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Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

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Capítulo 32 · Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Informação da Província do Brasil para nosso Padre (1585)

32 de 38 ≈ 51 min de leitura

XXXII INFORMAÇÃO DA PROVÍNCIA DO BRASIL, PARA NOSSO PADRE —1585 Wi STA província do Brasil foi descoberta por acaso em o ano de 1500 por Pedro Alvares Cabral, que ia á índia Oriental e arribou a esta terra a um porto que chamou Porto Seguro e em ele pôs um padrão por El-Rei de Portugal, e chamou a esta terra província de Santa Cruz. Dista esta província de Lisboa 1500 léguas pouco mais ou menos. Divide-se em oito Capitanias, scilicet: Tamaracá, Pernambuco, Baía, Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Vicente. Todas são portos de mar e vilas de senhores particulares, exceto a Baía e Rio de Janeiro, que são cidades de Sua Majestade. A Baía é cabeça e metrópole onde residem o Governador, Ouvidor geral, Provedor-mór, Tesoureiro e outros oficiais do Rei. Tem um só bispo toda esta província, que também reside na Baía, e tem a seu cargo Tamaracá, Pernambuco, Baía e Ilhéus, e estas quatro Capitanias visita por si ou por outro. As outras quatro, scilicet: Porto Seguro, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Vicente, visita a um sacerdote administrador eclesiástico, que é como o bispo nos poderes, mas não dá ordens, e reside de ordinário no Rio de Janeiro. Os Padres da Companhia vieram por mandado do rei Dom João de boa memória com o primeiro governador Tome de Sousa, quando veiu povoar esta terra no ano de 1549. Nesta província temos oito casas, scilicet: em Pernambuco, colégio; na Baía, colégio, escola e noviciado; nos Ilhéus, casa; em

Porto Seguro, casa; no Espírito Santo, casa; no Rio de Janeiro, colégio; em São Vicente, casa; em Piratininga, casa. Vivem em todas elas dos nossos 140, scilicet: 68 Padres, 37 estudantes e 35 eoadjutores. TAMARACÁ' Corre esta costa do Brasil do Norte a Sul e de Nordeste a Sudoeste, e começando do Norte, por sua ordem, a primeira Capitania é Tamaracá, vila de um André de Albuquerque. Tem capitão que a rege sujeito ao governador da Baía; terá 50 vizinhos de Portugueses; tem seu vigário; é coisa pouca e pobre e vai se despovoando . Está a sete léguas de Pernambuco. Aqui não temos casa; em missão vão lá os nossos muitas vezes, e se faz fruto com os moradores, e índios cristãos que são poucos. PERNAMBUCO Pernambuco é capitania de um Jorge de Albuquerque; é vila chamada Olinda; tem capitão que a governa sujeito ao governador da Baía; dista da Equinoeial oito graus e da Baía cinco; está situada em lugar eminente de bom prospeto para o Oriente, bem mui ruim porto, e as naus grandes quedam cerca de uma légua da barra, por causa dos baixos e arrecifes; terá mil vizinhos com sua comarca de Portugueses, com seu vigário e outros clérigos seculares. Junto a ela cinco léguas está uma vileta que tem 110 vizinhos de brancos com seu vigário . E ' Pernambuco terra rica, de muitos moradores, trata com assucar e pau vermelho, o mais e melhor da costa, no comércio é uma nova Lusitânia, e mui freqüentada. Tem 66 engenhos de assucar, e cada um é uma grande povoação e para serviço deles e das mais fazendas terá até 10.000 escravos de Guiné e Angola e de índios da terra até 2.000.

COLÉGIO DE PERNAMBUCO 0 Colégio de Pernambuco está situado em lugar eminente, de bom prospeto. O edifício é velho, tem dezenove câmaras de sobrado, as janelas ao mar para o Oriente, as oficinas pequenas e velhas e não tão acomodadas, a igreja pequena, mas ornada de bons ornamentos. Tem cerca grande com uma fonte e um poço, e nela tem muitas parras de Portugal, muitos coqueiros, laranjais e hortaliças; a cerca ainda que grande está toda cercada de parede de tijolo. Vivem neste Colégio dos nossos 20 de ordinário ; 11 Padres, os demais Irmãos. Têm de dote para sua sustentação mil ducados que lhes há dotado el-rei D. Sebastião; pagam-se bem em 900 arrobas de assucar, as 800 de assucar branco, mascavado, alto e maio, e as 100 em assucar negro de sinos ou retames, e pagamse em certos engenhos que os Padres assinalam cada ano, como lhes parece, e se arrecadam por um homem de fóra. Vendidos na mesma terra importarão em 1.500 ducados, enviando-se a Portugal por nossos, e a nosso risco importarão, deductis expensis, quasi 2.000 ducados. Têm a sete léguas da vila duas léguas de terra em quadro que não rendem nada por não estar aquele lugar ainda bem povoado e seguro por causa dos indios Pitiguaras que são contrários. Item algumas cabeças de bois e vacas de sua criação de que se sustentam, por não haver matadouro na vila, e se assim não o fizessem, não teriam que comer. Para as obras do edifício futuro tem 166 ducados de esmola que lhe fez el-rei D. Sebastião, e por se pagar mal e por não haver tanta comodidade de oficiais e cal, o edifício não se começa. Além dos Irmãos, tem 30 pessoas de serviço, de escravos de Guiné e da terra; todos sustentam-se mediocremente ainda que com trabalho por as coisas valerem mui caras, e tresdôbro do que em Portugal. Suas ocupações com os próximos são uma lição de casos que ouvem os nossos, e de fóra dois a três estudantes e ás vezes ne-

nhum; uma classe de gramática que ouvem até 12 estudantes de fóra, e também os casos e gramática estudam alguns de casa; escola de ler e escrever, que terá até 40 rapazes, filhos de Portugueses. Item: pregam em nossa igreja de ordinário, e na matriz e em outras igrejas a miúdo, confessam a maior parte de 8.000 Portugueses, que haverá naquela vila e comarca; são consultados freqüentemente em casos de importância por a terra ter muitos mercadores e trato; andam em contínuas missões aos engenhos, que estão alguns a quatro, oito e quatorze léguas da vila; catequisam, batizam e açodem a outras necessidades extremas, não somente dos Portugueses, mas principalmente dos escravos que de Guiné serão até 10.000, e dos índios da terra até 2.000, como acima se disse e como os clérigos não os entendem nem sabem sua lingua, os nossos os ajudam em tudo, e ensinam como se fossem seus curas e padecem nisso grandes trabalhos de caminhos que andam a pé, calores, chuvas, passando rios muito perigosos e outros muitos descomodos e perigos de cobras, porém de tudo se serve Deus Nosso Senhor e os Padres estão bem empregados e se dá remédio a tantas almas desamparadas, pelo que seja honra e glória a Sua Divina Majestade. BAÍA Dista a Baía da Equinoeial 13 graus e meio, e de Pernambuco 100 léguas. E ' intitulada a Cidade do Salvador, é cabeça e metrópole, nela residem o Governador e o Bispo. Está mal situada em um monte, tem mui aprazível prospeto para o mar ao Poente, e Oriente; a barra tem quasi três léguas de boca, e faz uma enseada de 10 até 12 léguas em extensão, em roda e contorno quasi 30; tem algumas ilhas pelo meio que lhe dão graça; esta enseada se diz baía de Todos os Santos e neste circuito e contorno que faz o mar entram da terra muitos rios caudalosos, de grandes bosques e arvoredos, e notável frescura. Tem 46 engenhos de assucar com muitos canaviais do mesmo . A cidade não é mui grande, porque a maior parte da gente vive fóra em seus engenhos e fazendas: terá em toda sua comarca

