Universo da obra
Universo da obra
XVI AO PADRE DIOGO MIRÃO, DA BAÍA, A 9 DE JULHO DE 1565 A armada de Estàcio de Sà em São Vicente. — Partida para o Rio de Janeiro. — Sucessos da viagem. — Vinda de três navios da Baia. — Desembarque no Rio de Janeiro. — Construção da cerca. — Ciladas dos Tamoios. — Tomada de uma nau francesa. — Partida de Anchieta para a Baía. — Padre Gonçalo d'Oliveira. — Elogio de Estàcio de Sà. — Necessidade de auxiliar os combatentes do Rio de Janeiro. De São Vicente se escreveu largamente o que aconteceu à armada, que da cidade do Salvador foi povoar o Rio de Janeiro este ano passado de 1564; partiu no fim do ano de 1564, agora darei conta do que mais sucedeu. Depois de passar muito tempo em se reformar a armada de cordas, amarras e outras coisas necessàrias, e esperar pelo gentio dos Tupinaquins, com os quais se fizeram pazes, indo duas vezes em navios às suas povoações a os chamar, para darem ajuda contra os Tamoios do Rio, os quais prometendo de vir, não vieram senão mui tarde e poucos, e tornaram-se logo de São Vicente, sem quererem com os nossos vir ao Rio, a qual foi a principal causa de muita detença que a armada fez em São Vicente; e, finalmente, depois de haver muitas contradições, assim dos povos de São Vicente, como dos capitães e gente da armada, aos quais parecia impossível povoar-se o Rio de Janeiro com tão pouca gente e mantimentos, o capitão-mór Estàcio de Sà e o ouvidor geral Braz Fragoso, que sempre resistiram a todos estes encontros e contradições, determinaram de levar ao cabo esta
cmpreza que tinham começado. B confiados na bondade e poder divino assentaram que se ficasse o ouvidor geral em São Vicente, fazendo concertar o galeão e a nau francesa, que se achavam comidos de buzanos, e não estavam para poder navegar, e depois se viria com socorro ao Rio, e que o capitão-mór se passasse logo em sua nau capitania e alguns navios pequenos e canoas a começar a povoação. Partiu o capitão-mór só em sua nau aos 22 de Janeiro de 1565, e no mesmo dia veiu ter à ilha de São Sebastião, que està 12 ou 13 léguas de São Vicente, onde esteve esperando pelos navios pequenos que se ficaram aviando, os quais partiram de Bertioga a 27 do mês, e ao seguinte dia vieram com a capitania; os navios pequenos eram cinco somente, e os três deles de remos, e com eles vieram oito canoas, as quais traziam a seu cargo os Mamalucos de São Vicente, com alguns índios do Espírito Santo, que o ano passado haviam ido com o capitão-mór, e alguns outros de São Vicente dos nossos discípulos cristãos de Piratininga, de maneira que toda a gente, assim dos navios como das canoas, poderiam chegar até 200 homens, que era bem pouco para se poder povoar o Rio, ao que se ajuntava o pouco mantimento que traziam, que se dizia poder durar 2 ou 3 meses; com tudo isto, como digo, chegàmos a Ilha de São Sebastião onde jà estava o capitão-mór, e aí dissemos missa, e se confessou e comungou alguma gente; e como comumente vinham com grande alegria e fervor confiados que com aquela pouca força e poder que traziam haviam de povoar, ajudados do braço divino, e que não lhes havia de faltar o mantimento nesta ilha, ordenou o capitão-mór que os navios de remos acompanhassem as canoas que daí por deante entravam jà na terra dos Tamoios e era necessàrio cada dia pousarem em terra em algumas ilhas, e para virem mais seguras mandou meter gente em sua canoa, que vinha por popa de um navio, dando os seus escravos que a remassem com alguns Mamalucos; e deu-lhe Nosso Senhor tão bom tempo, que sempre os navios de remos chegavam a pousar onde elas estavam, até entrar na Ilha Grande, onde estiveram muitos dias esperando pela capitania, a qual teve muitos ventos contra, até não poder aferrar1
