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Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

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Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Capítulo 29 · Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões

Informação do Brasil e de suas capitanias (1584)

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XXIX INFORMAÇÃO DO BRASIL E DE SUAS CAPITANIAS — 1584

I I s primeiros Portugueses que vieram ao Brasil foram Pedro ^"^ Alvares Cabral com alguma gente em uma nau que ia para a índia Oriental no ano de 1500 e aportou a Porto Seguro, ao qual pôs este nome porque achou o porto que se diz Santa Cruz muito seguro e bom para as naus. E toda a província ao princípio se chamava Santa Cruz; depois prevaleceu o nome de Brasil por causa do pau que nela há que serve para tintas. Tem a província do Brasil sete capitanias nomeadas, scilicet: Pernambuco, Baía, Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo, Kio de Janeiro, São Vicente. Posto que em Pernambuco há outra que chamam Tamaracá, é coisa pequena por agora e não é mais que uma ilhá pequena, em que está uma pequena vila, ainda que sua repartição é de 50 léguas, como as outras. Da mesma maneira está em São Vicente outra que é outra ilhá chamada Guaibe ou de Santo Amaro, que também tem a mesma repartição de léguas. Foi a princípio povoada com seu capitão e moradores e um engenho de assucar, mas com a perseguição contínua dos Tamoios, índios do Rio de Janeiro, se despovoou, nem tem justiça particular, tudo se reputa por São Vicente. Nela fez agora Diogo Flores de Valdez, general da armada que Sua Majestade mandou ao estreito de Magalhães, um forte com gente e artilharia, porque está da outra banda do Rio que é a barra de São Vicente onde podem entrar naus grossas. Nesta barra estiveram o ano passado de 1583 dois galeões ingleses que queriam contratar com os moradores e, vindo da arribada três naus da dita

armada maltratadas das tormentas, meteram os Ingleses uma delas no fundo com morte de alguma gente e se foram acolhendo. A Baía e Rio de Janeiro são d'El-Rei e cidades e todas as mais capitanias são de senhorios e vilas. De Pernambuco que é a primeira capitania, está em oito graus, até São Vicente, que é a última e está no trópico de Capricórnio quasi em 24°, pôde haver 350 léguas por costa correndo-se de Norte-Sul, Nordeste- Sudoeste, e de São Vicente até a lagoa dos Patos, onde começa a nação dos Carijós que sempre foram da conquista de Castela, pôde haver 90 léguas pelo mesmo rumo. Todo este gentio desta costa, que também se derrama mais de 200 léguas pelo sertão, e os mesmos Carijós que pelo sertão chegam até ás serras do Peru, teem uma mesma lingua que é grandíssimo bem para sua conversão. Entre eles pelos matos há diversas nações de outros bárbaros de diversissimas línguas a que estes índios chamam Tapuias, que quer dizer escravos, porque todos os que não são de sua nação teem por tais e com todos teem guerra. Destes Tapuias foi antigamente povoada esta costa, como os índios afirmam e assim o mostram muitos nomes de muitos lugares que ficaram de suas línguas que ainda agora se usam; mas foram se recolhendo para os matos e muitos deles moram entre os índios da costa e do sertão. Estes, posto que têm alguma maneira de aldeias e roçarias de mantimentos, é contudo muito menos que os índios e o principal de sua vida é manterem-se de caça e por isso têm uma natureza tão inquieta que nunca podem estar muito tempo num lugar, que é o principal impedimento para sua conversão, porque alioquim, é gente bem inclinada e muitas nações deles não comem carne humana e mostram-se muito amigos dos Portugueses, dizendo que são seus parentes e por meio deles têm pazes com os índios que tratam com eles, de que antes eram inimigos. Só uma nação destes que chamam Guaimuré, que ao princípio foram amigos dos Portugueses, são agora crudelissimos inimigos, andam sempre pelos matos e têm posto em grande aperto a capitania de Porto Seguro e Ilhéus, e já quasi chegam á Baía.

DOS GOVERNADORES E CAPITÃES O primeiro capitão da Baía e senhorio dela foi Francisco Pereira Coutinho. Teve guerras com os índios até que o fizeram despovoar e acolheu-se a Porto Seguro. Depois tornando á mesma Baía o acabaram de matar os índios. Na éra de 1549, veiu Tome de Sousa, o primeiro governador geral do Brasil, homem muito temente a Deus e muito inteiro na justiça e devoto da Companhia. Chegou em tempo que toda a terra estava cheia de matos e aldeias de índios; haveria até seis ou sete homens Portugueses, rodeados de todas as partes de contrários. Desembarcaram na Vila Velha, onde aqueles homens estavam em tanto perigo, e arvoraram uma cruz em lugar alto e descoberto. Este edificou a cidade da Baía onde agora está, e trase começaram de edificar igrejas entre os índios e se deu prindencia, como conservou todo o tempo que governou. Na éra de 1553 veiu o segundo governador dom Duarte da Costa. No seu tempo se levantaram algumas aldeias dos índios, ás quais deu guerra e tornou a pacificar e em seu tempo se começaram de edificar egrejas entre os índios e se deu princípio mais de propósito á conversão. Na éra de 1557 veiu o terceiro governador Mem de Sá. Este sujeitou quasi todo o Brasil, teve guerra com os índios do Paraguaçú fronteiros da Baía e muito poderosos, em que lhes queimou 160 aldeias, matando muitos e os mais sujeitou. Amansou os dos Ilhéus que estavam levantados e tinham destruídas muitas fazendas e posta a capitania em grande aperto. Destes houve muitas insignes vitórias até que ficaram sujeitos todos os índios comarcãos da Baía desde Camamú até o Itapucurú, que são 40 léguas. Sujeitou á lei de Deus e os fez ajuntar e fazer egrejas o desta maneira foi em grandíssimo aumento a conversão que foi começada em tempo de dom Duarte da Costa. Na éra de 1560 foi ao Rio de Janeiro e destruiu a torre fortíssima dos Franceses, que tinham aí edifiçada em uma ilhá com muita artilharia e gente, e dali por deante perderam os Franceses a esparança de poderem levar adeante seus propósitos que eram pousar ali e fazerem-se senhores daquela terra e dali espararem as naus da índia na altura do cabo da Bôa Esparança ou da ilhá de Santa Helena. Na éra de 1566 tornou outra vez ao Rio de Janeiro que se eomeçava a povoar por seu sobrinho Estacio de Sá, e com sua chegada se destruíram duas aldeias fortíssimas que eram fronteiras e toda a confiança dos Tamoios e com essas vitórias se começaram a entregar e fazer pazes os outros que estavam espalhados por todo o Rio de Janeiro, sua terra possuída de tantos anos. No ano de 1572 morreu na Baía, e em 14 anos que governou o Brasil sempre se confessou e comungou na Companhia e quatro ou cinco anos antes de sua morte o fazia cada oito dias e o mesmo dia que morreu se confessou geralmente com um dos nossos. Resava o Ofício Divino, e todos os dias da semana por muitas tormentas e chuvas que fizesse não deixava de vir ao Colégio a ouvir missa ante manhã. Fez á sua custa a igreja do Colégio, na qual foi sepultado, e além disto lhe fez doação das suas terras do Camamú, que são 12 léguas em quadra com 8 águas para engenhos de assucar. A Mem de Sá sucedeu Luís de Brito de Almeida que foi no ano de 1573. Este nunca consentiu fazerem-se vexações notáveis ás aldeias de doutrina que estão a cargo dos Padres, nem deixava tirar delas alguns índios que lá se acolhiam dos que os Portugueses traziam enganados do sertão. No seu tempo, e indo ele lá em pessoa, se fez a guerra do rio Real, onde os Padres tinham edificado algumas igrejas e ajuntados muitos índios nelas, como se verá largamente no papel que com este vai. Na éra 1574 veiu o dr. Antônio Salema com alçada a todo o Brasil e com titulo de governador geral das capitanias do sul, se.: Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Vicente, ordenando El-Rei D. Sebastião de boa memória que se repartisse a governança do Brasil em duas partes. Depois de fazer seu ofício da alçada em algumas partes da costa, se foi residir ao Rio com o dito titulo e poderes de governador em sua repartição. Ainda no seu tempo estavam em pé os Tamoios do Cabo Frio, grande