quasi 2.000 vizinhos de Portugueses, dos quais haverá 10 ou 12.000 pessoas, e para o serviço dos engenhos e mais fazendas tem até 3.000 escravos de Guiné e de índios cristãos da terra cerca de 8.000 entre escravos e livres. Os de Guiné e escravos da terra vivem na cidade e nos engenhos e fazendas de seus senhores, e os índios livres alguns em casas dos Portugueses e outros entre aldeias de que os nossos Padres têm cuidado e dali vão a servir os Portugueses, scilicet por seu estipêndio. Nesta cidade temos Colégio, o maior e seminário da provmcia, tem casa de provação junto ao Colégio, habitação distinta e escolas. Está situado em lugar mui amplo eminente ao mar, tem de novo feito um claustro de pedra e cal e no quarto da parte de Leste, fica a igreja e sacristia: a igreja é razoável, bem acabada, com seu coro, é bastante por agora para a terra, e bem ornada de ricos ornamentos, cruz e turíbulo de prata com muitas relíquias encastoadas em prata, onde entram três cabeças das Onze Mil Virgens, e outras peças que tudo é grande consolo para os desta terra, de casa e de fóra. O outro quarto da parte do Sul tem por cima capela e enfermaria de boa grandura, por debaixo despensa e adega. O quarto da parte do Poente tem 19 câmaras: nove por de cima e por debaixo dez com as janelas sobre o mar, com três outras janelas grandes que fazem cruz nos corredores. O quarto da parte de Nordeste tem sete câmaras por de cima e seis por debaixo: todas são forradas de cedro, e amplas mais que as de Coimbra, os portais de cantaria, e é edifício bem acomodado, exceto que está por aperfeiçoar, e forrar os corredores e guarnecer. Não tem ainda oficinas novas, nem provação, nem escolas, por ser tudo velho de taipa, e vai tudo devagar por não se pagar bem as rendas, e cento e sessenta ducados de esmola que el-rei D. Sebastião fez para as obras, mas sempre se faz algo. Vivem neste Colégio sessenta dos nossos de ordinário. Este Colégio há dotado el-rei D. Sebastião com três mil ducados de renda para os sessenta em cada um ano que seus oficiais pagam mui mal, pelo que ò Colégio está endividado. Item: tem três quartos de meia légua da cidade, meia légua de terra da melhor da Baía, de muitas águas e frescos bosques de ar-

voredos; nesta fazenda se fazem os mantimentos de farinhá e beijús de mandioca para os Irmãos. Em uma parte tem um tanque grande de peixes, e ali vão nos assuetos ter recreação. Poderá render a roçaria que ali tem cem mil maravedis, deductis expensis, em cada um ano. Item: doze léguas de terra em quadro no Camamú que dista 18 léguas por mar desta cidade, a qual terra com suas águas deu de esmola o governador Mem de Sá; rende pouco e ainda se gasta muito nela com medições, e outros benefícios de que até agora se saca pouco fruto, por não estar povoada de Portugueses, e mesmo é cheia de uns índios contrários que chamam Guamuré, que são como selvagens, comem carne humana de ordinário e vivem pelos desertos, sem povoações como bichos e são mui temidos dos Portugueses por sua crueldade e ferocidade. Se esta terra fora povoada, era coisa mui rica e quasi como a Baía, por ter uma barra de três léguas de boca com bom porto, e faz uma enseada e contorno de quasi vinte léguas em roda e circuito, e tem pelo meio mais de quarenta ilhas, ainda que são algumas pequenitas, todas de grande frescura e arvoredos. E nesta enseada entram muitos rios caudais, de muitos pescados, e mariscos em grande abundância, e poderá ter até dez engenhos de água de assucar, e as terras são mui férteis, e em que se dão mui bem os canaviais e a mandioca. Item: em Japacê, duas léguas de terra em quadro, que ainda não rendem nem estão povoadas. Item: outros pedaços de terra que houveram de esmolas que rendem pouco. Item: em certa terra de um amigo nosso que nos faz esta esmola algumas cabeças de vacas e bois de sua criação de que comem por não achar-se a comprar. Item: além dos Irmãos, cento e cincoenta pessoas de serviço, entre escravos e escravas de Guiné, e alguns índios e índias da terra, escravos e livres, e quasi todos vivem casados na fazenda que está junto da cidade em uma povoação com^sua igreja, onde os Padres lhes ensinam a doutrina e dizem missa e dali se repartem e vêm á casa trabalhar nas obras e em outros vários ofícios. Tem este Colégio tanta gente por ser seminário, e nele se criam os noviços, escolares, línguas, e estão os velhos, que há muitos anos que trabalham, e quanto aos escravos são tantos porque muitos não fazem por um, e também são oficiais de vários ofícios, como pedreiros, carpinteiros, ferreiros, carreiros, boieiros e alfaiates, e é necessário comprar-lhes mulheres por não viverem em mau estado e para este efeito na roça têm a dita povoação com suas mulheres e filhos, as quais também servem para plantar e fazer os mantimentos, lavar a roupa, anilar e serem costureiras, etc. Junto ao Colégio temos cerca mui larga com muitas laranjas, limões, bananeiras e outms árvores de fruto, laranjal e hortaliça, e por ela se vão os nossos embarcar em nosso porto quando vão para fóra, porque quasi todo o serviço desta Baía é por mar e a água bate na parede da cerca. As ocupações dos nossos com os próximos são: uma lição de teologia que ouvem dois ou três estudantes de fóra, outra de casos de conciência que ouvem outros tantos e uma e outra alguns de casa, um curso de artes que ouvem dez de fora e alguns de casa, escola de ler, escrever e contar que tem até setenta rapazes filhos dos Portugueses, duas classes de humanidades, na primeira aprendem trinta e na segunda quinze escolares de fóra e alguns de casa. Os estudantes nesta terra, além de serem poucos, também sabem pouco, por falta dos engenhos e não estudarem com cuidado, nem a terra o dá de si por ser relaxada, remissa e melancólica, e tudo se leva em festas, cantar e folgar. Porém, por ser nesta terra, não se faz pouco fruto com eles e já há alguns casuistas que são vigários, e alguns artistas mestres nelas, e dous ou três teólogos pregadores que pregam na catedral desta cidade e conegos da igrejamór, e vigários das paroquias. Pregam os nossos em nossas igrejas, na Sé e em outras paroquias, confessam as três partes da gente Portuguesa que são mais de dez mil pessoas, afora as que vêm em armadas, que todo o ano se confessam com os nossos; são consultados em muitos casos de conciência por ter a terra muitos tratos e mercadores; andam em contínuas missões aos engenhos e fazendas dos Portugueses a confessá-los, ensinar e batizar e casar os seus escravos, acudir-lhes em suas necessidades espirituais que são muitas e extremas, por não haver curas bastantes, e acontece estarem um e dous anos sem con-

