Universo da obra
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XII Ao PADRE GERAL DIOGO LAINEZ, DE SÃO VICENTE, A 12 DÃ JUNHO DE 1561. Partida do Padre Luiz da Grã para a Baía. — Nóbrega em Piratininga. — O caminho de Paranapiacaba, — Visita às aldeias dos antigos discípulos. — Morte de Caiubi e de um seu filho. — Notícias de Santos e Itanhaen. — Substituição do capitão-mór. — Mudança de Santo André da Borda do Campo para Piratininga. — Gregorio Serrão. — Assaltos dos índios e desf orço dos Portugueses. — Pestilência de câmaras de sangue. — Morte do Irmão Mateus Nogueira. No ano passado escrevi por duas vias o que o Senhor teve por bem obrar nestas partes, onde andamos na salvação das almas. Agora darei conta do que quererà saber Vossa Reverendíssima para a consolação dos Irmãos, que desejam saber novas de nós outros, como nós outros as desejamos deles. Depois da partida do Padre Luiz da Grã para a Baía de Todos os Santos, com o Governador, no mês de Junho, um dia depois de S. João Batista, se foi o Padre Manuel da Nóbrega à Piratininga a visitar os Irmãos, os quais depois que chegou da Baía ainda não havia visitado por suas muitas enfermidades, de que se estava curando, que depois que um pouco convalesceu, se partiu logo, passando assàs trabalho, por ter as pernas todas chagadas, lançar sangue pela boca, e os caminhos serem mui àsperos e despovoados, onde não hà conversação senão dos tigres, cujas pisadas achamos muitas vezes frescas, por onde passamos; e é necessàrio onde se hà de pousar, fazer casa, ou por me-
lhor dizer, a cabana de novo de paus e ramos de palmas, e buscar lenhà para fazer fogo de noite, porque não hà outras mantas para o frio, que é tão grande, que às vezes somos forçados atiçar o fogo mais de doze vezes, e assim passamos a noite, e nela sem poder dormir, e o que é melhor, que acontece às vezes não ter fogo, nem na cabana, e passar toda a noite no bosque ao frio e chuva, cobertos somente do divino amparo, por cujo amor isto se padece; ajunta-se a isto os homens, que por estes caminhos desertos sempre acompanham os caminhantes. Depois de estar em Piratininga alguns dias, nos mandou o Padre visitar as povoações dos índios nossos antigos discípulos, os quais como que hà muito tempo tomando os costumes do Demônio, estão jà afeiçoados a este ruim mestre, que mui pouco querem aprender de nós outros. Porque ainda que ao princípio, quando estavam todos juntos algum fruto se fazia neles, maximè nas mulheres e meninos, depois que se dispersaram por diversas partes (como pelas letras passadas consta) nem se pode acudir com a doutrina, nem (o que é peor) eles a querem, e assim quando os visitamos por suas aldeias, parte pelos rios parte por terra, com não pequeno trabalho, recebem-nos como aos outros Cristãos Portugueses, que querem tratar, e resgatar com eles como amigo, sem ter nenhum respeito à salvação de suas almas, ou doutrina de seus filhos, totalmente remetidos aos seus antigos e diabólicos costumes, exceto o comer carne humana, do que por bondade do Senhor parece que estão alguma coisa desarreigados, entre estes a quem ensinamos verdades: que fazendo ainda grandes festas na matança dos seus inimigos, eles e seus filhos, ainda os que sabiam ler e escrever, bebendo grandes vinhos como antes eram acostumados, se não os comem, dão a comer a outros seus parentes, que de diversas partes vêm, e são convocados para as festas. Tudo isto vem deles não estarem sujeitos, e em quanto assim estiverem, difícil coisa serà afastà-los do jugo de Satanaz, que se tem deles senhoreado. Praza ao Senhor que chegue jà o tempo desejado, como aconteceu aos da Baía, com cuja conversão se podem nossos Irmãos consolar, e entretanto rogarà N/osso Senhor pela conversão destes. Não deixa porém o Senhor de chamar algum deles que tem
