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Capítulo 14 · Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Ao Geral Diogo Lainez, de São Vicente, a 16 de abril de 1563

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XIV Ao GERAL DIOGO LAINEZ, DE SÃO VICENTE, A 16 DE ABRIL» DE 1563. Ataque dos índios contra Piratininga. — Fidelidade de Tibiriçà. — Assaltos pelos caminhos. — Bens que resultaram da guerra. — Morte de Tibiriçà. — Padre Manuel da Nóbrega. — Missão a Santos e Itanhaen. — Batismo de um índio centenàrio. — Notícias dos Tamoios. — Nóbrega e Anchieta se preparam para a viagem a Iperoig. Pax Christi. Um ano hà, e passa, que se escreveu desta Capitania pelo mês de Março de 1562 a V. P., do que fazem os Irmãos em seus ministérios em serviço de Nosso Senhor e socorro destas almas; resta dar conta do que mais sucedeu, segundo manda a santa obediência. Nas cartas passadas fiz menção de que ficàvamos na casa de S. Paulo de Piratininga com alguns estudantes nossos, e forasteiros, ocupando-nos em ensinà-los, e na doutrina dos índios, juntamente com os escravos dos Cristãos, em nossos costumados ministérios espirituais, instruindo e preparando para o batismo os que não são batizados, confessando os que são, e ajudando-os em suas enfermidades corporais, curando-os, sangrando-os e acudindo-os, maximè no tempo de morrer, para que consigam o fim de sua creação; e nisto nos ocupamos esperando sempre os embates dos inimigos, de uma parte dos contràrios destes com quem vivemos, e de outra dos nossos mesmos (207, que estão espavoridos pelo interior da terra, como muitas vezes tenho escrito; e destes nossos temíamos mais por serem ladrões de casa, e haver muitos anos que nos têm

ameaçado com guerra, maximè aos que estamos em Piratininga, que é fronteira deles, e como que chave das povoações dos Cristão situadas nestes portos de mar. Havendo, pois, estes índios morto muitos dos Cristãos Portugueses em diversos tempos e lugares por suas terras onde iam a resgatar suas coisas, como é costume, acrescentaram! agora sua maldade matando outros dos Cristãos, um dos quais era homem mui virtuoso, que se confessava e comungava quasi de oito em oito dias, cuja mulher, que era índia, da geração destes índios, e tinha muitos irmãos e parentes entre eles, não era menos amiga de Nosso Senhor, continuando os mesmos exercícios que seu marido, confessando-se por intérprete, e comungando muito a miúdo. Esta, que então ia em companhia de seu marido, depois da morte tornando-se mui triste para os Cristãos, com alguns seus escravos e índios de Piratininga, que a iam sempre acompanhando, foi ptêsa e detida dos seus mesmos pelo Principal de uma aldeia, para que os Cristãos lhe dessem resgate por ela, e entretanto tê-la por manceba, por haver sido mulher de Português, o que eles têm por grande honra. Mas ela que tinha outro conhecimento e amor de Deus Nosso Senhor e de sua santa fé, se tinha determinado antes morrer que em tal consentir, ainda que lhe fosse preciso matar-se a si mesma; e foi o caso, que aquele dia em que a prenderam saiu de noite da casa dos índios secretamente, e nunca mais apareceu, posto que fosse muito procurada: pelo que eles mesmos dizem que acreditam que se enforcou, ou se lançou em algum rio por não consentir em ser manceba de algum infiel. Mas a nós parece que eles mesmos a mataram pelo mesmo caso, e depois lançaram essa fama; e porque tínhamos mui bem conhecida sua inocente vida de muitos anos, que freqüentou os sacramentos em nossa casa, não podemos pensar outra coisa, nem crer que havia Nosso Senhor de permitir que, quem tão bem vivera sempre, no fim de sua vida se perdesse. Acabado isto começaram logo a apregoar guerra contra Piratininga, a qual jà tinham, na vontade e hà muito tempo, porque esta gente é tão carniceira, que parece impossível que possam viver sem matar. E ainda que eles determinavam fazê-lo mui secretamente, todavia deu-nos aviso Nosso Senhor, porque castigando-nos nos não matassem; e ao seguinte dia depois do da visitação de Nossa Senhora, tivemos aviso por um índio, que tinha sua gente entre nós, o qual, apartando-se dos malfeitores, veiu correndo por outro caminho a nos fazer aprestar, Muitas particularidades havia que contar, que se passaram neste caso; mas somente