pouco maiores que aranhas: têm duas cabeças, como os caranguejos, e a cauda recurvada, na qual têm uma unhà também curva, com que ferem. Não matam, mas incomodam extraordinariamente, de maneira que a dôr que produzem não passa antes de vinte e quatro horas. O que direi das aranhas, cuja multidão não tem conta? Umas são um pouco ruivas, outras cor de terra, outras pintadas, todas cabeludas; julgarias que são caranguejos, tal é o tamanho do seu corpo: são horríveis de ver-se, de maneira que só a sua vista parece trazer deante de si veneno.

Um certo animalejo do gênero dos vespões, inimigo destas, persegue-as encarniçadamente, mata-as com o ferrão, leva-as para pequenos buracos que cava para si, e aí as come. Hà aqui umas aranhas de gênero diverso, tendo também um nome diferente do destas, e que exalam muito mau cheiro: são frias por natureza, não saem das casas, senão quando o sol està muito ardente; por essa razão os que bebem delas, pois as mulheres brasilicas muitas vezes soem preparar bebidas envenenadas, são acometidos de um excessivo frio e tremor; para isso o vinho é excelente remédio. Hà outro bichinho quasi semelhante à centopeia, todo coberto de pelos, feio de ver-se, de que hà vàrios gêneros, diferem entre si na côr e no nome, tendo todos a mesma fôrma. Se alguns deles tocarem no corpo de alguém, causam uma grande dôr que dura muitas horas; os pelos de outros (que são compridos e pretos, de cabeça vermelha) são venenosos e provocam desejos libidinosos. Os índios costumam aplicà-los às partes genitais, que assim incitam para o prazer sensual; incham elas de tal modo que em três dias apodrecem, donde vem que muitas vezes o prepucio se fura em diversos lugares, e algumas vezes o mesmo membro viril contrai uma corrupção incuràvel: não só se tornam eles feios pelo aspeto horrível da doença, como também mancham e infeccionam as mulheres com quem têm relações. Encontram-se também entre nós as panteras, das quais hà duas variedades: umas são côr de veado, menores essas e mais bravias; outras são malhadas e pintadas de vàrias cores: destas encontramse em todos os lugares; os machos, pelo menos, excedem no tamanho a um carneiro, embora grande, pois as fêmeas são menores; são em tudo semelhantes aos gatos e boas para se comerem, o que experimentàmos algumas vezes; são de ordinàrio medrosas e acometem pela retaguarda; dotadas porém de grande força, com um só golpe das unhas ou uma dentada dilaceram tudo quanto apanham; escondem as presas debaixo da terra, segundo afirmam os índios, e aí as vão comendo até consumirem. São de extrema fero-

cidade, o que, conquanto possa ser comprovado por muitos fatos, que sucessivamente e de quando em quando se dão, bastarà referir dois ou três para mostrà-lo. A' beira de um rio, estando alguns Cristãos descansando uma noite em pequenas cabanas, dormia um índio debaixo da cama, ou antes na rede de um, que aqui se suspende sustentada por duas cordas; eis que sobrevem um tigre alta noite e agarrando-o por uma perna, que por acaso tinhà estendida, arrebatou-o, não podendo a multidão, que ali se achava reunida, arrancar-lho das garras, e dos dentes; o que aconteceu com muitos outros, que as mesmas onças arrebatam no primeiro sono do meio de muita gente; deste fato poderiam ser apresentados muitos testemunhos. Quarenta homens armados de balas, arcos e lanças, tencionando matar um tigre que tinhà feito muitos estragos trucidando com grande ferocidade e devorando a muitos, a fera, não se temendo de tão grande força de homens armados, acometeu a um deles, e matà-lo-ia com as unhas enterradas pela cabeça e pelo peito, se, dirigida com a ajuda do Senhor ao coração, uma flechà não a tivesse deitado por terra. Passando dois índios por um caminho perto de Piratininga, por onde sempre vamos e voltamos, saiu-lhes ao encontro uma pantera e investiu contra ambos; um dos homens fugiu, o outro, repilindo os ímpetos da fera, combateu valorosamente não só com flechas, mas também com a agilidade do corpo, até que trepou em uma àrvore, porém nem mesmo este meio é bastante seguro contra tais feras, pois são dotadas de grande destreza; esta ficou junto da àrvore, vendo se achava alguma subida; labutou toda a noite (porque isso se passou quasi ao entrar do sol), e bramiu, até que, subindo à àrvore, ou derribou o homem, ou ele mesmo cansado de tão grande luta e cheio de pavor, caiu. Em baixo era um lugar alagadiço, coberto de lodo, no qual ele ao cair afogou-se, de maneira que não pôde ser apanhado pela fera, a qual gastou debalde o resto da noite em diligências para tirà-lo dali; afinal cansada, deitou-se. Ao amanhecer, chegando os outros, que jà tinham vindo inutilmente na véspera em auxílio do homem, mataram a fera, que jà não podia mais mover-se pelo excessivo trabalho que tivera, e acharam-lhe no

