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Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

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Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Capítulo 15 · Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Ao Geral Diogo Lainez, de São Vicente, janeiro de 1565

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XV Ao GERAL DIOGO LAINEZ, DE SÃO VICENTE, JANEIRO DE 1565. Missão de Nóbrega e Anchieta a Iperoig. — Paradas na Bertioga e na ilha de S. Sebastião. — Chegada a Iperoig. — A razão por que os Tamoios queriam a paz. — Partida de reféns para S. Vicente. — Doutrinação dos meninos. — Projetado ataque dos Tamoios às povoações portuguesas. — Chegada de Pindobuçú. — José Adorno. — Chegada de Aimbiré e de um Francês luterano. — Notícias dos Franceses do Rio de Janeiro. — Partida de Adorno e alguns Tamoios para S. Vicente. — Chegada de um filho de Pindobueú. — Visita à aldeia de Cunhambeba. — Nóbrega volta para S. Vicente. — Domingos de Braga. — Batismo de um marabà. — Amizade de Pindobuçú. — Padre Francisco Cardoso. — Nóbrega e Cunhambeba assentam as pazes com os Tupis. — Ida a Piratininga dos Tamoios do Paraíba. — Anchieta socorre os enfermos. — Chegada de Cunhambeba e partida de Domingos de Braga. — Cunhambeba e Anchieta embarcam para S. Vicente. — Assaltos dos Tamoios do Rio de Janeiro. — A armada de Estàcio de Sà chega ao Rio. — Nóbrega e Anchieta seguem ao seu encontro. — Vinda da armada a S. Vicente. — Peste de varíolas. — Anchieta em Piratininga. Graça GRAÇA e amor do Espírito Santo seja sempre em nosso contínuo favor e ajuda. Amém. E ' chegada esta terra a tal estado que jà não devem esperar dela novas de fruto na conversão da gentilidade, a qual pois falta parece conseqüente superabundar as tribulações que se passam, com esperança de poder colher algum, que se guarde nos celeiros do Senhor, o qual, pois se dignou de nos comunicar algo delas, determinou com elas algo me dilatar, pois o mesmo disse que o verdadeiro

fruto nasce da paciência, para que com tudo seja seu santo nome glorif içado. Em as letras passadas toquei algo das grandes opressões que dão a esta terra uns nossos inimigos chamados Tamuya (Tamoios), do Rio de Janeiro, levando continuamente os escravos, mulheres e filhos dos Cristãos, matando-os e comendo-os, e isto sem cessar, una idos, outros vindos por mar e por terra; nem bastam serras e montanhas mui àsperas, nem tormentas mui graves, para lhes impedir seu cruel ofício, sem poder, ou por melhor dizer, sem querer resistir-lhes, de maneira que parece que a Divina Justiça tem atadas as mãos aos Portugueses para que não se defendam, e permite que lhes venham estes castigos, assim por outros seus pecados, como maximè pelas muitas semrazões que têm feito a esta nação, que dantes eram nossos amigos, salteando-os, cativando-os muitas vezes com muitas mentiras e enganos. Pelo que determinou o Padre Manuel da Nóbrega de tratar pazes com eles, com aprazimento de todos estes povos, para que algum pouco cessassem tantos incursos e opressões, ou ao menos quando eles não quisessem, nos deixassem nossa causa justificada deante de Deus Nosso Senhor, e abrandasse o rigor de sua Justiça, querendo dar sua vida em sacrifício, entregando-a em mãos de seus inimigos, ficando-se com eles em suas terras, mandando também eles cà alguns dos seus em reféns e assim tratando-se pouco a pouco até soldar a amizade e paz, ut unus aut duo morientur homines pro populo, et non tota gens periret, esperando daqui também outros frutos da conversão dos mesmos ou, em sua falta, ganhar algumas almas de seus filhos inocentes com a àgua do santíssimo batismo, como mais longamente em as letras passadas hei referido. Movido pois com tantas e tão justas causas, e confiando em a virtude de Nosso Senhor Jesus Cristo, que das pedras duras tira abundantes rios d'àgua, empreendeu este caminho, determinado de se partir em dois navios bem aparelhados à terra dos contràrios, e depois de renovados os votos à primeira oitava da Pàscoa do ano passado de 1563 (223-A) nos partimos antes que os navios, e eu indo-os esperar a uma fortaleza daqui a quatro léguas chamada Beriguioca, em uma canoa, onde logo começàmos a experimentar a

doçura da Divina Misericórdia e Providência, à qual totalmente nos havíamos entregado e foi que, havendo nós outros chegado à terra, e desembarcado, veiu tão grande tempestade de vento e chuva, que se nos tomara em mar, como a canoa era pequena, teríamos grande perigo de nos perder, a salvo conduziu-nos; bendito seja o Senhor doador de todo bem. Nesta fortaleza estivemos cinco dias confessando os moradores dela e seus escravos e comungando aos que eram capazes do santo Sacramento, enquanto se aparelhavam os navios, e daí nos partimos aos 23 de Abril, com bom vento; mas logo se nos mudou, e houvera de dar com nós outros à costa em uma ilhota pequena, mas, ajudando-nos Nosso Senhor, chegàmos a uma ilha chamada de S. Sebastião, despovoada, mas cheia de muitos tigres, onde, o dia de S. Felipe e S. Tiago, dissemos missa, e logo no seguinte, que era domingo, também encomendando a Deus nosso caminho, dali nos partimos e com próspero vento chegamos aos primeiros lugares dos inimigos, que estavam vinte léguas destas povoações dos Portugueses, pouco mais ou menos, chamados Iperoig, onde logo saíram a receber-nos alguns deles bem longe de terra, e sabendo ao que iamos se meteram nos navios sem temor, e depois de serem de nós outros recebidos com paz e amizade, se foram a dar conta do que passava a seus principais, os quais ao outro dia, que foi de S. João ante portam latinam, vieram todos em três canoas a tratar sobre as pazes. Mas porque temiam que se entrassem todos juntos nos navios os salteassem (como outras muitas vezes haviam feito os nossos) pediram que fossem dois dos nossos à terra e que dos seus ficariam nos navios em reféns, para deles saberem mais largamente a verdade, e assim se fez, deixando eles três ou quatro dos seus, levando dois dos nossos, um a um lugar e outro a outro, onde dormiram uma noite e praticaram largamente até ficarem satisfeitos, sem suspeita de nenhuma mentira, sabendo que iam os Padres, dos quais eles têm notícia que não tratam, senão de ensinar a palavra de Deus, parecendo-lhes que tinham bôa prenda em nós outros se ficàssemos em suas terras, e para mais segurarem-se ao outro dia trouxeram uma mulher comsigo que havia jà estado entre nós outros, para que soubesse de certeza se éramos os Padres, a qual em nos vendo nos conheceu e disse aos seus como o Padre Nóbrega era nosso superior e que se confiassem seguramente de nós outros, e desejando eles que saíssemos à terra a ver seus lugares, para se acabarem de assegurar, saímos e com nós outros oito ou nove Portugueses, ficando muitos dos inimigos nos navios, jà não como reféns, mas de sua própria vontade, como em casa de seus amigos. Chegados à praia pusemo-nos de joelhos dando graças a Nosso Senhor e desejando abrir-se jà alguma porta, por cnde entrasse sua graça a esta nação que tanto tempo està apartada dela. Visitàmos ambas as aldeias e, entre eles, eu falando em voz alta por suas casas como é seu costume, dizendo-lhes que se alegrassem com a nossa vinda e amizade: que queríamos ficar entre eles e ensinar-lhes as coisas de Deus, para que ele lhes desse abundância de mantimentos, saúde, e vitória de seus inimigos e outras coisas semelhantes, sem subir mais alto, porque esta geração sem este escalão não querem subir ao céu, e a principal razão que os moveu a quererem a paz não foi o medo que tivessem aos Cristãos, aos quais sempre levaram de vencida fazendo-lhes muitos danos, nem necessidade que tivessem de suas coisas, porque os Franceses que tratam com eles lhas dão em tanta abundância, assim roupas, como ferramentas, arcabuzes e espadas, que as podem os Cristãos comprar a eles, mas o desejo grande que têm de guerrear com seus inimigos Tupis, que até agora foram nossos amigos, e pouco hà se levantaram contra nós outros (salvo uns poucos de nossos discípulos, como mais largamente hei referido em outras), dos quais, porque sempre foram vencidos e maltratados com favor dos Portugueses, queriam eles agora com o mesmo favor ser vencedores e vingar-se bem deles, matando e comendo à sua vontade, dizendo que até agora nos haviam feito muito mal, com seus saltos contínuos, porque lhes estorvàvamos a passada a seus inimigos. Que deles desejavam vingar-se, e não de nós outros, mas daqui em deante não nos lembràssemos mais das guerras passadas, pois também lhes havíamos morto muito dos seus, mas que todo o nosso furor se convertesse contra os Tupis, que tão sem razão se haviam alevantado contra nós outros, etc.. A primeira e principal condição das pazes foi que eles

também haviam de ser amigos de nossos discípulos (que por nos defender se haviam apartado de seus parentes e haviam jà morto deles para o qual levàvamos alguns com nós outros nos navios), que também lhes disseram o mesmo. O que eles concederam de grado, porém depois nos foi isto causa de muita tribulação, mas mui bôa e suave porque, por defensão deles nos oferecemos depois muitas vezes à morte, como eles haviam feito por nós outros, como adeante contarei. Mostraram todos, homens e mulheres, folgar muito com nós outros, e assim assentadas todas as coisas, sacàmos em terra nosso fato. Despedindo-se os nossos de nós outros com muitas lagrimas, como que nos deixavam entre dentes de lobos famintos, e na verdade a todos os Cristãos desta costa e ainda a nossos Padres, que conhecem esta brava e carniceira nação, cujas queixadas ainda estão cheias de carne dos Portugueses, pareceu isto não só grande façanha, mas quasi temeridade, sendo esta gente de maneira que cada um faz lei para si, e não dà nada pelos pactos e contratos que fazem os outros. Mas nós outros em terra, ordenou a Divina Providência que se metessem doze mancebos das duas aldeias em um navio como reféns, sem nós outros esperar que fossem tantos, os quais partidos logo ao outro dia vieram a estas vilas, e foram mui bem tratados dos Cristãos, e em o outro navio se meteram cinco dos mais estimados, e se foram caminho do Rio de Janeiro, onde està a maior força dos seus, e o contrato dos Franceses para acabar as pazes com eles, dando testemunho como jà ficàvamos de assento em suas terras, de cuja viagem depois referirei. Nós outros nos ficàmos em terra, o Padre Manuel da Nóbrega e eu, e pousàmos em casa de um índio principal que havia muito tempo que haviam salteado, por engano dos Portugueses com outros muitos, e haviam escapado fugindo do navio, com uns ferros nos pés, e andando toda a noite, e ainda que tinha razão por isto de ter-nos grande ódio, determinou de olvidar-se dele e convertê-lo todo em amor, mostrando-se como um dos principais autores desta paz, movido também por palavras de uma índia que tinha em sua casa, a qual em o mesmo tempo fora salteada e vendida por escrava contra toda razão e justiça, a qual tinha dado grandes novas de nós outros, que não queríamos consentir que os que eram salteados fossem cativos, e não queríamos confessar a seu senhor dela, até que a pusesse em sua liberdade, e outras muitas coisas de nossos costumes e maneira de vida, eom que deu algum conhecimento e crédito de nós outros àqueles indios seus parentes, e ela tinha cuidado de nos dar de comer e procurà-lo com muito amor e diligência e ainda de avisar-nos de algumas coisas, se porventura os seus maquinavam contra nós outros. Logo começàmos a ajuntar os meninos e meninas do lugar, com os quais também se achegavam algumas mulheres e homens, e lhes começàmos a ensinar as coisas da fé, anunciando Nosso Senhor Jesus Cristo àqueles que dele nunca haviam ouvido, e os rapazes aprendiam de boa vontade; de maneira que em espaço de uma semana estavam aptos para receberem o santo batismo, se estiveram em terra de Cristãos, aos quais em público e em particular admoestàvamos, especialmente que aborrecessem o comer da carne humana porque não perdessem suas almas no inferno, ao qual vão todos os comedores dela e que não conhecem a Deus seu Criador, e eles nos prometiam de nunca mais comê-la, mostrando muito sentimento de ter mortos, sem este conhecimento, seus antepassados e sepultados no inferno. O mesmo diziam algumas mulheres em particular, que pareciam folgar mais com nossa doutrina, as quais prometiam que assim o fariam; aos homens em geral falàmos nela, dizendo-lhes como Deus o defende, e que nós outros não consentiamos em Piratininga aos que ensinàvamos que os comessem a eles, nem outros alguns, mas eles diziam que ainda haviam de comer de seus contràrios, até que se vingassem bem deles, e que devagar cairiam em nossos costumes, e na verdade, porque costume em que eles têm posta sua maior felicidade não se lhes hà de arrancar tão presto, ainda que é certo que hà algumas de suas mulheres que nunca comeram carne humana, nem a comem, antes ao tempo que se mata algum, e se lhe faz festa no lugar, escondem todos seus vasos em que comem e bebem, porque não usem deles as outras, e junto com isto tem outros costumes tão bons naturalmente que parecem não haver procedido de nação tão cruel e carniceira. Os índios nos faziam todo o bom trato possível à sua pobreza e baixeza, e como têm por grande honra quando vão Cristãos a suas casas dar-lhes suas filhas e irmãs para que fiquem por seus genros e cunhados, quiseram nos fazer tal honra, oferecendo-nos suas filhas, insistindo muitas vezes; mas como lhes déssemos a entender que não somente aquilo que era ofensa a Deus aborreciamos, senão que não éramos casados, nem tínhamos mulheres, ficaram eles e elas espantados, como éramos tão sofridos, e continentes, e tinhamnos muito maior crédito e reverência. As mais particularidades neste caso, não é possível, nem expediente; basta entender-se que é necessària graça mui especial e fogo do Espírito Santo a quem houver de viver entre gente que põe nisto uma das essenciais partes de sua felicidade, cujos pensamentos, palavras e obras, que quasi necessariamente hà de ouvir-se, e ainda ver-se, todos finalmente vêm parar nisto. Bemdita seja a Suma Bondade que tanto cuidado tem daqueles que são membros desta sua minima Companhia. Em o primeiro domingo depois que saímos fizemos um altar em um bosque junto ao lugar e dissemos a primeira missa naquela terra, e depois aos 14 de Maio dentro do lugar nos aposentaram em uma casa, saindo-se todos dela, porque assim o deixou mandado seu dono, que era um principal dos cinco que foram no navio ao Rio de Janeiro, como acima disse, e nela celebràmos missa, aspergindo-a primeiro toda com àgua benta por estar mui contaminada de mortes e outros pecados que nela seriam metidos; o qual foi o dia dos Santos Màrtires Vitor e Corona, em que pedimos a Nosso Senhor nos desse vitória contra o demônio para concluir-se e efetuar-se estas pazes, das quais se esperava resultar tanto bem e salvação de tantas almas, assim de escravos e mulheres dos Cristãos que cativam continuamente e têm por maneebas, e depois as matam e comem, como dos seus mesmos, dos quais tem Nosso Senhor muitos predestinados para sua glória; e daí em deante sempre dissemos missa, comumente antes do dia, por não ser perturbados dos índios, os quais se queriam sempre achar presentes por curiosidade e era-nos causa de alguma inquietação, e ainda com tudo isto nunca pudemos fazê-lo tão secretamente que não concorressem alguns, e não se contentavam senão com chegar-se mui perto do altar e mirar mui bem a imagem do Crucificado que ali tínhamos.