direi as grandes misericórdias de que Deus usou para comnosco, das quais a principal foi mover o coração de muitos índios dos nossos catecumenos e Cristãos a nos ajudar a tomar armas contra os seus; os quais, sabida a notícia e verdade da guerra, vieram de sete ou oito ajdeias, em que estavam esparzidos, a meter-se comnosco, não todos, mas somente aqueles que amam a Deus, e ele quis escolher para nos defenderem da força dos inimigos carniceiros; e era de maneira que de noite com fachos vinham tremendo de frio (que então é cà muito grande) a chamar à porta da vila, não por medo que tivessem dos seus, mas forçados como parece pelo poder de Deus, sem saber quasi o que faziam. Outros misturaram-se com eles, pensando que à sua grande multidão não pudessem resistir os poucos que estavam em Piratininga: outros houve, que não podendo meter-se comnosco, afim de não os tomarem de súbito, se esconderam pelas silvas, não os querendo ajudar, e depois de passados com as cabeças quebradas para suas terras, se uniram a nós. O que deu maiores demonstrações de Cristão e amigo de Deus foi Martim Afonso, Principal de Piratininga, de quem em muitas cartas tenho feito menção, o qual juntou logo toda a sua gente, que estava repartida por três aldeias pequenas, desmanchando suas casas, e deixando todas as suas lavouras para serem destruídas pelos inimigos; e era tanto o cuidado que tinha de todos os Portugueses, que nunca outra coisa fez em cinco dias que estivemos à espera do combate, senão dar-lhes avisos e esforços porque eram mui poucos, e destes muitos tolhidos e enfermos: pregando continuamente de noite e de dia aos seus pelas ruas (como é costume) que defendessem a igreja que os Padres haviam feito para os ensinar a eles e a seus filhos, que Deus lhes daria vitória contra seus inimigos, que tão sem razão lhes queriam dar guerra: e ainda que alguns de seus irmãos e sobrinhos ficaram em uma aldeia sem o querer seguir, e um deles vinha juntamente com os inimigos, e lhe man- dou incutir grande medo, que eram muitos e haviam de destruir a vila, todavia teve em mais o amor de nós outros e dos Cristãos dl) que o dos seus próprios sobrinhos, que tem em conta de filhos, levantando logo bandeira contra todos eles, e uma espada de pau mui pintada e ornada de penas de diversas cores, que é sinal de guerra. Chegando pois o dia, que foi o oitavo da visitação de Nossa Senhora, deram de manhã sobre Piratininga com grande corpo de inimigos pintados e emplumados, e com grandes alaridos, aos quais sairam logo a receber os nossos discípulos, que eram mui poucos, com grande esforço, e os trataram bem mal, sendo coisa maravilhosa que se achavam e encontravam às flechadas irmãos com irmãos, primos com primos, sobrinhos com tios, e o que mais é, dois filhos que eram Cristãos, estavam comnosco contra seu pai, que era contra nós: de maneira que parece que a mão de Deus os apartou assim e os forçou, sem que eles o entendessem, a fazerem isto. As mulheres dos Portugueses e meninos, ainda dos mesmos índios, recolheram-se a maior parte delas à nossa casa e igreja, por ser um pouco mais segura e forte, onde algumas das mestiças estavam toda a noite em oração com velas acesas ante o altar, e deixaram as paredes e bancos da igreja bem tintos do sangue que se tiravam com as disciplinas, o qual não duvido que pelejava mais rijamente contra os inimigos do que as flechas e arcabuzes. Tiveram-nos em cerco dois dias somente, dando-nos sempre combate, ferindo muitos dos nossos índios, e ainda que eram flechadas perigosas, nenhum morreu por bondade do Senhor, pois que se recolhiam à nossa casa, e aí os curàvamos do corpo e da alma, e assim fizemos depois, até que de todo sararam. Mas dos inimigos foram muitos feridos e alguns mortos, dentre os quais foi um nosso catecumeno , que fora quasi capitão dos maus, o qual sabendo que todas as mulheres se haviam de recolher à nossa casa, e que aí havia mais que ' roubar, veiu dar combate pela cerca da nossa horta, mas aí mesmo achou uma flecha, que lhe deu pela barriga e o matou, dando-lhe a paga que ele nos queria dar pela doutrina que lhe havíamos ensinado, e pelas boas obras que lhe tínhamos feito, tendo-o jà curado, e no tempo que estava comnosco a ele e a seus irmãos, de feridas mui perigosas de seus contràrios.