ventre o dedo polegar do referido índio, que se supõe que ela devorara quando ele subia à àrvore: viam-se ainda nesta os vestígios das suas unhas. Existem aqui também outros animais (querem que sejam leões), do mesmo modo ferozes, porém mais raros. Hà também outro animal de feio aspeto, a que os índios chamam tamanduà . Avantaja-se no tamanho ao maior cão, mas tem as pernas curtas e levanta-se pouco do chão; é, por isso, vagaroso, podendo ser vencido pelo homem na carreira. As suas cerdas, que são negras entremeiadas de cinzento, são mais rijas e compridas que as do porco, maximé na cauda, que é provida de cerdas compridas, umas dispostas de cima a baixo, outras transversalmente, com as quais não só recebe, como rechassa os golpes das armas; é coberto de uma pele tão dura que é difícil de se atravessar pelas flechas; a do ventre é mais mole. Tem o pescoço comprido e fino; cabeça pequena e mui desproporcionada ao tamanho do corpo; boca redonda, tendo a medida de um ou, quando muito, dois anéis; a lingua distendida tem o comprimento de três palmos só na porção que pode sair fora da boca, sem contar a que fica para dentro (que eu medi), a qual costuma, pondo-a para fora, estender nas covas das formigas, e logo que estas a enchem de todos os lados, ele a recolhe para dentro da boca, e esta é a sua refeição ordinària: admira como tamanho animal com tão pouca comida se alimente. As patas deanteiras são robusticissimas, de grande grossura, quasi iguais à coxa de um homem, as quais são armadas de unhas muito duras, uma das quais principalmente excede em comprimento às de todas as demais feras; não faz mal a ninguém, senão em sua defesa própria: quando acontece ser atacado pelos outros animais senta-se e, com as patas deanteiras levantadas, espera o ataque, de um só golpe penetra-lhes as entranhas e mata-os. E ' saborosíssimo; dirias que é carne de vaca, sendo todavia mais mole e macia. Hà outro animal, bastante freqüente, próprio para se comer, chamado pelos índios tapiíra e pelos espanhóis "anta"; julgo que é o que em latim se chama "alce".

E ' uma fera semelhante à mula, um pouco mais curta de pernas; tem os pés divididos em três partes; a parte superior do beiço é muito proeminente: de côr entre a do camelo e a do veado, tendendo para o preto. Levanta-se-lhe pelo pescoço, em vez de crinas, um músculo desde as cruzes até a cabeça, com o qual, como é um tanto mais alto, arma toda a fronte e abre caminho por espessos bosques, separando os ramos daqui e dali. Tem a cauda muito curta, desprovida de crinas; dà um grande assobio em vez de grito; de dia dorme e descansa, de noite, corre de um lado para outço; nutrese de diversos frutos, e, quando não os há, come as cascas das àrvores. Quando perseguida dos cães, faz-lhes frente a dentadas e coices, ou lança-se ao rio e fica por muito tempo debaixo dàgua; por isso vive quasi sempre perto dos rios, em cujas ribanceiras costuma cavar a terra e comer barro. Do seu couro, endurecido apenas pelo sol, os índios fabricam broqueis completamente impenetràveis às flechas. Hà outro animal que os índios chamam aig e nós "priguiça", por causa da sua excessiva lentidão em mover-se; na verdade preguiçoso, pois é mais vagaroso que um caracol; tem o corpo grande, côr de cinza; a sua cara parece assem«lhar-se alguma coisa do rosto de uma mulher; tem os braços compridos, munidos de unhas também compridas e curvas, com que o dotou a natureza para poder trepar em certas àrvores, no que gasta uma bôa parte do dia e alimenta-se das suas folhas e rebentos: não se pôde dizer, ao certo, quanto tempo leva em mover um braço; tendo porém subido, ali se demora finalmente, até que consuma a àrvore toda; passa depois para outra, algumas vezes também antes de chegar ao cume; com tanta tenacidade se agarra no meio da àrvore, com as unhas, que não se pôde arrancà-lo dali, senão cortando-lhe os braços. Hà também outro semelhante a uma pequena raposa e ao qual os índios chamam sariguéa, que exala muito mau cheiro e gosta muito de comer galinhas; tem na parte inferior da barriga uma espécie de saco dividido de cima a baixo, em que estão escondidos os seios, e entrando para ele os filhos quando os pare, agarra