escolhido para o seu Reino, assim agora, ora de uma aldeia, ora de outra, vêm alguns a confessar-se, outros a batizar-se e morrer bem, e outros que não podem vir, mandam a pedir remédio de confissão, outros trazem seus filhos inocentes, de maneira que sempre se colhem alguns manipulos misturados com fletu et labore, assim em Piratininga, como quando os vamos a visitar pelas suas aldeias, e destas tais visitações, quando outro não achasse, se tira este proveito, que se padece alguma fome, com cansaço e trabalho, por amor de Nosso Senhor. Uma vez, depois de termos corrido todas as Igrejas, partimos delas por terra mui de manhã, por poder vir à missa, que era Domingo, e um Irmão saiu adeante, o qual assim por saber mal o caminho, como pela grande escuridade das nuvens, que muito tempo do ano duram quasi até 10 horas e são frigidissimas, pensando caminhír para a casa, tomou o caminho em contràrio e perdeuse, andando de campo em campo, de vale em vale, de monte em monte, sem achar caminho até quasi meio dia, que se desfez de todo a nevoa, e Nosso Senhor o encaminhou, sem ele saber o caminho que levava, direito à casa, bem molhado do frio, roxo e assàs suado do trabalho e mui alegre no Senhor. Contarei aqui de um manipulo, que poucos dias hà (segundo esperamos), se recolheu no granel celestial; êst<- era um velho (191 )i de mais de cem anos, que sendo morador em um outro lugar, duas léguas de Piratininga, como o disseram os Padres que se viesse a Piratininga para aprneder as coisas de Deus, logo deixou quanto tinha, e foi o primeiro que começou a povoà-la, vindo de certos a certos dias a buscar de comer com a sua gente a outro lugar, que pelo amor de Deus tinhà deixado, onde tinhà suas roças e fazendas, e quando havia de partir, vinhà primeiro à Igreja dar conta a Nosso Senhor da sua partida, dizendo-lhe em sua lingua, posto que de joelhos: — "Senhor, eu vou a buscar de comer, hei de tardar tantos dias, guardai-me, que não me aconteça algum mal," e outras muitas coisas desta maneira, as quais falava com tanta simplicidade, fazia com Deus como falava com os outros, a quem sempie pedia licença quando havia de ir à jornada; entrava primeiro qu< todos na Igreja a dar graças a Nosso Senhor, e a dizer, o como tinhà vindo, como prometera. E nesta fé e simplidÁde permaneceu sempre, ouvindo cada dia missa, e pregando aontmuamente a seus filhos e netos, que tinhà muitos, para que fossem bons, e cressem em Deus, e guardassem o que lhes ensinàssemos. Trazia um bordão com uma cruz, que nós outros lhe demos, e^ínhà muita fé e esperança, e quando ia fora, aquele era o seu arco e flechas que levava, e pelo qual dizia que o guardava Deus do mal, e dava larga vida: e certo que era para maravilhar, ver um homem de tanta idade, que se espantavam todos como tanto vivia, ser tã<> rijo e são, que parecia que cada vez se fazia mais mancebo, o quetudo (como era verdade) ele atribuía a Nosso Senhor, e seus desejas não eram outros senão de estar com seu Pai, que assim chamava a Deus. Chegando depois sua última enfermidade, recebida como dada da mão do Senhor, pondo nele toda a sua esperança, e desejo que sempre teve, chamando o sacratissimo nome de Jesus, até que não podendo falar a boca, os olhos levantou ao Céu, chamando-o nc coração, o que com a boca jà não podia, e assim se foi para ele, que tanto sua alma desejava. Deixou em testamento a seus filhos, que com ele estavam, que nunca se apartassem da Igreja e da doutrina dos Irmãos como havia feito, o que cumpriu muito bem um de seus filhos, que desde menino se havia criado com a doutrina dos