Ao segundo dia do combate, vendo-se mui feridos e maltratados, e perdida a esperança de nos poderem entrar, deram-se a matar as vacas dos Cristãos, e mataram muitas, destruindo grande parte dos mantimentos dos campos, e puseram-se a fugir jà sobre a tarde, com tanta pressa qse não esperava pai por filho, nem irmão por irmão, em cujo alcance saíram os nossos discípulos e tomaram dois deles, um dos quais quis ter padrinhos os padres chamados por ele, dizendo que o haviam ensinado e catequizado, que seria seu escravo, mas pouco lhe aproveitou, pois sem nos dar conta disso Martim Afonso lhe.quebrou logo a cabeça com sua espada de pau pintada e emplumada, que para isso tinha jà erguida com a bandeira, e assim fez para omnimo apartar-se dos seus, que tão injustamente vinham para o matar, e a nós outros, se Deus o permitisse. Depois disso fez Deus Nosso Senhor muitas mercês aos nossos discípulos e a nós, em diversos assaltos que os inimigos nos vinham fazer pelos caminhos, nos quais sempre levaram a peor; e porque os inimigos haviam levado muitos dos que estavam esparzidos pelas aldeias antes que se pudessem recolher, e os tinham em suas terras quasi como cativos, para que não fossem por nós, juntaram-se uns poucos de nossos discípulos Cristãos e catecumenos com três Portugueses, e entraram quasi vinte léguas pela terra dos malfeitores, e trouxeram 40 pessoas, homens, mulheres e meninos, os mais deles Cristãos, dos quais uns tinham seus filhos em Piratininga, outros as mulheres, e algumas seus maridos. Mas não os tiraram tanto a seu salvo que não fossem assaltados dos inimigos, ainda que por seu mal foram mortos três deles, e os outros deitaram a fugir, deixando morto um menino inocente batizado, e um nosso discípulo com tantas flechadas, e tão perigosas, que ninguém julgou que vivesse, tendo-se por melhor mercê do Senhor escapar com vida quasi sem cura e tão brevemente, que mais parece que obrou o Senhor da vida, do que outra qualquer medicina, por ser este um dos melhores Cristãos que se tem feito nesta terra, e mais amigo das coisas de Deus, e o que mais peleja por defender os Cristãos, ficando, depois de sua saúde quasi inesperada e súbita, com grande conhecimento da mercê que lhe fez Nosso Senhor e com propósito de melhor viver.