fissão nem missa, até que os nossos por ali vão. Estas missões são não somente de grande edificação para todos, mas também de tanto fruto que quinze dias que por lá anda um Padre com um Irmão, faz de ordinário duzentos batismos de escravos adultos e inocentes, de Guiné e da terra, e até cem casamentos, sacando-os do mau estado, dando-lhes conhecimento do Criador e coisas de sua salvação, além de muitas confissões e comunhões que se fazem e de tudo se serve muito Sua Divina Majestade com grande consolo dos nossos e não pequena edificação de toda a terra. Tem este Colégio três aldeias de índios cristãos livres a seu cargo, que terão duas mil e quinhentas pessoas, scilicet: Espírito Santo que dista sete léguas daqui, S. João que dista oito e Santo Antônio que dista quatorze; nelas residem de ordinário até oito dos nossos, dous ou quatro em cada uma. Tem nelas suas casinhas, cobertas de palmas, bem acomodadas e igrejas capazes, onde ensinam aos índios as coisas necessárias á sua salvação, lhes dizem missa e ensinam a doutrina cristã duas vezes cada dia, e também em cada uma ensinam aos filhos dos índios a ler, escrever, contar e falar português, que aprendem bem e falam com graça, ajudar as missas, e desta maneira os fazem polidos e homens. Em uma delas lhes ensinam a cantar e tem seu coro de canto e flautas para suas festas, e fazem suas dansas á portuguesa com tamboris e violas, com muita graça, como se fossem meninos portugueses, e quando fazem estas danças põem uns diademas na cabeça de penas de pássaros de várias cores, e desta sorte fazem também os arcos, empenam e pintam o corpo, e assim pintados e mui galantes a seu modo fazem suas festas muito aprazíveis, que dão contento e causam devoção por serem feitas por gente tão indomita e barbara, mas, pela bondade divina e diligência dos nossos, feitos já homens políticos e cristãos. RESIDÊNCIAS DA BAÍA ILHÉUS Tem o Colégio da Baía duas residências: a primeira na Capitania dos Ilhéus que é de um Francisco Giraldes, tem capitão que a

governa sujeito ao Governador da Baía, da qual dista por mar 30 léguas e 15 graus da Equinocial. Está situada em lugar eminente sobre um rio que quasi a cerca. É de muito bom prospeto para o mar a Oriente, tem muito perigosa barra cheia de baixios e recifes, e as naus grandes ficam uma légua antes de chegar ao porto; terá 150 vizinhos de Portugueses com seu vigário, seis engenhos de assucar a uma e duas léguas da vila. Tem gente honrada, mas vive em aperto por ser muito infestada de uns que chamam Guaimurés, que são como selvagens e vivem nos desertos sem casas, como bichos, tornem carne humana, e por esta razão não se estendem os Portugueses ali pela terra dentro mais que meia ou uma légua; é terra abastada e de algum trato, por causa, do assucar. Aqui têm os nossos casa anexa á Baía onde residem de ordinário seis, três Padres e três Irmãos: vivem de esmola, ajudados do Colégio da Bahia, no que toca ao vestido, calçado, vinho, azeite, vinagre e outras coisas que não há na terra. Têm quatro câmaras assobradadas e forradas, suas oficinas acomodadas e igreja, ainda que pequena, bem acomodada de bons ornamentos. O sítio da casa é de bom prospeto para o mar, situada em lugar eminente, tem sua eerquinhá com algumas árvores de fruto. Suas ocupações com os próximos são: ensinar os meninos dos Portugueses a ler e escrever, pregar em nossa igreja e matriz, confessar os Portugueses, que serão quasi 1.000 pessoas, e os escravos e índios que estão pelos engenhos e fazendas, e estão ali bem recebidos os nossos e fazem muito fruto. PORTO SEGURO É Capitania e vila do Duque de Aveiro, dista da Baía para o sul 60 léguas e da Equinocial 16 graus e meio, tem capitão que a governa sujeito ao governador da Baía, é situada entre dois rios caudais de grandes bosques e arvoredos, em lugar eminente de bom prospeto para o mar a Oriente, tem uma planície muito ampla e chã que poderá estar ali uma grande cidade, terá 50 vizinhos de Portugueses com seu vigário. Antes desta vila quatro léguas na costa do mar, está uma po-

voação de Portugueses que se diz Santa Cruz, o primeiro porto que se descobriu nesta província; terá outros 50 vizinhos com seu vigário. E ' terra pobre por não ter engenhos de assucar, ainda que é fértil de farinhá e algodão e criação de cavalos, porém se vai cada dia despovoando, por estarem já as terras muito gastas e cansadas, e não se podem estender pela terra dentro por causa dos Guaimurés. Aqui temos casa em que vivem de ordinário seis dos nossos: três Padres e três Irmãos; vivem de esmolas ajudados da Baía, como a casa dos Ilhéus. O sítio é amplo de bom prospeto ao mar, tem quatro câmaras térreas forradas e oficinas acomodadas. A igreja é pequena, bem acabada, ornada de bons ornamentos, tem sua cerca grande com muitas laranjas, coqueiros, limões e outros frutos. Suas ocupações com os próximos: ensinar os rapazes a ler e escrever, pregar em nossa igreja matriz, confessar os Portugueses, ensinar e administrar os sacramentos aos escravos de Guiné e índios da terra: têm a seu cargo duas aldeias de índios, umas cinco léguas da vila para o Sul, outras quatro para o Norte; não residem nelas, mas visitam-as a miúdo e também visitam outras mais longe, que são de Cristãos e pagãos, com muitos trabalhos e perigos por causa dos calores e das chuvas e rios caudalosos que passam, e por causa dos Guaimurés. Não estão muito bem recebidos na terra por causa dos capitães e outros homens que não nos são muito benevolos, mas bem empregados, maximè em atender aos índios, porque com os Portugueses não se tira muito fruto. ESPÍRITO SANTO E ' Capitania e vila de Vasco Fernandes Coutinho que reside nela e a rege, mas sujeito ao Governador da Baía. Dista dela 120 léguas e da Equinocial 20 graus; é porto de mar, situado em lugar baixo e pouco aprazível, cercado de um rio caudal e de grandes montes; terá mais de 150 vizinhos de Portugueses com seu vigário ; é terra rica de assucar, tem seis engenhos, muitos gados, fértil de algodão, tem muito balsamo, que se tira de umas