acolheita dos Franceses, donde vinham a fazer saltos dentro do mesmo Rio, pelo qual se determinou de lhes dar guerra e assim, com favor da capitania de São Vicente da qual veiu o capitão Jeronimo Leitão, com a maior parte dos Portugueses e muitos índios cristãos e gentios, e com esta ajuda cometeu a empreza e acabou de destruir toda a nação dos Tamoios, que ainda estava mui soberba e forte com muitas armas dos Franceses, espadas, adagas, montantes, arcabuzes e tiros grossos, sem lhe ficar aldeia que não sujeitasse até á ilhá de Santa Ana, que é o cabo delas, que são algumas 30 léguas do Rio de Janeiro. Muitos dos índios matou na primeira aldeia, que era a mais forte, e depois disto se lhe entregaram os outros quasi sem guerra, muitos dos quais se ajuntaram na aldeia dos indios cristãos, que eram dantes seus inimigos, e se batizaram e ainda alguns vivem. Com esta nova vieram alguns Tamoios do sertão, moradores da Paraíba, a lhe pedir pazes e se juntarem com os outros. Com estas vitórias ficou toda aquela terra despovoada e tirado aos Franceses o principal porto que tinham para seus tratos que é o Cabo Frio. Acabou Antônio Salema sua governança vindo Lourenço da Veiga por governador e tornou a ficar a costa toda debaixo de um governador geral como dantes. No principio do ano de 1578 veiu por governador Lourenço da Veiga, o qual por si mesmo visitou as aldeias da doutrina que estão a cargo dos Padres, com muito gosto e lagrimas de devoção, vendo as doutrinas, procissões, diciplinas e comunhões dos índios e as missas oficiadas em canto de órgão, com flautas, pelos filhos dos mesmos índios. Favoreceu a cristandade no que pôde, mandando ir para as ditas aldeias dos Cristãos alguns índios que os Portugueses trouxeram do sertão enganados e nunca os quis mandar entregar aos que os pretendiam por mais que nisto insistiram, e assim muitos deles morreram batizados e alguns vivem ainda e trabalhou sempre de conservar a liberdade de todos os índios. Morreu na Baía no ano de 1581. No ano de 1583 veiu por governador Manuel Teles Barreto. Prazerá ao Senhor que ajudará muito a cristandade e fa-

vorecerá a liberdade dos índios, como El-Rei Nosso Senhor muito lhe encomenda. DOS CAPITÃES DAS OUTRAS CAPITANIAS Da capitania de Pernambuco foi senhor e povoador Duarte Coelho. Nunca houve nela conversão de gentio; guerras muitas e alguns combates de Franceses em vida de Duarte Coelho, e muitas mais em tempo de seu filho Duarte Coelho, o qual deu tanta guerra aos índios com favor de um clérigo que se tinhá por nigromatico que destruiu toda a sua capitania e assim desde o rio de S. Francisco até lá, que são 50 léguas, não há povoação de índios, e fica agora sem nenhuma ajuda deles, e é agora aquela capitania com a de Itamaracá, que toda se reputa por uma, mui molestada dos índios Pitiguaras, moradores do rio chamado Paraíba, onde têm grande comércio os Franceses por causa do pau de brasil, e os ajudam nas guerras e fazem muito mal por terra e por mar aos Portugueses, os quais não têm índios amigos que os ajudem porque os destruíram todos. Na capitania do Espírito Santo, que é de Vasco Fernandes Coutinho, houve muitas guerras com o gentio, em algumas das quais eles foram vencedores e mataram muitos Portugueses, mas também se vieram a sujeitar e agora estão pacíficos. Houve nela e ainda há muita conversão. Na de São Vicente, que é de Martim Afonso de Sousa, á qual ele mesmo foi ter com a armada, depois de haver nela alguns poucos e antigos moradores e acrescentou muito, houve capitães ordinariamente assim como nas mais capitanias postos pelos senhorios; nunca nela houve guerras com os índios naturais que chamam Tupis, que sempre foram amigos dos Portugueses, salvo no ano de 1562, que uns poucos do sertão por sua maldade (ficando a maior parte amiga como dantes) deram guerra a Piratininga, vila de São Paulo, onde há casa da Companhia, 10 léguas da povoação do mar de São Vicente, mas logo o segundo dia foram fugindo para suas terras pela resistência que acharam nos

Portugueses e índios cristãos que foram contra seus mesmos pais, filhos e irmãos em defensão da igreja. Daí a pouco tempo morreram os mais destes levantados e tornaram a ficar as pazes e amizades fixas como dantes. Dos Tamoios do Rio de Janeiro, que são inimigos mortais dos Tupis, foi sempre combatida a capitania de São Vicente, em que lhe mataram muitos homens e levaram cativas as mulheres, filhas e filhos e escravos. Pela grande opressão que estes Tamoios davam, fizeram os Portugueses na barra da Bertioga, que é um dos portos daquela capitania e a principal entrada dos Tamoios, em que iam e vinham em canoas muito ligeiras, duas torres á sua custa e com seus trabalhos, sem ficar nenhum que não trabalhasse nelas, e ficaram tão fortes que defenderam aquela entrada dos inimigos e dos Franceses, que ás vezes vinham com eles a os ajudar. Mas com tudo isto sempre eram salteados dos Tamoios por diversas partes, de maneira que já quasi desesparavam de se poder valer com eles: até que se povoou o Rio de Janeiro. No ano de 1564 chegou Estacio de Sá, sobrinho do governador Mem de Sá, ao Rio de Janeiro, com a armada que trouxe de Portugal e muitos moradores do Brasil, assim Portugueses como índios cristãos e não indo bem fornecida do necessário para aquela empreza, se foi a São Vicente onde esteve apercebendo-se de mantimentos e do mais necessário. E fez canoas ligeiras em que no Janeiro seguinte com muita gente de São Vicente, Portugueses, Mamalucos e índios, tornou ao Rio de Janeiro com os mais navios da armada, e no princípio de Março tomou logo terra ao longo do porto, que chamam Pão de Assucar, na entrada da barra, e fez casas de madeira e cerca, onde se recolheu com parte da gente, ficando a outra nos navios, e dali com as canoas começou a conquistar os Tamoios e os foi levando pouco a pouco, havendo muito notáveis e milagrosas vitórias, lançando também fora 150 Franceses que havia dentro em uma nau, aos quais deixou ir em paz por serem mercadores e ao parecer católicos, que não vinham a povoar e depois houve outros encontros com naus que vieram de novo de França, e as fez tornar por fora maltratadas.

E assim sustentou a povoação e guerra contínua dos Tamoios que de todas as partes se ajuntavam a lhá dar, padecendo grandíssima fome por falta dos mantimentos até todo o ano de 1566, no fim do qual partiu o governador Mem de Sá da Baía com outra armada que El-Rei lhe mandou, cujo capitão-mór era Cristóvão de Barros, e chegou lá no Janeiro de 67, véspara de São Sebastião, cujo nome tinhá tomado a pobre cidade que tinham feito á honra deste santo mártir e por respeito d'El-Rei D. Sebastião. Depois de destruir duas aldeias, como acima se apontou, em uma das quais morreu seu sobrinho Estacio de Sá de uma flechada, e então mudou a cidade ao lugar onde agora está, que sempre foi em crescimento ainda que por duas vezes teve combates das naus franceses e Tamoios do Cabo Frio que cuidaram levá-la nas unhas, mas foram lançados dali com ignomínia e morte dos seus. A capitania de Porto Seguro é do Duque de Aveiro. A dos Ilhéus é de Francisco Giraldes. Houve guerras com os índios naturais em ambas; mas com as ajudas que tiveram dos Governadores da Baía se defenderam e estão agora em paz. Verdade é que se foi consumindo o gentio daquelas terras, chamado Tupinaquis, que era muito e mui guerreiro, parte com doenças, parte com o maltratamento dos Portugueses, como em todas as partes, salvo São Vicente, de maneira que ficaram sem gentio. E. mandou-lhes Deus um açoute crudelissimo, que são uns selvagens do mato que chamam Aimurés, homens robustos e feros, aos quais, enquanto houve índios amigos sempre lhes resistiram; mas faltando-lhes estes, foram e são tão acossador dos selvagens, que já a capitania de Porto Seguro está meio despovoada e a dos Ilhéus em grandíssimo aperto, sem se poder defender deles nem dar-lhes guerra, porque sempre andam pelo mato, no qual 4 bastam para destruir um grande exercito, como já fizeram, quasi sem verdes quem vos mata, e já esta praga chega pelo Camamú até perto da Baía, de maneira que já os homens buscam ilhas em que fazer suas fazendas, porque não ousam estar na terra firme.