Padres, que enfermando de uma longa doença, ia prostrar-se depois de muitas vezes se haver confessado, nos encomendou sua mulher e filhos para que vivessem e morressem em Piratininga junto da Igreja como havia vivido, e pediu o Sacramento da Extrema-Unção; e porque houvesse alguma pouca tardança em lhe trazer, tornou-me a dar pressa, dizendo que viessem logo, para que não morresse sem ele, e acabando de o receber com muita fé e devoção, rogou aos «ircunstantes, que o encomendassem a Deus, e daí a duas horas deu a alma a Deus. ' Destes podia contar outros muitos mais dos escravos, que por ser de geração tão bestial, parece que dão maior ocasião de louvar a Deus, com sua muita fé e grande conhecimento quej mostram e amor a Nosso Senhor. Praza a ele com sua Divina Bonòade de chegar a tempo, em que, de dois a três meses, de todos s< dê grande glória a Sua Majestade, e nós outros recebamos consolação. Deixo de contar de muitos, que Nosso Senhor no estado de inocência leva a seu Reino cada dia. Com as mulheres e escravos dos Portugueses se faz muito fruto, e nisto nos ocupamos muito, porque lhes é tão necessària a doutrina das coisas da Fé, ao menos aos escravos e aos índios; destes se batizam e confessam muitos, e se lhes dà estado de vida, casando-os, porque é quasi geral o costume da terra, não se lhes dando nada os senhores que tenham os seus escravos amancebados, e querendo mais o serviço deles, que a sua salvação, não têm conta, com a sua doutrina, e os têm por suas fazendas espargidos, sem os fazer vir à Igreja, e não é de maravilhà assim a maior parte deles estarem rudes nas coisas da Fé, e que mal sabem que hà Deus, de maneira que é tanta a negligência dos senhores, e nisto é tanta a perdição dos escravos, que temos por mui grande proveito ocuparmos em sua doutrina. Aqui em S. Vicente hà sempre concurso deles à doutrina e confissões, como é pelos outros Irmãos sabido; na outra Vila se tem posto um Padre e um Irmão intérprete com que se faz muito fruto, doutrina e confissões. E ' mui grande o concurso dos escravos vtriusque sexus, de noite e de dia, a aprender e confessar-se, de maneira que quasi todo o dia se gasta em confissões, e se mais intérpretes houvera, muito mais se confessavam, e não é pequena desconsolação vê-los estar todo o dia esperando na Igreja. Em outro lugar de Portugueses, seis a sete léguas pela praia, se açode algumas vezes, porque quasi todos se confessam e comungam quando là vamos, e os escravos nos não dão vagar nem de repousar de noite, posto que muito antes de manhã nos vêm a pedir confissão, desde então até a noite não cessamos. Seja o Senhor por tudo louvado. Também de ida e vinda se colhe algum fruto, porque por toda aquela praia estão fazendas dos Portugueses, e sempre se acham por elas alguns escravos enfermos à morte, que se confessam, e apreciam bem morrer. Aqui se ordenou outra casa, que eles mesmos querem fazer por sua devoção, para quando os Irmãos là forem, e para quando houver algum enfermo, por ser lugar são e aprazível. Aos engenhos de assucar se prove também com doutrinas e con-
fissões quando é possível, de maneira que, toda a gente da Capitania recebe serviço de nós outros, a quem eles correspondem com o amor que nos têm, o que muito se mostra neste segundo caso. Havendo os dias passados vagado o cargo de Capitão-mór e Ouvidor desta Capitania, por se acabar o tempo daquele que o era, e não prover El-Rei nem o Senhor da terra, foi necessàrio que o povo o elegesse, e como nestes casos costumam haver parcialidade, bandos, e desasossêgo na terra, e neste também se começava, porque um o pretendia ser com pouca razão, sem ser canonicamente eleito, por se evitar o que se temia, juntos todos