árvores grandes, e a gente é rica e honrada, e a terra freqüentada de três ou quatro navios que cada ano vão ali de Portugal. Aqui temos uma casa onde residem de ordinário oito, cinco Padres e três Irmãos. O sítio não é muito sadio nem aprazível por estar em lugar baixo; tem oito câmaras assobradadas e oficinas bem acomodadas; a igreja é nova, mui capaz para a terra e bem ornada; tem também uma cerquilhá com algumas árvores de fruto, como laranjas, limas doces, limões e outros frutos. Suas ocupações são: pregar, confessar, ensinar os meninos a ler e escrever, exercitar os mais ministérios do nosso Instituto com os Portugueses, escravos e índios da terra, que são muitos e os mais domésticos da costa e ali são bem recebidos e fazem muito fruto. Têm, três ou quatro léguas da vila, por um rio muito ameno a riba, uma aldeia de índios da invocação de Nossa Senhora da Conceição, e outra a meia légua desta que se diz de S. João: nelas haverá cerca de 3.000 índios cristãos; na da Conceição residem de ordinário dois dos nossos, e a do S. João visitam quasi cada dia. Além destas visitam outras seis aldeias mais longe que são de índios cristãos e pagãos, e terão até 1.500 almas, e com estas ocupações estão bem empregados, são amados do povo como tenho dito. É o Espírito Santo a terra mais acomodada e aparelhada para a conversão, que há em toda a costa, por haver ainda muito gentio e não tão escandalizado dos Portugueses. Vivem os desta casa de esmolas, ajudados do Colégio do Rio de Janeiro, ao qual é anexa, no que toca a vestir, calçar, vinho e azeite, e outras coisas que não se dão em esmola. RIO DE JANEIRO O Rio de Janeiro é Capitania de El-Rei, tem governador sujeito ao da Baía. E ' cidade intitulada de S. Sebastião, que fundou el-rei D. Sebastião, de boa memória, que ele determinava fazer muito nobre por ser de seu nome e a primeira que havia fundado. Dista do Espírito Santo 50 léguas e da Baía 180, e da Equinocial 23 graus e meio no Trópico austral.

E ' porto de mar, a cidade não mui bem assentada em um monte, mas de muito bom prospeto ao mar, tem uma baía mui formosa e ampla, cheia pelo meio de muitas ilhas, não tão grandes como aprazíveis e é a mais airosa e amena baía que há em todo o Brasil, tem um circuito mais de 20 léguas e o porto é tão fundo que as naus mui grandes estão com a proa em terra em 14 braças. Tem uma fortaleza cheia de muito boa artilharia, com outros três ou quatro fortes que a fazem muito defensável; terá 150 vizinhos de Portugueses e tem seu vigário com outro coadjutor somente, e aqui reside de ordinário o Administrador, que é como o bispo. E ' terra de grandes e altíssimos montes e penedias, e ao entrar da barra tem uma pedra mui larga ao modo de um pão de assucar e assim se chama, e de mais de 100 braças em alto, que é coisa admirável. Destas terras descem muitos rios caudais que se vêm despenhar e correr ao mar de duas e três léguas, e por estar debaixo do Trópico tem calores e frios quasi tão rijos como em Portugal. O inverno é mui aprazível e como primavera na Europa, no verão chove muito e quasi cada dia; é terra rica, abastada de gados e farinhas e outros mantimentos, tem três engenhos de assucar; achou-se agora nela noz moscada e pau d'aquila, não tão fino como o da índia Oriental mas de mui suave olor e em tão grande quantidade que fazem os navios dele; é abundante de cedros e árvores de sandalos brancos mui finos; dão-se nela uvas, trigo e outras coisas de Portugal; de pescado é mui abundante e o clima é muito saudável. Aqui temos colégio, está bem situado em lugar eminente, de bom prospeto ao mar, tem feito um quarto de edifício e parte do outro; os cubículos que estão feitos são 10 a 12 assobradados e forrados de madeira de cedro, a igreja é pequena e velha, e as oficinas, ainda que estão bem acomodadas, são mui velhas. Sempre se faz algo no edifício, ainda que devagar por não haver tanta comodidade de cal e oficiais, e por não se pagarem 166 ducados que El- Rei D. Sebastião lhe deu de esmola para as obras. Tem junto ao Colégio cerca muito grande com tanque e fonte de água salobra: nela têm uma vinhá como em Portugal, e outras árvores de laranjas, limas, limões, bananeiras e outros frutos, é mui amena e de

grande recreação; defronte do Colégio está uma ilhota que serve de recreação nos assuetos, vão a ela por mar e está do Colégio um quarto de meia légua. Meia légua da cidade tem duas léguas de terra em quadro das melhores da terra; nelas se fazem mantimentos e roçaria e residem os escravos e índios da casa que são mais de 100, de Guiné e índios da terra com suas mulheres e filhos, e uma igreja em que lhes ensinam a doutrina cristã, e destes a maior parte grangeiam aquela fazenda e outra que têm a sete léguas da cidade, que é muito maior e mais fértil, de três léguas em largo e quatro para o sertão, e outros são carpinteiros, carreiros, etc.. Vivem dos nossos neste Colégio de ordinário 24: 10 Padres e os demais Irmãos. Tem de renda 2.500 cruzados que lhe dotou el-rei D. Sebastião para 50, e os 2.000 se pagam na Baía ainda que mal e tarde, e os quinhentos na Capitania do Espírito Santo, e com esta renda e com a roçaria que hei dito, e com algumas cabeças de bois e vacas que têm de sua criação, se sustentam muito bem e aos escravos que tem, e ajudam as residências ao Colégio anexas. As ocupações dos nossos com os próximos são: uma lição de casos de conciência que ouvem de ordinário um ou dois estudantes de fóra e ás vezes nenhum, mas sempre se lê aos de casa; uma classe de gramática aonde estudam 10 ou 12 meninos e alguns de casa, escola de ler e escrever que tem cerca de 30 meninos, filhos de Portugueses. Item: pregam e confessam e, como há poucos clérigos, os nossos confessam a maior parte dos Portugueses, e estão ali benquistos e fazem fruto. Além disso têm a seu cargo duas aldeias de índios cristãos: a primeira se diz S. Lourenço que está uma légua da cidade defronte do Colégio, vai-se a ela por mar e nela residem de contínuo três dos nossos, e todos são Padres; a outra é de S. Barnabé, dista da cidade sete léguas e por mar: esta visitam a miúdo e entre ambas terão quasi 3.000 índios.

SÃO VICENTE E ' Capitania de um Martim Afonso de Sousa; tem quatro vilas e capitão que a rege sujeito ao da Baía; a primeira e mais antiga, e que foi fundada primeiro que todas as cidades e vilas desta província, se diz Nossa Senhora da Assunção e toma o nome comum de toda a Capitania, que é São Vicente; dista do Rio 40 léguas, da Baía 220 e da Equinocial 24 graus menos alguns minutos, e do Rio de Janeiro corre a costa até São Vicente de Leste a Oeste, e por isso ainda não cresce meio grau nas 40 léguas que dista do Rio. E ' situada em uma ilhá que terá seis milhas em largo e nove em circuito; antigamente era porto de mar e nele entrou Martim Afonso de Sousa a primeira vez com sua frota, mas depois com a corrente das águas e terra do monte se tem fechado o canal, nem podem chegar as embarcações por causa dos baixos e arrecifes; terá 50 fogos de Portugueses com seu vigário, e por estarem as terras gastas e não ter porto se vai despovoando pouco a pouco. Nesta mesma ilhá está outra vila que se diz Santos e é porto de mar, aonde entram as naus ainda grandes, tem 100 vizinhos com seu vigário e para ela se vêm muitos dos moradores de São Vicente, por ser mais rica e abastada e mais acomodada por causa do porto que tem para os seus tratos e ganâncias. Ao entrar da barra, em um monte alto de outra ilhá chamada Guaibe, em certa ponta fez o general de Sua Majestade uma fortaleza e lhe deixou 100 soldados de guarnição com seu capitão e alcaide, e daí a quatro léguas para o Norte, na outra ponta desta mesma ilhá de Guaibe, está uma fortaleza e em frente desta está outra situada na terra firme, muito mais forte e formosa, e ambas fundaram os moradores com ajuda de El-Rei de Portugal, para defender-se dos Franceses e Ingleses e dos índios naturais, que punham em aperto aquela terra, principalmente a Santos, porque navegando pelo rio da Bertioga lhes tomavam os filhos e mulheres com muita crueldade. Caminhando pela praia para o Sudoeste, 10 léguas de S. Vi-