DOS BISPOS E PRELADOS DO BRASIL O primeiro bispo do Brasil foi D. Pedro Fernandes, que servira já de provisor ou vigário geral da índia. Este veiu no ano de 1552 á Baía, cujo bispo se intitula e comissário geral de toda a costa, e assim mesmiò todos os mais, e esteve nela até o de 1556, no qual se partiu para Portugal com licença d'El-Rei. E dando a nau com a tormenta á costa, entre o rio de S. Francisco e Pernambuco, foi morto pelos índios com a maior parte da gente que com ele ia, em que entrou o primeiro provedor-mór desta província, Antônio Cardoso de Barros, que veiu com o primeiro governador Tome de Sousa. Na vacante deste veiu por visitador e comissário geral de toda a costa, o Dr. Francisco Fernandes, que regeu a igreja brasileira até á vinda de D. Pedro Leitão. D. Pedro Leitão, também clérigo foi o segundo bispo e veiu do ano de 1559. Este visitou toda a costa do Brasil, crismando e dando ordens e muitas vezes visitando as aldeias dos índios cristãos e batizava e casava muitos por si mesmo e lhes era muito afeiçoado, ajudando muito sua conversão e conservação. No seu tempo se fez um sínodo, no qual não se acharam senão os seus clérigos, nenhum dos quais era letrado. Algumas Constituições se fizeram nela, posto que em todo o Brasil sempre se guardaram as de Lisboa, ordenando alguns dias santos de novo. Morreu na Baía no ano de 1573. Deixou uma livraria ao Colégio da Companhia, de que foi muito devoto e amigo. O terceiro bispo, que agora rege a igreja do Brasil, é D. Antônio Barreiros, do habito de Aviz. Veiu no ano de 1575; faz seu ofício como os passados, posto que não se mostre tão zelozo pela conversão dos índios, nem faz muita conta da sua cristandade, tendo-os por gente boçal e de pouco entendimento, e contudo já foi visitar suas aldeias e crismou os que tinham necessidade deste sacramento. Com Lourenço da Veiga, governador, veiu no ano de 1578 por Administrador o licenciado Bartolomeu Simões Pereira, clérigo, para residir na cidade de S. Sebastião no Rio de Janeiro, com jurisdição separada do Bispo e com todos os poderes que ele, salvo dar ordens. A' sua jurisdição pertencem as quatro capitanias da banda do sul, scilicet: Porto Seguro, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Vicente. As outras ficam á jurisdição do Bispo. Este se mostra afeiçoado e zeloso da conversão dos índios e acóde por eles muitas vezes onde falta justiça secular, por serem pessoas miseráveis e que têm particular necessidade da proteção do braço eclesiástico. Tem visitadas por si mesmo todas as capitanias que estão a seu cargo. Ofício da Inquisição não houve até agora, posto que os Bispos usam dele quando é necessário por comissão que têm, mas dando apelação para o Santo Ofício de Portugal, e com isso se queimou já na Baía um Francês herege. Agora tem o bispo D. Antônio Barreiros este ofício para com os índios somente e é nomeado por seu coadjutor o Padre Luís da Grã, da Compaj nliia, que é agora reitor do Colégio de Pernambuco. DA PRIMEIRA ENTRADA DOS FRANCESES NO BRASIL Na éra de 1504 vieram os Franceses ao Brasil a primeira vez ao porto da Baía, e entraram em Paraguaçú, que está dentro da mesma Baía, e fizeram seus resgates e tornaram com boas novas á França, donde vieram depois três naus e estando no mesmo lugar em resgate, entraram quatro naus da armada de Portugal e queimaram-lhe duas naus e outra lhe tomaram com matar muita gente, alguma da qual todavia escapou em uma lanchá e achou na ponta da Itapoama, 4 léguas da Baía, uma nau dos seus que se tornou para França, e nunca mais tornaram á Baía, até agora porque sempre foi crescendo com o trato dos assucares e naus que vêm de Portugal. Os Franceses não desistiram do comércio do Brasil, e o prineipal foi no Cabo Frio e Rio de Janeiro, terra de Tamoios, os quais, sendo dantes muito amigos dos Portugueses se levantaram contra eles por grandes agravos e injustiças que lhes fizeram, e

receberam os Franceses, dos quais nenhum agravo receberam, e iam e vinham, e carregavam suas naus de pau do brasil, pimenta, pássaros, bogios e outras coisas da terra, e davam roupa e todo o gênero de armas aos índios e os ajudavam contra os Portugueses e deixavam moços na terra que aprendessem a lingua dos índios, e homens que fizessem ter prestes as mercadorias para quando viessem as naus. Daí a muito tempo, que parece que foi no ano de 1557, começaram a fazer povoações no Rio de Janeiro, e então se fez aquela fortíssima torre com baluartes e muita artilharia e casas de moradores, cujo autor foi Nicolau de Villegaignon, cavaleiro de Malta, e fundou-a em uma ilhá que está á entrada da barra no princípio daquela baía, a qual ficou com o nome de Villegaignon. Esta lhe destruiu Mem de Sá no ano de 1560, como acima se disse, sendo o Villegaignon em França e com esta nova não tornou mais ao Brasil, senão alguns que se ficaram entre os índios, tomando seus costumes e amancebando-se com as índias, e faziam roçarias de pimenta e ajuntavam outras mercadorias da terra para dar aos seus quando viessem. Estes depois se tomaram todos pouco e pouco nas guerras de Estacio de Sá. A maior parte dos Franceses desta torre e povoação eram hereges de diversas seitas e os principais eram uns ministros de Calvino que pregavam e ensinavam. De Nicolau de Villegaignon afirmavam todos eles ser católico e muito douto e grande cavalheiro; castigava mui rijamente e creio que com pena de morte os que pecavam com índias pagas; também trabalhava de resgatar os Portugueses que os Tamoios tomavam em seus saltos que davam em São Vicente. Era muito zeloso de se guardar a fé católica, mas como não podia com tantos dissimulava até ver se podia fazer a sua. Tornou-se para França, dizem que chamado d'El-Rei para as guerras contra os hereges, em que morreu; e com autoridade d'El-Rei, posto que secretamente fazia aquela povoação e pretendia povoar a terra dos Tamoios e fazer ali naus e buscar minas de prata e ouro, em cujo rasto já andavam e assim lhe chamavam já a França Antártica. Sua ida para França parece que foi no ano de 1559, porque no de 1560, em que Mem de Sá

tomou a torre, já ele aí não estava por especial providencia divina, porque todos afirmam que, se ele estivera presente, não se tomara par ser mui grande cavalheiro, posto que sua tomada mais foi por especial ajuda divina que por forças humanas, como todos viram claramente no combate, e não foi a menor que tiveram de Deus ser-lhes tirado dali este capitão. Um dos moradores desta torre era um Joannes de Boles, homem douto nas letras latinas, gregas, hebraicas e mui lido na escritura sagrada, mas grande herege. Este, com medo de Villegaignon que pretendia castigá-lo por suas heresias, fugiu com alguns outros para São Vicente nas canoas dos Tamoios que iam lá á guerra com título de os ajudarem, e chegando á fortaleza da Bertioga se meteu nela com os seus e se ficou em São Vicente. Ali começou logo a vomitar a peçonhá de suas heresias, ao qual resistiu o padre Luís da Grã e o fez mandar preso á Baía e daí foi mandado pelo bispo D. Pedro Leitão a Portugal e de Portugal á índia e nunca mais apareceu. Não fica agora trato aos Franceses no Brasil senão no rio de Paraíba 18 léguas de Pernambuco para o norte, onde ajudam os índios contra os Portugueses e lhes fazem muito mal como acima se notou. DOS FRADES QUE ANTES E DEPOIS DA COMPANHIA VIERAM AO BRASIL Os primeiros religiosos que vieram ao Brasil foram da ordem de S. Francisco, os quais aportaram a Porto Seguro não muito depois da povoação daquela capitania, e fizeram sua habitação com zelo da conversão do gentio, e, ainda que não sabiam sua lingua, de um deles se diz que lhe lia o Evangelho e, como lhe dissessem os Portugueses que para que lho lia pois o não entendiam, respondia: "Palavra de Deus é ela, tem virtude para obrar neles". Um deles na passagem dum rio se afogou donde lhe ficou o nome o rio do Frade; todos os mais mataram os índios levantando-se contra os Portugueses. E depois, não sabendo o que passava, veiu ter aí uma nau, e os índios vestidos nos hábitos com os breviarios nas mãos passeavam pela praia como os Religiosos soiam fazer, para com isto fazer cilada aos do mar e matá-los, mas quis Deus que entenderam a falsidade e escaparam. Nunca mais vieram cá religiosos até que veiu a Companhia. No ano de 60 ou 61 segundo parece, vieram sete ou oito frades de hábitos brancos, Franceses, ao Rio de Janeiro depois da fortaleza destruída, porque, como Nicolau de Villegaignon era catojico, tornando á França trabalhou de mandar religiosos ao Rio de Janeiro, assim para redução dos hereges como para conversão do gentio. Com este desejo se foi a um Colégio da Companhia em França onde, depois de confessado e comungado, pediu Padres para esta empreza, dizendo que tinhá na índia o Brasil 200 léguas de terras povoadas de gentio sujeito e pacífico: os Padres muito alvoroçados com esta nova, responderam que mandariam recado ao Padre Geral a pedir licença para isso e, como isto não se efetuou pela Companhia, trabalhou de mandar estes outros religiosos como já disse. Estes, como se soube dos mesmos Tamoios, fizeram seu recolhimento entre eles mesmos, apartados dos Franceses, ensinavam alguns meninos do gentio e os traziam vestidos com seu hábito. Mas como Villegaignon, sabida a destruição de sua torre, não quis tornar ao Brasil, ficaram os religiosos sem amparo e não somente desfavorecidos mas perseguidos dos hereges. E um dia, queimando uma roça que faziam junto de sua casa para alguma horta, pegouse-lhe o fogo á casa e queimou-lhe tudo, o qual depois contava um Francês herege não com pouco gosto seu. Assim que, neste mesmo ano ou no seguinte, os tornaram os Franceses a levar á França com a mais gente que ali ficou da fortaleza acolhida entre os Tamoios, e querem dizer que a nau fez naufrágio no caminho ou que os hereges lançaram os Frades ao mar. No ano de 1581 vieram em companhia de Frutuoso Barbosa, que vinhá povoar o rio da Paraíba, três frades do Carmo e dois ou três de S. Bento a Pernambuco. Mas como não se povoou a Paraíba, não fizeram mais que pregar e confessar sem fazer mosteiro.