Desta maneira vivíamos entre eles gastando uns poucos de dias em um lugar, e outros poucos em outro, por contentar a todos, ensinando sempre as coisas da fé a quantos as queriam ouvir, e éramos mui amados de todos, quanto se podia conjeturar por palavras e obras exteriores, maximè porque tinham eles determinado em conselho que o primeiro Cristão que tomassem o entregassem às velhas, que são as mais carniceiras, e elas o matassem à sua vontade a estocadas e pancadas de paus agudos, e depois de assim morto, um deles lhe quebraria a cabeça e tomaria novo nome,* como é seu costume, e isto porque lhes haviam morto os nossos, pouco havia, um seu grande principal, mas que então estavam jà fora do tal propósito. Mas porque Nosso Senhor aos que ama castiga e dà tributações, não quis que passasse muito tempo sem nos dar algum dos semelhantes regalos; ainda que na verdade jà anteriormente os começàvamos a experimentar e sempre os havíamos com contínuos sobresaltos que tínhamos dos grandes encontros, que nos estavam aparelhados, porque ao tempo que saímos naquela fronteira de inimigos tinham os índios desta Nação grande guerra junta sobre os lugares dos Cristãos, para o qual tinham aparelhadas duzentas ou mais canoas, que fazem de uma cortiça só de uma àrvore cada uma, pondo-lhes outros pedaços da mesma cortiça por bordos, mui bem atados com vimes, e são tão grandes que levam cada uma delas vinte e vinte e cinco e mais pessoas, com suas armas e vitualhas; e algumas mais de trinta, e passam ondas e mares tão bravos que é coisa espantosa e que não se pode crer, nem imaginar, senão quem o vê e muito melhor quem as passa e se se lhes alaga, lançam-se todos à àgua, e tiram-a fora à praia, ou no mesmo mar a exgotam e se tornam a meter nela, e vão seu caminho, e acresce muitas vezes que a grande fúria da tempestade se lhas faz em pedaços, e eles em o caminho vão-se à terra. Pois com estes seus navios assim juntos tinham determinado de dar nos Cristãos, não com guerra descoberta, senão de saltos, uns em uma parte e outros em outra, uns idos, outros vindos, de maneira que nunca a carreira estivesse sem eles, e junto com isto os que deles moram pelo sertão haviam de vir por terra com a mesma continuação, até des-

truirem tudo, se pudessem, e é de crer segundo a pouca indústria que os Cristãos têm em se defender, que em este ano se havia de assolar grande parte desta Capitania, se não intervieram estas pazes. Assim que nós outros em terra, cada dia esperàvamos por alguns destes, porque todos vêm aportar àquela fronteira, dos quais bem criamos que trariam mui bôa vontade de nos matar, como soubessem que estàvamos em suas terras, e logo aos 23 de Maio chegaram duas canoas; em uma delas vinha um grande principal da mesma aldeia em que estàvamos, que chamavam Pindobuçú, que quer dizer "folha grande de palma"; na outra vinha um irmão daquele em cuja casa pousamos, os quais ainda não sabiam de nós outros, e entrando este em casa, como lhe deram conta do que se passava, dissimulou por então e mandou que lhe desembaraçassem sua casa, e como estivesse dentro fazendo lavar nosso fato a outra casa, chegou um seu genro, que vinha com ele, e vendo-me dentro não pôde passar da porta, mas antes ali parado com uma espada na mão, perguntou a seu sogro: "Quem é este?" Respondeu-lhe: "O Português". Disse o outro: "Português?" como homem que havia achado coisa mui natural para executar seu ódio mortal, que todos nos têm. Eu disse-lhes: "Eu sou vosso amigo, que hei de estar com vós outros daqui em deante". Mas ele mui indignado e soberbo respondeu: "Não quero sua companhia" e outras coisas àsperas; mas não lhe permitiu Deus Nosso Senhor fazer mal. Mas como os outros lhes deram conta do que se passava, logo se assossegaram, maximè Pindobuçú, o qual mostrava grande prazer das pazes, dizendo que muito tempo havia que as desejava, e que queria durassem para sempre, praticando com nós outros muitas coisas, assim das tocantes à paz, como de nossa vida. Nós outros lhes mostràmos as disciplinas com que se domava a carne, falando-lhe também dos jejuns, abstinencias e outros remédios que tínhamos, e que tudo isto fazíamos por não ofender a Deus, que manda o contràrio; e ele replicou: "E Deus que lhes hà de fazer? Por que tendes medo dele?" Então lhe falàmos do inferno e glória, e t c, do que ele ficou maravilhado, e tendo-nos grande crédito,

porque nossa vida era tão apartada da dos homens, e que não tratàvamos senão em coisas de Deus e de bons costumes, e logo começou a pôr por obra o crédito que nos tinha, porque ao tempo que entrou o outro em a casa de seu irmão, em que pousàvamos, e tirando nós outros dela nosso fato, não nos podendo empecer em outra coisa, escondeu a campainha com que chamàvamos à doutrina, e nunca a quis descobrir, ainda que a foram buscar muitas vezes, até que sendo informado disto o Pindobuçú, começou a pregar por as casas, que descobrissem logo a campainha, e não fizessem coisa por onde lhes viesse algum mal, dizendo: "Se nós outros temos medo de nossos feiticeiros, quanto mais o devemos de ter dos padres, que devem ser santos verdadeiros, e teriam poder para nos fazer vir câmaras de sangue, tosse, dôr de cabeça," das quais palavras o outro ficou tão espantado, que logo descobriu que ele tinha a campainha. Aos 27 de Maio começaram a vir os que tinham a guerra junta, e o primeiro foi um principal, com dez canoas de gente, o qual jà sabia a nova de nossa saída e logo determinou de nos tomar e matar, e que os que eram vindos em reféns ficariam entregues com nós outros, e isto por ser grande inimigo dos Portugueses, por causa dos Franceses, de quem é grande amigo, e tem a um deles por genro amancebado com uma sua filha, de que tem uma neta, e este seu genro ficava atràs com quatro canoas, que também vinham à guerra a nós outros, e ordenando assim a Divina Providência, encontrou com um navio que ia tratar as pazes ao Rio de Janeiro, de que era capitão José Adorno, tio de nosso irmão Francisco Adorno, e sabendo que não era Português entrou no navio abraçando-o e mostrando muito Icontentamento das pazes, e deu aviso de como os índios que vinham com ele determinavam de tomà-los às mãos, e matà-los, aos quais ele jà tinha tirado de seu mau propósito e dali se tornou levando cartas do capitão aos Franceses moradores do Rio, em que lhes pedia dessem favor para o cumprimento da paz que se tratava, e o mesmo aconselhou a José Adorno que se tornasse, porque se fosse adeante punha-se em grande perigo de ser morto com todos os seus, e mandou dizer a seu sogro por um índio seu irmão, que ia em o navio, que

consentisse nas pazes; com isto se tornou o navio e chegou aonde nós outros estàvamos em o mesmo dia que as dez canoas. Ao tempo que estes chegaram, ordenou Nosso Senhor para que entendêssemos que todo nosso bem e salvação nos vinha dele, que a maior parte dos índios dos lugares em que tínhamos alguma confiança que nos defenderiam dos seus, se quisessem fazernos mal, estivessem ausentes; chegando pois aquele principal com suas dez canoas veiu logo falar-nos com danado ânimo, o qual era homem alto, seco, e de catadura triste e carregada e de quem tínhamos sabido ser mui cruel. Este, pois, entrou com muitos dos seus com um arco e flechas na mão, vestido numa camisa, e assentado em uma rede começou a tratar das pazes, e a tudo o que lhe dizíamos se mostrava incrédulo e duro, trazendo à memória quantos males lhe haviam feito os nossos, e como a ele mesmo haviam jà prendido em outro tempo com pretexto de pazes, mas que ele por sua valentia, com uns ferros nos pés, saltara do navio e havia escapado de suas mãos, e com isto arregaçava os braços e bulia com com as flechas, contando suas valentias. Estando nisto, chegaram os índios que vinham no navio e deram-lhe novas como seu genro, o Francês, havia feito jà pazes, com o qual parece que se abrandou algum pouco, e se foi, por ser jà tarde, dizendo que ao outro dia trataríamos mais de espaço, e aquela noite determinaram alguns dos seus de ir por a manhã, com pretexto de resgate, a tomar o navio, e outros a matar aos que estivessem em terra, e puderam fazê-lo muito a seu salvo, se Nosso Senhor o permitira, porque ao outro dia, pela manhã desejando Pindobuçú que se efetuassem as pazes, disse-me que fosse aos navios e trouxesse o capitão à terra para concertar como haviam de ser, e indo eu por ele, foram là cinco canoas mui cheias de gente e começaram uns a resgatar, outros a falar sobre as pazes, enchendo-se o navio deles e por fim chegou um mui depressa dizendo que fosse asinha o capitão, dizendo que estava jà o principal com os seus esperando, para tratar das pazes, que ele iria logo, e este era o principal autor da traição, ainda que não o sabíamos, mas todavia temendo-nos de que poderia ser, não quisemos sair até que se apartaram as canoas, e, elas idas, o capitão, temendo-se do que em verdade se tratava,

contudo, por ser grande nosso amigo e devoto, não duvidando de morrer onde nós outros morrêssemos, deixando no navio um irmão de Pindobuçú, em reféns por si, se saiu à terra commigo, e em saindo se chegou um menino dos da aldeia, que eu ensinava, a mim, e me disse: Jà são chegados à casa os índios e falam sobre nossas cabeças, e nem com tudo isto se quis o capitão tornar ao navio, que o pudera mui bem fazer, que as casas ainda estavam longe em um monte alto, mas foi-se commigo à aldeia e aquele principal entrou logo em nossa pousada com muitos dos seus, os quais nos cercaram com arcos e flechas, outros com espadas, outros com punhais nas mãos, como homens que não esperavam mais que a primeira palavra do Capitão, o qual, assentado em meio de todos, com uma boa espada na mão e vestido com um saio preto bem fino, antes de tratar com nós outros, praticou com um Francês luterano que trazia comsigo, informando-se dele quem era o Capitão, ao qual o Francês disse que era homem que sabia bem a lingua francesa e dizia haver-se criado em França, mas que não era seu parente, e que vinha a tratar pazes com ele e juntamente com todos os Franceses do Rio; o principal, ouvindo dizer que não era Francês, parece que se alegrou para poder executar sua ira e disse: "Assim? Português é este?" — Eu, porque o capitão não entendia a lingua brasilica, avisei-o do que praticavam, e ele disse ao Francês que lhe dissesse a verdade, que ele não era Português, mas Genovês e grande amigo dos Franceses, com o qual se aplacou um pouco aquela besta brava e começaram a tratar com nós outros sobre as pazes; insistiu muito que lhe havíamos de dar a matar e comer dos principais de nossos índios que se haviam apartado dos seus, assim como em outro tempo havíamos feito a eles, e como disséssemos que nenhum deles lhe havíamos de dar, por serem nossos amigos e discípulos, que Deus "não queria isso, e que assim o havíamos concertado com os da fronteira, respondeu ele: " Os contràrios não são Deus; vós outros sois os que tratais as coisas de Deus, haveis de no-los entregar." E como nisso altercassemos um pouco, concluiu ele em poucas palavras: "Pois que sois escassos dos contràrios, não tenhamos pazes uns com outros." E pouco faltou para logo as quebrar e com quebrar-nos a cabeça, se Deus Nosso Senhor lhe desse