cente está uma vileta chamada Itanhaen: terá 30 vizinhos de brancos, não tem vigário. Todas estas três vilas são pobres, de poucos mantimentos e gado, porém abundantes em assucar. Em todas elas há quatro engenhos de assucar, que é a mercadoria da terra. Em São Vicente temos casa, mas há licença do padre Everardo , de boa memória, para mudar-se para a vila de Santos que está, como tenho dito, seis milhas de São Vicente, e agora o Padre Visitador Cristóvão de Gouvêa a pôs em execução a pedido dos moradores, para o que logo deram o sítio e a cadeia pública em uma parte de bom prospeto junto ao mar; e já se começa o edifício, para o qual dão suas esmolas e ajudas, com grande desejo de ter ali os nossos. Residem de ordinário em São Vicente sete dos nossos: cinco Padres e dois Irmãos. Suas ocupações são ensinar os meninos a ler e escrever, pregam, confessam os Portugueses e índios; estão ali benevolos e fazem fruto, e, como não há mais que um vigário, têm a maior parte do trabalho. Além disto visitam e vão em missão a Santos e a Itanhaen, aonde por não ter vigário lhes administram quasi todos os sacramentos. Visitam algumas das aldeias de índios e pagãos que estão 10 e 12 léguas da vila. Estes Padres se sustentam de esmolas com não pequeno trabalho por a terra ser pobre, e são ajudados do Colégio do Rio. PIRATININGA A quarta vila da Capitania de São Vicente é Piratininga, que está 10 ou 12 léguas pelo sertão e terra a dentro. Vão por lá por umas serras tão altas que dificultosamente podem subir nenhuns animais, e os homens sobem com trabalho e ás vezes de gatinhas por não se despenharem e por ser o caminho tão mau e ter tão ruim serventia padecem os moradores e os nossos grande trabalho. E ' intitulada vila de São Paulo, situada junto a um rio caudal; terá 120 fogos de Portugueses; não tem cura nem há outros sacerdotes senão os nossos, nem os Portugueses os querem aceitar; é terra de grandes campos, fertilissima de muitos pastos e gados, de bois,

porcos, cavalos, etc, e abastada de muitos mantimentos. Nelas se dão uvas e fazem vinho, marmelos em grande quantidade e se fazem muitas marmeladas, romãs e outras árvores de fruto da terra de Portugal. Item: se dão rosas, cravinas, lirios brancos. É terra muito saudável e aonde vivem os homens muito, maximè os velhos. Aqui residem seis dos nossos: Padres quatro e dois Irmãos: têm uma casa com oito câmaras de sobrado forradas e suas oficinas bem acomodadas. Todo o edifício é novo, feito de taipa, a igreja não é muito grande. Tem cerca cheia de frutos da terra e marmelos, rosas, cravinas, etc, e no claustro um poço de boa água. Suas ocupações são: confessar e pregar, ensinar os meninos a ler e escrever, e são como curas dos Portugueses e lhes administram todos os sacramentos, são mui amados de todos e como pais daquela gente. Têm duas aldeias de índios a seu cargo: uma intitulada da Conceição de Nossa Senhora dos Pinheiros, que dista uma légua da vila, e outra intitulada de S. Miguel que dista duas léguas. Entre ambas terão 1.000 pessoas, e há nesta terra muito bom aparelho para conversão por haver ainda grande número de gentio não muito longe. Os nossos se sustentam de esmolas muito bem por a terra ser abastada, exceto que o vestido, vinho, azeite e farinhá para hóstias lhes dá o Colégio do Rio. CLIMA O clima desta província do Brasil é geralmente muito temparado, de bons e delicados ares e mui sadios, aonde os homens vivem muito, até oitenta, noventa e mais anos, e a terra está cheia de velhos. Não tem frios nem calores grandes, os céus são mui puros, maximè á noite; a lua é mui prejudicial á saúde e corrompe muito as coisas, as manhãs são salutíferas, tem pouco de crepúsculo porque em amanhecendo logo sai o sol e em pondo-se anoitece. O inverno começa cá em Março e acaba em Agosto; o verão começa em Setembro e acaba por fim de Fevereiro, e por isto o

Advento, e o Natal são em sumo estio. Das ferias gozam os estudantes em Dezembro e Janeiro. Os estudos começam em 4 de Fevereiro. Os dias e noites são todo o ano quasi iguais. Chove muito no inverno com grande serenidade, sem tempestade nem torvelinhos e é tanta chuva que parece rumpuntur cataractm eceli et fontes abyssi, porém não faz frio. O verão é algo quente, mas temparado e não há mês em que não chova muitas vezes; todo o ano trazem os homens pouca roupa. • É terra desleixada e remissa e algo melancólica e por esta causa os escravos e os índios trabalham pouco e os Portugueses quasi nada e tudo se leva em festas, convívios e cantares, e t c, e uns e outros são mui dados a vinhos e facilmente se tomam dele e os Portugueses não o têm por afronta e deshonra e os convívios que se dão nesta terra, além de serem muitos e ordinários, são de grande custo e neles se fazem muitos excessos de comeres exquisitos, etc.. É terra humida, prejudicial á vista e ás feridas das pernas e não ficam bons delas tão cedo maximè se lhes chega o rocio da manhã. Para as cabeças é mui salutifera, e por mais feridas que uma pessoa tenhá na cabeça logo fica sã. Algumas terras são mais saudáveis que outras. Na Baía se criam mal os meninos e morrem muitos, mas os que chegam á idade perfeita vivem muito, mas não sem doenças por não ser tão sadia como as demais Capitanias. Os nossos Padres e Irmãos de ordinário têm saúde, nem deitam de ordinário sangue pela boca, nem têm eatarros, dôr de pedra, eólica, dôr de cabeça e de peitos, nem outras enfermidades que têm muitos dos nossos em Portugal, e se alguns as têm é de muitos trabalhos que hão passado ou muita velhice; de quentura são ás vezes enfermos, maximè na Baía. No verão se levantam os nossos ás quatro e se deitam aos três quartos para as nove, e no inverno só levantam ás cinco e deitam-se aos três quartos para as dez. Comem o jantar no verão ás dez e ceia ás seis; e no inverno jantam ás onze e ceiam ás sete da noite.