Veiu também em sua companhia um de S. Francisco que também pregou algum tempo em Pernambuco e tornou-se para o reino. No ano de 83 vieram dois de S. Bento com ordem de seu Geral. A estes se deu um bom sítio na Baía e uma igreja de S. Sebastião e fazem já mosteiro: são três por todos até agora e começam a receber alguns outros a ordem. Na mesma cidade, no mesmo ano, se deu sítio e casa a uns dois de S. Francisco, que vieram mandados por El-Rei para o rio da Prata com outros; mas estes ficaram-se na capitania do Espírito Santo, como ficaram outros em São Vicente, que vieram na armada do Estreito. Praza a Deus que todos vão adeante para sua glória. DA VINDA DOS PADRES DA COMPANHIA AO BRASIL No ano de 1549, o primeiro de Fevereiro, dia de S. Inácio mártir, partiram de Belém em companhia de Tome de Sousa, o primeiro governador do Brasil, por mandado de El-Rei D. João III e por ordem de nosso Padre Inácio de Loiola, quatro padres da Companhia, scilicet: o padre Manuel da Nóbrega, superior, o padre João de Aspilcueta Navarro, o padre Leonardo Nunes e o padre Antônio Pires e dois irmãos, scilicet: Diogo Jacome e Vicente Rodrigues. Todos estes são mortos na Companhia em seus ministérios, salvo Vicente Rodrigues que ainda é vivo e sacerdote. No ano seguinte de 1550 vieram quatro padres, scilicet: o Padre Salvador Rodrigues, que faleceu na Companhia no ano 1553 , dia da Assunção de Nossa Senhora, de que era muito devoto, e o padre Manuel de Paiva que faleceu no Espírito Santo a 21 de Dezembro de 84, os padres Afonso Braz e Francisco Pires que ainda vivem. No ano de 1553 vieram seis da Companhia com o segundo governador D. Duarte da Costa, scilicet: o padre Luís da Grã. o padre Braz Lourenço e o irmão João Gonçalves, o qual morreu depois de sacerdote na Companhia com muita santidade, e os irmãos Antônio Blasquez, Gregorio Serrão, José de Anchieta e todos os cinco ainda vivem, todos sacerdotes. Depois destes por diversos anos vieram outros Padres e Irmãos que passariam de setenta, os mais deles já recebidos lá e outros para cá se receberem, entre os quais vinham muito bons latinos, outros filósofos, outros teólogos e pregadores: entre estes vinham Italianos, Espanhóis, Flamengos, Ingleses, Hibernios e os mais deles Portugueses. Muitos destes são ainda vivos na Companhia do Brasil e se ocupam com fruto nos ministérios dela. Alguns faleceram nela com mostras de muita virtude. Outros muitos se receberam cá na Companhia assim dos que vinham de Portugal como dos nascidos na terra. Antes da vinda dos Padres não havia cristandade nem quem pregasse o Evangelho no Brasil: eles o começaram a pregar de propósito, com que se fez muito fruto nas almas, como se vê pelo progresso da Companhia e conversão na Baía e mais capitanias da costa até este presente ano de 1584, e na Baía foi a primeira entrada e casa dos Padres e princípio da propagação da Companhia e algum começo da conversão do gentio, ao menos nos filhos dos índios, porque os pais estavam ainda então muito duros e agrestes. No mesmo ano de 1549 que chegou o padre Manuel da Nóbrega ao Brasil, mandou o padre Leonardo Nunes e o irmão Diogo Jacome á capitania de São Vicente, que é a última da costa, onde foi recebido dos Portugueses como anjo ou apóstolo de Deus e vivendo eles dantes tão mal ou peor que os Brasis, fizeram tão grande mudança de vida que ainda agora se enxerga naquela terra um néscio quid de mais virtude, devoção e afeição á Companhia que em toda a costa, porque também a vida do padre Leonardo Nunes era mui exemplar e convertia mais com obras que com palavras. Aqui fizeram os moradores uma casa á Companhia, que foi a segunda que houve no Brasil. Aqui se receberam logo á Companhia o irmão Pedro Corrêa e o irmão Manuel de Chaves, homens antigos na terra e línguas, e com ajuda deles se começou a ensinar a doutrina na lingua do Brasil aos Mamalucos e Mamalucas, filhos dos Portugueses e aos escravos da terra, que havia muitos, com que começou de haver alguma luz no Brasil pelas muitas pregações que o irmão Corrêa lhes fazia em sua lingua. Aqui finalmente se entendeu mais de propósito na conversão do gentio, o qual, como foi sempre muito amigo dos Portugueses, deram muitos deles de boa vontade seus filhos ao Padre para que fossem ensinados, dos quais ajuntou muitos e os batizou, ensinando-os a falar Português, lêr e escrever, e sustentou do necessário para o corpo com grandíssimo trabalho seu e dos irmãos até o ano de 1554, que foram passados ao campo de Piratininga onde há muito mantimento. Este se pode chamar o primeiro colégio dos catecumenos que houve no Brasil, o qual o padre Manuel da Nóbrega, indo àquela capitania no ano de 1553, levou por deante, ordenando que fosse confraria do Menino Jesus, juntando-lhe alguns dos moços órfãos que vieram de Portugal no tempo do padre Pedro Domenico e alguns mestiços da terra, onde todos eram doutrinados: e os de Portugal aprendiam a lingua da terra. Esta maneira de confraria se ordenou também na Baía e na capitania do Espírito Santo, mas depois, vindo as Constituições e por ordem de Roma, se desfizeram, e tornou tudo o que tinham á Companhia na qual ficaram muitos destes órfãos que vieram de Portugal, e alguns dos de cá recolhidos que foram e ainda são grandes obreiros nela, ocupando-se na conversão do gentio com a lingua que sabem e o sacerdócio que receberam. No ano de 1554, mudou o padre Manuel de Nóbrega os filhos dos índios ao campo, a uma povoação nova chamada Piratininga, que os índios faziam por ordem do mesmo Padre para receberem a fé. Também mandou alguns 12 Irmãos para que estudassem gramática e juntamente servissem de intérpretes para os índios, e assim aqui se começou o estudo da gramática de propósito e a conversão do Brasil, porque naquela aldeia se ajuntaram muitos índios daquela comarca e tinham doutrina ordinária pela manhã e á tarde e missa aos dias santos, e a primeira se disse no dia da conversão de São Paulo do mesmo ano e se começaram a batizar e casar e viver como cristãos, o qual até àquele tempo não se tinhá feito nem na Baía nem em alguma outra parte da costa. A conversão destes não cresceu tanto como a da Baía, porque nunca tiveram sujeição, que é a principal parte necessária para

este negócio, como houve depois na Baía em tempo do governador Mem de Sá. Mas, comtudo, perseveram até agora. E têm duas igrejas feitas em duas aldeias, onde cada domingo, alternatim, são visitados dos Padres, e são em certa maneira mais que louvar, porque tudo que dão de si é voluntário, sem medo de ninguém, porque ainda agora aquela gente está intacta, sem sentirem as tiranias dos Portugueses, nem creio que lhas quererão sofrer, porque têm grandíssimo sertão onde facilmente se podem ir sem pqderem ser molestados deles; mas, comtudo, como os Portugueses trabalham muito por conservar sua amizade, sempre estão fixos no começado e vivem como cristãos e trazem outros seus parentes do sertão a morar comsigo para que também recebam a fé. Neste ano de 1550 até 53 se fizeram casas da Companhia em Porto Seguro e no Espírito Santo. Em Porto Seguro, uma légua da povoação dos Portugueses, se fez a casa de Nossa Senhora d'Ajuda, onde milagrosamente ela deu uma fonte d'água que parece procede de debaixo de seu altar, onde se fizeram e fazem continuamente muitos milagres e é casa de grandíssima romaria e devoção, porque quasi quantos enfermos lá vão e se lavam com aquela água saram, e os que não podem lá ir mandam por ela e bebendo-a faz o mesmo efeito. Depois se fez a casa da Companhia dentro da mesma vila dos Portugueses e por ordem do nosso Padre Geral Everardo se deixou aquela igreja ao Bispo, mas ainda a Companhia tem lá uma casa onde se recolhem, indo todos os sábados lá a dizer missa e fazer alguma pregação dos louvores de Nossa Senhora, por continuar a devoção da gente, que tem já nela feita confraria com bons ornamentos. Depois se fizeram casas em Pernambuco, Ilhéus e Rio de Janeiro, e assim em todas as Capitanias da costa há residência da Companhia e ela é a que açode a todas as necessidades espirituais, assim de Portugueses como de índios, como mais miudamente se dirá no título seguinte.