licença, a quebraríamos mui de grado por causa tão justa, porque não só nos pediam carne humana para comer, mas ainda aos inocentes que por nos defender se haviam feito inimigos dos seus e posto suas vidas pelas nossas. O Capitão vendo-o tão bravo como lobo carniceiro, que não pretendia mais que fartar-se de sangue, e não dava nada pela razão, por se desembaraçar dele, disse-lhe que se viria cà e praticaria aquilo com o Capitão que o havia mandado, porque ele não tinha licença para poder prometer-lho. Nisto intervém Pindobuçú, que até então se havia calado, e disse que assim seria bem, que bastava o dito, e com isto se foram e nos deixaram, e antes que o Capitão se fosse a embarcar, lhe descobriu aquele Francês todas as maquinações dos índios que jà tenho contadas. Bendito seja o Senhor, que amansou aqueles feros leões. Este Francês se ficou praticando com nós outros na lingua brasilica, e dele soubemos como todos os seus que estão no Rio são fieis e não papistas e não têm missa, antes perseguem e ainda matam aos que a dizem, que eles crêm só em Deus. Deste mesmo e dos índios que de là vinham soubemos como de França foram ali enviados 12 frades, que segundo parece deviam ser da Ordem de S. Bernardo, os quais fizeram casa e mantimentos um ano que aí estiveram, e vivam apartados dos seus, dos quais eram perseguidos e maltratados, porque eram papistas e diziam missa; mas dos índios selvagens e cruéis eram tratados com muita humanidade, e alguns lhes davam seus filhos a ensinar, e com tudo isso passavam muito trabalho de fome, pelo qual sendo forçados a buscar de comer pelas roças, e não conhecendo bem as raízes, comeram uma vez de mandioca assada, e houveram de morrer, o qual este Francês contava com muito gosto e prazer que disso tinha. Outra vez, andando os fieis do Senhor trabalhando e queimando um pedaço de mato cortado, para nele plantar mantimento, pegou fogo às casas e queimou toda sua pobreza, que tinham, e ornamentos da Igreja, vendo-se tão perseguidos dos seus, e que com os gentios não podiam fazer fruto algum, como pretendiam, tornaram-se para a França, e ainda é mais de crer que os mesmos Franceses os levaram, porque não seguiam a excomungada seita de Calvino, e segundo me contou um índio, no caminho mataram alguns deles e em chegando à França mataram os outros. A vida dos Franceses que estão neste Rio é jà não somente hoje apartada da Igreja Católica, mas também feita selvagem; vivem conforme aos índios, comendo, bebendo, bailando e cantando com eles, pintando-se com suas tintas pretas e vermelhas, adornando-se com as penas dos pàssaros, andando nús às vezes, só com uns calções, e finalmente matando contràrios, segundo o rito dos mesmos índios, e tomando nomes novos como eles, de maneira que não lhes falta mais que comer carne humana, que no mais sua vida é corruptissima, e com isto e com lhes dar todo gênero de armas, incitando-os sempre que nos façam guerra e ajudando-os nela, o são ainda péssimos (233-A). Tornando-me agora ao propósito começado, o capitão José Adorno livre de tão grande angústia, a qual nos havia dado maior aflição que a nossa própria, se embarcou, ao qual dissemos, e assim escrevemos aos regedores destas vilas que de nenhuma maneira se desse não só alguns dos índios inocentes nossos amigos, mas ainda nem algum dos culpados a comer, ainda que a nós outros nos custasse a vida, porque por tal causa de bôa vontade não a queriamos, e ainda desejàvamos dar partido, pois teve tão bom vento pela bondade do Senhor, que chegou primeiro cà que os índios em suas canoas, os quais ainda vinham determinados a combater a fortaleza de Bertioga, mas o Capitão da terra, sabido o que passava, os estava jà esperando com muita gente e lhes tinha mandado ao caminho alguns dos que cà estavam em reféns, com cujas palavras aquele principal vinha jà manso e entrou em estas vilas, pregando que folgava muito com as pazes, que jà cria ser verdade o que là lhe dizíamos, nem queria que lhe dessem alguns dos nossos índios a matar, que se nós outros, estando em sua terra e em seu poder, com tanta constância havíamos resistido à sua petição, dizendo que não se lhes haviam de dar, quanto mais a teriam os Cristãos cà, que o tinham a ele em seu poder, etc.: assim que foi recebido com muita alegria e festas dos nossos, de que ficou mui satisfeito. Neste tempo que este chegou aqui, vieram muitos dos Tupis que se haviam rebelado e meteram-se com os Cristãos em uma fronteira chamada Itanhen com propósito de matar os que haviam vindo em reféns, para que com isto se quebrassem as pazes dos Tamújos, que se pudessem também matar dos nossos, o qual sabido do Capitão da terra, se foi là com os Tamújos e tomou alguns deles que os mais fugiram, dos quais os Tamújos levaram suas presas e outros que os nossos lhes deram, para confirmação da paz e para que cressem verdadeiramente eram nossos inimigos, com o qual eles se tornaram tão alegres e contentes que mais se não pode dizer, e moveram todos os seus, de maneira que cada qual se dava maior pressa que podia para vir ver se podiam achar outra tão bôa sorte. A nós outros nos pesou muito quando soubemos, porque ultra da causa dos Tupis se vinham com traição ou não, não ser bem examinada, bastara quando isso fora, fazer verdugos de seus contràrios, mas não deixa-los levar a comer. Neste meio tempo que isto cà se tratava, em que se passaram mais de quinze dias, nós outros nos ficàmos postos entre muitas angústias, e vindos os de nossas aldeias que estavam ausentes lhes contàmos o que havíamos passado e as traições que os do Rio urdiam contra nós outros e como ainda eram cà vindos com mau propósito, nomeando-lhes os autores do mal, de que eles mostraram ficar mui enojados contra os seus, incitando-se uns aos outros que estivessem aparelhados para quando estes volvessem, que não consentissem fazer-nos algum mal, ainda que soubessem fazer-se hoje seus inimigos, e junto com isto ficaram espantados, pensando que Deus nos havia descoberto as traições, inclusive o Pindobuçú, o qual nos disse entre outras coisas: "Vós outros sabeis todas as coisas, Deus vos descobre tudo, rogai-lhe que me dê longa vida, que eu me ponho por vós outros contra os meus." E daí em deante sempre nos ia a visitar logo de manhã, sabendo se havíamos mister alguma coisa para comer, e procurando-a e perguntando-nos muitas coisas de Deus, ao qual contàvamos algumas, mostrandolhe as imagens na Biblia, de que ele ficava espantado e nos dizia que deixàssemos o mais para outro dia, que não podia levar tanto junto, e depois tinha cuidado de tornar a perguntar. Desta maneira vivíamos em contínuos temores, esperando cada dia por canoas, assim do Rio, como das que eram passadas à Bertioga, temendo que fossem descontentes ou houvessem recebido algum dano se acometessem a fortaleza, e se quisessem vingar em nós

outros, e o mesmo temor tinham os nossos amigos de Iperoig, entanto que querendo eles ir a trazer uma canoa à selva, aonde se haviam de deter alguns dias, diziam seria bom levar-nos comsigo, porque não viessem estoutros estando eles ausentes como dantes havia acontecido. Mas Nosso Senhor por nos ensinar a verdadeira pràtica de maledictus homo que confidit in homine, e para que só nele puséssemos nossa esperança, ordenou que se fossem aos bosques todos os índios de uma aldeia e a maior parte da outra, e ficassemos sós, senão quando, aos 9 de Junho, véspera de Corpus Christi, estando nós outros no fim da praia, apareceu uma canoa que vinha do Rio de Janeiro, nós outros tomàmos por melhor conselho ir à aldeia de Pindobuçú, porque estando ele presente, nos parecia estaríamos mais seguros de qualquer encontro e demos a andar pela praia e às vezes a correr, porque pudéssemos passar antes que a canoa chegasse, por lhes não dar ocasião, se nos achassem sós, de executar sua danada vontade, da qual ainda que não éramos mui eertos, todavia estàvamos receiosos pelo que jà havíamos passado, e este foi um outro trabalho, o maior, ao menos dos maiores que o Padre Manuel da Nóbrega teve em sua vida, porque estando ele mui fraco de suas contínuas indisposições e junto com o da mà vida que ali se passava, se queria correr não podia, se não corria punhase em perigo de vida; todavia correu quanto pôde, e mais do que pôde, até ao fim da praia, onde, antes da aldeia, que està posta em um monte mui alto, corre uma ribeira d'àgua mui larga e que dà pela cintura, o Padre ia com botas e calças que comumente traz por as chagas que tem em as pernas, do que ficou mui mal tratado, se se punha a descalçar chegava a canoa, que estava jà detràs de uma ponte mui próxima de nós outros, de maneira que o tomei às costas e o passei; mas em o meio do rio vínhamos jà todos molhados, e como minhas costelas ainda cansem e doem como soíam, e têm mui poucas forças, não o pude bem passar e foi forçado o Padre a lançar-se na àgua, e assim passou todo ensopado, de maneira que escassamente tivemos tempos para nos poder meter polo monte e encobrir-nos com as àrvores, pois polo monte arriba foi coisa de ver, ficou-se o Padre, as botas, calças e roupeta e todo molhado, com toda a sua roupa molhada às costas e ele em camisa só, com um