cada um em sua teta e dali não saem até que, não precisando mais do auxílio materno, possam ficar em pé e andar por si; mas antes, depois da morte da mãe, só com muita dificuldade podem ser arrancados vivos de suas tetas. Jà matàmos muitas e entre elas uma com sete filhos encerrados na mencionada bolsa. Existem também certos pequenos animais do gênero dos ouriços, cobertos de cerdas compridas e mui agudas, pela maior parte sobre o pàlido, pretas na ponta, as quais, se tocarem em alguma coisa, principalmente carne, entram pouco a pouco por si, sem ninguém as empurrar; as mulheres brasilicas costumam servir-se delas para furarem as orelhas, sem sentirem dôr. Eu vi um couro dobrado, de não pequena grossura, transpassado de lado a lado no espaço de uma noite por uma cerda desse modo introduzida por si mesma. Hà uma infinita multidão de macacos, dos quais se contam quatro variedades, todas elas mui próprias para se comer, o que muitas vezes provàmos; é comida mui saudàvel para doentes. Vivem sempre nos matos, saltando em bandos pelos cumes das àrvores, onde se, por causa da pequenez do corpo, não podem passar desta àrvore para aquela que é maior, o chefe da tropa, curvando um ramo, que ele segura com a cauda e com os pés, e segurando outro macaco com as mãos, dà caminho aos restantes, fazendo uma espécie de ponte, e assim passam com facilidade todos. As fêmeas têm mamas como as mulheres; os filhos pequenos agarrados sempre às costas e ombros das mães, correm daqui para ali, até que possam andar sozinhos. Contam-se deles coisas maravilhosas, que omito por incríveis. Existe também outro animal muito comum entre nós, chamam-o tatu, que habita pelos campos em covas subterrâneas, e quasi semelhante aos lagartos pela cauda e cabeça. Tem o corpo todo coberto da parte de cima por uma conchà muito dura, impenetràvel às flechas, semelhante à armadura de um cavalo. Cava com muita velocidade a terra para se esconder; quando se