DAS OCUPAÇÕES E TRABALHOS DA COMPANHIA Para se entenderem as ocupações e trabalhos dos da Companhia no Brasil, apontar-se-ão brevemente as povoações de Portugueses e índios que nele há, a todas as quais os nossos açodem. Na Capitania de Pernambuco, além da vila principal chamada Olinda, há outra que se chama Igaruçú, que dista dela cinco léguas, onde está uma igreja de S. Cosme e Damião de grande devoção e se fazem nela muitos milagres pelos merecimentos destes Santos Mártires. Daí a duas léguas está a ilhá de Itamaracá com sua vila e igreja. Item na dita Capitania de Pernambuco há muitas fazendas e alguns 60 ou mais engenhos de assucar a três, quatro, cineo e oito léguas por terra, cada um dos quais é uma boa povoação com muita gente branca, Negros de Guiné e índios da terra. A todos estes açodem os da Companhia com pregações, doutrinas e confissões, passando as grandes calmas daquela terra. Na Baía, além da cidade, há nove freguezias e alguns 40 engenhos a 4, 8 e 12 léguas por mar e por terra, cheios de Portugueses, índios da terra e Negros de Guiné, a que os Padres açodem com seus ministérios, porque, ainda que têm curas, não sabem a lingua da terra nem se matam muito por acudir aos de Guiné, nem são para poder pregar aos Portugueses. E isto além das aldeias dos índios, de que têm particular cuidado os nossos em que sempre residem. Quatorze léguas da cidade para o norte se fez uma ermida da Conceição de Nossa Senhora, na fazenda de um homem dos antigos e principais da terra, mui perfeita e de muita devoção i'408). Está em um alto sobre o mar, onde se vê dos navegantes, e através pelo sertão tem a aldeia dos índios chamada Santo Antônio. Na Capitania dos Ilhéus há alguns engenhos e fazendas a duas e mais léguas por mar e por terra, com índios da terra e Portugueses, aos quais continuamente açodem os nossos. Na de Porto Seguro, há duas vilas de Portugueses quatro léguas uma da outra, e duas aldeias de índios da doutrina a

cinco léguas, de que os nossos têm particular cuidado, e outras sete ou oito aldeiazinhas a quatro, cinco e seis léguas por terra e dois ou três engenhos de assucar junto delas, ás quais açodem de quando em quando, e de Porto Seguro ao rio das Caravelas há 20 léguas por mar, onde está outra povoação de Portugueses que também os Padres visitam. Na Capitania do Espírito Santo há duas vilas de Portugueses perto uma da outra meia légua por mar. Em uma delas, que está na barra e chamam Vila Velhá por ser a primeira que ali se fez, está num monte mui alto e em um penedo grande uma ermida de abobada que se chama Nossa Senhora da Pena, que se vê longe do mar e é grande refrigerio e devoção dos navegantes e quasi todos vêm a ela em romaria, cumprindo as promessas que fazem nas tormentas, sentindo particular ajuda na Virgem Nossa Senhora, e dizse nela missa muitas vezes. Esta ermida edificou-a um Castelhano com ordens sacras chamado frei Pedro, frade dos Capuchos, que cá veiu com licença de seu Superior, homem de vida exemplar, o qual veiu ao Brasil com zelo da salvação das almas e com ele andava pelas aldeias da Baía em companhia dos Padres. Desejando de batizar alguns desamparados e como não sabia letras nem a lingua, porque este seu zelo não fosse, non sine scientia, batizando alguns adultos sem o aparelho necessário, admoestado dos Padres, lhes pediu em escrito algum aparelho na lingua da terra para poder batizar alguns que achasse sem remédio e os Padres não pudessem acudir e assim remediava muitos inocentes e alguns adultos. Com este mesmo zelo se foi á Capitania do Espírito Santo onde fez o mesmo algum tempo, confessando-se com os Padres e comungando a miúdo, até que começou e acabou esta ermida de Nossa Senhora com ajuda dos devotos moradores, e ao pé dela fez uma cazinhá pequenina á honra de S. Francisco, na qual morreu com mostras de muita santidade. Há mais nesta Capitania quatro ou cinco engenhos a três e quatro léguas, por mar e por terra, com índios. Há ao longo da costa, 8 léguas para o Sul e outras 8 para o Norte, quatro ou cinco aldeias de índios que os nossos visitam por mar e ás vezes por tprra onde há conversão e se batizam e casam ordinariamente. Além

destas tem duas aldeias muito populosas de índios, algumas 3 léguas da vila por água com suas igrejas, as quais há muitos anos que sustentam e têm nelas residência, e onde se têm ganhado e ganham muitas almas e sempre do sertão vêm índios á fama delas a morar com seus parentes e fazer-se cristãos. No Rio de Janeiro está a cidade e muitas fazendas pela baía dentro que deve ser de algumas 20 léguas em roda. Além dela têm os Padres duas aldeias de índios, uma defronte da cidade em que têm residência desde o princípio da povoação do Rio, e outra daí cinco léguas por terra e por mar que se visita a miúdo. Na Capitania de São Vicente dentro da ilhá que é a que primeiro se povoou, há duas vilas de Portugueses, duas léguas uma da outra, por terra, e há três ou quatro engenhos de assucar e muitas fazendas pelo recôncavo daquela baía e três ou quatro léguas por mar. Item, em frente tem a ilhá de Guaibe, no cabo da qual, para o Norte, tem uma barra com as fortalezas da Bertioga quatro e seis léguas das vilas, e da parte do Sul, que é a outra barra, tem o forte que agora se fez por Diogo Florez, general, com gente de guarnição, e dentro da mesma ilhá estão moradores com a igreja de S. Amaro. Ao longo da praia, na terra firme, nove ou dez léguas da vila de São Vicente para o Sul, tem uma vila chamada Itanhaen de Portugueses e junto dela, da outra banda do rio como uma légua, tem duas aldeias pequenas de índios cristãos. Nesta vila tem uma igreja de pedra e cal, na qual, quando se reedificou, o Administrador deitou a primeira pedra com toda a solenidade: é da Conceição de Nossa Senhora, onde de toda a capitania vão em romaria e a ter novenas, e fazem-se nela milagres. Para o sertão, caminho do Noroeste, além de umas altíssimas serras que estão sobre o mar, tem a vila de Piratininga ou de São Paulo, 14 ou 15 léguas da vila de São Vicente, três por mar e as mais por terra, por uns dos mais trabalhosos caminhos que creio há em muita parte do mundo. Este campo é mui fértil de mantimentos, criações de vacas, porcos, cavalos, aves, etc. Dá-se nele muito vinho, marmelos e outras frutas da Espanhá e trigo e ce-