pano como os navios pequenos, e foi forçada a arribar a uma ilha com a verga do traquete quebrado, e rendido o mastro grande. Os Mamalucos e índios enfadados de esperar tanto tempo pela capitania, e forçados da fome, que quasi jà não tinham mantimentos, determinaram de o ir buscar a uma aldeia de Tamoios, que estava daí a 2 ou 3 léguas, e ajudou-os Cristo Nosso Senhor, que chegaram à aldeia e queimaram-a, matando um contràrio, e tomando um menino vivo, e toda a mais gente se acolheu pelos matos; e com esta vitória alegres se mudaram todos ao outrp porto da mesma Ilha Grande, onde tinham muita abundância de peixe e carne; a saber, bugios, cotias, caça do mato, e aí dissemos também muitas vezes missa, e se confessou e comungou muita gente, aparelhando-se para a guerra a que esperavam no Rio de Janeiro; porém ainda que muito trabalhàmos nós pela nossa parte, e os capitães dos navios pela sua, não pudemos acabar com os índios que esperassem pelo capitão-mór, como ele tinha ordenado, antes apartando-se dos navios se vieram para dentro de uma ilha chamada Marambaia, por entre aldeias dos Tamoios, caminho do Rio de Janeiro; e porque eram poucos e vinham em grande perigo, pareceu bem se viessem os Mamalucos após eles, e que todos eles juntos esperassem pelos navios numas ilhas que estão uma légua fora da boca do rio, às quais eles chegaram sem nenhum encontro de Tamoios, ou outro perigo algum. Os navios ficaram esperando pela capitania cinco ou seis dias, e por derradeiro parecendo-lhes que seria jà passada de mar em fora, e temendo o perigo das canoas, partiram-se uma madrugada; e saindo pela boca da ilha viram a capitania que esta noite havia entrado; e assim todos juntos, com muita alegria, começaram com prospero vento a ter vista das ilhas onde as canoas estavam esperando; mas não quis Nosso Senhor que chegassem aquele dia, antes acalmando o vento, e vindo depois outro contràrio, junto com as grandes correntes das àguas, tomou a capitania a Ilha Grande, e no caminho esteve em grande perigo de se perder sobre a amarra em uma baixa . Os outros navios andaram com muito trabalho, ora a vela, ora a remos, dois ou três dias, para poderem tomar as ilhas, e acudir às canoas, que bem adivinhavam seriam tomadas dos contràrios, ou tornadas para São Vicente, ou mui perto disso, como em verdade o estavam; porque havendo jà seis ou sete dias que estavam esperando, fal* tando-lhes jà o mantimento, comiam somente palmitos e peixes, e bebiam duma pouca àgua, de que todos estavam debilitados, e alguns doentes de câmaras; e perdendo jà a esperança dos navios chegarem tão cedo, determinaram de partir cada um para sua terra, a saber: os índios do Espírito Santo com três canoas para a sua, e os Mamalucos com os Tupinaquins para São Vicente. E estando jà assentados de efetuar esta sua determinação, viram um dos navios, que a força de braços e remos vinham jà perto das ilhas, eom cuja vista se alegraram, e esperaram alguns dois dias mais, até que chegaram quatro, que foi aos 27 de Fevereiro; e porque nestas ilhas não havia mais que uma pouca dàgua, e a gente era muita; e as secas grandes, acabou-se e não havia mais que para beber um dia. Mas o Senhor, que tomou esta obra a seu cargo, mandou tanta chuva o dia que os navios ali chegaram, que se encheu o poço, e abastou a todos em quanto ali estiveram; e por nos mostrar que um particular cuidado tinha por nós, permitiu que a capitania com outro navio que haviam arribado não viessem tão cedo, como todos queríamos, donde nasceu tornarem-se a amotinar não somente os índios e Mamalucos, mas também alguns dos capitães dos navios querendo entrar dentro do rio, contra o regimento que o capitão-mór tinha dado, e tomavam por achaque, principalmente os índios, não terem que comer, e que dentro do rio, com os combates que esperavam ter dos Tamoios, sofreriam melhor a fome; e começariam a roçar e cercar o lugar onde estava assentado que se havia de fundar a povoação. Houve muito trabalho em os aquietar, porque em verdade o porto em que estàvamos era mui perigoso, os navios não tinham breu, e faziam tanta àgua que era necessàrio grande parte do dia dâr à bomba; os índios não tinham que comer; os Portugueses não tinham para lho dar; porque havia quasi um mês que com os partidos todos andavam fracos, e muitos doentes; finalmente determinaram os índios de não esperar mais que um dia, e se a capitania não chegasse, ou se meterem dentro do rio, ou se irem para suas terras, o que fora causa de grande desconsolação. Neste trabalho acudiu a Divina Providência, que logo aquele mesmo dia vimos três navios, que iam de cà da Baía com