mete em sua toca, se não lhe arrancares a perna, debalde te cansaràs em puxà-lo para fora: agarra-se à terra com as conchas e os pés com tanta força que, embora lhe segures a cauda, mais fàcil serà destacar-se esta do corpo, do que a ele da cova: é de delicioso sabor. Dois gêneros hà de veados; uns como os nossos de chifres; estes, são, porém, raros, outros, de côr branca, sem chifres, e que nunca entram nos matos, antes pastam sempre em magotes pelas planícies. Hà abundante multidão de gatos monteses muito ligeiros, de gamos, de javalis, dos quais hà vàrias espécies. Longe daqui no interior da terra, para os lados do Peru, a que chamam Nova Espanha, hà umas ovelhas selvagens, iguais às vacas no tamanho, cobertas de uma lã branca e linda, das quais se servem os índios para levar e trazer cargas, como jumentos. Um dos nossos Irmãos, que andou muito tempo por aqueles lugares, afirma que, não só vira comer, mas também comera da carne delas. Trata-se largamente dessas ovelhas nas crônicas do Peru, vulgarmente escritas em espanhol. Nascem entre as taquaras certos bichos roliços e compridos, todos brancos, da grossura de um dedo, aos quais os índios chamam rahú, e costumam comer assados e torrados. Há-os em tão grande porção, indistintamente amontoados, que fazem com eles um guizado que em nada difere da carne de porco estufada; serve não só para amolecer o couro, mas também para comer-se. Destes insetos uns se tornam borboletas, outros saem ratos, que constróem a sua habitação debaixo das mesmas taquaras, outros porém se transformam em lagartas, que roçam as ervas. Encontram-se muitos outros animais de diversos gêneros, que entendi dever omitir, por não serem dignos de saber-se, nem de contar-se. Seria muito difícil representar por palavras as diversas espécies de formigas, das quais hà vàrias naturezas e nomes; o que, di-lo-ei de passagem, é muito usual na lingua brasilica, por isso que dão diversos nomes às diversas espécies e raras vezes os gêneros são conhecidos por uma denominação própria; assim, não hà nome genérico da formiga, do caranguejo, do rato e de muitos outros animais; das espécies, porém, que são quasi infinitas, nenhuma deixa de ter o seu nome próprio, de maneira que com razão te admirarias de tão grande cópia e variedade de palavras. No entanto, das formigas só parecem dignas de comemoração as que destroem as àrvores; estas são chamadas içâ; são um tanto ruivas, trituradas cheiram a limão; cavam para si grandes casas debaixo da terra. Na primavera, isto é, em Setembro, e daí em deante, fazem sair o enxame dos filhos, quasi sempre no dia seguinte ao de chuva e trovoada, se o sol estiver ardente; os pais vão adeante e, correndo com a boca aberta de um lado para outro, enchem todos os caminhos, e pregam mordidelas mais cruéis do que em outro qualquer tempo, até fazer sangue: seguem-lhes os filhos com asas, de corpo maior, e logo voam à procura de novas casas para si, tão numerosos muitas vezes que formam uma nuvem no ar; em qualquer parte que caiam cavam imediatamente a terra, construindo cada um a sua habitação; depois, porém, de pouco tempo morrem, e de seu ventre geram-se inúmeros outros filhos, de maneira que não admira haja tão grande multidão de formigas, quando de uma só nascem tantas. Para ver quando elas saem de suas cavernas ajuntam-se as aves, ajuntam-se os índios, que ansiosamente esperam este tempo, tanto homens, como mulheres; deixam as suas casas, apressam-se, correm com grande alegria e saltos de prazer para colher os frutos novos, aproximam-se das entradas dos formigueiros e enchem de àgua os pequenos buracos que elas fazem, onde, estando, se defendem da raiva dos pais e apanham os filhos que saem das covas, e enchem os seus vasos, isto é, certas cabaças grandes, voltam para casa, assam-as em vasilhas de barro e comem-as; assim torradas, conservam-se por muitos dias, sem se corromperem. Quão deleitavel é esta comida e como é saudàvel, sabêmo-lo nós, que a provàmos. Mas umas aves semelhantes às andorinhas, das quais hà três variedades, aglomeram-se quasi sem conta no ar, e cortam pelo meio com admiràvel celeridade aquelas formigas que