vada, posto que os homens não curam de o semear pela facilidade e bondade do mantimento da terra que chamam mandioca. Esta vila antigamente era da invocação de S. André e estava três léguas mais para o mar, na borda e entrada do campo, e no ano de 60 por mandado do governador Mem de Sá se mudou a Piratininga, porque não tinham cura e somente dos Padres da Companhia era visitada e sacramentada, assim os Portugueses como os índios seus escravos, como nem ainda agora têm outro cura senão os da Companhia que lhes ministram todos os. sacramentos por caridade; onde temos casa e igreja da conversão de São Paulo, porque em tal dia se disse a primeira missa naquela terra numa pobre cazinha, e em Piratininga, como acima se disse, se começou de propósito a conversão do Brasil, sendo esta a primeira igreja que se fez entre o gentio. Junto desta vila, ao princípio havia 12 aldeias, não muito grandes, de índios, a uma, duas e três léguas por água e por terra, as quais eram continuamente visitadas pelos Padres e se ganharam muitas almas pelo batismo e outros sacramentos. Agora estão quasi juntas todos em duas: uma está uma légua da vila, outra duas, cada uma das quais tem igreja e é visitada dos nossos como acima se disse. As fazendas dos Portugueses também estão da mesma maneira espalhadas a duas e três léguas e açodem os domingos e dias santos á missa. Em todas as Capitanias há Casas de Misericórdia, que servem de hospitais, edificadas e sustentadas pelos moradores da terra com muita devoção, em que se dão muitas esmolas, assim em vida como em morte, e se casam muitas órfãs, curam os enfermos de toda a sorte e fazem outras obras pias, conforme a seu instituto e a possibilidade de cada uma e anda o regimento delas nos principais da terra. Há também muitas confrarias em que se esmeram muito e trabalham de as levar adeante com muito cuidado e devoção. A todas estas Capitanias desta maneira divididas açodem sempre os nossos com seus ministérios e quanto aos Portugueses eles levam pondus diei et cestus nas pregações, confissões, doutrinas, etc, porque tirando a Baía e Pernambuco (posto que também nestas a maior parte das confissões e pregações é dos Padres) em todas as mais quasi nunca há pregação senão da Companhia e quasi toda a gente se confessa com ela e são notados os que com a Companhia se não confessam, de maneira que não têm os curas mais que fazer que dizer suas missas, batizar crianças e dar o sacramento da Eucaristia e Extrema Unção, enterrar e ainda nisto muitas vezes são relevados pelos nossos por eles não poderem acudir. Quanto aos escravos dos Portugueses, índios da terra, desde que o Brasil é povoado nunca se disse missa nem por cura nem por mandado do Bispo algum por respeito deles, antes em partes onde não há casas da Companhia nunca a ouvem, nunca por cura foram confessados porque lhes não sabem a lingua, sinão algum agora nestes tempos que há já algum mestiço sacerdote. Nas batizados que se faziam, como não levavam nenhum aparelho nem conhecimento das coisas da Fé, nem arrependimento de pecados, não somente não recebiam graça, mas muitas vezes nem caráter pela grande ignorância deles que não sabiam o que recebiam e dos que lho davam sem lho dar a entender, e desta maneira viviam e vivem ainda agora muitos em perpétuas trevas sem terem ntais que nomes de cristãos, de maneira que assim se haviam com eles e ainda agora se hão, como que não fossem suas ovelhas; nem os Bispos fazem muito caso disso, pois com os índios livres visto está que se não faz diligência nenhuma no que toca a sua salvação, quasi como de gente que não tem alma racional nem foi criada e redimida para a Glória. Toda esta carga tomou a Companhia a seus ombros, porque, desde que entrou no Brasil, logo ordenou que se dissesse cada domingo missa particular para os escravos e isto continuou até agora em toda a costa, doutrinando-os cada dia, instruindo-os para o Batismo, casando-os e confessando-os, nem se sabe em toda a terra chamar outrem para lhes acudir senão os nossos. Os perigos e trabalhos que nisto se passam, pela diversidade dos lugares a que açodem, se podem conjeturar: perigos de cobras, de que há grandíssima cópia nesta terra, de diversas espécies, que ordinariamente matam com sua peçonha, de que frequentissimamente quasi por milagre são livrados e alguns mordidos sem perigar; perigos de onças ou tigres, que também são muitos pelos deser- tos e matos por onde é necessário caminhar; perigos de inimigos de que algumas vezes por providência divina têm escapado; tormentas por mar e naufrágios, passagens de rios caudalosos, tudo isso é ordinário; calmas muitas vezes excessivas que parece chegar um homem a ponto de morte, de que vêm a passar gravíssimas enfermidades; frio principalmente na Capitania de São Vicente, no campo, onde já por vezes se acharam índios mortos de frio e assim acontecia muitas vezes, ao menos aos princípios, a maior parte da noite não poder dormir de frio nos matos por falta de roupa e d« fogo, porque nem calça nem sapato havia, e assim andavam as pernas queimadas das geadas e chuvas muitas e mui grossas e contínuas, e com isto grandes enchentes de rios e muitas vezes se passam águas muito frias por longo espaço pela cinta e ás vezes pelos peitos; e todo o dia com chuva muito grossa e fria gastando depois grande parte da noite em enxugar a roupa ao fogo sem haver outra que mudar. E contudo, nada disto se estima e muitas vezes por acudir a batizar ou confessar um escravo de um Português se andam seis e sete léguas a pé, e ás vezes sem comer; fomes, sedes et alia hujusmodi; e finalmente, a nada disto se negam os nossos, mas sem diferença de tempos, noites nem dias, lhes açodem e muitas vezes sem ser chamados os andam a buscar pelas fazendas de seus senhores, onde estão desamparados. E quando há doenças gerais, como houve cá muitas vezes de bexigas, priorizes, tabardilho, câmaras de sangue, etc, não há descansar, e nisto se gasta cá a vida dos nossos, com que se têm ganhado em todo o Brasil muitas almas ao Senhor. Acompanharam algumas vezes nas guerras justas os governadores e capitães onde remedeiam as almas dos Portugueses e dos escravos índios, batizando e confessando, e além disso por seu meio se têm alcançadas vitorias mui notáveis estando os Portugueses em evidentes perigos de ser destruídos, como se viu na guerra que fez Antônio Salema ao Cabo Frio, onde na primeira aldeia que havia em toda a terra que estava ali junta, estavam já em grande tribulação e o índio principal dela, ouvindo e conhecendo as palavras de um nosso Padre, se entregou a si e a toda a aldeia e dali se sujeitou todo o Cabo Frio sem trabalho, O mesmo foi na Capitania do Espírito Santo: estando quasi

todos os moradores sobre uma forte aldeia daí 30 léguas, já desconfiados e em perigo de se perder, pelas palavras de outro nosso Padre se entregou aquela aldeia e outras. E assim aconteceu noutras em São Vicente, pois no Rio de Janeiro, temendo-se os Portugueses que estava o sertão alevantado acorreram-se aos Padres e assim pelo bem comum foi lá mandado um Padre lingua muito doente que havia muitos anos que lançava sangue pela boca e entrou muitas léguas pelo sertão, passando aquelas serras que são as maiores que há no Brasil e esteve lá seis meses e pacificou o sertão e trouxe comsigo algumas 600 almas de índios passando grandíssimos trabalhos e perigos dos quais índios se fez uma das aldeias do Rio e são já quasi todos cristãos. O que os nossos têm feito e fazem na conversão dos índios livres ver-se-á por outra informação, que com esta vai, que trata isso particularmente, dos quais índios têm feito muitos capazes do Santíssimo Sacramento, que recebem com muita devoção, — capazes, digo, quanto ao conhecimento deste altíssimo mistério, que, quanto á vida, não tenho dúvida que excede á maior parte dos Portugueses do Brasil, porque muito menos pecados cometem que eles, e os peores nesta parte são os que com eles têm mais trato e isto se lhes pega de sua conversação e exemplo. Naquela mesma informação se verão os inconvenientes que houve e há para sua conversão e poucas ajudas e as causas da sua diminuição: dela mesma se pôde coligir o número de cristãos que são feitos e mortos, posto que, além dos próprios das aldeias se tem feito outra grande multidão deles em missões e contínuas visitas, como acima se tem tocado, e bem creio que chegarão a cem mil. DOS COLÉGIOS DA COMPANHIA A casa de São Paulo de Piratininga como foi princípio de conversão, assim também o foi dos Colégios do Brasil. Esteve esta província creio que até ao ano de 1554 ou 1555 subordinada a Portugal e neste mesmo ano foi nomeado por Provincial o Padre Manuel de Nóbrega, no qual tempo indo a São Vicente o Padre Luís da Grã, seu colateral, em Janeiro de 1556, com seu parecer e conselho fez o Padre Nóbrega daquela casa colégio, aplicando-lhe toda a fazenda movei e de raiz que havia na capitania de São Vicente que pertencesse á Companhia. Ali houve sempre estudo de latim para os Irmãos da Companhia e uma lição de casos que lhes lia o Padre Luís da Grã até ao ano de 1561, no qual se mudou o estudo para a vila de São Vicente, porque havia já lá moços de fora que podiam estudar, dos quaes se juntaram uns poucos que estudaram; mas com as guerras que sobrevieram do gentio, não se pôde continuar senão até ao ano de 62, e contudo ficou a casa de São Vicente com título de colégio mudado de São Paulo para ali até á éra de 1566, em que chegou lá o padre Inácio de Azevedo, mártir, que vinhá por Visitador e ordenou que dali por deante, se houvesse de haver colégio, se mudasse para o Rio de Janeiro, o qual se esparava que iria cada vez em maior aumento, por ser capitania d'El-Rei e terra mais rica e fértil como depois se fez. Ao tempo que chegou o Padre Luís da Grã a São Vicente, no ano de 1556, estava o Padre Manuel da Nóbrega determinado de ir ao rio da Prata, em companhia de uns castelhanos que entravam pelo sertão, porque naquela terra havia grandíssimas esparanças de grande conversão dos índios Carijós, que são da coroa de Castela. Mas, com ajuda do Padre Luís da Grã, que era seu colateral, se mudou o conselho, por ser aquele reino estranho, e, deixando o dito Padre em São Vicente, em seu lugar, se foi á Baía, levando comsigo alguns Irmãos no ano de 56, e dali por deante se começou ali o estudo da gramática mais de propósito aos Irmãos da Companhia, e ordenou que aquela casa fosse colégio no ano de 1556, com algumas terras e vacas que tinha, o qual depois se dotou para 60 irmãos por el-rei D. Sebastião, no ano de 1565. Este colégio foi o segundo da Companhia no Brasil, e como a cidade da Baía teve grandes aumentos nos engenhos de assucar e fazendas e muito trato de Portugueses, e como é o assento dos Governadores e Bispos, assim ele também cresceu muito, porque todos os Irmãos que eram mandados de Portugal vinham a ele e prosseguiu seu estudo muito de propósito, abrindo-se escolas para todos os de fóra. Nele há de ordinário escola de lêr, escrever algarismo, duas classes de humanidade, leram-se já dois cursos de artes em que se fizeram alguns mestres de casa e de fóra, e agora se acaba terceiro. Há lição ordinária de casos de conciência, e, ás vezes, duas de teologia, donde saíram já alguns mancebos pregadores, de que o Bispo se aproveita para sua Sé, e alguns curas para as freguezias. A este colégio estiveram subordinadas todas as casas das capitanias, até que houve outros colégios, e agora não são mais a ele subordinadas que as de Ilhéus e Porto Seguro. O segundo colégio é o de Rio de Janeiro, que se fundou e dotou para cincoenta por El-Rei D. Sebastião no ano de 1567. Nele houve sempre escola de lêr, escrever e algarismo, uma classe de latim e lição de casos de conciência para toda a sorte de gente e para aqui, como dito é, se mudou o primeiro colégio que houve em São Paulo e São Vicente: a este colégio estão subordinadas as casas de São Vicente e São Paulo de Piratininga e a do Espírito Santo. O último colégio é o de Pernambuco e foi fundado e dotado para vinte por el-rei D. Sebastião no ano de 1576. Nele houve sempre escola de ler, escrever e algarismo, uma classe de latim, e uma lição de casos, de maneira que os colégios agora são três: o primeiro e principal é o da Baía, segundo o de Rio de Janeiro, terceiro o de Pernambuco, os quais têm suas rendas. As mais casas vivem de esmola que lhes dão os moradores, fracamente, conforme a sua possibilidade, que é pouca; e porque eles não podem suprir a tudo por serem pobres, os colégios provêm as casas que lhes são subordinadas de vestido, vinho, azeite, farinha para ostias e outras coisas que não há na terra e hão de vir necessariamente de Portugal. Em todas estas casas há sempre escola de lêr, escrever e algarismo para os moços de fóra. DOS PROVINCIAIS DO BRASIL E REITORES DOS COLÉGIOS O primeiro Provincial foi o Padre Manuel de Nóbrega no ano "de 1555, porque até então foi subordinada esta província á de Portugal; durou no cargo até ao ano de 1559.