socorro, de mantimento, que era o de que a armada tinha maior necessidade; e ao seguinte, chegou a capitania e outro navio, e assim todos juntos, em uma mesma maré, com grande alegria entràmos pela boca do Rio de Janeiro, começando jà os homens de ter maior fé e confiança em Deus, que em tal tempo socorrera as suas necessidades. Logo ao seguinte dia, que foi o último de Fevereiro, ou primeiro de Março, começaram a roçar em terra com grande fervor e cortar madeira para a cerca, sem querer saber dos Tamoios nem dos Franceses, mas como quem entrava em sua terra, se foi logo o capitão-mór a dormir em terra, e dando ânimo aos outros para fazer o mesmo, ocupando-se cada um em fazer o que lhe era ordenado por ele, a saber: cortar madeira, e acarretà-la aos ombros, terra, pedra, e outras coisas necessàrias para a cerca, sem haver nenhum que a isso repugnasse; desde o capitão-mór até o mais pequeno todos andavam e se ocupavam em semelhantes! trabalhos; e porque naquele lugar não havia mais que uma légua de ruim àgua, e esta era pouca, o dia que entràmos choveu tanto que se encheu, e rebentaram fontes em algumas partes, de que bebeu todo o exercito em abundância, e durou até que se achou àgua boa num poço, que logo se fez; e como esta esteve em termos de se poder beber, secou-se de todo a lagoa, e além disto se achou uma fontezinha num penedo d'àgua muito boa, com que todos se alegraram muito, e se vão firmando mais na vontade que traziam de levar aquela obra ao cabo, vendo-se tão particular-j mente favorecidos da Divina Providencia. Os Tamoios começaram logo a fazer ciladas por terra e por mar; mas os nossos não curavam senão de cercar-se e fortalecerse, parecendo-lhes que não faziam pouco em defender dentro da cerca; mas Nosso Senhor, não querendo que se contentassem com isso, permitiu que aos 6 de Março viessem quatro canoas dos Tamoios, e fazendo uma cilada junto da cerca tomassem um índio, que se desmandou, e indo jà muito longe com sua presa deitaram os nossos as suas canoas ao mar, perseguiram os inimigos, e os fizeram saltar em terra e fugir pelos matos, deixando as canoas, arcos, flechas, espadas, e quanto nelas tinham, e o índio, que escassamente tiveram tempo para os matar; os nossos os perseguiram pelo mato um bom pedaço, e não os podendo alcançar se tornaram trazendo-lhes as canoas e suas armas, que haviam deixado, e que foi um grande triunfo para os nossos cobrarem animo, e os tamoios enfraquecerem e temerem; assim daí por deante não ousavam aparecer senão de longe, e muitas canoas juntas. A 10 de Março vimos uma nau francesa, que estava légua e meia da povoação dentro do rio; e ao outro dia foi o capitão-mór sobre ela com quatro navios, deixando na cerca a gente que parecia necessària, que ainda não era acabada; e sendo jà junto dela, e começando a atirar de sua parte e doutra, os Tamoios, que aquela cilada tinham assim ordenado, sairam detràs de uma ponta em quarenta e oito canoas cheias de gente, e arremeteram com a cerca com tão grande ímpeto, e não havendo nela baluarte nem casa alguma feita em que se pudesse a gente recolher. Ajudou-nos Nosso Senhor, de maneira que andando no meio do terreiro descobertos, e chovendo flechas sobre eles, não os feriram, antes mataram alguns dos inimigos, e feriram muitos; e não contentes com isso arremeteram com eles fora da cerca, e os fizeram fugir e embarcar em suas canoas bem desbaratados. E esta vitória, a que se houve da nau francesa, a qual se entregou sem guerra aos nossos, e foi desta maneira que vendo vir o capitão-mór as quarenta e oito canoas sobre a cerca, meteu-se em um navio de remos por lhes ir acudir, deixando mandado aos outros capitães dos outros navios que ficassem em guarda da nau até pela manhã, que tornasse, ou se lhe mandasse recado; esta noite houveram falas dos Franceses, e falando-lhes um seu parente, que estava num dos navios, e dizendo-lhes que cedessem sem guerra, que o fariam de misericórdia com eles, mostraram folgar muito, e disseram que eram uns pobres mercadores que vinham ganhar sua vida, e que estavam jà de caminho, levavam alguns Franceses dos que estavam em terra para França; que deixando-os ir se fiariam deles os outros que ficavam em terra. E porque eles tinham
