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Capítulo 28 · Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Carta ao irmão Emanuel

28 de 38 ≈ 8 min de leitura

XXVIII CARTA AO IRMÃO EMANUEL

I ESUS Christus. Pax tibi frater dilecte in Domino Iesu et consolatio Sancti Spiritus, qui omnem tristitiam repellat a cor de: vide quam bônus est Deus, quam suavis erga servos suos. Nihil tibi nocebit, quia Dominus tecum est: ponat te Me juxta se et cujus vis manus pugnet contra te, quis te separabit a charitate Dei, quoz est Cristo Iesu Domino Nostrof Nec tristitia, nem laslitia, nec vita, nec mors, quia sive tristaris, sive lostaris, Domini es: sive vives sive moreris, Domino vivis, cui te dedicasti et Domino moreris qui pro te mortuus est ut vitam haberes in ipso, factus ei similis per obedientiam usque ad mortem. Ego quidem absens corpore, preesens autem spiritu, apua te gaudeo in donis Domini nostri, quibus te accumulat, orans pro te in orationibus méis ut adimplearis vera Icetitia, quce in humüi patientia labore subjectaque obedientia cum charitate posita est. Modicum laborabis et jam non videbis: si queeris quousque, dico tibi: jam non videbis, labores quos pateris pro Domino, sed exultabis in eo, qui legitime pugnantibus dat coronam. Audi te Domina tua, quam hábes semper vn corãe et ante óculos. Assumpta est in cadum post muitos labores et requievit arca mense septimo super montes Armenim. O si hoc audires, quum preedicavi in ejus octava, quomodo Icetareris, sed et nunca Icetare in Ma, quae arca est manu Domini fabricata, in qua animalia pusilla cum magnis, peccatores magni et parvi refugium inveniunt, sed ut possis patrem Vicentium participem facere hujus cibi, dicam tibi materna lingua:

Acolhem-se todos os animais brutos a esta arca, betumada de dentro e de fora, e oc homens e aves que são os que andam pelo alto com seus espíritos, os quais por derradeiro, por mais santos que sejam, se a esta arca não acorrem perisuros no dilúvio. Mas eles dentro nem goteira d'água padecem e a boa da arca rechassa de si todas as ondas que a levavam de cá para lá, dando naqueles sagrados costados de seu coração. Porque, como quer que ela tinhá dentro dele a seu filho, sobre o qual o eterno Padre largou o grande dilúvio dos trabalhos e paixões, necessário era dessem no coração da Virgem onde ele estava guardado. Por estas águas andou nossa mãe trinta e três anos, enquanto ele viveu, padecendo com ele e guardando-nos a nós. As ondas que a mim me houveram de alagar no abismo do inferno, como me tinham alagado no abismo do pecado embarraram na arca dela, como bem betumada e mais forte que uma rocha, pois era mais que Cristo Jesu que é pedra angular, quebram seu furor, recebendo em si a pena de minhá culpa. O' boa mãe; ó suave mãe; ó doce mãe. Ainda que estas águas foram tão violentas, que lhe tomaram seu precioso, único e verdadeiro filho e lho mataram, contudo não tiveram poder para lhe tirarem de dentro os brutos animais dos pecadores, que Domino lhe tinhá dado por filhos, antes tanto mais os ama quanto por eles mais alagado na paixão foi seu Filho e Senhor. Para quê mais? Ainda depois de subido ele ao céu, livre do mar tempestuoso, ela se ficou cá muitos anos, com os animais dentre de si, querendo ser anatema, e apartada da face divina por seus filhinhos, com uma maior caridade que São Paulo, até que repousou esta divina arca no sétimo mês sobre os montes da Armênia. Armênia quer dizer luz do que corre: esta é a luz eterna, a claridade perpétua, a visão divina de Cristo, resplendor do Padre, o qual exultavit ut gigas ad currendam viam, dando tão grandes saltos de virtudes pelo mar deste mundo, com tanta ligeireza que todos o perderam de vista em sua paixão, perdendo a fé, senão a sua mui bem betumada arca, que sempre o acompanhou até o pé da cruz e, ainda que não correu tanto como ele, todavia sempre lhe foi pelo alcance sem perder a luz da fé. E, por isso, com muita razão o grande corredor Cristo, seu Filho, em troco dela o alcançar ao pé da cruz e ali estar recebendo em seu coração embate das ondas que ele recebia em seu corpo, a alevanta sobre os montes de Armênia com seus Querubins e Serafins, dando-lhe mais clara luz e mais claro conhecimento que a todos os Querubins, e mais incendido amor e mais suave fruição da divindade que a todos os Serafins. Outro mistério tem ainda o repousar a arca no mês sétimo, e é que, assim como Deus fez todas suas obras em seis dias et requievit septimo die, assim a Virgem bendita, arca de Deus, andou com seu Filho obrando a redenção do mundo em uma semana, que são seis dias de trabalho, porque todos os anos que viveu neste mundo foram para ele dias de semana, em que sempre trabalhou, até que chegou o Domingo em que foi folgar para sempre. De maneira que quem, neste mundo, da semana faz Domingo, no outro entrará na semana de trabalho eterno. E quem não faz mais caso desta vida que de uma semana de trabalho, da verdadeira com eternidade menos há que tomar cuidado, que quanto padece é pouco por amor de Seu Senhor, e dizendo: mihi absit gloriari in cruce Domini Nostri Jesu Cristo. Como a Virgem gloriosa, fazia acabada a semana de trabalho para repousar ao sétimo dia, que é o Domingo da eterna fragancia, senão sobre os montes de Armênia, ao menos entre os coros angélicos, onde alcançará luz de Cristo corredor e da Virgem corredora, após os quais andava, correndo nesta vida segundo seus exemplos de pobreza, castidade e obediência, dizendo-lhes: in odorem unguentorum tuorum curri/mus. Se forte interrogas porque se multiplicaram aquelas duas vezes de arriba, dicam tibi: audi bene et nota in