os principais da terra, em que està o Governo, acordaram de comum consentimento, que um Padre da Companhia se achasse presente a tomar os votos, porque cessasse toda a suspeição, porque dele só confiavam, não permitiria fazer-se coisa injusta, e pedindo todos isto ao Padre Manuel da Nóbrega, se achou ele presente, de que toda a terra queria ficar quieta e sossegada, crendo que ele havia vindo por vontade do Senhor, como é de crer, porque foi pedido com missas, orações, jejuns e disciplina. De Piratininga, ainda que se apartassem os índios dela, para viver mais livremente à sua vontade, todavia deixaram alguns, maximè da geração daquele velho de que arriba se disse, os quais perseveraram na fé firmes, e confessando a miúdo aqueles, que creio muitos são salvos, e se salvaram. Além desta uma povoação de Portugueses, que estavam três legoas apartados, se mudou para Piratininga por mandado do Governador a instância dos Padres, porque estava em mui grande perigo dos inimigos corporais, dos quais estava jà espiada, por caminhos que haviam aberto pelos bosques, donde sua terra temia-se cada dia a vir a destruir, ou ao menos saltear e matar alguns deles, ou seus escravos, como costumavam, e muito mais pelo grandíssimo perigo em que estavam dos inimigos espirituais, pelos quais não só espiada, mas salteada e roubada estava muitas vezes, porque não tinham sacerdote, que lhes administrasse os sacramentos, e ainda que em suas enfermidades os socorríamos, e de noite por silvas muito espantosas; todavia sempre o diabo levava muitos dos seus escravos, aos quais muitas vezes não se podia remediar, que primeiro não morressem. Por estas causas
trabalhavam muitos os Padres que se passassem para Piratininga, onde agora estão muitos deles, quasi sujeitos à vontade e disposição dos Padres, no que toca às suas almas, confessando-se e comungando nas Festas e Domingos do ano, e suas mulheres e escravos, e é para louvar a Deus ver o desejo e fervor que têm em aprender duas vezes cada dia, ensinados na sua lingua, onde se lhes declara as coisas mais importantes da sua salvação. E ' pelo Irmão Gregorio Serrão, que ao presente tem a seu cargo aquela Vila, por saber a lingua dos Brasileiros, e confessar a muitos a miúdo, e tanto flue se não pode satisfazer às vezes aos seus desejos. Està Piratininga posta em fronteira destes numerosos índios, os quais muitas vezes se arruinam pelo pouco temor que têm dos Cristãos, e tanto que hà poucos dias vimos a uns poucos em uma fazenda dos Portugueses, e levaram, e mataram quatro ou cinco escravos, e de melhor vontade o fariam aos senhores, se os ajudassem a isso os outros seus parentes, os quais não querem consentir, porque parece, segundo mostram, que estimam a amizade e trato que têm com os Portugueses. Por outra parte têm os contràrios, que é uma grande geração daquela lingua e costumes destes, os quais estão tão perto, que em quatro ou cinco dias se pode vir de suas terras. Estes nunca cessam por mar e por terra de perseguir aos Cristãos, levando os seus escravos, e matando-os, e a alguns deles mesmos, de maneira que sempre se vive em contínua inquietação e temor deles, maximè agora que pelos matos mais bravos, e montanhas mui espantosas e desertas têm aberto caminhos por diversas partes, pelos quais vêm de suas terras a saltear as fazendas dos Portugueses sem haver quem lhes impida. Por estas causas determinaram os moradores de Piratininga, com alguns mestiços, vendo que não se acudia a estes males, fazer guerra a um lugar dos inimigos fronteiros, para que pudessem viver com alguma paz e sossego, e juntamente começassem a abrir algum caminho para se poder pregar o Evangelho, assim aos inimigos, como a estes índios, sobre os quais jà temos sabido, que por temor se hão de converter mais que por amor, e para isto se preparassem todos confessando e comungando, mais zelosos da honra de Deus e dilatação da Fé, que amigos de seus próprios interesses: foi com