dado uma regueira em terra, e tinham comsigo trinta canoas de Tamoios para despejar a nau, se se vissem em pressa, e queimà-la com dois barris de pólvora que tinham desfundados no convés com seus morrões, e eles acolheram-se à terra; porque não fosse o derradeiro erro peor que o primeiro do ano passado, que se fez em tomar outra nau, e deixar mais Franceses em terra; pareceu bem aos capitães, porque havia perigo na tardança de mandar recado ao capitão-mór, dar-lhes segurança, e prometer-lhes que eles alcançariam do capitão-mór que lho confirmasse e houvesse por bem, e com isto se entregaram e se vieram, porém ficando os Tamoios espantados de saber como se fiavam dos Portugueses; mas os Franceses, que estavam jà na nau, e se iam para a França com os seus, temendo que lhes não cumprissem o que prometiam, vendo chegar os nossos navios a ela, lançaram-se ao mar, e a nado: fugiram à terra, à vista dos nossos sem se seguir tràs deles. O capitão-mór e todos tiveram isto por grande mercê do Senhor, por ser este grande caminho para se desarreigarem do Rio de Janeiro os Luteranos que nele ficam, que serão até trinta homens, repartidos em diversas aldeias, e todos homens baixos, que vivem com os índios selvagens, e determinou de cumprir o que seus capitães tinham prometido, ainda que teve algumas contradições de homens, que mais olham seu próprio interesse que o bem comum; mas sendo a maior parte de parecer que os devia deixar ir em paz, e que daquela maneira se fazia maior serviço a Deus e a Sua Altesa, e era caminho para mais facilmente se povoar e sustentar o Rio de Janeiro, lhes deu licença que se fossem, tomandolhes a pólvora e a artilharia que era necessària para a cerca, deixando eles escrito aos seus que se fiassem de nós, e se saíssem den-i tre os selvagens, e se lançassem comnosco, contando-lhes o bom tratamento que dos nossos haviam recebido; estes desta nau eram católicos, segundo as mostras que traziam, a saber: horas de Nossa Senhora, sinais, contas, e cruzes. Pelo que é de crer que lhes fez o Senhor esta misericórdia, porque não ficassem em terra, e se viessem com os outros, e aos nossos dessem grandíssima opressão) favorecendo os Tamoios: determinava o capitão-mór à minha partida de là, que foi o derradeiro de Março, a falar com os France- ses (277-A), levando-lhes um seguro real de Sua Altesa, e a carta de seus parentes para poder apartà-los dentre os Tamoios para que esses não sujeitem os índios e em pouca força na costa do Brasil, se não vem socorro de Sua Altesa, pelo qual todos estão esperando. Antes que a nau francesa se partisse, fizeram os Tamoios outra cilada de vinte e sete canoas, aos quais ela tirou muitos e bons tiros, o que também serà a ajuda para eles lhes darem' pouco credito e amor, e facilmente fazerem pazes com os Portugueses, se forem deste Reino favorecidos, e assim ficar são o Rio; e estas traziam nove ou dez e meteram esses nossos mão com tanto pulso que foi flechada a gente de seis aldeias que se fez em terra para os defender, e alguns dos nossos sairam após eles, e houve uma brava peleja, em que foram feridos dez ou doze dos nossos, e alguns de flechadas mui perigosas, as quais pela misericórdia de Deus facilmente sararam; mas dos contràrios foram muitos os feridos, os quais os nossos viam levar a rasto pela praia, e meter nas canoas, e assim os foram perseguindo por mar e por terra, quasi até meio caminho de suas aldeias, e tomaram-lhes uma canoa, e tornaram-se com grande vitória: gloria seja ao Senhor! Ao derradeiro dia de Março parti do Rio de Janeiro para esta cidade, por mando da santa obediência, com um homem tomado da Capitania de Ilhéus, chamado João DAndrade, o qual havia sido chamado de São Vicente pelo capitão-mór a buscar mantimentos a estas capitanias, e por sua boa indústria e diligência chegou ele, como acima digo, no mesmo dia e maré que a armada chegou de São Vicente, e de caminho levou cinco homens brancos, que resgatou dentre os Tamoios àquem do Cabo-Frio, os quais se haviam perdido em um navio que antes de João DAndrade fora mandado a buscar mantimentos; e depois de estar no Rio todo este tempo, e