No de 1559 foi o segundo Provincial o Padre Luís da Grã até ao ano de 1570 em que vinhá por Provincial o Padre Inácio de Azevedo, mártir, que fica no terceiro lugar. No quarto lugar foi outra vez nomeado o padre Manuel da Nóbrega, mas era falecido no mesmo ano que o padre Inácio, mártir, e portanto ficou por Vice-Provincial o Padre Antônio Pires, que era superintendente do Colégio da Baía, e isto por ordem que assim deixou o Padre Inácio, mártir, em sua visita: teve este cargo nove»meses e faleceu em Março de 1572. Depois de sua morte, pela mesma ordem do Padre Inácio, mártir, ficou por Vice-Provincial o Padre Gregorio Serrão, reitor do Colégio da Baía: teve este cargo um mês. O quinto Provincial foi o Padre Inácio Tolosa, Espanhol, no ano de 1572 até ao ano de 1577. O sexto Provincial o Padre José de Anchieta, Biscainho, o ano de 1577 e ainda tem o cargo neste presente de 1584. Reitores dos Colégios foram os seguintes^ do da Baía foram algum tempo os Padres Francisco Pires, Manuel de Paiva, João de Melo, Portugueses, depois foi o Padre Gregorio Serrão, Português, que teve o ofício alguns 20 anos; e sendo ele eleito por Procurador para ir a Roma, teve o cargo pouco tempo o Padre Luís da Grã, Português, e depois o Padre Quiricio Caixa, Castelhano, dois anos, todo o tempo que o Padre Gregorio Serrão gastou na jornada, o qual veiu de lá outra vez, com o mesmo cargo, e até ao presente ano de 1584 persevera nele, e por sua velhice e longa enfermidade foi eleito o Padre Luís da Fonseca, Português, por vicereitor, e já agora, porque o dito Padre Gregorio Serrão não pode fazer o seu ofício, é reitor. Do Colégio do Rio de Janeiro foi o primeiro o Padre Manuel de Nóbrega que o começou a fundamentis e nele acabou a vida, depois de deixar toda aquela terra sujeita e pacífica, com os índios Tamoios sujeitos e vencidos, e tudo sujeito a El-Rei, sendo ele o que mais fez na povoação dela, porque com seu conselho, fervor e ajuda se começou, continuou e levou ao cabo a povoação do Rio de Janeiro. Depois lhe sucedeu o Padre Braz Lourenço, Português, alguns anos e a ele o Padre Pedro de Toledo, Castelhano, o qual primei- ro foi vice-reitor e depois reitor. Agora tem o cargo de reitor o Padre Inácio de Tolosa. Do Colégio de Pernambuco foi o Padre Agustin dei Castilho, Castelhano, o qual aí mesmo morreu, e depois o Padre LUÍB da Grã, que ainda agora tem o cargo. DAS RELÍQUIAS E INDULGÊNCIAS Pela benignidade de Deus, dos Sumos Pontífices, da Imparatriz e de outros Senhores e Reis, vieram ao Brasil relíquias muito notáveis, a saber: o lenho da Cruz, seis cabeças das Onze Mil Virgens e as relíquias de S. Sebastião, S. Braz, S. Cristóvão, dos Mártires Tebeus e de outros muitos santos, Agnus Dei e Contas bentas, que estão repartidas pelos Colégios e casas da Companhia, e com as quais se excitou muito a devoção dos moradores do Brasil e se tem feito muito proveito nas almas. Assim mesmo muitas Indulgências plenárias e Jubileus que se ganham muito freqüentemente, assim pelos Portugueses como pelos índios, e é tanta a misericórdia de Deus nesta parte e a liberalidade dos Sumos Pontífices seus vigários que cada mês há jubileu em nossos colégios, com grande freqüência de confissões e comunhões para a glória do mesmo Deus e proveito das almas e os mesmos soldados das armadas e marinheiros vão de cá enriquecidos com Agnus Dei, Contas bentas, e Indulgências plenárias que se lhes concedem pelos Padres da Companhia. DOS COSTUMES DOS BRASIS Desde o rio do Maranhão, que está além de Pernambuco para o Norte, até a terra dos Carijós, que se estende para o Sul desde ã alagôa dos Patos até perto do rio que chamam de Martim Afonso, em que pode haver 800 léguas de costa, em todo o sertão dela que se estenderá com 200 ou 300 léguas, tirando o dos Carijós, que 6 muito maior e chega até ás serras do Peru, há uma só lingua.