Esta guerra foi eausa de muito bem para os nossos antigos discípulos, os quais são agora forçados pela necessidade a deixar todas as suas habitações em que se haviam esparzido, e recolherem-se todos a Piratininga, que eles mesmos cercaram agora de novo com os Portugueses, e està segura de todo o embate, e desta maneira podem ser ensinados nas coisas da fé, como agora se faz, havendo contínua doutrina, de dia às mulheres, e de noite aos homens, a que concorrem quasi todos, havendo um alcaide que os obriga a entrar na igreja; tem-se jà batizado e casado alguns deles, e prossegue-se a mesma obra com esperança de maior fruto; porque estes não têm para onde se apartem, sendo inimizados com os seus, e estando sempre juntos de nós como agora estão, não podem deixar de tomar os costumes e vida Cristã, ao menos pouco a pouco, como jà se tem começado. Parece-nos agora que estão as portas abertas nesta Capitania para a conversão dos Gentios, se Deus Nosso Senhor quiser dar maneira com que sejam postos debaixo de jugo, porque para este gênero de gente não hà melhor pregação do que espada e vara de ferro, na qual mais do que em nenhuma outra é necessàrio que se cumpra o — compelle eos intrare. Vivemos agora nesta esperança, ainda que postos em perigo, por estar toda a terra levantada; e como são ladrões de casa, em cada dia vêm assaltar-nos pelas fazendas e caminhos. Entre outros bens, que a Divina Bondade soube tirar desta guerra, foi um, que se batizaram e ajudaram a bem morrer alguns escravos dos Portugueses, que destas povoações marítimas nos vieram dar socorro, mas jà depois de acabada a contenda, os quais enfermaram de graves febres, e acudindo a os sangrar achàvamos uns que tinham nome somente de Cristãos sem o ser, por grande descuido de seus senhores; outros que em toda a sua vida nunca haviam sido confessados, nem ensinados nas coisas que haviam de crer e obrar, e assim teriam morrido, se por estes meios não lhes procurasse Deus a sua salvação, levando-os a Piratininga, onde, pela graça do Senhor, têm os Irmãos grande vigilância sobre estas coisas. Também dos índios, que por força haviam sido levados dos seus, regressaram alguns para nós, e parece de muitos que não vinham mais que a buscar sua salvação, porque dentro de poucos dias

morriam, recebido o batismo, tanto inocentes como adultos. Morreu também o nosso principal, grande amigo e protetor Martim Afonso, o qual depois de se haver feito inimigo de seus próprios irmãos e parentes, por amor de Deus e da sua Igreja, e depois de lhe haver dado Nosso Senhor vitória de seus inimigos, estando ele com grandes propósitos, e bem determinado a defender a causa dos Cristãos, e a nossa casa de S. Paulo, que bem conhecia ter sido edificada em sua terra por amor dele e de seus filhos, quis dar-lhe Deus o galardão de suas obras, dando-lhe uma doença de câmaras d^ sangue, na qual como não houvesse sinal de melhoria, mandou chamar um Padre que todos os dias o visitava e curava; confessou-se, e no outro dia se tornou a reconciliar com grande sentimento de sua vida passada, e de não haver bem guardado o que lhe havíamos ensinado, e isto com tanto senso e madureza que não parecia homem do Brasil. Fez seu testamento, e deixou recomendado à sua mulher e filhos que seguissem nossas palavras e doutrina; e em dia da Natividade de N. S. Jesus Cristo morreu, para nascer em vida nova de glória, como esperamos (Dezembro 25 de 1562). Foi enterrado em nossa igreja com muita honra, acompanhando-o todos os Cristãos Portugueses com a cera de sua confraria. Ficou toda a Capitania com grande sentimento de sua morte, pela falta que sentem, porque este era o que sustentava todos os outros, conhecendo-se-lhe muitos obrigados pelo trabalho que tomou em defender a terra; mais que todos creio que lhe devemos nós os da Companhia, e por isso determinou dar-lhe em conta não só de bemfeitor, mas ainda de fundador e conservador da casa de Piratininga e de nossas