eles um dos sacerdotes dos nossos, para lhes dizer Missa e pregar, e ir adeante levando a cruz, e um Irmão intérprete para os índios batizados, que com eles iam. O seu caminho é desta maneira: vão primeiro por um rio algumas jornadas com armadilhas, as quais não são mais cada uma que o âmago de uma àrvore, mas tão grandes que numa cabem vinte a vinte e cinco pessoas com seus mantimentos e armas. Chegados ao ponto do primeiro rio para onde vão, saem fora delas, e as levam às costas por quatro ou cinco léguas dos bosques de mui maus caminhos, e que aí descarregados vão seguindo a jornada a entrar em outro rio, que està jà em guerra com os inimigos. Partiram, pois, de Piratininga, onde então estàvamos esta Quaresma passada, dizendo o Padre cada dia missa, e prègando-lhes antes de chegar aos inimigos; tornaram-se a confessar e comungar muitos deles, fazendo Igreja daqueles bravos e espantosos matos, e com isto lhes deu Deus Nosso Senhor grande vitória, destruindo o lugar, sem escapar mais que um só; sendo-lhes a coisa mais forte que até hoje se tem visto nesta terra de inimigos: e bem se pareceu nos muitos destes índios que morreram e foram flechados, e dos Portugueses, que logo ao entrar os tomaram quasi todos, e mataram três, de maneira que só dez ou doze homens, com ajuda da Real Bandeira da Cruz que o Padre trazia adeante, animando-os, queimaram e assolaram o lugar, do qual virão muitos inocentes, que estão jà metidos no grêmio da Santa Igreja pelo batismo. Enquanto eles andavam em guerra, meu ofício consistia em ajudà-los com orações públicas e particulares, repartindo a noite de maneira, que sempre havia oração até de manhã, e acabada a oração cada um tomava sua disciplina, e o mesmo faziam muitas mulheres devotas, e as mestiças fazendo sua disciplina, vigília, e oração; e ordenou Nosso Senhor que a batalhà se desse em dias de sua paixão, nos quais eram tantos os gemidos, choros, e disciplinas no fim dos ofícios, de joelhos, assim os de casa como os de fora, que toda a Igreja era uma voz de pranto que não podia deixar de penetrar os Céus, e mover ao Senhor a ter misericórdia de nós outos, tendo padecido assàs trabalho dos homens que cansaram pelos caminhos desertos.
Depois da guerra hão tomado os Cristãos tão grande ânimo, que estão determinados a fazer guerra a estes inimigos, até que eles vencidos se sujeitem, como se fez na Baía, e està agora apregoada a guerra, em que vai o Capitão com toda a mais gente da Capitania. Esperamos em Nosso Senhor, pois este é o remédio com esta brava geração, se querem que favoreça aos Cristãos, para que não tenhamos inveja aos da Baía. Este ano nos castigou a Divina Justiça com muitas enfermidades, principalmente com câmaras de sangue, que deram maximè nos escravos, de que morreram muitos, e tanto que parecia pestilencia. Dois, três, quando muito quatro dias duravam com elas, que não morressem alguns, que outros escapavam. Isto nos tem dado muito trabalho, porque de dia e de noite não cessàvamos de os confessar, e acudir com os remédios que podíamos, maximè em Piratininga, em que os Irmãos são médicos espirituais e corporais, e tudo pende deles, onde não havia casa sem doentes, e em algumas havia três e quatro, de maneira que bem se havia mister, dia e parte da noite, para os sangrar, curar, e confessar, e pela mesma diligência que os Irmãos nisso punham, não morreram ali tantos, como em outras povoações onde isto faltava: morreram muitos sem