bordão na mão, começàmos a caminhar, mas ele nem atràs, nem adeante podia ir, emtanto que, vendo o seu trabalho e que era impossível chegar à aldeia, lhe cometi que nos escondêssemos no bosque até que passassem os da canoa, os quais estavam jà no ribeiro gritando, e se não fora a tardança que fizeram em tirar a canoa à terra, bem creio que não chegaríamos à aldeia, à qual ainda chegàmos, porque encontràmos com um índio dela, do qual, com muitos rogos e prometer que se lhe pagaria, alcancei que, agora às costas, agora puxando pelo bordão, levasse o Padre, e assim, quasi sem respiração, chegou às casas; mas porque nos mostrasse Nosso Senhor quão alta é salus hominis, permitiu que Pindobuçú em quem confiàvamos não estivesse em casa, e na canoa vinha um seu filho , um dos mais insignes em maldade que hà entre aquela gente, com alguns 30 mancebos de sua qualidade, o qual estando com sete ou oito canoas para vir à guerra, ouvindo a fama dos nossos as deixou e se meteu mui depressa em uma delas, querendo ser ele quem levasse a honra de nossa morte, e traziam assentado que entrando em casa, sem dizer nada aos seus, porque não os estorvassem, uns aferrassem de nós outros e ele nos desse de estocadas e cutiladas, fazendo conta que nem seu pais nem os outros da aldeia os haviam de matar por isso, que se lhes quisessem dar de paus que os sofreriam, mas que eles primeiro fariam a sua. Entrando ele, pois, com este propósito em casa de seu pai que estava ausente, disse-lhe um seu tio como nós outros éramos idos e tratàvamos pazes, e quem éramos, com o quê, parece que algum pouco se amansou seu furioso coração, mas não de todo, antes dali a pouco espaço entraram muitos dos seus onde pousàvamos, estando nós outros rezando a véspera, a qual acabada, entrou um, que era dos que nos haviam de tomar, com uma espada mui reluzente na mão, e sentou-se em uma rede com o rosto não mui alegre, olhando-nos de través sem nos falar, e detràs de todos veiu seu Capitão, o qual assentado junto de nós outros, não estando em casa mais que só nosso hospede, com cara alegre e grandíssima dissimulação nos começou a falar, e praticando mui devagar em coisas diversas, nos repetia muitas vezes: " E ' certo que tratai verdades nestas pazes, olhai que os Franceses nos dizem que não pretendeis senão que vamos muitos juntos a vos- sas terras, e matar-nos, e que vós haveis de fugir e deixar-nos em branco." Finalmente, depois de mui longas pràticas se foi, com todos os outros, mui brando, e descobriu tudo o que trazia ordenado, dizendo: "Eu vinha a fazer isto e aquilo, mas quando entrei a ver os padres, e lhes falei, caiu-me o coração e fiquei todo mudado e fraco, e pois eu não os matei, que vinha tão furioso, jà nenhum os hà de matar, ainda que todos os que vierem hão de vir com o mesmo propósito e vontade". Louvado seja o Senhor por todas as suas obras.. Se houvesse de escrever todas as particularidades que ali passaram seria nunca acabar, não é mister mais senão que dali em deante cada dia bebiamos muitos tragos de morte, dos quais ainda hei de contar alguns para glória de Deus. Os índios que estavam na selva tiveram logo rebate como eram chegados aqueles do Rio e que os Padres eram fugidos pelos bosques com medo deles, de que eles diziam com muita tristeza polo Padre Nóbrega: "O Padre velho onde se irà agora por estes espinhos? Bem dizíamos nós outros, que não os deixàssemos sós", e outras semelhantes palavras de compaixão e de boas condições, e o mais desenganado de todos eles, como antes parecera, chamado Cunhambeba, se meteu logo em uma canoa, que ainda não tinha acabada, e se veiu jà mui alta noite, meio mergulhado por mar mui bravo, a socorrer-nos, e sabendo que estàvamos em paz, sossegou aquela noite. Ao outro dia, que foi de Corpus-Christi, nos fomos mui de manhã à sua aldeia, onde ele havia dias que nos havia mandado fazer uma casita pequena, em meio dela, para dizer missa, e quando nos viu, assim ele como todas as mulheres da aldeia receberam tanta alegria, como se ressuscitàramos àquela hora, falando-nos palavras de muito amor, e foi-se logo à outra aldeia a convidar aos outros que viessem a beber à sua, onde lhes tinha grandes vinhos, e andando bebendo e bailando com grande festa, lhes disse que não queria que ninguém nos fizesse mal, nem falasse algumas palavra àspera, e não estorvassem as pazes que ele fazia com nós outros, que determinava de nos defender ainda que soubesse quebrar com eles, e a uns deles mais ruins disse: "Vós outros não me enojeis, que eu jà matei um dos vossos e o comi", o qual dizia que um escravo dos Portugueses que era dos do Rio de Janeiro, que havia poucos dias que de cà fugira, e ele o havia morto e então mandou a uma de suas mulheres que tirasse uma canela da perna que tinha guardada, de que soem fazer flautas. Os outros vendo-a disseram: "Pois tu o mataste e comeste, comamos nós outros também", e pedindo farinha, um por uma banda e outro por outra, começaram a roer em ela como perros; assim toda a coisa passou em festa e ficaram grandes amigos. Desta maneira lhes falavam também os outros em nosso favor, mas tudo aproveitara pouco se não tiveramos outro maior guardador, porque é esta uma gente tão mà, bestial e carniceira, que só por tomar um nome novo ou vingar-se de alguma coisa passada, não tivera em conta qualquer mancebo soberbo matar-nos, como é certo tinham muitos boa vontade de o fazer, maximè sabendo que por isso não havia de ser enforcado, e que todo o castigo passaria com dizer-lhes os outros: "És um ruim". Para prova do qual é de saber que neste mesmo tempo os do campo deram pela serra em uma fazenda de um homem, o qual, ainda que tínhamos mandado aviso por cartas, não se quis guardar, parecendo-lhe que, como soubessem que estavam muitos dos seus entre nós outros, jà não lhe fariam mal; mas eles, não curando de nada, ainda que lhes disseram que tínhamos jà feitas pazes, lhe puseram fogo à casa e a queimaram e mataram a ele e à sua mulher e fizeram logo em pedaços, e outra mulher meio queimada e ferida levaram viva e em sua aldeia a mataram com grandes festas e vinhos e cantares e junto com ela algumas escravas. Depois disto, aos 20 de Junho, sendo jà idos de cà os Tamújos com suas presas, e ficando-se muitos em terra com desejo de pelejar com seus contràrios, mandou-nos o Capitão um bergantim para que nos viéssemos, parecendo a todos, polo grande contentamento que eles levavam, que jà seriam firmes as pazes, e ao dia que chegou là o bergantim eram; partidas para aqui onze canoas, em que vinham muitos do Rio e todos da fronteira, salvo dois ou três principais que ficavam como em nossa defensão com alguns seus criados, e logo neste mesmo dia chegaram dez canoas do Rio, as quais, com a presa que estoutras haviam levado, vinham mui

alegres e se partiram logo a alcançar as onze; mas porque os índios ainda não estavam de todo seguros, e crendo nossa fé e verdade pela sua, que é mui pouca, não nos deixaram vir a ambos, nem nós outros lhes instamos por isso, todavia pareceu bem que se viesse o Padre Nóbrega, e ainda que a ele lhe foi mui caro, por deixar-me só, esperando que ainda nos poderia caber alguma bôa sorte de ser comidos por amor do Senhor, todavia eu lhe instei muito que se viesse e só me deixasse sua benção e mandamento, que là desse minha vida ao Senhor e polo Senhor *3ela. e com isso se teve de embarcar, despedindo-se de mim com muitas lagrimas, sem eu lhe corresponder com algumas, e mandando-me que com a melhor ocasião que achasse me viesse. E(m minha companhia se ficou um homem muito nosso devoto e amigo de Deus, cuja mulher, filhos, escravos e uma sua cunhada lhe haviam levado havia quasi um ano, como nas letras passadas hei referido, o qual, depois de haver passado muitos trabalhos por resgatà-las, quis então sair-se em terra com muito resgate, esperando, segundo o bom começo que levavam as pazes, que as poderia tirar de cativeiro e pecado, e se mais não pudesse não duvidando de dar sua vida por causa tão justa, e certo que sua companhia foi para mim não menos boa e suave que se fora um Irmão da Companhia, a qual me foi ocasião de padecer alguma coisa, mais por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, cui laus in sozcula. Partido pois dela o Padre aos 21 de Junho, passou uma noite grave tormenta junto de uma ilhota, entanto que uns dos domésticos jé tratavam de tomar ao Padre sobre uma taboa e levà-lo à terra a nado, se pudessem, mas amansando a Divina Misericórdia a tempestade, chegaram cà a salvamento, e foi recebido o Padre com estranha alegria, como quem saia dentre os dentes famintos daqueles tigres feros, e com sua vinda se ordenaram muitas coisas importantes às pazes, e dois dias antes dele haviam chegado as vinte e uma canoas, às quais se fez muita festa, mostrando especial favor aos de Iperoig, por causa de nós outros, por quem eles haviam tido tão bom cuidado, e dando-lhes a entender a estima em que éramos tidos de todos, por ser pregadores da pa- 21S

lavra de Deus, com as quais coisas eles mais se asseguraram, e do que mais sucedeu logo contarei. Nós outros começàmos logo a ser visitados de Nosso Senhor em tributações, porque aos 25 de Junho, assim os poucos que haviam ficado da fronteira, como uns do Rio que aí estavam, tendo jà determinado de matar um escravo de meu companheiro, fizeram grandes vinhos e beberam todo o dia, e dando-me aviso disso umas mulheres, falei eu com um dos índios que havia pouco que era ido de cà, que viera em refém e era um dos principais autores daquela festa, mostrando-me mui triste e enjoado dele querer consentir tão grande traição, e pois aquilo faziam, também i nós outros quebrariam as cabeças; ele rindo-se muito disto, disse-me que não pensasse tal coisa, que não havia ele ido de cà senão para defender-me de quem me quisesse enojar, e outras coisas com tanta dissimulação que eu fiquei pensando que seria mentirà o que me haviam dito. Mas jà sobre a tarde, estando jà todos lem cheios de vinho, vieram à casa aonde pousàvamos e quiseram tfrar logo o escravo a matar; nós outros não tínhamos mais que dois índios que nos ajudassem, e querendo eu defendê-lo de palavra, dizendo que o não matassem, disse-me um dos dois: "Calai-vos vós outros, não vos matem os índios, que andam mui irados, que nós outros falaremos por ele e o defenderemos"; e assim o fizeram deitando a todos fora de casa; mas tornaram logo outros muitos com eles feito um magote, e grande multidão de mulheres, que faziam tal trisca e barafunda que não havia quem se ouvisse, umas gritando que o matassem, outras que não, que estavam cà seus maridos e lhes fariam mal os nossos se o soubessem; os índios como lobos puxavam por ele com grande fúria, finalmente o levaram fora e lhe quebraram a cabeça, e junto com ele mataram outro seu contràrio, os quais logo despedaçaram com grandíssimo regosijo, maximè das mulheres, as quais andavam cantando e bailando, umas lhes espetavam com paus agudos os membros cortados, outras untavam as mãos com a gordura deles e andavam untando as caras e bocas às outras, e tal havia que colhia o sangue com as mãos e o lambia, espetàculo abominàvel, de maneira que tiveram uma boa carniçaria com que se fartar.

Passada aquela noite com assàs amargura, ao outro dia muito antemanhã se levantaram algumas mulheres, daquelas em cuja casa pousàvamos, e começaram a pregar pelas casas contra os que haviam morto o escravo, dizendo que os nossos o saberiam e vingariam, com outras coisas, de que eles ficaram tão sentidos que houvera de ser coisa de nos mesclar também com o escravo morto, para que os nossos tivessem bem que vingar, assim que nos foi necessàrio falar em particular com os principais autores daquela morte e dizer-lhes que não se fiassem das palavras de mulheres, que os nossos não haviam de fazer caso da morte de um escravo, etc.; com que eles ficaram algo desassombrados, e porque, diligentibus Deum vídeo operantem in bonum, vendo eu por este caso e conhecendo de todo a grande falsidade daquela gente e sua pouca constância no bem começado e muita arte para dissimular maldades que determinavam cometer, acabei de persuadirme que mui pouca coisa bastava para os mover a nos dar a morte, e determinei de me dar mais intimamente a Deus, procurando não só achar-me mais aparelhado para recebê-la, mas também desejà-la e pedi-la a Deus Nosso Senhor com continuas orações e inflamados desejos, e confesso minha fraqueza que muito me afligia a carne com contínuos temores, mas o Espírito pela graça do Senhor estava pronto, e ainda que me contristava muitas vezes a grande tibieza passada, que sempre tive no aproveitamento das virtudes, maximè da obediência, todavia me dava ainda a esperar que por aquela última obediência me perdoaria a Suma Bondade por sua infinita misericórdia todas as desobediências passadas, e queira aceitar minha morte em sacrifício e odor de suavidade; prouvera a Deus que então achara, mas ainda desespero, porque não tem uma só benção que dar. Razão seja que dê conta do fruto que da selva tão inculta daquela nação se ergueu, e é este. Estando eu, logo depois destas aflições, aos 28 de Junho, em uma cabana de palma, onde o Padre costumava a celebrar missa, junto a uma pousada, e como rezasse as matínas, ouvi junto dela falar e cavar, e como ali as índias costumavam fazer louça, pensei que seria isso e não me quis distrair; mas, acabadas as orações, o que seria jà passada meia hora,

JOSEPH DE ANCniETA chegou-se ali uma índia, e lhe perguntei o que faziam, e mo disse, que enterravam um menino. Pensando eu, que haviam morto algum, contou-me ela o que se passara, e era que uma havia parido e fora tão sem dôr, que não estando mais que a dez ou doze passos de mim, nem gritos nem gemidos lhe ouvi, porque nenhum dera, e acabando de nascer dela um menino mui fermoso, o enterrara vivo a velha sua sogra, porque sendo aquela moça prenhe de um que havia por mulher, sendo dele deixada, com outro se casou, de maneira que segundo a opinião desta gente, ficava o menino mestiço de duas sementes, e aos tais, em nascendo, logo vivos os enterram com tão grande bestialidade e crueza, que mui menor sentimento tem por ele sua mãe que se lhe morresse um cachorro, porque dizem que os tais são depois débeis e para pouco, e que é grande deshonra, depois, que venham a ser chamados mestiços. Sem nenhuma confiança na vida dele, por haver jà tanto tempo que estava debaixo da terra, deixei as matinas e fui correndo molhar um pano em àgua e cavando a terra vi que ainda bolia e batizei-o, fazendo tenção de o deixar, parecendo que jà expirava, mas dizendo-me umas mulheres que podia ainda viver, porque, às vezes, estavam tais como estes todo um dia enterrados, e viviam, determinei retirà-lo, e fazê-lo criar. A este espetàculo tão novo, concorreram muitas mulheres da aldeia e com elas um índio com uma espada de pau para quebrar-lhe a cabeça, ao qual disse que o deixasse que eu o queria tomar por meu filho e com isto se foi; desenterrei-o e nenhuma daquelas mulheres lhe quis pôr mão, para lavà-lo, por mais que lhes rogasse, antes se estavam rindo, e, passado tempo, dizendo que jà o Padre tinha filho, e lhes ficou isto depois por gracejo, e a todos os índios. Vendo-os assim, tomei o menino e depú-lo sobre um pano e comecei a limpar e lavar o melhor que pude; então moveu-se uma delas a me ajudar e como quer que eu soubesse pouco do ofício de parteira, e fora cortar o umbigo junto da barriga, uma velha tomoume a mão, dizendo-me não o cortasse por aí, que morreria, e me ensinou a cortar finalmente; envolvi-o em uns panos e o entreguei a uma de minhas amas, mulheres de meu hóspede, que mo criasse, e algumas outras mulheres lhe vinham dar de mamar, de