saem voando, devoram-lhes os ventres, deixando a cabeça com as asas e pernas, e assim acontece que mui poucas escapam. Encontram-se quasi vinte espécies diversas de abelhas, das quais umas fabricam o mel nos troncos das àrvores, outras em cortiços construídos entre os ramos, outras debaixo da terra, donde sucede que haja grande abundância de cera. Usamos do mel para curar as feridas, que saram facilmente pela proteção divina. Havendo porém, como disse, muitas espécies de mel, falarei unicamente de um, que os índios chamam eiraaquãyetâ, quer dizer, "mel de muitos buracos", porque estas abelhas têm muitas entradas nas colmeias. Logo que se bebe deste mel, toma todas as juntas do corpo, contrai os nervos, produz dôr e tremor, provoca vômitos e destempera o ventre. Hà pelo mato grande cópia de moscas e mosquitos, os quais, sugando-nos o sangue, mordem cruelmente, maximé no verão, quando os campos estão alagados; uns têm o ferrão e as pernas compridas e subtilissimas; furam a pele e chupam o sangue, até que, ficando com todo o corpo muito cheio e distendido, mal podem voar; contra estes é bom remédio a fumaça com a qual se dispersam. Outros chamados marigui, e que habitam à beira-mar, são uma praga terrível; são tão pequenos que mal os podes perceber com a vista; és mordido, e não vês quem te morde; sentes-te queimar e não hà fogo em parte alguma; não sabes de onde te veiu repentinamente semelhante incômodo; se te cocas com as unhas, maior dôr sentes; renova-se e aumenta por dois ou três dias o ardor que deixaram no corpo. Em verdade, não é fàcil dizer quanta diversidade hà de aves ornadas de vàrias cores. Os papagaios são mais comuns aqui do que os corvos, e de diferentes espécies, todos bons para se comerem; alguns deles produzem prisão de ventre; outros imitam a voz humana; outros hà que, comendo o milho quando està granado, voam em bandos e quando estão nesse trabalho, fazem de maneira que, quando descem para comer, fiquem sempre um ou dois no alto de 12S uma àrvore, como de vigia, os quais, espiando o lugar por todos os lados, em vendo alguém aproximar-se, tocam rebate e fogem todos; mas se não houver perigo algum, quando os outros fartos sobem, descem os vigias por sua vez para comer. Hà também avestruzes, que não podem voar por causa do extraordinàrio tamanho do corpo. Hà ainda outros passarinhos, chamados guainumbi , os mais pequenos de todos; alimentam-se só de orvalho; desses hà vàrios gêneros, dos quais um, afirmam todos, que se gera da borboleta. Hà outro pàssaro semelhante ao corvo, parecido com o ganso por causa do bico, o qual mergulhando nos rios, està muito tempo debaixo dàgua a comer peixes. Hà também outro, de menor corço, mas, quando sacode as asas faz tanto barulho, que as àrvores parece que caem por terra. Hà ainda uma ave marinha, por nome guarà, igual ao mergulhão, porém de pernas mais compridas, de pescoço igualmente alongado, de bico comprido e adunco; alimenta-se de caranguejos e é muito voraz. Passa por uma metamorfose, como que perpétua, pois na primeira idade cobre-se de penas brancas, que depois se transformam em côr de cinza, e, passado algum tempo tornam-se segunda vez brancas, de menos alvura todavia das da primeira; por fim ornam-se de uma côr purpúrea lindíssima; estas penas são de grande estimação entre os índios, que usam delas para enfeitar os cabelos e braços em suas festas. Hà ainda outra ave marinhà semelhante à adem, que, em lugar de asas, tem pequenos membros, vestidos de macia penugem; tem os pés quasi na cauda, de maneira que não podem sustentar o corpo e só lhe servem para nadar, quando ela não pôde voar nem andar. Das aves de rapina hà muitas espécies, das quais algumas são de tal tamanho que matam e despedaçam até veados, maximè uma,

para a qual, quando està no ninho, não só seus pais que têm com ela particular cuidado, mas todas as outras aves que vivem da rapina, trazem comida como a um príncipe: têm isto comsigo, que mesmo que passem muitos dias sem comer, mal nenhum isso lhes faz. Ouvi falar de outro gênero ainda de aves de presa, a qual, quando està aquecendo os filhotes recém-nascidos no ninho, que constrói no mais alto da àrvore, se o caçador sobe para tirà-los, não voa, mas, abrindo as asas para protegê-los, conserva-se imqyel, consentindo antes que a apanhem, do que em desamparar os filhos. Hà outra ave que se chama anhima, muito grande; quando grita parece o zurrar de um asno. Tem em cada asa como que três cornos, um também na cabeça, iguais aos esporões dos galinaceos, porém muito mais rijos; quando acossada pelos cães, não foge, ainda que a grandeza do corpo não a embarace de voar; antes os afugenta, ferindo-os gravemente com as asas assim armadas. Hà ainda galinhas silvestres, das quais se contam três espécies: perdizes; faisões; e outras aves todas côr de purpura, outras verdes, outras pardacentas, vistosas na sua multiplice variedade de cores. Isto quanto aos animais. Das ervas e àrvores não quero deixar de dizer isto, que as raízes a que chamam mandioca, de que nos utilizamos como alimento são venenosas e nocivas por natureza, se não forem preparadas pela indústria humana para se comerem; comidas cruas matam a gente, assadas ou cozidas comem-se; todavia, os porcos e os bois as comem cruas impunemente; se porém beberem o suco que delas se expreme, incham de repente e morrem. Hà outras raízes chamadas yeticopê, semelhantes ao rabão, de agradàvel sabor, muito apropriadas para acalmar a tosse e molificar o peito. A sua semente, que se assemelhà a favas, é um violentíssimo veneno.