se confessar por as povoações serem muitas e nós outros poucos, e não poder acudir a todos. Depois que tivemos curado a todos, o Senhor começou a darnos o galardão dos trabalhos, e isto foi fazer-nos participantes da mesma enfermidade das cameras de sangue, mas com elas e com febres, que sempre as acompanharam; foi necessàrio acudir uma noite a confessar uma índia, que delas estava jà quasi no fim. Deram primeiro em um Irmão, e como delas convalescesse, deram logo em outro, mas bexigas, e de que pensamos não escapasse; mas por bondade do Senhor jà està bom. Esperàvamos que como sarasse e desse em outros, e assim corresse a todos, mas o Senhor não nos teve por dignos de tanto bem com a enfermidade, maximè nesta terra, onde tão poucos remédios e consolações hà por ela. Os mais Irmãos passam bem pela bondade do Senhor, ainda que freqüentemente sejam vexados com diversas enfermidades, qual de cabeça, do estômago, de febres e outras dores, que das muitas àguas que passam frequente- 1 7 Í
mente se geram; mas andam jà tão acostumados a sofrê-las e dissimulà-las, que parece por não haver médico, que as encareça, não deixam de fazer o seu ofício de ajudar aos próximos com doutrinas e confissões, ainda que com assàs trabalho, do qual não pouco se edificam os próximos, maximè aqueles que são assíduos à frequentação dos Sacramentos, que nos têm grande amor, e que sabendo estas mulheres mestiças de S. Vicente, que um Irmão que aqui costumava ensinar, estava em Piratininga mui mal de cameras de sangue, não se puderam conter, que na Igreja não fizessem um grande pranto, e toda a semana de Pàscoa que isto sucedia, que elas costumavam gastar em suas recreações e saidas, não quiseram receber nenhuma consolação, antes em jejum, orações e tristeza, passaram em choros a Semana Santa, pedindo ao Senhor lhes concedesse aquele Irmão para proveito e salvação de suas almas, e bem creio que suas orações juntas às dos nossos caríssimos que là têm particular memória de nós outros, lhe alcançaram logo do Senhor a saúde. O dia de Janeiro de S. Paulo Eremita, quis Nosso Senhor levar para si o nosso Irmão Mateus Nogueira ferreiro, que era homem de idade, e muito mais velho por contínuas enfermidades que padecia, em as quais nunca deixava de trabalhar, sendo contínuo na oração, com mui especial zelo da conversão destes Brasis, pelos quais continuamente rogava a Deus, porque ignorando sua lingua não podia pregar: morreu de uma dôr de eólica e pedra que muitas vezes padecia, e com que esteve padecendo cinco dias até que deu a alma ao Senhor, conhecendo a sua morte antes de falecer. Não foi necessàrio acordar a caridade dos Irmãos para rogar a Deus por um homem santo, assim pelos vivos, como pelos mortos. O Padre Manuel da Nóbrega, pela misericórdia do Senhor està melhor, e pôde acudir às confissões e sermões, onde se achà como outro qualquer, e andar os caminhos visitando a todos, e com isto se faz mais são que quando repousa, salvo se as àguas tratam mal os corrimentos. Nos trabalhos e ocupações não se esquece do exercício da oração, e por ele é que o Senhor lhe comunica forças. Fez uma casita em Piratininga mui a propósito, onde se recolhem os Irmãos por sua ordem, e cada um tem ali seus dias de recolhimento em que se renova de novo o fervor, e conheça suas faltas e castigo. O estudo da gramàtica se continua com os Irmãos das casitas, de que temos boa espectação, que agora se receberam por eles alguns de fora. Dê-nos N. S. Jesus Cristo sua copíosa graça, para conhecer sua santíssima vontade, e saber perfeitamente cumprir. Deste Colégio de S. Vicente, a 12 de Junho de 1561. Mínimo da Companhia de Jesus.
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