maneira que viveu um mês, e ainda viveria, e cresceria, se não lhe falta a teta, mas por falta dela morreu. Na verdade ele teve siso em fugir de gente tão mà e ir-se ao céu gozar de seu Criador, o qual para sempre seja bemdito. Amém. Outra vez me aconteceu achar-me presente a uma mulher de parto, a qual deu à luz a uma menina, que de todos foi julgada por morta e tendo ainda as pàreas no ventre pegadas ao umbigo da menina, sentindo-lhe eu alguns sinais de vida, e batizei, não sendo ainda bem parida, que em semelhantes casos é necessàrio apressarmo-nos algumas vezes. Começou depois a menina a bolir pouco a pouco e viver e ainda estava viva quando de là vim, ainda que eu mais quisera deixà-la no paraíso: o Senhor que a criou e regenerou pelo batismo terà cuidado de sua salvação, seja louvado por todas as suas obras e maravilhas. Depois soube que era falecida e ida a gozar seu Criador. Logo ao Io de Julho chegaram cinco canoas do Rio, e ao seguinte dia, que foi da Visitação de Nossa Senhora, nos vieram muitos a visitar, trazendo a mesma intenção de nos matar que os outros, os quais, ultra da angústia em que nos puseram cercando-nos, todos, com suas armas, maximè um que entrou mui feroz com sua gente, praticando comigo todo seu intento tinham posto em as casas daquele homem, e falava, de quando em quando, entre dentes, aos seus, um dos quais estava junto de mim armando um arco com uma flecha nele, mas, não passou adeante; ultra disto me deram grande trabalho detendo-me em pràticas mui importunamente, porque cansando um e ido, vinha o outro, e dizia: Eu sou fulano, tenho tal e tal nome, e fiz tal valentia, matei tantos, e outras coisas semelhantes e com isto nunca acabavam, instando muito com meu companheiro que lhe mostrasse o resgate que trazia, e assim resolveram tudo; ao outro dia tornaram a beber jà sobre a tarde, depois do vinho acabado nos cercaram com mui maior importunação, e alguns deles nos davam algumas consolações insólitas e de pouca consolação, dizendo-me que não tivéssemos medo, que não nos queriam matar. Com isto e com outros muitos sinais que eu havia visto dantes, me persuadi que era jà chegada a hora em que nos queria Nossa Senhora visitar, e

disse ao meu companheiro que se aparelhasse; mas depois de mui longas importunações se começaram a sair poucos a poucos e nos deixaram, e um deles, que aquele mesmo dia me havia dito que ele não queria pazes, tornou a entrar em casa mui carrancudo, com uma espada nua, deixando a bainha em outra parte, parece por que não lhe fosse impedimento, e passando per mui perto de mim, devagar, sem falar comigo, nem com outro algum, esteve um pouco quedo, olhando para outra parte, e na verdade ainda que então não era tempo de suspeitar mal do próximo, por não cair em algum juizo temeràrio, todavia meus olhos estavam bem atentos nele, vendo em que parava, e meu coração lhe estava dizendo: Quod facis, facimus e faze o que Deus te permitir que aparelhado estou; ele tornou-se outra vez por donde havia vindo e com o mesmo vagar e semblante, parando-se-me outro momento à mão esquerda mui contemplativo, mas não se estendia sua contemplação mais que até mim; nisto veiu um seu irmão a chamà-lo, e foram-se. E porque não passassem muitos dias sem os semelhantes tragos, logo aos 6 de Julho chegaram as canoas que eram cà vindas quando chegou o Padre Nóbrega, os quais iam fugindo, com medo que os matassem cà os nossos, e a razão desta fugida foi que, estando eles alguns dias mui contentes e bem tratados, esperando que amansasse o mar, para com ajuda dos Cristãos ir a dar guerra aos Tupis, seus contràrios, fugindo um escravo de um Cristão, o qual era parente dos do Rio, e porque o levassem comsigo à sua terra, urdiu bem de mentiras dizendo-lhes: "Venhovos a dar aviso, meus parentes, porque lhes quero bem e não queria que vos matassem, sabei que logo de manhã vos hão de matar os Cristãos a todos, que jà têm apelidada a terra, e não esperavam senão que viesse Pindobuçú, Cunhambeba e os outros principais de Iperoig, para os matar a todos e a fulano, vosso parente, que nos parece jà o mataram e lhe mandaram quebrar a cabeça por um contràrio" (este de quem isto dizia era um mancebo dos primeiros que cà haviam vindo, o qual havia desaparecido sem se saber dele); e como dissessem alguns àquele escravo: "Como nos hão de matar se està o Padre?", respondeu o escravo: "Os Padres não estimam nada suas vidas; de costume têm de fa- zer semelhantes coisas"; com estas mentiras os do Rio como quer que tinham os corações danados, levantaram-se logo com grande medo, que seriam duas horas antes do dia, e dando rebate aos de Iperoig, que disto nada sabiam, e levando-os quasi por força fugiram, e de caminho quiseram levar a gente da Bertioga; mas não lho consentiu Pindobuçú, nem os outros, antes o Cunhambeba, vendo-se corrido de se ver assim fugindo pela mentira de um escravo, se ficou ali com muitos dos seus, dizendo que se havia de tornar cà, que a ele só matariam os Cristãos. Os outros foram-se seu caminho, e entrando nosso hóspede em casa com grande carranca me disse logo às primeiras palavras: "Vieram fugindo, que nos haviam de matar os seus; mandava-nos à tua terra para que nos matassem a todos?" Eu lhe respondi: "Eu não costumo dizer mentiras, mas trato verdade com vós outros; se os meus porventura vos quiseram fazer traição, para isto estou aqui, eu só morrerei". Ele então me respondeu: "Não fales em morrer, porque não venho eu cà senão a defender-te. Também dizia que roubàssemos a fazenda a teu companheiro, mas eu nem os outros não quisemos consentir nisso, porque temos tudo isso por mentira e engano". Ele contou a coisa como passava, dizendo que aqui ficava Cunhambeba com muitos outros, que ele e Pindobuçú se haviam de voltar para defender-nos dos do Rio, e assim parece que isto mesmo foi ordenado por Nosso Senhor para ir ao encontro a uns bravos leões que naquele mesmo dia chegaram do Rio em dez canoas, cujo principal intencionava vingar a morte de um seu grande principal que os nossos pouco havia mataram em uma guerra, os quais ao dia seguinte me foram para falar com o mesmo semblante que os passados, e ainda peor, e trataram muitas coisas das pazes, estando seus corações mui pouco pacíficos, e como repetiam todos que lhes haviam de dar a comer seus contràrios, que estavam de nossa parte, eu sempre contradisse, até lhes dizer: "Não faleis mais nisso, nenhum desses se vos hà de dar, aqui estou eu em vossas mãos, se me quereis comer, comei-me que eu nisso não hei de consentir". Ficaram por uma parte espantados de ver com quanta constância sempre naquilo lhes resistia, e por outra mui irados, ainda que trabalhavam de o dissimular; estes nos puseram em grande angústia, porque se detiveram ali cinco dias, e não faziam senão ir e vir à nossa pousada, e uns queriam todavia vir a dar guerra, sem embargo que estavam cà muitos dos seus, outros aos mais tinham boa vontade de nos matar, ou ao menos roubar a meu companheiro, tendo todos mui certo ser verdade a mentira que o escravo havia dito, e alguns que dantes me haviam falado com mui alegre semblante, então nem ver-me queriam, senão com olhos cheios de ira, o qual mostravam com algumas palavras àsperas; mas em meio desta tributação acudiu o Senhor com sua solicita misericórdia, mostrando como tratàvamos verdade, e foi que chegou então à aldeia aquele mancebo, que acima disse haver desaparecido, que o escravo dissera haver sido morto dos nossos, o qual mancebo, com um medo que teve sem razão, fugiu de cà, pólos bosques e praias, e ao cabo de um mês, tendo jà todos perdida a esperança de sua vida, chegou là em tempo de tanta necessidade, com cuja chegada conheceram ser mentira tudo o que o escravo havia composto, o qual ainda para os de Iperoig, meus amigos, foi causa de grande alegria e de ter muito crédito a minhas palavras. Como aqueles do Rio não se aquietavam, e desejavam de efetuar sua danada vontade, tanto que os outros, entendcndo-se-lhe mui bem, lhes rogavam que se tornassem para suas terras e não quisessem fazer coisas com que estorvassem as pazes. Mas, vendo o Pindobuçú que não bastavam rogos, veiu ali, vindo os outros um dia à nossa pousada, como soiam, e temendo que nos fizessem mal, se foi là com uma espada de pau, com que soem quebrar as cabeças a seus contràrios, nas mãos, e começou a falar com voz mui alta e dizer-lhes, dando palmadas em si, como fazem em som de guerrear, falando: "Não quero que ninguém bula em minha aldeia; os Cristãos fazem pazes comigo que estou fronteiro, e os meus não me vêm a defender, não querem estes meus parentes senão cabeças de fora dos Cristãos e não de seus contràrios; não o hei de consentir"; com muitas outras coisas em nosso favor, tão alto que acudiram os de sua casa, pensando que jà era a coisa travada; os outros calaram-se e falando ele com um em particular, lhe dizia de mim: "Este é o que trata as coisas de Deus e o ver-

dadeiro mestre dos Cristãos; se lhe fazem algum mal, logo nos hà Deus de destruir a todos"; e esta era a principal causa que fazia a este índio procurar tanto por mim, porque temia, e assim parece que o tinha encaixado em o coração, que não tinham mais vida que enquanto me defendessem e não me permitissem fazer algum mal, e dizia-me muitas vezes: " Filho José, não tenhas medo, que ainda que os teus matem todos os meus parentes, que estão em tua terra, eu não hei de consentir que te matem porque bem sei que falas a verdade; se os teus fizeram mal, neles me vingarei". Depois: "Bem vês como sempre te defendo e falo por ti, por isso olhe Deus por mim e dê-me longa vida." E dizendo-me que em a outra aldeia queriam matar um contrario, para com ele fazer festa àqueles do Rio, que ainda não eram idos, determinei eu de ir là a ensinar-lhe as coisas de sua salvação e ver se queria ser Cristão, e dizendo-o a Pindobuçú, me disse, ainda que mui pesadamente, que fosse, e descendo eu polo monte abaixo, mandou mui depressa uma de suas mulheres atràs de mim dizendo-me que me volvesse, porque queriam saltear e furtar o contràrio enquanto estavam ali os do Rio e talvez que eles me matassem. Eu estive em grande dúvida, e temendo ser temeridade ia adeante, depois de recebido este aviso que me mandava como coisa certa, todavia, parecendo-me que aquele contràrio estava em extrema necessidade de ajuda espiritual, porque muitos dos tais em aquele tempo recebem o batismo com muita fé, me determinei a ir, sentindo que seria mui bem empregada minha vida pela salvação de um meu irmão e amigo do Padre Francisco Cardoso, o qual ocupase da outra aldeia, onde iam muitos meus amigos, e o perigo só ser em o caminho, que não era mui longo, enfim, fui; mas pouco aproveitei, que ele não quis ser Cristão, dizendo-me que os que nós outros batizàvamos não morriam como valentes, e ele queria morrer morte formosa e mostrar sua valentia, posto em o terreiro atado com cordas mui longas pela cinta, que três ou quatro mancebos têm bem estiradas, começou a dizer: "Matai-me, que bem tendes de que vos vingar em mim, que eu comi a fulano vosso pai, a tal vosso irmão, e a tal vosso filho" — fazendo um grande processo de muitos que havia comido destoutros, com tão grande

ânimo e festa, que mais parecia ele que estava para matar os outros que para ser morto; entanto que não o podendo mais sofrer, não esperando que seu senhor lhe quebrasse a cabeça com sua espada pintada, saltaram muitos com ele, e a estocadas, cutiladas e pedradas o mataram, e estimou ele mais esta valentia que a salvação de sua alma. Tornarei agora aos nossos, os quais depois da fugida dos índios, ficaram com grande tristeza, maximè o Padre Nóbrega, que houvera de chegar a ponto de morte sem nenhuma consolação por haver me deixado só entre os inimigos, principalmente porque não havia de ser companheiro de minha morte, a qual ele e todos os Cristãos tinham por certo que me haviam de dar os índios como chegassem a suas terras; mas consolou-os Nosso Senhor com a vinda de Cunhambeba, o qual, como acima hei dito, achando-se ausentado por haver fugido, se tornou da fortaleza da Bertioga e se partiu logo com o Padre Nóbrega à fronteira de Goiace (Goiaz), para fazer a liga com nossos Tupis, que se haviam posto de nossa parte contra os seus, os quais estavam com grande medo pensando que os queriam dar a Cunhambeba para confirmar as pazes, e o Cunhambeba com os seus pensavam que o queriam entregar aos outros, e assim em ambas as partes andava um mesmo temor. Mas o Padre Nóbrega os fez a juntar a todos na igreja onde se falaram e abraçaram e ficaram grandes amigos. Logo no dia seguinte chegou grande multidão dos Tupis inimigos sobre a vila, aos quais sairam ao encontro os índios seus parentes com seus novos amigos e alguns mancebos mestiços, e pelejaram todo aquele dia, sem lhes deixar passar o rio, antes flechando muitos deles os fizeram fugir, e não lhes foram ao alcance por ser muita gente, e os nossos mui poucos, e depois indo o Cunhambeba com alguns mancebos dos seus e dos Tupis a correr a praia, tomou um, com a qual presa determinou de tornar-se logo a dar certa informação do que passava e pacificar os que haviam fugido, que cada dia esperavam por nova certa, mas não havendo oportunidade para logo partir-se, mandou os mais dos seus a Piratininga, onde também se esperava por guerra, aonde depois vieram mais de 300 dos Tamújos moradores no campo, em um rio, mui nomeado, chamado Paraíba, cujo Capitão era um que havia ido a falar commigo a Iperoig sobre as pazes, e assegurando-o eu que entrasse em Piratininga, fê-lo assim, mandando adeante uns 20, os quais guiados por um que jà ali havia estado, se vieram direitos à nossa portaria, tocaram a campainha, e foram recebidos e acolhidos, onde não usavam sair fora em meio de seus contràrios, dizendo que eu os mandara ir muitos a nossa casa, até que se asseguraram. Ali também juntaram os Padres uns e outros na igreja para que fizessem as pazes, onde um de nosso discípulos posto sobre um banco fez grande pràtica em alta voz dizendo aos Tamújos: "Eu eou fulano, de quem vós outros tanta fama haveis ouvido de assaltar muitos dos vossos e morto, porque sempre fui grande vosso inimigo, e agora, ainda que me apartei dos meus por amor dos Cristãos e de Nosso Senhor Jesus Cristo, posso de minha parte, contudo nem tenho medo de vós outros, porém queria vossa amizade, mas porque estando na casa de Deus e os Padres que nos ordenam nossa vida, foram à nossa terra e ordenam estas pazes, e querem que sejamos amigos, sejàmo-lo daqui em deante, e desde jà não se nos lembre mais das guerras passadas"; e com estas e outras palavras que se passaram de parte à parte se abraçaram, e contudo estavam nossos discípulos tão tristes e enojados pelas novas que lhes vinham dar, que se pensaram e tiveram para si que me haviam morto: desejara eu de saber boa de minha morte, era fato certo por uma vez, e ainda com tudo isto se não andaram os Padres rezando sós, não creio que houvera de esperar por novas certas, mas não obstante isto, tinham muita paciência sofrendo-lhes muitas coisas e recolhiam-os em suas casas, dando-lhes de comer e beber, porque eu estava là em suas terras. Neste mesmo tempo os Tupis deram no caminho de Piratininga e mataram quatro ou cinco dos seus e três escravos do Colégio, e também houveram de matar um Padre nosso, senão que, ordenando-o assim a Divina Providência, havendo ele de vir com eles, se veiu um dia antes e assim escapasse de cair em suas mãos, e com todos esses perigos, que continuamente estão armados nestes caminhos, não podemos deixar de ir e vir a Piratininga, segundo o pede a necessidade, entregues em as mãos do Senhor, cuja é a nossa vida.

Nós outros todo este tempo que esteve cà Cunhambeba, que foi mês e meio, esperando oportunidade para sua partida, passàmos muito trabalho, assim exterior de fome e enfermidades, como interior de contínua aflição por ser muita tardança, não porque não entendêssemos que bem tratados haviam cà de ser, senão pólos contínuos temores que os seus là tinham de que vinham a imaginar mil mentiras, maximè as velhas, e certo que foi muito, sendo aquela gente a mais subtil que ainda houve no mundo para inventar mentiras e fàcil para as crer, poderia sofrer tanto tempo que não nos fizessem alguma coisa movidos por qualquer e maximè por algum seu feiticeiro, e assim sempre falavam com os seus, dizendo como teriam de ser eles salteados e mortos, se foram mortos algum houvera de escapar e vir por terra a dar-lhes novas; outros me diziam: "Não te disse Deus alguma coisa para os matar a eles?" E o Pindobuçú, que me tinha mais crédito, ultra de me o perguntar muitas vezes, dizia que Cunhambeba e outros pediram-lhe soubesse de mim isso, e uma noite, indo-se à minha pousada não estando eu, perguntou a meu irmão: "Que é do Padre? dorme jà?" Respondeu-lhe o outro: "Ele porventura dorme? toda a noite està falando com Deus e não vem a dormir senão jà tarde." "Pois porque não te disse o que passa acerca dos nossos? perguntaste-lho?" Respondeu o outro: "Tudo o encobre, não me quer dizer nada". De maneira que era eu forçado de dizer às vezes: "Eu vos tenho dito muitas vezes que eu não creio em sonhos, nem vós outros o deveis de crer; sabei que os vossos estão mui bem tratados e não hà mal algum, como logo vereis". E assim com semelhantes palavras se satisfaziam, confiando também que estando cà o Padre Nóbrega, que ainda quando eram inimigos, sabiam eles que não os consentia saltear dos nossos, muito menos consentiria agora, que eram amigos, fazer-se-lhes algum mal. O outro dia me veiu um mui queixoso, dizendo: "Suspeitei que uma de minhas mulheres me fez adultério e lhe dei uma estocada mas dobrou-se a ponta da espada e não a feri; venho a saber de ti, se te diz Deus que é verdade, se a matarei?" Respondendolhe a última questão disse-lhe: "Não o faças que não quer Deus, antes se aborrecerà muito com isso", com o que ficou quedo e sa-

tisfeito e foi-se dizendo: "Vim a te perguntar, porque me parecia que Deus te haveria dito". Aconteceu que um contràrio que tinham lhes fugiu, e o Pindobuçú um dia mui de manhã, estando eu encomendando-me a Deus, me veiu mui angustiado a buscar, dizendo-me: "Venho-te a dizer que fales a Deus que faça ir aquele contràrio desencaminhado, para que possamos tomar". Eu ouvi a sua petição, antes roguei a Deus que o livrasse, e ao outro dia o contràrio, parecendolhe impossível passar tantas serras e despovoados, tornou-se para casa, e os índios começaram a dizer: "Falou o padre com Deus e não dormiu toda a noite, por isso o contràrio se tornou", — e eu não me havia recordado dele; visitando eu o índio, como soia fazer a todos, começou-se-me a desculpar, dizendo porque me não dava de comer porque não lhe caía caça em uns laços que tinha armados, porquanto uma velha feiticeira os havia deixado a perder, e como eu lhe perguntasse a causa, disse-me: " Porque ao outro dia me caiu uma caça e não lhe dei parte dela e por isso enojada hà feito que não venha a caça por ali." Eu lhe disse: " Vós outros não acabais de crer vossos feiticeiros, como se eles tivessem poder para nada disso; Deus é Senhor de tudo; crê minhas palavras, que ele a farà cair." Ejntão ele mui alegre disse: "Faze com Deus que mande vir toda a caça dos montes em meus laços e teremos que comer." Ficando-se ele com esta confiança quis Deus que logo dali a dois dias lhe caíram dois animais, que são maiores que lebres, e ele com muita alegria manda-me logo chamar, contando-me o que havia sucedido, e deu-me um bom prato de farinha e uns pedaços daquela carne; sabia Deus que havia muitos dias que não tínhamos que comer. De maneira que os índios me tinham muito crédito, maximè porque eu lhes ocorria a suas enfermidades, e como algum enfermava logo me chamavam, aos quais eu curava a uns com levantar a espinhela, a outros com sangrias e outras curas, segundo requeria sua doença, e com o favor de Cristo Nosso Senhor achavam-se bem. Entre esses enfermos foi um que aí estava dos do Rio, que porventura também veiu com intenção de me matar, ao qual se inchou uma mão em tanta maneira que toda se corrompeu, a qual eu lha abri em duas partes com uma lanceta, e a uma foi quasi em meio da palma, em que podia bem fechar os olhos às mãos de Cristo Nosso Senhor, e junto com isto se lhe empolou o braço até os ombros de umas inflamações tão feias, que os outros não se ousavam de chegar a ele, mas mirando-o de longe, me diziam que o curas* se e fizesse não se estendesse aquele mal pelos outros, e todos o desampararam sem se doer dele, nem dar-lhe de comer, nem houve entre todos seus parentes quem me buscasse um pouco de mel pelos bosques, eom que o curasse, e ainda que eu lho pagava; eu rompi uma camisa que tinha e curei-o com azeite, buscando-lhe de comer e dando-lho por minha mão, porque ele não podia, a tudo o qual me ajudava meu companheiro com muita caridade, e às vezes tiràvamos da boca esse pouco que podíamos haver para lho dar, de que os índios se edificavam e contavam-o a outros que vinham de fora; junto com isto trabalhava eu por lhe curar sua alma, incitando-lhe a que quisesse o batismo, para o qual o tinha jà instruído, se porventura estivesse propinquo à morte; mas deu-lhe Nosso Senhor saúde ao corpo, porque para a da alma sentia-lhe eu mui pouco desejo e vontade. Depois disto enfermou meu companheiro; tolheu-se de pés e mãos alguns dias, o qual foi não pequeno trabalho, porque nem havia com que o curar nem que comer; todavia fiz-lhe eu os remédios que pude e de quando em quando ia eu à outra aldeia a lhe buscar alguma galinha;- enfim deu-lhe Nosso Senhor saúde, mas porque este gênero de gente não sabe ter constância no bem começado, começaram-se uns poucos a motinar, maximè contra ele, porque ultra de não lhe ter o respeito que a mim, e se alguém lhe tinha era por minha causa, o resgate que tinha era ocasião aos índios de mal, e medeante foices, machados, contas e outras coisas, havendolhes ele jà dado muitas e alegavam-nos que lhes havíamos morto dos seus e com tudo isso nos defendiam, e era tanta a importunação, que não faltava senão tomà-lo por força; um dizia: "A mim não deram foice"; outro: "Nem a mim tal"; outro: "Nem a mim tal"; não havia jà que esperar senão que dissesse, algum: "E eu não hei feito troco de meu pai ou irmão, que me mataram; quero fazê-lo em algum destes." E assim não se curavam dar-nos de comer; salvo

Pindobuçú, o qual também não fazia tanto caso de meu companheiro e quando pregava pelas casas não falava senão de mim só dizendo: "Não quero que façam mal a este"; o que me era causa de grande angústia, e tinha determinado, se algo sentisse, de pôr-me por ele em o terreiro e morrer primeiro que ele, e trabalhava muito por o acreditar com todos, maximè com o Pindobuçú, e o melhor caminho, porque ele era pedreiro, foi dizer-lhe: "Este é o que faz as igrejas de Deus; se lhe fazem algum mal, tanto se hà de enojar Deus contra vós outros como se o fizessem a mim"; com as quais p*alavras movido, me disse: — "Assim? Dize-lhe que não tenha medo, que se venha sempre à minha casa comer." E daí em deante começou a olhar mais por ele e dar-lhe grandes esperanças de poder resgatar sua gente que os do Rio lhe tinham. Mas nem isto era bastante para nos poder fazer seguros entre gente que a nada sabe ter respeito nem obediência, e que quasi sempre anda quente do vinho, no qual gastavam os mais dos dias bebendo e cantando todo o dia e noite, com grandes gritos, homens e mulheres misturados, de maneira que, nem em casa nem fora podíamos estar sem ouvir e ver suas borracharias; noite me aeonteceu, chovendo muito e fazendo grande frio, estar grande parte dela fora de casa, em pé, mal guardado da chuva e padecendo o frio, até que eles acabassem de beber seus vinhos, e enfim, não podendo mais esperar, tornar-me para dentro a guarecer o fogo e acabar a noite entre eles, e aqueles que andavam amotinados jà passavam por nós outros sem nos falar, nem olhar senão de través, como homens que não nos conheciam, e assim todas as noites, maximè quando bebiam e cantavam, nos rescostavamos a dormir oferecendo a cabeça à espada, mas não era digna, ao menos a minha, de a receber sobre si. Entre estas fadigas, tandem chegou o Cunhambeba, véspera da Assunção de Nossa Senhora, com seu contràrio que haviam tomado, com que muito se alegraram todos, etiam aqueles que pouco havia não nos olhavam com olhos mui direitos, os quais daí em deante se chegavam a nós outros rindo-se e falando mui alegremente, logo se aparelharam todos para vir cà à guerra a seus contràrios, com os quais eu trabalhei muito que trouxessem comsigo a meu companheiro, porque não podia por então resgatar sua gente e es-

tava ainda enfermo, mas não o pude conseguir, ordenando assim Nosso Senhor que lhe tinha aparelhado melhor caminho, porque uma das canoas em que havia de vir seu resgate se fez pedaços ao sair da barra, o que foi causa se ficasse Pindobuçú em terra com muitos outros, esperando outra melhor embarcação, e dali a quatro ou cinco dias veiu ali um índio dos do Rio, o qual vendo, o Pindobuçú queria vir e não tinha em que, movido com a bôa nova determinou de trazê-lo em uma sua barca, grande e bem ligeira, que lhe haviam dado os Franceses, com sua vela e remos. Então instei muito com Pindobuçú e com todos que o trouxessem, que bastava ficar là eu que era o que tratava as pazes, fazendo conta que Nosso Senhor moveria a Cunhambeba, que havia logo de vir, que me trouxesse, e quando não, que cada dia se me acrescentaria a coroa com a paciência, resignando-me penitente em as mãos do Senhor sive ad vitam swe ad mortem. Acabei pela bondade de Deus que o trouxessem, ainda que com muito trabalho, porque as mulheres, pensando que eu também me vinha, começaram a entristecer-se, dizendo que não lhes ficava là ninguém em troco de seus maridos, que cà eram vindos, em quem se pudessem vingar, se algo lhes acontecesse, mas assegurando-as disso o fiz embarcar com seu resgate aos 5 de Setembro, ficando-me eu só em terra, os quais partidos, vieram a metade do caminho com muito trabalho, com ser o vento contràrio e haver-se-lhe quebrado o leme, e faltar-lhes jà o mantimento, de maneira que se quiseram tornar, mas o Pindobuçú não o consentiu e o pobre de meu companheiro confiado em Nosso Senhor: "Não vos torneis, que amanhã nos hà Deus de dar bom vento com que cheguemos à minha terra", e concertando o leme o melhor que pôde, meteu-se só dentro da barca, encomendando-se de coração à Nossa Senhora e rezando seu rosàrio, sem dormir até à meia-noite, em que, vindo o vento da terra, chamou os índios, os quais embarcados, vieram quasi meio caminho, até o golfo, e sendo jà passada boa parte do dia encalmou-lhes o vento, de que eles ficaram esmorecidos, vendo-se tão longe de terra, vendo-se sem vento e sem ter que comer nem beber; mas meu companheiro lhes mandou levantar bem a vela até à ponta do mastaréu, dizendo-lhes que logo lhes havia Deus de mandar outro vento com que aquele dia chegassem; escassamente estava a vela bem em cima quando lhes veiu tanto vento à popa quanto queriam, com o qual chegaram, em mui breve espaço ao rio Bertioga, que é o primeiro porto, e ali lhes encalmou o vento e entraram a remos. Bendito o Senhor que manda ao vento e ao mar, e lhe obedecem, para que sirvam aos homens que tão mal obedecem à Sua Divina Majestade. Eu quedei-me em Iperoig encomendando a Deus seu caminho e esperando que endireitasse o meu, e ao outro dia fui-me a falar#com Cunhambeba e disse-lhe se determinava de me trazer, como havia prometido ao padre Nóbrega. Respondeu ele: "Verdade é que prometi, se os mancebos cà fossem contentes disso." Disse-lhe então sua mulher: "Queres deixà-lo cà só, que venham os do Rio e do campo e o matem! leva-o." Falando pois aos da aldeia, que seriam até 20, que os demais eram cà vindos todos, uno ore disseram pois não havia jà de que se temer, eu por me parecer que havia feito o que era de minha parte, querendo me deixar de todo em as mãos da Divina Providência, para que estes como meus superiores me regessem, determinei de não lhes falar mais em isto; mas indo-me à outra aldeia, lhe disse que me mandasse recado quando se houvesse de embarcar, teve ele tão bom cuidado que logo dali a dois dias, que foi o do Nascimento da Mãe de Deus, Nossa Senhora, mandou uma sua mulher e tia que fossem por mim, e deixando eu os livros com algumas cousinhas na caixa, como em penhor de minha tornada, e deixando a chave a uma mulher de Pindobuçú, que não me queria menos que a um filho, me vim ao lugar de Cunhambeba, aonde ainda estivemos oito dias sem poder partir por estar o mar mui bravo, em o qual muitas das índias da outra aldeia começaram a andar mui tristes porque me vinha, porque determinavam se a seus maridos acontecesse cà algum desastre, de elas mesmas ser as carniceiras e matar-me e comer-me, e com raiva queimaram uma casinha em que o Padre soia dizer missa: mas outras que eram minhas devotas e desejavam que viesse, rixavam com elas dizendo-lhes: "Queimai a casa em que os Padres falavam com Deus e vereis se viveis muito tempo; não estão là nossos maridos com os vossos, havemos de dizer a Cunhambeba que o levem"; e com isto lhe vinham a dizer-lhe que me trouxessem, porque não viessem alguns ruins de fora e achando-me só me matassem; e esta foi a principal causa que os moveu a me trazer, porque se houvera là alguns com quem lhes parecera que podia ficar seguro, não sei se me trouxeram, e ain-> da que este quisera, que sempre se mostrou mais desenganado amigo que todos, os outros não houveram de querer, porque bem entendiam que tinham bom penhor em mim e que estando eu là lhes sofreriam cà os Cristãos muitas coisas, como em verdade lhes sofriam, assim por minha causa como porque não quebràssemos as pazes por sua parte. Esperando pois por bom tempo nos embarcamos o dia da Exaltação da Santa Cruz, em sua canoa, feita de uma cortiça de pau, e éramos 20 por todos, e viemos aquele dia com bom tempo ao primeiro porto, onde para maior prova de Cunhambeba achàmos uma canoa dos do Rio, que se tornava de cà, os quais lhe contaram logo muitas mentiras, dizendo que os índios de Piratininga lhes haviam morto um dos seus e que os Cristãos foram correndo detràs deles, tirando-lhes para os matar, com outras coisas, que puderam facilmente mover a constância de qualquer destes, que não é muita. Mas o Cunhambeba depois de lhes ouvir lhes disse: "Bem sei que os Cristãos são bons e tratam verdade, vós outros farieis por onde vos tratassem assim"; e nem ele nem nenhum dos seus dando crédito às suas palavras, nos embarcamos ao outro dia e viemos outras duas jornadas, com algumas tormentas, e enfim, pela misericórdia do Senhor chegamos dia de S. Mateus Apóstolo à Bertioga, mas não foi muito a nosso salvo, porque ao dobrar de uma ponta nos deu tão grande tempestade de vento que estivemos meio afogados, ao menos eu nunca tive por tão certa a morte em todos os transes passados como ali, e ainda agora me espanto como foi possível passar por ali uma só cortiça de um pau por onde um navio tivera muito perigo e trabalho em passar; contudo os índios esforçavam a mim e assim remando com grande Ímpeto e dizendo-me que não house medo, que eles me tirariam fora a nado, mas eu em ai tinha posta minha confiança e tinha-me com Cunhambeba, o qual ia dizendo: "Padre Deus, oh Senhor Deus, amanse-se o mar." Ouviu-o o Senhor, e ainda que não se amansou o mar, passàmos seguros e aco-

lhemo-nos à terra antes de chegar a povoado com a àgua que nos dava pela cara e boca jà coalhada e feita de sal. Ao outro dia se tornaram a embarcar para entrar na fortaleza, que seria pouco mais de meia légua, e eu me fui pela praia com dois ou três deles e tivemos tanta chuva todo o caminho que me passou e esfriou todo, e segundo a fraqueza que eu trazia, se um pouco mais longe estiveram as casas passara muita pena; assim chegàmos a estas vilas, vencidos tantos encontros, e com minha vinda houveram todos muita alegria, como com pessoa que saía de um cativeiro, do qual nao esperava outro fim senão a morte. Bendito seja o Senhor todo poderoso qui mortificat et vivificat. Este foi o fim da minha peregrinação, a qual prouvéra ao bom Jesus que por outra mão fora escrita e a minha, por amor de seu nome, estivera suspensa ao sumo em Iperoig, e certo que se não pensasse tudo isto haver sido ordenado pela suma e divina disposição e vontade da obediência, que me arrependeria de haver-me de là vindo e ainda com tudo isto me arrependo e pesa, não porque vim, mas porque não foi digna minha vida que eu desejava de pôr por meu Senhor Jesus Cristo, de ser aceita de Sua Divina Majestade; mas, porque meu pai celestial é mui rico para todos os que o invocam e tem muitas bênçãos que dar, ainda não desespero de alcançar esta de sua mão onipotente, confiando que primeiro me faria màrtir, no cumprimento de meus votos e de toda virtude e depois se dignaria aceitar meu sangue derramado por sua glória em holocausto e odor de suavidade, o qual eu peço humilde e entranhavelmente a todos os Padres e Irmãos, maximè a V. R. P., me alcancem do Senhor. Quero acabar de escrever o fim desta paz, o qual foi verdadeiramente fim de paz e princípio de nova guerra, qual se podia esperar de gente tão bestial e carniceira, que vive sem lei nem rei; da qual propriamente profetizou David in Spiritu Sancto, sepulchrum {hominum) patens est guttur eorum linguis suis dolose agebant, celoces pedes eorum ad effundendum.sanguinem, viam pacis non cognoverunt, obreiros de toda maldade qui devorant plebeu meam, sicut escam panis, e mais que panis e que todo manjar. Ao tempo que eu cheguei eram baixados os Tamújas do Paraíba pelas montanhas que tinham abertas, por donde soiam vir a

fazer seus saltos, e estavam em a vila de Santos, e depois vieram outros por vezes e trouxeram alguns escravos, dos que haviam levado quando tínhamos guerra, a Piratininga também vieram muitos, e nunca mais hão feito salto algum, podendo-o fazer muito a seu salvo por ter todos os caminhos abertos, para todas as fazendas dos Cristãos sem nada lhes poder resistir, porque são como tigres, que agora dão aqui, agora ali, e fogem com a presa em os dentes, e eles mesmos nos avisavam que não nos fiàssemos dos do Rio de Janeiro, porque estão mui soberbos com as muitas coisas que lhes dão os Franceses; agora são todos tornados a suas terras e creio que também à sua natureza cruel, amiga da guerra e inimiga de toda paz, e a primeira vinda que fizerem serà a roubar e matar como soem. Neste mesmo tempo estavam estes meus amigos de Iperoig que antes de mim eram vindos e outros muitos do Rio em Piratininga, onde assim dos Portugueses como dos Tupis discípulos nossos eram mui bem tratados, e dali os levaram ao Campo bem longe a uma guerra, onde tomaram alguns dos Tupis inimigos; mas sabendo de minha vinda ficaram mui amedrontados, pensando que somos como eles, mas logo perderam o medo, vendo que da mesma maneira eram tratados, como quando eu estava em sua terra, e esta foi a principal causa porque o Padre Nóbrega me mandou vir dentre eles, para que vendo que eram tão bem tratados, sem ter algum penhor em sua terra, acabassem de crer nossa verdade e se assegurassem e soldassem de todo. Todavia começaram logo de andar mais quietos e mais atentos pelas casas dos Cristãos, e com isto ainda lhes sofriam e dissimulavam muitas coisas, porque pudesse o Governador, por quem esperàvamos, povoar o Rio de Janeiro em paz. Baste para conhecer esta gente saber que sem estar nenhum de nós outros em suas terras, andam eles em a nossa mui seguros e à sua vontade, e ainda que deles estejam muitos entre nós outros, não pôde um só dos nossos andar seguro em suas terras, porque, se não têm cà pai, filho ou irmão, ou coisa que lhes dôa muito, tanto caso fazem de haver muitos como poucos, e é coisa certa que para ser um principal basta ter uma canoa de seu em que se ajuntem doze ou quinze mancebos, com que possa vir a roubar e saltear, de onde parece quão particular

cuidado teve Nosso Senhor o tempo que entre eles estivemos de nos conservar a vida. Glória seja a seu santo nome. Dos do Rio jà quasi tínhamos o desengano que não queriam pazes, porque tínhamos certa notícia que eu havia mui bem alcançado em Iperoig dos mesmos índios que tinham cerca de 200 canoas juntas, com as quais determinavam com este título de pazes entrar em nossas vilas, que jà muitos deles tinham mui bem miradas, e pôr tudo a fogo e a sangue, se pudessem, e ainda que isto não se soubera por outra via, suas obras o estavam prègoandto, porque, ultra deles virem sempre com propósito e vontade de nos matar enquanto estivemos entre eles, em Iperoig, depois de eu vindo, estando cà muitos deles, vieram outros por duas vezes e saltearam, levaram e comeram alguns escravos, depois vinham umas quarenta ou mais canoas, para começar a efetuar sua vontade, mas não chegaram cà mais de dez ou onze, os quais logo descobriram que vinham com determinação de tomar um dos lugares do campo, de nossos discípulos, o qual sabido pareceu bem ao Padre Nóbrega, e assim o disse ao Capitão e Regedores da terra em conselho que sobre isso se fez, que se retivessem os principais daqueles, que eram senhores das mulheres e filhas dos Cristãos, que là tinham cativas, e haviam morto e comido um rapaz Português depois das pazes, porque estes retidos, ou de grado ou contra sua vontade, fazendo-se-lhes todo o bom tratamento, não só se houveram as mulheres cativas, mas foram grande parte para se povoar o Rio em paz. Este conselho não pareceu bem, e eles, ou sentindo-o ou temendo-o, se volveram logo quasi fugindo e fizeram volver as mais canoas que vinham; dali a bons dias, depois de longa dissimulação, vieram outras sete canoas dizendo que nos vinham ajudar, os quais foram recebidos de paz em a fortaleza de Bertioga, e eles dentro, vendo bôa ocasião, tomaram às mãos quantos puderam, e atados os levaram, dois deles eram mestiços, um homem e um menino, os mais eram escravos; ao guarda da fortaleza tiveram aferrado, mas quis Deus que teve um montante às mãos e fez tal estrago neles que se dava por satisfeito dos escravos que lhe haviam tomado; ali ficaram alguns mortos, muitos foram mui mal feridos e deles morreram no caminho; contudo, ele ficou ferido de uma flecha de que agora està tolhido com uma

perna seca. Este é o fim e remate que deram às pazes os inimigos da paz, e não é muito para gente que a seus irmãos e parentes, com quem estão comendo e bebendo, matam e comem. Só os moradores dos lugares de Iperoig hão sido constantes até agora e alguns deles ainda estão entre nós outros; mas por fim farão o que a maior parte dos seus fizerem. Estando a coisa nestes termos chegou a armada que esperàvamos da Baía, a qual vindo-se ao Rio de Janeiro, foi recebida dos contràrios como amigos, logo ao princípio, mas entretanto estava-se ajuntando a gente das aldeias, a qual junta, com quasi cem canoas, acometeram uma nàu e um barco, que vinham para cà, e puseram-os em tanto aperto que, se não foram as grandes ondas que faziam, houveram-os de tomar, porque à nàu romperam por duas partes com machados junto à àgua, dando-lhes para isto favor e ardis os Franceses que vinham com eles misturados, e mataram alguns homens e flecharam muitos. Ao barco, depois da gente dele mal ferida acolher-se à nàu, lhe puseram as mãos em um bordo para entrar a lhe despojar, mas eram tantos que o trabucaram e meteram ao fundo; mas dos inimigos foram muitos mortos, feridos e queimados com pólvora, e assim se houveram de ir, e a nàu se veiu seu caminho; também outro dia mataram oito homens e feriram todos os mais que tomaram em uma barquinha que se desmandou, e se não lhes fora socorro mui depressa, todos os levavam para comer. O capitão-mór da armada, logo que chegou ao Rio mandou cà um navio pequeno em que fosse o Padre Nóbrega, para com o seu conselho assentar o que havia de fazer, em o qual nos embarcàmos o Padre e eu com alguma gente, aos 19 de Março, e de caminho fomos a visitar nossos antigos hospedes de Iperoig, como lhes havia prometido que havia de tornar quando me vim, os quais nos vieram a ver ao navio e me trouxeram os livros e tudo o mais que lhes havia deixado em guarda e algum refresco. Partimos, donde chegàmos ao Rio à sexta-feira santa, e entràmos pela barra bem à meia-noite com grande escuridão e tormenta de vento, e estivemos meio perdidos todos nós outros dentro do porto e lançada ancora não vimos os navios dos nossos, e mandando logo à terra a uma il neta que foi dos Franceses, acharam todas as casas onde os nos- sos pousavam queimadas e alguns corpos de escravos que ali haviam morrido de sua doença desenterrados e as cabeças quebradas, o qual haviam feito os inimigos, porque não se contentam de matar os vivos, mas também desenterrar os mortos e lhes quebrar as cabeças para maior vingança e tomar novo nome; estes sinais nos punham em grande confusão e nos faziam pensar que algum grande desastre havia acrescido à armada, e como amanheceu vimos vir flechas que trazia a àgua, de maneira que pouco mais ou menos atinàvamos o que havia sido e esperàvamos o que nos poderia vir, que era ser tomados e comidos, em o qual não púnhamos dúvida, entrando por meio da barra, e em nenhuma maneira podíamos sair, mas ali havíamos de aguardar o que Nosso Senhor nos enviasse e assim enviou, que foi sua costumada e fraterna misericórdia, e foi o caso que a armada, vendo que tardàvamos tanto e que no porto não havia nada, determinou de vir-se a esta vila a refazer, e havia dois dias que era saida quando nós outros entràmos, e Nosso Senhor, lembrando-se de nós outros que não estàvamos mui longe de ser tragados em os ventres dos Tamújas, que são peores de que baleias, mandou-lhes aquele vento de través, que é o mais furioso que hà nesta costa, com o qual nenhuma outra coisa poderia fazer ainda que quisessem senão tornar a entrar em o Rio, e assim entrou logo ao sàbado, véspera de Pàscoa, querendo-nos Nosso Senhor fazer participantes da alegria de sua Resurreição, porque jà era passada a sexta-feira da Paixão. Glória seja a ele por tudo. Dia de Pàscoa se disse missa em aquela ilha, e determinando todavia a armada, por estar mui desbaratada, de se refazer, nos viemos a estes lugares de S. Vicente, onde agora se està refazendo, com determinação de tornar a fazer povoação ao Rio de Janeiro, assim por desarreigar dali a sinagoga dos contràrios Calvinos, como porque ali é a melhor força dos Tamújas e seria uma grande porta para sua conversão: o Senhor que tem as chaves lha abra presto, para que lhes entre o conhecimento de seu Criador e Redentor. Resta agora dar conta dos exercícios dos Irmãos em seus Ministérios, os quais ficaram repartidos aqui e em Piratininga acudindo a todas as necessidades, como sempre soem, e ordenaram que se fizessem algumas procissões por o bom sucesso das pazes, ultra de

privadas orações e disciplinas, a que concorriam muitos devotos, o qual faziam com tanto maior fervor de caridade quanto sabiam ser maiores as tribulações que passàvamos entre os Tamújas, tanto que um homem casado nosso especial devoto e irmão de um nosso Padre se açoitou tão fortemente que daí a poucos dias morreu lançando muito sangue pela boca, parece que do fígado, que havia pisado. Mande-o V. P. encomendar a Nosso Senhor. Depois que eu vim de minha peregrinação hà Nosso Senhor visitado e castigado esta terra com muitas enfermidades, de que hà morto grande parte dos escravos dos Cristãos ut residuum locustoz comederet Bracheis, os que haviam escapado e restado da boca dos contràrios comesse a enfermidade, o qual é acrescentamento de trabalhos para os Irmãos, que nunca cessam de noite e de dia de os socorrer com o espiritual, confessando-os e batizando-os, e com o corporal, sangrando-os e curando-os, segundo o demanda a necessidade de cada um. A Itanae (Itanhaen), que são sete léguas, que vai por uma praia, se hà socorrido por vezes assim aos Portugueses como aos índios nossos amigos, que se meteram com nós outros, os quais têm contínuos combates dos inimigos, seus parentes, e ainda que são poucos sempre levam a melhor comi a ajuda de Nosso Senhor. Alguns dos adultos se andam aparelhando para o batismo. Dos meninos inocentes se hà enviado uma boa cópia deles à glória com estas enfermidades. Louvores ao Senhor de todos que de todos tem tanto cuidado. A principal destas doenças hão sido varíolas, as quais ainda brandas e com as costumadas que não têm perigo e facilmente saram; mas hà outras que é coisa terrível: cobre-se todo o corpo dos pés à cabeça de uma lepra mortal que parece couro de cação e ocupa logo a garganta por dentro e a lingua de maneira que com muita dificuldade se podem confessar e em três, quatro dias morrem; outros que vivem, mas fendendo-se todos e quebra-se-lhes a carne pedaço a pedaço com tanta podridão de matéria, que sai deles um terrível fedor, de maneira que acodem-lhe as moscas como à carne morta e apodrecida sobre eles e lhe põem gusanos que se não lhes socorressem, vivos os comeriam. Eu me achei em Piratininga um pouco de tempo, onde fui mandado depois que vim dentre os Tamújas, a visitar nossos discípulos, os quais me desejavam là muito, porque me têm por bom cirurgião; ali se encrueleceu muito esta enfermidade, de maneira que em breve espaço morreram muitos e a maior parte foram meninos inocentes, de que cada dia morriam três, quatro, e às vezes mais, que para povoação tão pequena foi boa renda para Nosso Senhor; dos adultos morreram alguns dos batizados in vltimis, e os que jà o eram com grandes sinais de fé e contrição, invocando sempre o nome de Jesus; dava em as mulheres pejadas, e morriam elas e os filhos, os quais se batizavam, salvo um, que, porque nasceu sem nariz e com não sei que outras enfermidades, o mandou logo um irmão de seu pai enterrar sem nô-lo fazer saber, que assim fazem a todos os que nascem com alguma falta ou deformidade, e por isso mui raramente se acha algum coxo, torto ou mudo nesta nação. Assàs de trabalho e ocupação tive ali, como sempre, acudindo a todos, sangrando dez, doze cada dia, que esta é a melhor medicina que achamos para aquela enfermidade, e era necessàrio correr suas casas cada dia uma ou mais vezes, a buscar deles que, ainda que passeis por suas casas, se não a revolveis toda e perguntais por cada pessoa em particular, não vos hão de dizer que estão enfermos. E o melhor é que em pago destas boas obras, alguns deles, como são de baixo e rude entendimento, diziam que as sangrias os matavam, e escondiam-se de nós outros, e mandando fazer umas covas longas à maneira de sepulturas, e depois de bem quentes com muito fogo, deixando-as cheias de brazas e atravessando paus por cima e muitas hervas, se estendiam ali tão cobertos de ar e tão vestidos como eles andam, e se assavam, os quais comumente depois morriam, e suas carnes, assim com aquele fogo exterior como com o interior da febre, pareciam assadas. Três destes que achei revolvendo as casas, como sempre fazia, que se começavam a assar, e levantando-os por força do fogo, os sangrei e sararam pela bondade de Deus. A outros que daquele pestilencial mal estavam mui mal e esfolei parte das pernas e quasi todos os pés, cortando-lhes a pele corrupta com uma tesoura, ficando em carne viva, coisa lastimosa de ver, e lavando-lhes aquela corrupção com àgua quente, com o que pela bondade do Senhor sararam; de um em especial se me recorda que com as grandes dores não faza senão gritar, e gastando jà todo o corpo

estava em ponto de morte, sem saber seus pais que lhe fazer, sinão ehorar-lhe, o qual, como lhe cortàmos com uma tesoura toda aquela corrupção dos pés, e os deixàmos esfolados, logo começou a se dar bem e cobrou a saúde. É gente miseràvel, que em semelhantes enfermidades nem sabem nem têm com que se curem, e assim todos confugem a nós outros demandando ajuda, e é necessàrio socorrê-los não só com as medicinas, mas ainda muitas vezes com lhes mandar a levar de comer e a dar-lho por nossas mãos, e não é muito isto em os índios, que são paupérrimos, os mesmos Portugueses parece que não sabem viver sem nós outros, assim em suas enfermidades próprias, como de seus escravos: em nós outros têm médicos, boticàrios e enfermeiros; nossa casa é botica de todos, poucos momentos està quieta a campainha da portaria, uns idos, outros vindos a pedir diversas coisas, que só o dar recado a todos não é pouco trabalho, onde não hà mais que dois ou três que atendam a isto e a tudo o mais; isto mesmo é neste Colégio de S. Vicente e finalmente onde quer que achem os Irmãos, os quais ao presente estão bem dispostos pela bondade de Deus, ainda que freqüentemente são visitados com vàrias indisposições. Os devotos continuam suas confissões e comunhões cada oito e cada quinze dias. A' glória de Cristo Senhor Nosso. Muita necessidade tem toda esta terra, que de todas as partes està cercada com guerras, de ser encomendada a Deus de Vossa Paternidade e de todos os Irmãos, para que a Divina Justiça amanse um pouco seu furor, e mui maior a temos nós outros, que em todos estes encontros havemos de andar em a deanteira para que sine effusione corramos e agrademos a Jesus Nosso Capitão e Senhor, ao qual praza de nos dar sua graça cumprida, para que sua santa vontade sintamos e aquela perfeitamente façamos. Deste Colégio de Jesus de S. Vicente, em 8 de Janeiro de 1565 anos. Minimus Societatis Jesu.

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Leia gratuitamente Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, de José de Anchieta, obra colonial brasileira em domínio público. Esta edição digital consolida cartas, informações, fragmentos históricos e sermões quinhentistas em 38 capítulos internos, com texto curado a partir da edição de 1933 via BLPL/UFSC e Etnolinguística/Mindlin, notas editoriais separadas do corpo principal, espelhos HTML e preparação para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA no Literunico.

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