vidas; porque havendo ele ajudado a fazê-la com suas próprias mãos, e havendonos ajudado a sustentar logo em princípio de sua fundação, quando não haviam Portugueses alguns, agora o quis fazer Deus nosso defensor, e pôs em sua mão a vida de dez Irmãos, que no tempo da guerra nos achàvamos em Piratininga, e todo o mais povo dos Portugueses; e pôs em suas mãos, digo, porque quasi todos os daquela Comarca, que se recolheram comnosco, dependiam dele; e se quisesse consentir na maldade dos seus (como eles mal pensavam) pouco houvera de fazer em nos matar e comer. Creio que basta isso para dar a entender a obrigação que temos todos de o encomendar a Nosso Senhor. Praza à sua Divina Bondade de nos abrir porta para se fazer algum proveito na conservação de tanta gentilidade que hà nesta terra. Temos prosseguido em nossos costumados ministérios de doutrinas e confissões com os índios e escravos, assim em Piratininga como em outros lugares marítimos, ocorrendo a umas e outras partes segundo as necessidades presentes, do que sempre se colhe algum fruto: pregando também o Padre Manuel da Nóbrega aos Portugueses, empregando nestes e outros trabalhos em serviço de Deus Nosso Senhor a saúde, que sua Divina bondade se digna comunicar-lhe, a qual ao presente é muita, e mais do que esperàvamos que fosse, segundo as graves enfermidades em que estava, como jà se terà sabido pelas cartas anteriores. Bendito seja o Senhor em seus dons. Nesta quaresma se tem socorrido a Vila de Santos, que é a principal habitação desta Capitania, com um Sacerdote e um Irmão intérprete para a doutrina e confissão dos escravos, onde estiveram quinze dias somente para poderem acudir a outras partes; os quais foram., tão bem empregados, que desde manhã até grande parte da noite se ocupavam em confissões, fazendo-se doutrina de manhã e de tarde, a todos os homens e mulheres, quantos vinham; e de noite em especial aos escravos. Logo que souberam que éramos chegados para os ensinar e confessar, concorreu grande multidão deles das fazendas, com grandes desejos de confessar-se. E o melhor é, que como não sabem usar de muitas cortezias, nem haver respeito mais que à sua devoção, pouco se lhes dà se estamos cançados, se temos necessidade de sono ou não; e assim se confessaram muitos deles nos quinze dias que ali estivemos, com muito proveito de suas almas: e como não tenham tantos embaraços, nem curem de mais que de servir a seus senhores, alguns deles jà casados, guardando bem e estimando muito as leis do matrimônio, outros solteiros vencendo muitos encontros de tentações de diabos encarnados, e dando muito crédito ao que lhes ensinamos, não duvido de antepô-los a seus senhores, os quais comumente cada vez mais se embaraçam com diversos gêneros de impedimentos, com o que não podem, nem querem admitir o remédio que se inclinam a dar-lhes os da Companhia, e as- sim recorrem a outros meios, que lhes cicatrizem as chagas por cima, deixando dentro a sanie corrosiva, que penetra até as entranhas. Alguns hà contudo, que se confessam e comungam amiudadamente com os Padres, seguindo em tudo seu parecer e saudàveis conselhos para suas almas. Completos quinze dias, que estivemos na Vila de Santos, onde se confessou grande parte dos escravos e mulheres dos Portugueses, que são sempre mais devotas que seus maridos, voltàmos a este Colégio de S. Vicente, e daqui partimos logo a outro lugar chamado Itanhaen, 6 ou 7 léguas pela praia, que é fronteira dos índios que agora se levantaram, onde também se mudaram para morarem com os Cristãos das aldeias de índios, matando alguns dos malfeitores, que também vinham sobre aquela povoação, e agora têm casas feitas de novo junto aos Portugueses, desejando ser ensinados e batizados; mas por falta de intérprete nada se pode fazer ao presente; e nesta Vila temos estado outra parte da quaresma, ocupando-nos nos mesmos exercícios de ensinar e confessar senhores e escravos, de noite e de dia com grande