Entre outras, hà aqui certa erva espalhada por toda a parte e que muitas vezes vimos e tocàmos, a que chamamos viva, porque parece ter tal ou qual sentimento: pois, se a tocares de leve com a mão ou com qualquer outra coisa, imediatamente as suas folhas, fechando-se sobre si mesmas, se ajuntam e como que se grudam; depois, daí a pouco tornam a abrir-se. Das àrvores uma parece digna de notícia, da qual, ainda que outras haja que distilam um líquido semelhante à resina, útil para remédio, escorre um suco suavíssimo, que pretendem seja o balsamo, que a princípio corre como óleo por pequenos furos feitos pelo caruncho ou também por talhos de foices ou de machados, coalhà depois e parece converter-se em uma espécie de balsamo; exala um cheiro muito forte, porém suavíssimo e é ótimo para curar feridas, de tal maneira que em pouco tempo (como dizem ter-se por experiência provado) nem mesmo sinal fica das cicatrizes. Hà também outras àrvores que enchem por toda a parte os esteiros do mar, onde nascem, cujas raízes, algumas brotadas quasi do meio do tronco, outras do ponto em que os ramos que rebentam se dirigem para cima, quasi do comprimento de uma lança, se inclinam pouco a pouco para a terra, até que no fim de muitos dias* chegam ao chão. Na povoação que se chama Espirito Santo é muito comum uma certa àrvore muito alta, cujo fruto é admiràvel. Este é semelhante a uma panela, cuja tampa, como que trabalhada a torno, com que està pendente da àrvore, se abre por si mesma quando està maduro: aparecem então dentro muitos frutos semelhantes a castanhas, separadas por delgadas tiras como interpostos septos, muitíssimo agradàveis ao paladar. O vaso ou urna, em que estão encerrados, não é menos duro que a pedra, e pode-se facilmente julgar do seu tamanho pelas castanhas que contém, que passam de cincoenta. Há, além disso, pinheiros de altura estupenda; propagam profusamente ocupando o espaço de seis ou sete milhas.

Os índios dão aos seus frutos, por antonomasia, o nome especial de ibà, isto é, fruto (nome aliàs comum aos demais frutos); são compridos como os nossos, mas muito maiores, de casca mole, semelhantes à amêndoa das castanhas. Os lugares que ficam para o sententrião não produzem destas àrvores. Hà diversas àrvores de frutos excelentes para comer-se, muitos de suavíssimo cheiro, e de mui deleitavel sabor. Úteis à medicina não hà só muitas àrvores, como raízes de plantas; direi, porém, alguma coisa, maximè das que são proveitosas como purgantes. Hà uma certa àrvore, de cuja casca cortada com faca, ou do galho quebrado, corre um líquido branco como leite, porém mais denso, o qual, se se beber em pequena porção, relaxa o ventre e limpa o estômago por violentos vômitos: por pouco, porém, que se exceda na dose, mata. Deve-se, emfim, tomar dele tanto quanto caiba em uma unhà e isso mesmo diluído em muita àgua; se não se fizer assim, incomoda extraordinariamente, queima a garganta e mata. Hà uma certa raiz, abundante nos campos, utilissima para o mesmo fim; raspa-se e bebe-se misturada com àgua; esta, se bem que provoque o vômito com bastante violência, todavia bebe-se sem perigo de vida. Hà também outra, chamada vulgarmente ma/rareçô; as suas folhas parecem as do bordo, a raiz pequena e redonda, que se come assada ou bebe-se esmoida com àgua, exposta por uma noite ao sereno. Descobriu-se ultimamente outra, que é tida em grande estima e com razão. Esta é oblonga e delgada, contundida e deixada de infusão em àgua pelo espaço de uma noite, bebe-se de manhã sem dificuldade, não causa nàusea, nem produz fastio; desembaraça, porém, o ventre com abundante fluxo, que cessa logo que se tome algum alimento, o que é comum às de que falei hà pouco. Há, além destas, vàrias outras que servem muito para soltar o ventre, quanto para o prender. Exceto os frutos de certas àrvores, quasi que nenhum remédio eficaz se encontra.