achando-se nos combates que tenho referido, o tornou o capitão-mór, por se fiar de sua diligência, a mandar a negociar mais mantimento, porque a falta dele é que lhes faz uma maior guerra. Jà à minha partida tinham feito muitas roças em derredor da cerca, plantados alguns legumes e inhames, e determina- vam de ir a algumas roças dos Tamoios a buscar alguma mandioca para comer, e a rama dela para plantar; tinham jà feito um baluarte mui forte de taipa de pilão com muita artilharia dentro, com quatro ou cinco guaritas de madeira e taipa de mão, todas cobertas de telha que trouxe de São Vicente, e faziam-se outras e outros baluartes, e os índios e Mamalucos faziam jà suas casas de madeira e barro, cobertas com umas palmas feitas e cavadasi como calhas e telhas, que é grande defensão contra o fogo. Os Tamoios andavam se ajuntando para dar grande combate na cerca; jà havia dentro do Rio oitenta canoas, e parece-me que se ajuntariam perto de duzentas, porque de toda a terra haviam de concorrer à ilha, e dizia-se que fariam grandes mantas de madeira para se defenderem da artilharia e balroarem a cerca; mas os nossos tinham jà grande desejo de chegar àquela hora, porque desejavam e esperavam fazer grandes coisas pela honra de Deus e do seu rei, e lançar daquela terra os Calvinos, e abrir alguma porta para a palavra de Deus entrar os Tamoios: todos viviam com muita paz e concórdia; ficava com eles o Padre Gonçalo d'Oliveira, que lhes dizia cada dia missa, e confessava e comungava a muitos para a glória do Senhor. O maior inconveniente que ali havia, ultra da fome, é que estão là muitos homens de todas as capitanias, os quais passa de ano que là andam, e desejam ir-se para suas casas (como é razão): se os não deixam ir perdem-se suas fazendas, e se os deixam ir fica a povoação desamparada, e com grande perigo de serem comidos os que là ficarem, de maneira que por todas as partes hà grandes perigos e trabalhos, e se não fosse o capitão-mór amigo de Deus e afavel, que nunca descança de noite e de dia, acudindo a Uns 'e a, outros sendo o primeiro nos trabalhos, e terem todos grande e certa confiança que Sua Altesa provera, tanto que souber estar jà feito pé no Rio de Janeiro, que tão temeroso era, ainda là nessas partes tão remotas; e que se agora se não leva ao cabo esta obra, e se abre mão dela, tarde ou nunca se tornarà a cometer; jà creio que houveram rebentados muitos e desamparados quasi todos, maximè tendo novas que deram aqueles homens que sairam do cativeiro dentro os Tamoios, os quais souberam de uma nau
francesa, que ali estava, que estava o sobrinho de Villegaignon, capitão que foi da antiga fortaleza, para vir ao Rio de Janeiro e São Vicente com uma grossa armada; a cerca que tem feita não é mais que um pé a tomar posse da terra, sem se poder dilatar nem sair dela sem socorro de Sua Altesa, a quem Vossa Reverendissima deve lembrar e incitar que logo proveja, porque ainda que é coisa pequena a que se tem feito, contudo é maior, e bastalhe chamar-se cidade de São Sebastião para ser favorecida do Senhor, e merecimentos do glorioso màrtir; e acrescentada de Sua Altesa que lhe tem tanta devoção e obrigação (283-A). Esta é a breve informação do Rio de Janeiro; resta pedir a Vossa Reverendissima nos encomende e faça encomendar muito a Nosso Senhor, e tenha particular memória dos que residem e ao deante residirão naquela nova povoação, oferecidos a tantos perigos, da qual se espera haver de nascer muito fruto para glória do Senhor e salvação das almas. Desta cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos, aos 9 de Julho de 1565, Minimus Societatis Jesu.
Leia gratuitamente Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, de José de Anchieta, obra colonial brasileira em domínio público. Esta edição digital consolida cartas, informações, fragmentos históricos e sermões quinhentistas em 38 capítulos internos, com texto curado a partir da edição de 1933 via BLPL/UFSC e Etnolinguística/Mindlin, notas editoriais separadas do corpo principal, espelhos HTML e preparação para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA no Literunico.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.