trabalho, porém mesclado de muita consolação de ver a diligência que têm, e os escravos em acudir das fazendas em que estão derramados, a se confessarem, quanto bom cuidado têm em guardar os mandamentos de Deus. Entre estes índios, de que falo, està um, que creio passa de cento e trinta anos, ao qual todos os que hà muito tempo que o conhecem dão testemunho de haver sempre vivido sine querella esse tempo que o conheceram, assim com os seus como com os nossos Portugueses. Outra vez que fomos àquela Vila pela festa da Conceição de Nossa Senhora, a quem; é dedicada a sua igreja, falamos-lhe que o queríamos batizar para que sua alma se não perdesse, mas que por então não podíamos ensinar-lhe o que era necessàrio per falta de tempo, e que estivesse preparado para quando voltàssemos. Folgou ele tanto com esta notícia, como vinda do Céu, e teve-a tanto em memória, que agora quando viemos e lhe perguntàmos se queria ser Cristão, respondeu com muito alegria que sim, e que jà desde então o estava esperando. Tomando-o, pois, entre mãos, e começando a ensinar-lhe as coisas mais essenciais da nossa fé, pensàvamos que jà não pudesse ter tino em nada por sua grande

velhice, por ter jà perdido o vêr e ouvir, e seus membros todos pouco mais que os ossos cobertos com pele muito enrugada; mas foi o contràrio, que o que a muita idade lhe negava, supria nele a grande vontade e desejo que tinha de ser Cristão, maximè depois que lhe demos a entender quanto via nele, e de tal maneira tomou o que lhe ensinàvamos, que não me recordo, entre muitos que se têm instruído pequenos e grandes, ter achado tal disposição e prontidão como neste velho. Dando-lhe pois a primeira lição de ser um só Deus todo poderoso, que criou todas as coisas, etc, logo se lhe imprimiu na memória, dizendo que lhe rogava muitas vezes que criasse os mantimentos para a sustentação de todos, mas que pensava que os trovões eram este Deus; porém agora que sabia haver outro Deus verdadeiro sobre todas as coisas, que a ele rogaria chamando-o Deus pai e Deus filho; por que dos nomes da Santa Trindade estes dois somente pôde tomar, pela razão de que se podem dizer em sua lingua; mas o Espírito Santo, para o qual nunca achamos vocàbulo próprio, nem circunloquio bastante, ainda que o não sabia nomear, sabia-o contudo crer como nós lhe dizíamos. Tornei depois a visità-lo, perguntando-lhe por sua lição ele a repetiu toda dizendo, que a maior parte da noite (que por sua muita velhice não pôde dormir) estava pensando e falando comsigo aquelas coisas, desejando que sua alma fosse para o Céu. Quando lhe vim a declarar o mistério da Encarnação, mostrou grande espanto e contentamento de Nossa Senhora parir e ficar virgem, perguntando algumas particularidades àcêrca disto (o que é bem alheio dos outros, que nem sabem duvidar, nem perguntar nada); e falando palavras afetuosas de amor de Nossa Senhora, nunca mais se olvidou nem do mistério nem do nome da Virgem. O nome de Jesus teve mais trabalho em reter; e para isso chamava seus filhos e netos, que também nos rogavam que o batizàssemos; uns diziam: "Batizai meu avô, para que não và sua alma ao inferno"; outros: "Batizai meu pai, para que và sua alma para o Céu"; e assim cada um com o que podia o ajudava. O que mais se lhe imprimiu foi o mistério da Ressurreição, que ele repetia muitas vezes dizendo: "Deus verdadeiro é Jesus, que saiu da sepultura e subiu ao Céu, e depois hà de vir, muito irado, a queimar todas as coisas." Finalmente

depois de ter suficiente conhecimento das verdades da nossa santa fé, e aborrecimento da vida passada com mui grande desejo do batismo, levâmo-lo um dia à igreja, para onde foi com seus pés, sustentando-se em um bordão, e ajudado de seus netos por um monte acima, assàs àspero para aquela idade; mas o grande ardor da sua alma dava forças aos membros jà desfalecidos. Chegando à porta da Igreja o assentàmos em uma cadeira, onde estavam jà seus padrinhos com outros Cristãos a esperà-lo. Aí lhe tornei a dizer que dissesse deante de todos o que queria; e ele respondeu com graiide fervor que queria ser batizado, e que toda aquela noite estivera pensando na ira de Deus, que havia de ter para queimar todo o mundo, e destruir todas as coisas, e de como havíamos de ressuscitar todos; detestando também sua vida passada, dizendo que por falta de conhecimento da verdade comera carne humana, e fizera outros pecados no tempo de sua mocidade, mas que agora tudo isso aborrecia, e que bastava que as almas de seus passados estavam no inferno, mas a sua queria que fosse para o Céu a estar com Jesus, de quem todos os presentes davam glória a Deus. Fazendo-se-lhe, pois, os exorcismos um pouco antes da benção d'àgua, começou a chorar e esfregar os olhos mui pensativo: e a causa disto depois direi, como ele me contou. Batizado, e feito todo o ofício, tornàmos a assentà-lo em sua cadeira, dizendo-lhe seus padrinhos e outros que estavam presentes, que se alegrasse, pois de novo era nascido; e como lhe dissessem seus netos que se fosse, perguntou ele muito espantado: "Para onde?" Parece que pensou não havia mais de tornar da Igreja, mas que dali subiria ao Ceu, e tendo voltado à sua casa começou a chorar, e seus filhos e netos com ele. Ao outro dia, tornando nós para este Colégio, fui despedir-me dele, e disse-me, sem lhe perguntar, que nunca se havia de esquecer de minhas palavras; dizendo-me mais: "Mui alegre estou porque hà de ir minha alma ao Céu, e por isso chorava eu ontem quando me batizavam, recordando-me de meus pais e avós, que não alcançaram esta bôa vida que eu alcancei." Com isto nos despedimos dele mui consolados, deixando-o recomendado a seus padrinhos. Maravilhas são estas que sabe fazer a suma bondade de Nosso Senhor com seus escolhidos, tornando este de tanta velhice à infância e inocência do

batismo, e em tempo que jà ele parecia mais menino que velho, sem ter ocupação interior nem exterior alguma, pelo que esta, que tão necessària lhe era, tanto se lhe imprimiu no coração. Pouco tempo pode viver naturalmente, e parece-nos que Deus não lhe dilatava a vida senão até chegà-lo a esta hora, em que recebesse a vida de graça, para ser participante da eterna. A Deus seja dada a glória por tudo. Partindo dali voltàmos pela praia buscando almas perdidas e desamparadas dos escravos dos Cristãos que estão guardando suas lavouras; e achàmos em diversos lugares cinco ou seis, e algumas em extrema necessidade de medicina espiritual, uma aqui, outra ali, em pobres cabanas metidas pelas selvas, onde fazem seus mantimentos; a uns confessàmos de toda a sua vida, porque nunca o haviam feito, sendo jà de mui longa idade, e sangràmos juntamente. A dois inocentes batizàmos, que se Deus Nosso Senhor não os fora buscar desta maneira, não sei se achariam entrada para a vida eterna, um dos quais achàmos só com uma menina de menos idade que ele, em uma choça da praia junto de um bosque muito ao cabo, e com pouca esperança de vida; e sabendo dele que não era Cristão, e que o queria ser, conduzimo-lo a um rio, onde lembrando-nos de S. Felipe quando batizou o eunuco, o metemos no rio e o batizàmos, chamando-o Felipe. Estes pequenos manipulos colhem-se por estes caminhos com assàs trabalho e cansaço, calores, e chuvas. Sirva-se de tudo Jesus Cristo Nosso Senhor, que com imensos trabalhos de sua vida e morte nos andou buscando, que de todo estàvamos perdidos. Desta outra banda do Norte temos os contràrios, inimigos também destes nossos índios, dos quais muitas vezes tenho escrito. Estes parece que têm justiça contra os Portugueses, pelas muitas injustiças e sem razões que deles têm sempre recebido, e por isso os ajuda sempre a Divina Justiça, porque vêm mui a miúdo por diversas partes, por mar e por terra, e sempre levam escravos dos Cristãos, matando os mesmos homens; e agora e no tempo que os índios se levantaram, deram em umas fazendas, tomaram e mataram mais de quarenta