Até nas pedras se encontra o que admirar e com que exaltar a onipotência do supremo e ótimo Deus, maximè em uma que serve para afiar espadas; mas tem isto de maravilhoso, que qualquer parte dela que tocares em as mãos se torna flexível como o couro e a moveràs como coisa apertada por um nó, de maneira que não parece uma pedra só, mas sim muitas reunidas por diversas juntas. Encontram-se em certo rio habitado pelos inimigos, a umas 50 milhas de Piratininga, muitas conchas, nas quais se criam certas pedrinhas transparentes, que querem sejam pérolas: têm o tamanho do grão de bico e algumas maiores. Isto é quanto me ocorre dizer das àrvores, plantas e pedras. Acrescentarei agora poucas palavras acerca dos espectros noturnos ou antes demônios com que costumam os índios aterrar-se. E,' coisa sabida e pela boca de todos corre que hà certos demônios, a que os Brasis chamam corupira, que acometem aos índios muitas vezes no mato, dão-lhes de açoites, machucam-os e matam-os. São testemunhas disto os nossos Irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles. Por isso, costumam os índios deixar em certo caminho, que por àsperas brenhas vai ter ao interior das terras, no cume da mais alta montanha, quando por cà passam, penas de aves, abanadores, flechas e outras coisas semelhantes, como uma espécie de oblação, rogando fervorosamente aos curupiras que não lhes façam mal. Hà também nos rios outros fantasmas, a que chamam Igpupiàra, isto é, que moram n'agua, que matam do mesmo aos índios. Nao longe de nós hà um rio habitado por Cristãos, e que os índios atravessavam outrora em pequenas canoas, que fazem de um só tronco ou de cortiça, onde eram muitas vezes afogados por eles, antes que os Cristãos para là fossem. Hà também outros, maximè nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados baetatâ , que quer dizer "coisa de fogo", o que é o mesmo como se se dissesse "o que é todo fogo". Não se vê outra coisa senão um facho cintilante correndo daqui para ali; acomete rapidamente os

índios e mata-os, como os curupiras: o que seja isto, ainda não se sabe com certeza. Hà também outros espectros do mesmo modo pavorosos, que não só assaltam os índios, como lhes causam dano; o que não admira, quando por estes e outros meios semelhantes, que longo fora enumerar, quer o demônio tornar-se formidàvel a estes Brasis, que não conhecem a Deus, e exercer contra eles tão cruel tirania. Destes Brasis direi, em último lugar, que quasi nenhum se encontra entre eles afetado de deformidade alguma natural; achase raramente um cego, um surdo, um mudo ou um coxo, nenhum nascido fora de tempo. Todavia, hà pouco tempo, em uma aldeia de índios, a uma ou duas milhas de Piratininga, nasceu uma criancinha, ou antes um monstro, cujo nariz se estendia até ao queixo, tinhà a boca abaixo deste, os peitos e as costas semelhantes ao lagarto aquàtico, cobertas de horrendas escamas as partes genitais perto dos rins; a qual seu pai, assim qne_jttasceui_fgz_enterrar viva. A esta morte condenam também os que suspeitam terem sido concebidos em adultério. Não é talvez menos para admirar o ter nascido em Piratininga um porco heimafrqdita que, segundo creio, ainda està vivo. Narrei essas coisas brevemente, como pude, posto que não duvides que haja muitas outras dignas de menção, que são desconhecidas a nós, ainda aqui pouco pràticos. Rogamos entretanto aos que achem prazer em ler e ouvir estas coisas, queiram tomar o trabalho de orar por nós e pela conversão deste país. Escrito em São Vicente, que é a última povoação dos Portugueses na índia Brasilica voltada para o Sul, no ano do Senhor 1560, no fim do mês de Maio. O minimo da Companhia de Jesus.

Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Sinopse

Leia gratuitamente Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, de José de Anchieta, obra colonial brasileira em domínio público. Esta edição digital consolida cartas, informações, fragmentos históricos e sermões quinhentistas em 38 capítulos internos, com texto curado a partir da edição de 1933 via BLPL/UFSC e Etnolinguística/Mindlin, notas editoriais separadas do corpo principal, espelhos HTML e preparação para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA no Literunico.

Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 10 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Capa de Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Continue a leitura Ao Padre Geral, de São Vicente, ao último de maio de 1560 Capítulo 10 · 10 de 38 · ≈ 50 min
Todos os capítulos 38 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir