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Capítulo 26 · Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Ao capitão Miguel de Azevedo, da Bahia, a 1 de dezembro de 1592

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XXVI Ao CAPITÃO MIGUEL DE AZEVEDO, DA BAÍA, A 1 DE DEZEMBRO DE 1592

Chegada de naus do Reino. — Padre João Pereira. — Congregação provincial. — Eleição do Padre Luiz da Fonseca para procurador a Roma. — Padre Fernão Cardim. — Negócios do Espírito Santo. — Atentado contra a vida do Inquisidor. — Partida do Padre Luiz da Fonseca para o Reino. — Padre Marcai Belliarte. — Padres Gavriel e Pedro Soares. Ao capitão Miguel de Azevedo, meu Senhor em Cristo, na Capitania do Espírito Santo. Intus vero. Jesus. Pax Christi. Senhor. Este barco vai direito ao Rio de Janeiro e assim esta vai á ventura, se ele lá arribar á nossa terra, e será breve e quão extensa eu puder com poucas palavras. Chegámos a esta Baía com boa viagem em oito dias. Logo a seguir entraram dez ou doze ou mais naus do Reino, mas nem por isso deixaram de valer as coisas o seu peso em dinheiro: a pipa de vinho a 24$, e daí a pouco aumentou tanto que agora nem a quarenta mil se achá e neste Colégio bebem água, e assim vão as mais mercadorias. Boa é lá a nossa terra, mas não o conhecemos. Esperámos alguns dias pelo Padre João Pereira, mas como tardou fez-se a congregação, e foi eleito Procurador per«( Roma o Padre Afonseca por maioria de votos. Depois de sua eleição até agora, nem ele nem eu temos vida: ele com escre- ver e outros negócios, e eu com escrever para o que os dias mo não bastam, nem descançarei até que ele se não embarque, digo se embarque. Contudo, furtei ou furtámos ele e eu alguns tempos para negociar com o Senhor Governador algumas coisas dessa Capitania, com favor do Padre Fernão Cardim, Reitor e seu confessor. Mas é o vagar nisto imenso etc. Temos negociadas duas provisões. Uma, que não vão ao sertão sem primeiro W. EE. fazerem aqui saber, a qual ele passou de boa vontade e com zelo de não se deixar a terra sem gen^e em tempo que se esparam Ingleses, etc. Outra, é confirmação do largo da Senhora Dona Luiza e vossa mercê com ela, que não foi pouco tirar-lhá das mãos, porque se lhe ofereciam a ele muitas razões para duvidar e na verdade todos os letrados, que estimam muito isto, nos aconselharam que as ouvíssemos, porque se ele quiser pode nisso fazer o que quiser sem fazer injustiça contra ninguém, segundo eles dizem, por provisões novas que tem d'El-Rei para isso e para dar as serventias dos ofícios, etc. E já ele oferecia o ofício de adjunto a N. dos Ilhéus como a cunhado {sic), mas ele foi tão bom que o não quis aceitar. As embrulhadas da eleição que lá houve andam agora na forja. Espero que tudo sairá acabado e apagado, e não se procederá na devassa, que lá se tirou, porque a todos os letrados e ao próprio ouvidor geral lhes pareceu bem e ajudam nisso, e o Senhor Governador, que é muito amigo de pacificar o povo, tem já dito que assim será. A petição fiz eu de minhá letra com ajuda do mesmo ouvidor geral: lá a tem para a despachar. Eu dizia que se podia lá dar largueza a Rodrigo Garcia e aos mais que por acaso tivessem alguma provisão, ou embaraço, porque tudo se há de consumir aqui e para isso irão provisões como espero de certeza. Para Marcos de Azevedo negociámos outra sobre o caso do Rocha: já está passada. Neste negócio interveiu Manuel de Freitas e Ambrosio Peixoto e eu; e foi o caso que o Rochá era favorecido do Mestre da Capela e lhe dava de comer, disse-nos isto Manuel de Freitas. Com isto Ambrosio Peixoto rogou ao Mestre da Capela que houvesse dele o perdão, isto é, não falar no caso. Eu apertei tanto com o Mestre da Capela que o não deixei descançar até que houve dele o necessário, e, ainda que ele lhe tinhá prometido que faria disso termo por escrito, depois tornou atrás dizendo que somente de palavra o diria deante do Senhor Governador. Perguntei a Peixoto se bastava e disse-me que sim. Trabalhei que se fizesse logo e assim se fez, tendo eu já prevenido o Senhor Governador o qual me disse que o fizesse logo, como fez, e sobre isto passou a provisão para Marcos de Azevedo não ser mais molestado sobre o caso, pois Rochá não queria dele nada. A qual provisão tinhá eu cá feita com o Padre Afonseca para ele a assinar, e, indo a mostrar a Peixoto para ver se estava boa, me mostrou ele outra que tinhá já aviada, assinada e selada. De maneira que não faltaram cá servidores ao Senhor Marcos de Azevedo. Isto concluído, daí a muitos poucos dias o Rocha, que diziam estar agravado do Inquisidor, lhe atirou duas noites com um arcabuz á sua janela, foi preso e se os Padres, que são adjuntos do Inquisidor, não trabalhavam muito nisso, ele não escapava de morte de fogo, conforme a bula do Papa. Mas eles a interpretaram de maneira que pareceu bem ao Inquisidor dar-lhe a vida. Mas contudo saiu com degredo para as galés por dois anos e primeiros cinco Domingos na Sé com grilhão e baraço e cumprir um ano de cadeia e depois de degredo. Quis Nosso Senhor que tínhamos já aviada a provisão; porque agora mal se houvera de aviar porque cuida ele que nós o perseguimos sendo nós os que lhe damos a vida. Este capítulo seja para o Senhor Marcos de Azevedo para que entenda que nós não esquecemos dele. E não folgue ninguém com seu mal que bem grande é. Muito deve a Ambrosio Peixoto, posto que ficou muito sentido de tirar ele lá o ofício a Luiz Gomes e tomou como agravo feito a si mesmo, que o tinhá provido dele segundo ele mesmo me disse ao cabo de três meses da nossa chegada, falando em outras coisas e rogando-me que lho estranhasse lá; e não quis aceitar! escusas dele dizendo que, se viessem quaisquer papeis de Luiz Gomes, que logo o houvera a meter de posse dele. Deste derradeiro ponto dará vossa mercê a conta que lhe parecer a Marcos de Azevedo.

Também está queixoso Ambrosio Peixoto de vossa mercê lhe não escrever e eu digo que tem razão se assim é, porque de verdade é amigo de vossas mercês e portanto daqui por deante havendo ocasião não deixe de o fazer. Seu sogro Fernão Cabral saiu agora com sua sentença: foi misericordiosa, segundo todos afirmam, e ele mesmo o reconheceu dando graças ao Inquisidor e a todos os adjuntos da mesa pela mercê que lhe faziam merecendo muito mais suas culpas, e isto de joelhos com muita humildade. 0 Padre Afonseca partirá no fim deste mês para o Reino num galeão de Viana. Tem lá aviados muitos papeis da Senhora Dona Luiza e anda aviando os de vossa mercê. Tudo creio irá bem aviado, porque o Senhor Governador tem prometido de escrever, Bispo, provedor-mór, etc. Como se aviarem os papeis do caso da eleição, entenderei nos da tomada do livro da Câmara, que toca a banhos, e entendam vossas mercês que para isto é infinito o vagar do Governador e ando espreitando para lhe falar em semelhantes coisas, e depois disso o Padre Cardim, que o aperta. No caso da querela, não fará o Governador nada sem perdão da parte; agora espara que venhá dos Ilhéus onde o Mamaluco Pedro Gonçalves está e, quando não vier, determino de abalroar com o ouvidor geral, o qual se mostra grande meu amigo, e do Padre Afonseca muito mais, e creio que ele buscará alguma boa saida. Ao menos não irão lá mais papeis sobre o caso enquanto não houver quem atice. Ao menos o Governador por sua parte os mandará e como lá está a provisão dos outros passados bastará. A querela não foi nula como lá cuidavam, ainda que foi dada por induzimento de inimigos porque a ordenação está clara nisso. Mas a justiça dos papeis, que cá vieram, do caso como passou bastava para tudo. Enfim tudo se fará bem com a graça de Deus. O Padre Provincial partirá juntamente com o Padre Afonseca para Pernambuco e de lá logo em chegando diz que mandará o navio para irem os que hão de ir para essa banda e parece que também irei eu pela promessa que o Padre Provincial fez a vossa mercê; que a não ser isso muito puxavam por mim cá para Fernambuco, mas quererá o Senhor tornar-me a levar a esta terra

para consolação de vossa mercê e desses senhores todos meus amigos, a quem de cá mando mil encomendas, das quais vossa mercê há de dar em particular a Cândida com todo o mais que lhe toca e não falo, porque já isso está sabido. Pera a Senhora Dona Luiza basta esta mesma carta, a letra da qual mostra bem o vagar que tenho. De não vir de l á... vários os sucessos do tempo. Haja a paz, saúde e amizade entre todos e principalmente com Deus, e isto basta; e não é necessário encomendar a vossa mercê em particular os Padres, pois é Irmão verdadeiro (e não me engano) e pai de todos. Vale ínterim et ora pro me cum tota familia. Desta Baía, o primeiro de Dezembro, 1592. Se vossa mercê quiser dar parte desta ao Padre Gavriel e Pedro Soares, se aí estiver, será caridade, porque não lhes posso escrever senão breviter. Não há cá pólvora, poupem lá a que houver, e o Padre Afonseca faz conta de levar ao Reino o dinheiro do assucar da Senhora Dona Luiza, que cá se vendeu, para prover de lá. Na provisão que digo vai vossa mercê por capitão, se nas coisas de guerra, e que com a Senhora Dona Luiza possa dar todas as liberdades que se dão em semelhantes tempos aos homisiados. De vossa mercê servo em Cristo.

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Sinopse

Leia gratuitamente Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, de José de Anchieta, obra colonial brasileira em domínio público. Esta edição digital consolida cartas, informações, fragmentos históricos e sermões quinhentistas em 38 capítulos internos, com texto curado a partir da edição de 1933 via BLPL/UFSC e Etnolinguística/Mindlin, notas editoriais separadas do corpo principal, espelhos HTML e preparação para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA no Literunico.

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