Cristãos, tanto escravos como filhos de Portugueses, e de envolta três mulheres casadas das mestiças, uma das quais fugiu de noite núa, e as outras foram levadas, e temos notícia de que são vivas. Ustão só umas duas irmãs, que aqui sempre ouvem a doutrina, confessam-se, e comungam muito a miúdo, às quais deu Nosso Senhor esforço, maximè a uma delas, de quem os mesmos contràrios nos contaram em particular, que querendo o que a cativara tê-la por manceba, nunca o consentiu nem com afagos nem com ameaças; basta que determinou matà-la, ao que ela se ofereceu de boa vontade por não ofender a Deus; e estando jà seu senhor para o pôr por obra, impediram-no outros seus parentes, dizendo que a deixasse, que a tornariam a resgatar os Cristãos, e com isso a deixou. Toquei neste ponto para que de tudo se dê glória a Deus, o qual ainda das mulheres Brasilicas tem quem de grado queira receber a morte por guardar castidade. Vendo o Padre Manuel da Nóbrega os grandes trabalhos e inquietação de toda esta Capitania com os contínuos incursos destes contràrios, e a muita justiça que têm de sua parte, se determinou encomendar-se muito a Nosso Senhor, e ir tratar pazes com eles, se estes povos dos Portugueses quisessem aí ficar entre eles, e eles virem cà, havendo assim comunicação e concórdia; e sendo jà passados dois anos ou mais que Nosso Senhor lhe dà isto a sentir, e faltando sempre oportunidade, agora quis Deus abrir caminho para isto, e é, que indo là um barco a saber destas mulheres cativas, foram mui bem recebidos deles, e souberam como os contràrios conheciam os nossos desejos de pazes, e como se levantaram muitos índios contra nós outros: pelo que desejam que se efetuem as pazes, maximè sabendo que os Portugueses hão de ir morar entre eles, dos quais hà muito que têm notícia, assim por informação de muitos escravos Cristãos, que daqui fogem, e lhas levam, como dos seus mesmos, que nós outros impedimos a estes índios nossos discípulos que não comam nem matem; pelo que mostram grandes desejos de nos ter comsigo, para lhes ensinar os filhos. É esta uma notícia de grande alegria para toda esta terra, e muito mais para nós outros, que esperamos que por ali se nos abrirà alguma porta para se ganharem muitas almas ao Senhor. Agora estão aparelhados dous navios, em que havemos de ir o Padre Manuel da Nóbrega e eu por intérprete, por falta de outro melhor, porque os mais Irmãos são mandados à Baía a tomar ordens, onde têm em que em-

pregar seus talentos em serviço de Deus Nosso Senhor, e ajuda das almas. Querendo os contràrios dar reféns que cà venham, havemos de ficar em suas terras, e com isto esperamos que terà algum sossego esta Capitania, que anda deles tão infestada, que jà quasi não pensam os homens senão em como se hão de ir e deixà-la, e juntamente se poderão amansar e sujeitar estes nossos índios, para se poder fazer algum proveito em suas almas, e assim nos mesmos contràrios, nos quais se lançarà agora este pequeno fundamento, sobre o qual depois se poderà edificar grande obra; e quando mais não fosse jà poderia ser que por ali se nos abrisse alguma porta, para ir mais presto ao Céu. Estamos jà de caminho para esta jornada, entregando-nos à Divina Providência, como homens morti destinatos, não tendo mais conta com morte nem vida, que quanto fôr mais glória de Jesus Cristo Nosso Senhor e proveito das almas, que ele comprou com sua vida e morte. Nos santos sacrifícios e orações de V. P. e de todos os nossos caríssimos Irmãos desejamos e pedimos muito ser encomendados a Deus Nosso Senhor, para que nos dê graça, com que conheçamos e cumpramos perfeitamente sua santíssima vontade. Deste Colégio de Jesus, de S. Vicente, hoje 16 de Abril de 1563 anos. Minimus Societatis Jesu.

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Continue a leitura Ao Geral Diogo Lainez, de São Vicente, a 16 de abril de 1563 Capítulo 14 · 14 de 38 · ≈ 28 min
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