COUSAS QUE PERTENCEM AD VESTITUM As casas nesta terra algumas são de pedra e cal cobertas de telha, mas as comuns são de taipa cobertas de palma e de ervas e cascas de paus. Para vestir há muito algodão que se encontra em umas árvores frescas como sabugueiros e todos os anos dão uns folhelhos ou capuchos cheios de algodão. As mais coisas de vestir vem da Europa, isto é, veludos, razes, damascos, tafetás, panos finos e baixos de toda sorte, holandas e lenços de linho. Os homens e mulheres portugueses, nesta terra se vestem limpamente de todas as sedas, veludos, damascos, razes e mais panos finos como em Portugal, e nisto se tratam com fausto, maximè as mulheres, que vestem muitas sedas e jóias e creio que levam nisto vantagem, por não serem tão nobres, ás de Portugal e todos, assim homens como mulheres como aqui vêm se fazem senhores e reis por terem muitos escravos e fazendas de assucar por onde reina o ócio e lascívia e o vício de murmuração geralmente. Os índios da terra de ordinário andam nús e quando muito vestem alguma roupa de algodão ou de pano baixo e nisto usam de primores a seu modo, porque um dia saem com gorro, carapuça ou chapéu na cabeça e o mais nú; outro dia com seus sapatos ou botas e o mais nú, outras vezes trazem uma roupa curta até á cintura sem mais outra coisa. Quando casam vão ás bodas vestidos e á tarde se vão passear somente com o gorro na cabeça sem outra roupa e lhes parece que vão assim mui galantes. As mulheres trazem suas camisas de algodão soltas até o calcanhar sem outra roupa e os cabelos e quando muito entrançados com uma trançadeira de fita de seda ou de algodão; mas homens e mulheres de ordinário andam nús e sempre descalços. Os nossos Padres e Irmãos vestem e calçam propriamente como em Portugal dos mesmos panos que lá, mas faltam-lhes muitas vezes, mas não se amofinam, porque a terra não pede muita roupa e quanto mais leve e velhá tanto é melhor e folgam com ela; e o andarem descalços é uso da terra e não lhes dá tanta pena e trabalho como ge fora na Europa e desta maneira o fazem também os mui ricos e honrados da terra. O QUE PERTENCE AD VICTUM 0 pão comum desta terra é de raizes de mandioca. A mandioca é como árvore, cresce com os seus ramos e folhas á altura de 10 a 12 palmos. Para se plantar cortam grandes arvoredos e depois lhes põem fogo e plantam uns paus dos ramos de comprimento de vftn palmo; em seis ou nove meses deitam mui grandes raizes, as quais deitam de molho até ficarem podres e as expremem e fazem farinhá que fica como cuscús de farinhá de trigo. Também cruas se ralam e expremem-se e fazem-se uns beijús que são como obreias do tamanho de um prato mas mui alvo; é mantimento de pouca sustância, insipido, mas são e delicado. Esta mandioca tem algumas coisas notáveis: os homens que a comem crua ou bebem sua água arrebentam e morrem; os animais que a comem crua engordam com ela e é ordinário mantimento dos cavalos e outros animais. Os animais que bebem a água que dela se expreme morrem logo. Se se põe ao fumo depois de podre, fica tão saudável que bebida, em água ou vinho, é remédio presentissimo contra peçonhá e fazem-se dela certos calditos como de amido ou tisana de cevada até para os doentes e sãos, mas é coisa muito mais delicada e proveitosa para o peito e febres. Também se faz outro gênero de farinhá que chamam de guerra para as armadas e gente de serviço e dura muito tempo. Estas raizes de mandioca estão quatro, cinco ou seis anos dentro da terra e não são necessários celeiros, como para o trigo, porque não tem mais que tirar da terra cada dia e comer-se a farinhá e beijús frescos. Também se faz farinhá de outras raizes que chamam aipim; são como as de mandioca propriamente, mas não matam e também se comem assadas. Seu sabor é como de castanhas. Há outras raizes como batatas, cará, mangará. Estas se comem assadas e cozidas, são de bom gosto, servem de pão a quem não tem outro. Parece que não são estas raizes das que co-

miam os Santos Anacoretas no deserto, pois são tão boas e de tão boa substancia que sustentam sem milagre. Alguns ricos comem pão de farinhá de trigo de Portugal, maximè em Pernambuco e Baía, e de Portugal também lhes vem vinho, azeite, vinagre, azeitonas, queijo, conserva e outras coisas de comer. Tem esta terra muitas e boas águas e sadias. Para os enfermos não faltam regalos que se fazem de assucar, que há muito, e assim fazem laranjada, cidrada, aboboradas e talos de alface e outras conservas. Em Piratininga se faz muita carne de marmelo ou cotonada (?) e assucar rosado alexandrino. Os nossos comem da farinhá da terra e dos vinhos e azeites de Portugal, que de lá lhes vem quando lhes vem, porque muitas vezes faltam estas coisas. CARNES Há nesta terra abundância de gados, como bois, porcos, galinhas, perus, patos, e carneiros e cabras, ainda que não muitos, porque começam agora e tudo isto veiu do Reino. Da terra não faltam porcos monteses, os quais têm o umbigo nas costas, antas que são como vacas bravas, galinhas monteses, rolas, faisões, avestruzes, garças, águias, coelhos e perdizes em muitas partes e outras muitas caças em abundância, etc, e ainda que isto de ordinário não se ache para comprar, todavia não falta na terra. Os nossos comem de ordinário vaca, que é tenra e sadia, ainda que não muito gorda, por não ser a terra fértil de pastos. Os doentes comem galinhá e carne de porco, que nesta terra todo o ano é melhor que galinhá em saudável e gosto; porém os que são mais fracos e velhos padecem algo, porque galinhas e porcos não os há para tantos e a vaca lhes faz mal. PESCADOS Como estas Capitanias todas sejam portos de mar, há abundância de pescado, tão bom e são que se come sobre tudo e sobre

leite, e ás vezes sem azeite nem vinagre e dá-se aos enfermos de febre como galinhá ou outras aves. Entre estes pescados há muitos peixes de preço e reais, como baleias, tantas e tão grandes que é para ver. Aqui na Baía das janelas dos cubículos as vemos andar saltando e por toda a costa há muitas. Nos rios caudais que entram no mar há peixes-bois que têm de peso 20 e 30 arrobas. Dentro do cérebro destes se achá uma pedra mui medicinal para quem tem dôr de pedra e a carne é de preço, cozinha-se com couves e sabe á carne de vaca; se com espe* eiaria, sabe a carneiro e também a porco e faz-se chacina muito boa. Outros que chamam meros são tão grandes que alguns têm sete quintais de peso. Há muitas tartarugas, que são como cagados. Tomou-se uma os dias passados que 20 homens não a podiam volver. Nestes rios há porcos dágua quasi da mesma maneira que os da terra. Junto á Baía três léguas, está um lago que tem cães marinhos e está um bom pedaço longe do mar em lugar mui eminente, é de água doce, mas enche e vasa com o mar Oceano. Além disto, há muitos mariscos em toda a costa, como lagostins, ostras, carangueijos, breguigões, camarões, que são alguns de um palmo, e as ostras são em tanta quantidade que se acham ilhas cheias das cascas e faz cal para os edifícios que é tão boa como a de pedra. Aos nossos de ordinário não falta pescado fresco e seco, ainda que o seco não seja tão bom nem de tanta sustância como o seco de Portugal; mas o fresco é muito mais leve e são e se dá aos doentes de febre, porém tudo vale caro, por falta de redes e pescadores. FRUTOS Nesta terra se dão bem árvores de espinho, que vieram de Portugal, como laranjeiras, cidreiras, limoeiros, limeiras e todo o ano têm frutos e bons sem ser regados; porque o céu tem este cuidado e é a terra tão fértil destas árvores que se dão pelos montes e campos sem benefício que se lhes faça.