Todos estes ordinariamente andam nus, ainda que os Carijós e alguns dali para avante, por ser terra muito fria, usam de peles de veados e outros animais que matam e comem, e as mulheres fazem umas como mantas de algodão que cobrem meio corpo. Todos os da costa que têm uma mesma lingua comem carne humana, posto que alguns em particular nunca comeram e têm grandíssimo nojo dela. Entre os Tapuias se acham muitas nações que não a comem, nem matam os inimigos senão no conflito da guerra. A maior honra que têm é tomar algum contrário na guerra e disto fazem mais caso que de matar, porque muitos dos que o tomam os dão a matar a outros, para que fiquem com algum nome, o qual tomam de novo quando os matam, e tantos nomes têm quantos inimigos mataram, posto que os mais honrados e estimados e tidos por mais valentes são os que os tomam. Naturalmente são inclinados a matar, mas não são cruéis: porque ordinariamente nenhum tormento dão aos inimigos, porque se os não matam no conflito da guerra, depois tratam-os muito bem, e contentam-se com lhes quebrar a cabeça com um pau, que é morte muito fácil, porque ás vezes os matam de uma pancada ou ao menos com ela perdem logo os sentidos. Se de alguma crueldade usam, ainda que raramente, é com o exemplo dos Portugueses e Franceses. Casamentos de ordinário não celebram entre si e assim um tem três e quatro mulheres, posto que muitos não têm mais do que uma só e, se é grande principal e valente, tem^ dez, doze e vinte. Tomam umas e deixam outras: verdade é que em muitos há verdadeiros matrimônios in lege naturoe, e assim muitos mancebos até que casem, por ordem e conceito de seus pais servem ao sogro ou sogra que há de ser, antes que lhe dêm a filha, e assim quem tem mais filhas é mais honrado pelos genros que com elas adquirem, que são sempre muito sujeitos a seus sogros e cunhados, os quais depois dos pais têm grandíssimo poder sobre as irmãs e muito particular amor, como elas também toda a sujeição e amor aos irmãos com toda a honestidade. Todos os filhos e filhas de irmãos têm por filhos e assim os chamam; e desta maneira um homem de 50 anos chama pai a um menino de um dia, por ser irmão de seu pai e por esta ordem tem grande reverência a todas as mulheres que vêm pela linhá dos machos, não casando com elas de nenhuma maneira, ainda que sejam fóra do quarto grau. As sobrinhas, filhas de irmãs e deinceps, têm por verdadeiras mulheres, e comumente casam com elas, sine discrimine , Os de uma nação são muito pacíficos entre si, e de maravilha pelejam senão de palavra e ás punhadas, e se alguma hora com a quentura demasiada do vinho vai a coisa muito avante, as mulheres logo lhes escondem as flechas e outras armas, até os tições de fogo, porque se não matem e firam, porque de uma morte destas ás vezes acontece dividir-se uma nação com guerra civil, e matarem-se e comerem-se e destruirem-se, como aconteceu no Rio de Janeiro. São muito dados ao vinho, o qual fazem das raizes da mandioca que comem, e de milho e outras frutas. Este vinho fazem as mulheres, e depois de cozidas as raizes ou o milho, o mastigam porque com isso dizem que lhe dão mais gosto e o fazem ferver mais. Deste enchem muitos e grandes potes, que somente servem disso e depois de ferver dois dias o bebem quasi quente, porque assim não lhes faz tanto mal nem os embebeda tanto, ainda que muitos deles, principalmente os velhos, por muito que bebem, de maravilhá perdem o siso, ficam somente quentes e alegres. Com o vinho das frutas que é muito forte se embebedam muito e perdem o siso, mas deste bebem pouco, e somente o tempo que elas duram; mas o vinho comum das raizes e milho bebem tanto que ás vezes andam dois dias com suas noites bebendo, e ás vezes mais, principalmente nas matanças de contrários e todo este tempo cantando e bailando sem cansar nem dormir. Este vinho comumente o fazem grosso e basto, porque juntamente lhes serve de mantimento e quando bebem nenhuma outra coisa comem. E da mesma maneira quando comem não curam de ter vinho nem água para beber, nem têm trabalho nisso e algumas vezes acabando de comer, se não têm água em casa, se vão á fonte a beber, e ás vezes de noite com um tição de fogo na mão, principalmente os que não têm mulher, mãe, ou irmã que lhes traga água. E nisto nenhum trabalho têm, e quasi não fazem diferença de boa ou má água, com qualquer se contentam. Os moços pequenos não bebem aque- les vinhos, e quando algum mancebo há de começar a beber, fazem-lhe grandes festas, empenando-os e pintando-os como que então começam a ser homens. Nenhuma creatura adoram por Deus, somente os trovões cuidam que são Deus, mas nem por isso lhes fazem honra alguma, nem comumente têm idolos nem sortes, nem comunicação com o demonio, posto que têm medo dele, porque ás vezes os mata nos matos a pancadas, ou nos rios, e, porque lhes não faça mal, em alguns lugares medonhos e infamados disso, quando passam por eles, lhe deixam alguma flechá ou penas ou outra coisa como por oferta. O que mais crêm e de que lhes nasce muito mal é que em alguns tempos alguns de seus feiticeiros, que chamam Pagés, inventam uns bailes e cantares novos, de que estes índios são mui amigos, e entram com eles por toda a terra, e fazem ocupar os índios em beber e bailar todo o dia e noite, sem cuidado de fazerem mantimentos, e com isto se tem destruído muita gente desta. Cada um destes feiticeiros (a que também chamam santidade) busca uma invenção com que lhe parece que ganhará mais, porque todo este é seu intento, e assim um vem dizendo que o mantimento há de crescer por si, sem fazerem plantados, e juntamente com as caças do mato se lhes hão de vir a meter em casa. Outros dizem que as velhas se hão de tornar moças e para isso fazem lavatorios de algumas ervas com que lavam; outros dizem que os que os não receberem se hão de tornar em pássaros e outras invenções semelhantes. Além disto dizem que têm um espirito dentro de si, com o qual podem matar, e com isto metem medo e fazem muitos discípulos comunicando este seu espirito a outros com os defumar e assoprar, e ás vezes é isto de maneira que o que recebe o tal espirito treme e súa grandissimamente. De modo que bem se pode crer que ali particularmente obra o demônio e entre neles, posto que comumente é ruindade, e tudo por lhes darem os índios o que têm, como sempre fazem, ainda que muitos não crêm coisa nenhuma daquelas, e sabem que são mentiras. Estes também costumam pintar uns cabaços com olhos e boca e os têm com muita veneração escondidos em uma casa escura para que aí vão os índios a levar suas ofertas. Todas estas invenções por um vocábulo geral chamam Caraiba, que quer dizer como coisa santa, ou sobrenatural; e por esta causa puseram este nome aos Portugueses, logo quando vieram, tendo-os por coisa grande, como do outro mundo, por virem de tão longe por cima das águas. Estes mesmos feiticeiros e outros que não chegam a tanto, costumam esfregar, chupar e defumar os doentes nas partes que têm lesas e dizem que com isto os saram e disto há muito uso, porque com o desejo da saúde muitos se lhes dão a chupar, posto que os não crêm. Outros agduros e abusões têm em pássaros e em raizes e finalmente em tudo, que são infinitos, mas tudo é coisa de pouco momento. Têm alguma notícia do dilúvio, mas muito confusa, por lhes ficar de mão em mão dos maiores e contam a história de diversas maneiras. Também lhes ficou dos antigos notícias de uns dois homens que andavam entre eles, um bom e outro mau, ao bom chamavam Çumé, que deve de ser o apóstolo S. Tome, e este dizem que lhes fazia boas obras mas não se lembram em particular de nada. Em algumas partes se acham pegadas de homens impressas em pedra, maximè em São Vicente, onde no cabo de uma praia, em uma penedia mui rija, em que bate continuamente o mar, estão muitas pegadas, como de duas pessoas diferentes, umas maiores, outras menores que parecem frescas como de pés que vinham cheios de areia, mas se verá elas estão impressas na mesma pedra. Estas é possível que fossem deste Santo Apóstolo e algum seu dicipulo. O outro homem chamavam Maira, que dizem que lhes fazia mal e era contrário de Çumé; e por esta causa os que estão de guerra com os Portugueses, lhes chamam Maira. Estes são os costumes mais de notar desta gente do Brasil, que para se fazer relação miudamente de todos era necessário um livro mui grande.

DOS IMPEDIMENTOS PARA A CONVERSÃO DOS BRASIS E, DEPOIS DE CONVERTIDOS, PARA O APROVEITAMEN- TO NOS COSTUMES E VIDA CRISTÃ Os impedimentos que há para a conversão e perseverar na vida cristã de parte dos índios, são seus costumes inveterados, como em todas as outras nações, como o terem muitas mulheres; seus vinhos em que são muito contínuos e em tirar-lhos há ordinariamente mais dificuldade que em todo o mais, por ser como seu mantimento, e assim não lhos tiram os Padres de todo, senão o excesso que neles há, porque assim moderado quasi nunca se embebedam nem fazem outros desatinos. Item as guerras em que pretendem vingança dos inimigos, e tomarem nomes novos, e títulos de honra; o serem naturalmente pouco constantes no começado, e sobretudo faltar-lhes temor e sujeição, porque, como em todos os homens, assim nestes muito mais initium sapientioz timor Domini est, o qual lhes há de entrar por temor da pena temporal, porque havendo isto tomam o jugo da lei de Deus e perseveram nele ao menos com muito menos pecados que os Portugueses, pois já o tornarem atrás da fé de maravilhá se viu neles, porque, como nada adoram, facilmente crêm o que se lhes diz que hão de crer: mas por outra parte, como não têm muito discurso, facilmente se lhes meterá em cabeça qualquer coisa, ao menos de maus costumes. A junta-se a isto que são de uma natureza tão descansada que, se não forem sempre aguilhoados, pouco bastará para não irem á missa nem buscarem outros remédios para a sua salvação. Todos estes impedimentos e costumes são mui fáceis de se tirar se houver temor e sujeição, como se viu por experiência desde do tempo do governador Mem de Sá até agora; porque com o os obrigar a se juntar e terem igreja, bastou para receberem a doutrina dos Padres e perseverar nela até agora, e assim será sempre, durando esta sujeição, havendo residência de mestres com eles que cs não deixem cair por sua natural frieza, e os incitem cada vez a maiores coisas, como se vê agora que são muito amigos de vir á missa todas as festas, e alguns pela semana, confessarem-se muitas vezes e serem muito capazes da Santissima Comu-

nhão, para a qual se aparelham com muita devoção, jejuando 9 diciplinando-se á véspara; e os que não têm ainda comungado trabalham muito de se aparelhar para isso, fazendo tudo que se lhes ordena. Por aqui se vê que os maiores impedimentos nascem dos Portugueses, e o primeiro é não haver neles zelo da salvação dos índios, etiam naqueles quibus incumbit ex officio, antes os têm por selvagens, e, ao que mostram, lhes pesa de ouvir dizer que sabem eles alguma coisa da lei de Deus, e trabalham de persuadir que é assim; e com isto pouco se lhes dá aos senhores que têm escravos, que não ouçam missa, nem se confessem, e estejam amancebados. E, se o fazem, é pelos contínuos brados da Companhia, e logo se enxerga claro nos tementes a Deus que seus escravos vivem diferentemente pelo particular cuidado que têm deles. Os que nesta parte mais padecem são os pobres escravos e os mais índios livres que estão em poder dos Portugueses, que nãe podem ser muitas vezes doutrinados dos Padres, e assim o maior mal que se faz aos índios da doutrina, quando vão ajudar os Portugueses em suas fazendas, é que alguns lhes dão as escravas, para com isso os prender mais tempo. Outros não os proíbem, e desta maneira os que peor vivem são os que mais tratam com os Portugueses, ensinados de seu mau exemplo, e muitas vezes peor doutrina, em que os admoestam que não tenham dever com a doutrina dos Padres; posto que destes não são senão alguns desalmados, mas os de mau exemplo e pouco zelo são muitos. O que mais espanta aos índios e os faz fugir dos Portugueses, e por conseqüência das igrejas, são as tiranias que com eles usam obrigando-os a servir toda a sua vida como escravos, apartando mulheres de maridos, pais de filhos, ferrando-os, vendendo-os, etc, e se algum, usando de sua liberdade, se vai para as igrejas de seus parentes que são cristãos, não o consentem lá estar, de onde muitas vezes os índios, por não tornarem ao seu poder, fogem pelos matos, e quando mais não podem, antes se vão dar a comer a seus contrários; de maneira que estas injustiças e sem razões foram a causa da destruição das igrejas que estavam congregadas e o são agora de muita perdição dos que estão em seu poder.

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Leia gratuitamente Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, de José de Anchieta, obra colonial brasileira em domínio público. Esta edição digital consolida cartas, informações, fragmentos históricos e sermões quinhentistas em 38 capítulos internos, com texto curado a partir da edição de 1933 via BLPL/UFSC e Etnolinguística/Mindlin, notas editoriais separadas do corpo principal, espelhos HTML e preparação para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA no Literunico.

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