Universo da obra
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XIII Ao GERAL DIOGO LAINEZ, DE PIRATININGA, MARÇO DE 1562, RECEBIDA EM LISBOA A 20 DE SETEMBRO DO DITO ANO. Grandes trabalhos e pouco fruto da catequese. — Atividade de Nóbrega, apesar de gravemente enfermo. — Transferência da aula de gramàtica de São Vicente para Piratininga. — Perversão dos antigos discípulos. Pax Christi. O ano passado de 61, no mês de Julho, se escreveu largamente por a segunda via em este mesmo navio, havendo jà sido a primeira enviada por outro antes, mas esse não pôde chegar pelos ventos contràrios, e por isso tornou a arribar. O que depois acresceu escreverei brevemente, mais por cumprir com o mandamento da santa obediência do que por haver coisa digna de ser escrita. Nossa conversação com os próximos é a costumada: ocupamonos na doutrina das coisas da fé e mandamentos de Deus com as mulheres dos Cristãos, e seus escravos e escravas, nestes lugares em que dispargidos sempre se colhe algum fruto pela bondade do Senhor, assim em apartà-los de pecados, como em algum pouco sua grande dureza em o conhecimento de Deus nosso Criador e Senhor, e ajudando-os a bem morrer, para o qual comumente somos chamados, assim para os brancos como para seus escravos, aos quais é necessàrio acudir a diversos lugares, por mar e por terra, onde fazem suas habitações. Em o qual às vezes o trabalho é grande, que se dobra com a pouca consolação que se recebe do pouco fruto que dão campos lavrados com tantos suores. Mas basta-nos salvar uma só
alma, ou, para melhor dizer, ser cooperadores de Deus em sua salvação. E quando nem isso houvesse, seja o Senhor servido em nossos fracos e pequenos trabalhos recebidos por seu amor. Em S. Vicente se visitam os engenhos com doutrinas e confissões e três povoações dos Portugueses, que estão cinco e seis léguas distantes entre si, fazendo mora em cada uma delas, segundo a necessidade o pede. Prega o Padre Manuel de Nóbrega a miúdo em todas elas, ainda que com muito trabalho de sua pessoa por suas muitas e contínuas enfermidades que cada dia padece, se lhe vão acrescentando, ordenando-o assim a divina disposição, para maior merecimento seu. Ejsta quaresma esteve algum tempo em uma das povoações, que é a principal, chamada Santos, pregando três vezes em a semana, e confessando muitos dos escravos por intérprete. E perseverou em este ministério até que mais não pôde, pondo sua alma por seus Irmãos, porque adoeceu tão gravemente qué foi necessàrio trazê-lo às costas até S. Vicente, à nossa Casa, por ele não poder vir por seus pés: a enfermidade é perigosa. Cumprase a vontade de Cristo Nosso Senhor em ele e em todos nós outros. Alguns outros Irmãos são também visitados do Senhor com enfermidades, como febres, pleurizes e câmaras, mas Ele, que as dà, as cura por sua misericórdia, que em a terra poucas medicinas hà para isso. Bendito seja Ele por tudo. O estudo da gramàtica se continuou até o mês de Novembro em S. Vicente com o número de estudantes de que em as letras passadas faço menção; mas foi tanta a esterilidade dos mantimentos que nem por muito trabalho que em isto se pôs pôde haver provisão bastante de farinha e pão da terra, nem os moradores o tinham para si nem para nós outros, pelo qual foi necessàrio que nós viéssemos a esta Piratininga, onde é a abundância maior. Aqui se prossegue o estudo com os nossos que são recebidos para escolares, e com alguns de fora, os quais continuam suas confissões (como é costume) cada quinze dias e cada oito dias; seu proveito em o estudo pouco é, ainda que por outra parte se pôde dizer muito, considerada com a rudeza dos engenhos brasilicos e criados em o Brasil, que tanto monta. Também aqui nos ocupamos em a doutrina dos escravos e mulheres dos Portugueses, a qual sempre se continua duas vezes por dia com confissões a miúdo e comunhões algumas vezes. Acudim,os a todo gênero de pessoa, Português e Brasil, servo e livre, assim em as coisas espirituais como em as corporais, curando-os e sangrando-os, porque não hà outro que o faça, e principalmente as sangrias são aqui mui necessàrias, porque é mui sujeita esta terra a priorises, maximè em os naturais dela, quando o sol torna a declinar para o Norte, que é em o mês de Dezembro, e daí por deante, e se não acudissemos com, sangrias, não havia dúvida se não pereceriam muitos, assim com isto temos melhor entrada com eles para lhes dar a entender o que toca à saúde de suas almas. Com os Brasis, nossos antigos discípulos, que com tanto afã e trabalho andàvamos criando, não temos conta alguma, e digo não temos, porque eles se hão feito indispostos para todo bem, dispersando-se por diversas partes, onde não podem ser ensinados, e assim tornam-se todos aos costumes de seus pais; mas contudo não deixamos de visità-los de quando em quando, trazendo-lhes à memória o batismo que hão recebido e os mandamentos de Deus, e sempre se batizam alguns de seus filhos inocentes, que levam ao céu em sua inocência, e alguns dos grandes vêm algumas festas do ano à Igreja e a confessarem-se pela Quaresma e quando vão às suas guerras; mas o mais deles vivem como dantes, maximè aqueles que tiveram melhor conhecimento das coisas da Fé, como os moços e moças que se criaram de pequenos na doutrina, os quais todos são perdidos; mas Nosso Senhor não deixa de castigà-los com doenças e mortes, porque os que se apartaram de nós outros não fazem senão morrer aqui e acolà, por suas malditas habitações, sem confissão, uns amancebados, outros com os feiticeiros, que pensam lhes dão saúde, à cabeceira; outros levados e comidos de seus contràrios: não nos fica entre tantas consolações outro consolo senão tornarmos a Deus e pôr-lhe deante esta causa com orações, encomendando-a à sua Divina Majestade e piedade, e esta achamos que é a mais saudàvel pregação que podemos fazer, trabalhar em chorar nossos pecados e os seus, pedindo a Deus misericórdia, porque na verdade assim Portugueses como Brasis índios são peores seguindo os caminhos da carne e deixando os de Deus: e praza à Divina bondade não nos vamos nós outros por nosso descuido declinando como eles, do
qual nos guardarà Nosso Senhor, se V. R. P. com contínuos sacrifícios e orações, assim próprias como de todos nossos caríssimos Padres e Irmãos, rogarem por nós outros mínimos filhos da Companhia e creia sem dúvida se alguns são necessitados, mendigos somos nós outros, com o qual bem creio haverà dado Nosso Senhor a sentir mui de verdade em sua ajuda a V. R. P. Não se oferece outro ao presente. Christo Jesu Salus Nostra nos dê sua mui copiosa graça para perfeitamente conhecer e cumprir sua santíssima vontade. Desta casa de S. Paulo de Piratininga da Capitania de S. Vicente, desde o mês de Julho de 61 até o mês de Março de 62. Mínimo da Companhia de Jesus.
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