Da terra há muitos frutos e alguns de preço e que não dão vantagem ás paras melacotores de Portugal, scilicet: mangabas, que são como albicorques amarelos, não têm caroço senão umas pevides pequenas e são de bom gosto e mui sadias; mocujês, que são como peros bravos de Portugal, mas de grande gosto e preço e ao comer se sorvem como sorvas; acajús, que são como peros repinaldos e dão uma castanhá no olho, melhor que as de Portugal; araticús, a árvore é como limoeiro, o fruto como pinha; naná, dão-se em uns como cardos e as folhas como erva babosa, o fruto é á moda de pinha, ainda que maior, dão-se todo o ano, é fruto de muito preço e real, sabem e cheiram a melões, mas são melhores e muito mais odoriferos e têm muito sumo, são bons para quem tem dôr de pedra; o vinho que os índios fazem deles é muito forte e se toma a miúdo dele; com as cascas se limpam as manchas de azeite e quando se os cortam fica a faca limpa e asseada. Estes frutos dão nas hortas e pelos campos e bosques em grande abundância e deles se fazem conservas, como laranjada, cidradas, limões, naná em conserva e outros, e cruas não faltam aos nossos para antepasto. LEGUMES Da terra há poucos legumes, mas de Portugal há muitos, scilicet, couves, rabãos, alfaces, pepinos, abóboras, gravanços, lentilhas, perexil e erva boa e outros muitos e em Pernambuco e Rio de Janeiro muitos melões e da terra e Guiné há muitas abóboras e favas, que são melhores que as de Portugal e são tão sãs como ervilhas, feijões e outros legumes, e todo o ano não faltam de ordinário aos nossos e muitos deles têm em suas roças. BOSQUES Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em todo o ano árvore nem erva seca. Os arvoredos se vão ás nuvens de admirável altura e grossura e variedade de espécies. Muitos dão

bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade e em seu canto não dão vantagem aos rouxinóis, pintasilgos, colorinos, e canários de Portugal e fazem uma harmonia quando um homem vai por este caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo. Há muitas árvores de cedro, aquila, sandalos e outros paus de bom olor e várias cores e tantas diferenças de folhas e flores que para a vista é grande recreação e pela muita variedade não se cansa de ver. BICHOS Há nesta terra inumeráveis bichos e serpentes e muitos deles tão peçonhentos que metem espanto, scilicet: cobras de muitas castas, umas tão grandes que tragam um homem ou veado inteiro, «orno por vezes se há achado nelas, e outras tão ferozes que em vendo uma pessoa se atiram a ela para tragá-la e destas são muitas e de muitas castas. Outras que chamam jararacas, mais pequenas, tem um dentinho na boca, ôco por dentro, cheio de peçonha; se morde em alguma pessoa, morre-se em 24 horas, e antes, se não lhe açodem com remédios, e destas há tantas que estão pelas casas e caem dos telhados sobre as camas, e quando os homens despertam se acham com elas enroscadas no pescoço e nas pernas e quando se vão a calçar pela manhã as acham nas botas. Há outras que têm na cauda um cascavel que tange e também são venenosas, e algumas destas jararacas têm no ventre trinta e quarenta cobras que parem. Há muitos sevandijas como lagartos, assim da terra como dágua; os da água são tão grandes que matam um homem e o comem . Há muitas lagartixas, em tamanhá quantidade que andam pelos buracos das casas, inumeráveis como pardais em Portugal. Nas florestas há muitas onças de grande ferocidade e também uns animalejos que chamam tatus; parecem-se com leitões e por de cima são cheios de umas conchas como cavalos armados e furam tanto pela terra que muitos homens a cavar não os podem tomar

JOSEPH DE ANCHIETA e se lhes deitam água na cova, logo os tomam e não podem mais cavar. Há muitos monos e micos de muitas castas. Outros animais que chamam quatis parecem-se com raposas, mas fazem tanta festa e brincam como uns gatinhos ou cachorrinhos e tudo revolvem e furtam quanto acham e são muito travessos que não há viver com eles, e são de estima por estas e outras habilidades que têm. Há outros que chamam preguiça do Brasil e são muito nomeados por ser animal muito para ver; parecem-se com cães felpudos como os perdigueiros que há em Portugal; são muito feios e a cara parece de mulher velhá mal toucada, as mãos e pés curtos, têm grandes unhas e nelas andam com o peito pelo chão e com os filhos abraçados na barriga e andam tão devagar e com tanta preguiça que parece não se moverem e é necessário muito tempo para subirem numa árvore. Seu principal alimento são certas folhas de figueiras e, como não as têm e pela grande melancolia natural, vivem mui pouco tempo em casa depois que os tomam. Finalmente este clima parece influir peçonhá nos animais e serpentes e assim cria muitos imundos, como ratões, morcegos, aranhas muito peçonhosas. As formigas que tem esta terra não se pode dizer, são inumeráveis e inúmeras as castas e suas espécies; são destruição desta terra, porque não há viver com elas. Minam as casas, as igrejas, as câmaras pelas paredes até o telhado. Toda a noite andam os lavradores com uns fachos de fogo á caça das formigas porque, se as deixam, em uma noite não fica folhá nos roçados de mandioca e nas parras, laranjas, limões, e hortaliças de Portugal e nestas coisas acham tanto gosto que não há defender-lhes estas árvores e em uma noite tragam toda uma parra ou laranjeira e por esta causa não há nesta terra vinhas e outros frutos de Portugal em abundância e os que há, principalmente na Baía, é com muito trabalho e com ter-lhes sempre água ao pé e outros defensivos. Finalmente nos roçados de mandioca lhes dão os lavradores de comer, e nisto se ocupam muitas pessoas e o têm por mais barato que deixá-las comer e destruir as fazendas. Em algumas Capitanias são menos as formigas e não fazem tanto dano.

ÍNDIOS Os índios desta província são inumeráveis pela terra a dentro, de várias nações e costumes e linguagem e muitos deles são como selvagens e não se lhes pôde entender sua lingua e há pouco remédio para sua salvação, exceto alguns inocentes ou adultos que se batizam in extremis e se vão para o céu. Os mais políticos entre eles são os Tupinambás, senhores da Baía, e Tupinaquins e outros que se convertem, que dantes viviam pela costa do mar e ainda todos estes são gente de mui pouca capacidade natural, se bem que para sua salvação têm juizo bastante e não são tão boçais e rudes como por lá se imagina. Não têm escrita, nem caracteres, nem sabem contar, nem têm dinheiro; eommutatione rerum compram uns aos outros; sua lingua é delicada, copiosa e elegante, tem muitas composições e sincopas mais que os Gregos, os nomes são todos indeclináveis, e os verbos têm suas conjugações e tempos. Na pronunciação são eubtis, falam baixo que parece que não se entendem e tudo ouvem e penetram; em sua pronunciação não põem F, L, Z, S e RR, nem põem muta com liquida, como Bra, Craze. Fazem muito caso entre si, como os Romanos, de bons línguas e lhes chamam senhores da fala e um bom lingua acaba com eles quanto quer e lhes fazem nas guerras que matem ou não matem e que vão a uma parte ou a outra, e é senhor de vida e morte e ouvem-no toda uma noite e ás vezes também o dia sem dormir nem comer e para experimentar se é bom lingua e eloqüente, se põem muitos com ele toda uma noite para o vencer e cansar, e se não o fazem, o têm por grande homem e lingua. Por isso há pregadores entre eles muito estimados que os exortam a guerrear, matar homens e fazer outras façanhas desta sorte. São como vermelhos de côr, de mediana estatura, a cara e os mais membros mui bem proporcionados; o cabelo é eorredio de homens e mulheres, são grandes pescadores e como peixes no mar e vão ao fundo e estão lá de espaço até trazerem o que buscam. Nos campos e florestas andam e rompem como bichos; são guer-