cado, e reina em todos aqueles que não querem ser seus filhos. Multiplicam-se seus filhos como as areias do mar e como as estrelas do céu, porque os que cá andam desprezados como areia ao longo do mar, considerando a vida da Virgem e imitando-a segundo sua fraqueza, depois se fazem claros no céu como estrelas, e mais que estrelas, pois o mesmo sol de justiça di fulgebant justi sicut sol in regno Patris mei. Aãhuc dicam tibi unum punctum, porque a verdadeira prova de multiplicar se faz por repartir, que é a quarta espécie. Pera que os filhos da Virgem se multiplicassem e nós tivéssemos certa prova de seu materno amor, ensinou-lhe seu Filho a quarta e última espécie de repartir, fazendo-a repartidora de todos seus bens. E porque, assim como ascendem in altum accepit dona in hominibus recebeu do seu Padre eterno ofício de repartir suas graças e dons aos homens, assim também, levando consigo a Virgem sua mãe, deu-lhe poder sobre todas suas coisas, fazendo-a repartidora para que, dando ela muitos dons a nós seus pobres filhinhos, nos multiplicassemos em número e virtudes, e nós, vendo tão certa prova do amor de nossa mãe, a amassemos com todo coração e a servissimos de fucinhos (í) todos os dias dessa semana para folgar ao dominical dia, quando ela nos acabará de repartir não somente dons e bens, mas dará de todo em todo a seu Filho e Senhor, que é todo e sumo e único bem. O pia Mater esto nobis semper mater, amen. Accipe frater Emmanuel minusculum hoc, quod non ego sed ipsamet virgo mittit ad te, tu ora eam semper, serva bene hac epistóllium ut servet te beata mater Dei. P. tuo.

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Sinopse

Leia gratuitamente Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, de José de Anchieta, obra colonial brasileira em domínio público. Esta edição digital consolida cartas, informações, fragmentos históricos e sermões quinhentistas em 38 capítulos internos, com texto curado a partir da edição de 1933 via BLPL/UFSC e Etnolinguística/Mindlin, notas editoriais separadas do corpo principal, espelhos HTML e preparação para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA no Literunico.

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