reiros e grandes frecheiros; basta ver um olho só descoberto a um homem para lhe pregar; são tão dextros que não lhes escapa passarinho que não matem, e a frechadas matam o peixe na água; andam nús, são dados a vinhos que fazem a seu modo, são algo melancólicos e se querem morrer com apreender somente a morte na imaginação ou com comer terra; ou lhes digam que se hão de morrer ou lhes ponham medo morrem brevissimamente. De dia e de noite fazem seus comeres, cantares e festas até a manhã, andam muitos dias sem comer se não o têm, mas quando o têm não descansam sem acabá-lo et vicunt in diem, não guardando as coisas para o outro, casam sem dote e ás vezes servem aos pais por casar com as filhas, como fez Jacob a Labão, amam muito os filhos, mas não procuram deixar-lhes heranças, dormem em rodes de fio de algodão no ar, por causa das cobras, têm grande candura natural e com andar nús non verecundant, parece que representam o estado de inocência. Não têm juramentos nem Ídolos, alguns feiticeiros há entre eles a que chamam Pagé. A estes, para alcançar saúde, se dão a chupar e consentem que lhes façam outras cerimonias, mas não acreditam neles. Não são demandões, mas bemfazejos e caritativos; todos os que lhes entram em casa comem com eles sem lhes dizer nada. Não casam de ordinário até que tomem ou matem algum homem e, se o matam, tomam por insígnia sarjar-se o corpo por tal modo e artificio que ficam mui galantes e pintados e nisto têm grande primor. Vivem muitos juntos em umas casas mui grandes de palma que chamam ocas e com tanta paz que põem espanto, e com terem as casas sem portas e suas coisas sem chave por nenhum modo furtam uns aos outros. E têm outras coisas e costumes mui notáveis que por brevidade deixo. CONVERSÃO A conversão nestas partes floresceu já muito, porque^ somente na Baía havia mais de 40 mil cristãos e agora não haverá 10 mil,

porque têm morrido de várias enfermidades e não se fazem tantos de novo, porque têm fugido pela terra a dentro por causa dos agravos que recebiam dos Portugueses, que os cativavam, ferravam, vendiam, apartando-os de suas mulheres e filhos com outras injúrias que eles sentem muito e agora não se acham daqui duzentas e trezentas léguas pelo sertão a dentro, que é grande detrimento para sua salvação e aumento de nossa Santa Fé, nem terá isto remédio se não vier a lei que pedimos a Sua Majestade que não sejam cativos nem os possa ninguém ferrar, nem vender. Em todo o Brasil poderão ser batizados, desde que os Padres vieram a ele, mais de 100 mil pessoas e destes haverá até 20 mil. Depois de cristãos têm algumas coisas notáveis e a primeira é que são tanquam tabula rasa para imprimir-se-lhes todo o bem, nem há dificuldade em tirar-lhes rito nem adoração de Ídolos porque não os têm e os costumes depravados de matar homens e comê-los, ter muitas mulheres e embriagar-se de ordinário com os vinhos e outros semelhantes, deixam-nos com facilidade e ficam mui sujeitos a nossos Padres como se fossem religiosos e lhes têm amor e respeito e não movem pé nem mão sem eles; compreendem mui bem a doutrina cristã e os mistérios de nossa Fé, o catecismo e aparelho para a confissão e comunhão e sabem estas coisas tão bem ou melhor que muitos Portugueses. Vjvem nas aldeias de que os nossos têm cargo, como em comunidade, em umas casas mui grandes, com um principal de sua nação a que obedecem em algumas coisas, e com viverem juntas nestas casas cento e duzentas pessoas, maridos, mulheres e filhos, não há entre eles todo o ano queixas nem falsidades e com andarem nús não há homem que ponhá o olho em mulher alheia. São mui modestos de seu natural e andam mui direitos e pelos caminhos sempre vão em fileiras, a mulher deante do marido, e andam á grande pressa. São devotos e os que comungam derramam muitas lagrimas quando o fazem, e nisto da comunhão há algumas particularidades edificantes, porque, se acerta alguma pessoa dizer-lhes que tomem vingança de outro, respondem: "Sou da comunhão, não tenho de fazer isto", e antes da comunhão se disciplinam os homens e jejuam as mulheres um ou dois dias por sua devoção. Têm certo modo de

chorar quando chega algum parente seu de fóra e é que a parenta se lança a seus pés e as mãos postas nele ou os braços no pescoço do parente, choram em voz alta, de maneira que parece que lhe morreu o marido ou filho, e isto fazem de contentamento por festa e regalo. Acabado o pranto, limpa logo as lagrimas e se põe muito alegre a falar, comer e beber como se não houvera chorado. Ouvem missa cada dia sem falar, com modéstia e devoção, e ora de joelhos, ora de pé, com as mãos sempre estendidas para o céu e são tão afeiçoados á igreja e culto divino que estariam ali todo o dia. Os Padres lhes pregam nas festas principais e lhes ensinam a doutrina cristã duas vezes ao dia, pela manhã acabada a missa em português, e em sua lingua, e á tarde, acabados seus serviços, o diálogo da fé e aparelho da comunhão e confissão, e todos, solteiros e casados, mulheres e meninos, respondem ás perguntas com grande candura. Os filhos dos índios aprendem com nossos Padres a lêr e escrever, contar, cantar e falar português e tudo tomam mui bem. Por Agosto passado enviei a Vossa Paternidade outra informação mais breve das casas e Colégios desta província, com o número dos Padres e Irmãos que vivem nela, mas, por não ser tão larga, me pareceu enviar agora esta com alguma notícia das coisas da terra, para que Vossa Paternidade tenhá tudo presente e com maior luz e claridade entenda as coisas desta sua província, á qual pedimos deite de lá sua santa benção, tendo juntamente memória em seus santos sacrifícios destes seus indignos filhos, para que assim animados e consolados de Vossa Paternidade cheguemos á perfeição de nosso Instituto, á maior gloria da Divina Bondade e aumento de sua Santa Fé nestas partes. Da Baía de Todos os Santos, o último de Dezembro de 1585.

Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Sinopse

Leia gratuitamente Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, de José de Anchieta, obra colonial brasileira em domínio público. Esta edição digital consolida cartas, informações, fragmentos históricos e sermões quinhentistas em 38 capítulos internos, com texto curado a partir da edição de 1933 via BLPL/UFSC e Etnolinguística/Mindlin, notas editoriais separadas do corpo principal, espelhos HTML e preparação para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA no Literunico.

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