Universo da obra
Universo da obra
XXXVI FRAGMENTOS HISTÓRICOS
PADRE MANUEL DA NOBREGA A VIDA do padre Manuel de Nóbrega foi insigne e tanto mais quanto menos conhecida dos homens, os quais ele amava intimamente, desejando e procurando a salvação de todos para a glória de Deus, que ele, cheio de seu amor, sobretudo tinhá deante dos olhos; para dilatação do qual e conhecimento de seu nome, todo o Brasil lhe parecia pouco, o qual, como dava pouco de si ao princípio, pretendia que fosse sua fé prègoada por outras regiões que pareciam dar mais de si. Fazendo, porém, grande caso do que tinhá entre mãos, nisso se empregava todo, e além do principal, que era a conversão dos brasis, em particular acudia a todas as necessidades espirituais e temporais dos próximos com quanto podia, como se viu claramente em dar sua vida pela de muitos, pondo-a nas mãos dos Tamoios, confiando muito que a Divina Providência tiraria disso para os Portugueses e Brasis muito fruto que depois se seguiu. Era pai de desamparados, fazendo casar muitas órfãs com esmolas que lhes havia e tirando dentre os índios alguns filhos e filhas dos Portugueses, que lá andavam perdidos do tempo antigo, e dando-lhes vida, além dos pequenos que tirava com tempo e os fazia criar por pessoas virtuosas. Tinhá mui especial (caridade com os enfermos, acudindo-lhes com a pobreza que havia em casa e quando os visitava parecia que se derretia com piedade, principalmente com os pobres Brasis. Uma noite, vindo chamar um Padre
para um homem que estava quasi morto ás estocadas e sem fala, ele mesmo lhe foi acudir e fazendo-lhe coser as tripas que tinha rotas, começando o ferido a falar, tomou o Padre juramento de segredo ao cirurgião e a outro que lho ajudava a curar e logo deante deles o confessou, curando-lhe a alma, enquanto eles curavam o corpo, o qual depois viveu. Disse-lhe uma vez um moço de casa que na vila de Santos, duas léguas de São Vicente, havia pranto: cuidou o Padre Nóbrega, que seria falecido um homem honrado e rico, que de ordinário andava mal disposto, o qual, posto que nos fazia algumas caridades, contudo no tocante á sua conciência era pouco nosso devoto e mui afastado da confissão. Logo no outro dia lhe fez um ofício de defunto de nove lições com muita solenidade. Indo lá um homem da dita vila, perguntava quem morrera, por quem faziam aquele ofício? E ouvindo que por aquele homem, disse ele: "Agora o deixo eu vivo e são em sua casa". Foi-lhe dizer o que o padre Nóbrega fizera. Ao que ele respondeu: "Quem isso me faz cuidando ser eu morto, sendo eu vivo, não quer herdar minhá fazenda, mas deseja a salvação de minhá alma". Dali por deante deu tal volta á vida que foi um exemplo para todos: tomou particular cuidado de prover os Padres quando iam pregar e confessar àquela vila; ainda que se detivessem lá muitos dias, continuamente lhes mandava jantar e a ceia de sua casa mui bem concertada e ás vezes por sua própria mão, porque era solteiro. Quando lhe pareciam que eram horas, mandava logo um escravo, que espreitasse os Padres quando vinham da igreja de confessar, para logo vir a provisão. Por morte deixou parte de sua fazenda para nossa igreja, que ali então se edificava; parte á Misericórdia e a outra parte aos pobres. Houve neste homen, enquanto se não deu a Deus, soltura no vício da luxuria; mas por respeito de Nossa Senhora nunca quis pecar com mulher que tivesse o nome de Maria. Com esta caridade e benignidade com que abraçava a todos, era mui amado dos bons e mui severo e rigoroso contra os vicios e pecados. Os públicos publicamente os repreendia, assim nas pregações como em particular. Achou-se uma vez em uma grande tormenta no mar e um marinheiro, tomando a vela, começou: "Apesar de São Lourenço". Ouviu o Padre e saindo do camarote o repreendeu asparamente falando-lhe por tu; e virando-se ao Santo, posto de joelhos, lhe disse: "Bendito sejais vós, Senhor S. Lourenço, rogai a Deus que não nos castigue pelas blasfêmias que disse contra vós este maldito". Com o que o homem ficou castigado e os mais que o ouviram amedrontados e acudiu S. Lourenço á pressa em que estava com bonança. Tendo avisado por vezes a um clérigo escandaloso, como se não emendasse, sabendo o Padre estar com a ocasião do seu pecado, se foi á porta da casa, gritando a grandes vozes que acudisse gente, que estavam ali crucificando a Cristo. Acudiu gente e ficaram tão espantados os dois pecadores que se apartaram e cessou o escândalo. Era acerrimo defensor da liberdade dos Brasis, sem querer admitir á confissão algum que nisso fosse culpado. Sentia sumamente os roubos e assaltos que se faziam neles; chorava-os, bradava sobre isso publicamente e para remediar o que podia da sua parte, se meteu com os Tamoios, como dito é, para fazer pazes com eles e aplacar a justa ira de Deus contra os Portugueses, pelos muitos roubos e mortes que tinham feito neles. Com este zelo, pregando deante do capitão-mór Estacio de Sá e de toda sua armada, que ele exortava a povoar em o Rio de Janeiro e aplacarem com penitencia a ira de Deus pelos roubos feitos aos índios da Baía, que foram gravíssimos, cativando-os e vendendo-os, trouxe a história dos Gabaonitas, que pediam sete da geração de Saul, para enforcarem e com isso se aplacar a ira de Deus; concluiu com grande veemência: "Se agora tomassem sete desses ladrões salteadores que têm destruído os pobres índios da Baía e de toda a costa, Nosso Senhor se aplacaria e seria favorável para esta emprêza que queremos fazer". Estas e outras semelhantes repreensões sabiam mal aos culpapados e cubiçosos, principalmente porque em nenhuma maneira queria consentir em nenhum modo de cativeiro dos Brasis, salvo nos que fossem tomados com querra justa. E assim dizia muitas vezes: "Não posso acabar com minhá ciência e conciência aprovar os remédios que se buscam! para cativar os Brasis, ainda que venhá da Mesa da Conciência, porque lá não são informados na verdade. Porque nunca se achou que pai no Brasil vendesse filho verdadeiro, porque os amam grandissimamente. Os que dizem que se vendem a si mesmos, fazem-no ou porque não entendem que coisa é vender a liberdade, ou induzidos com mentiras e enganos e ás vezes com muitos açoites (como confessam os mesmos línguas do Brasil) e assim os pobres, achando-se alcançados, fogem e antes querem ir a morrer por esses matos e a mãos de inimigos que sofrerem grave cativeiro que têm. Pois obrigá-los a servir toda a vida com o título de livres, é verdadeiro cativeiro, porque não tem mais que o nome de liberdade, pois os deixam em testamento aos filhos que os sirvam toda a sua vida e assim os avaliam e vendem como escravos, com título de lhes venderem somente o serviço". Equidquid sit de jure, dizia ele que de facto constava o contrário: pois os homens pervertiam os remédios que se lhe buscavam, usando deles para sua perdição, e, se dous timoratos cumpriam as condições que se punham, a maior parte não guardava, e finalmente os Padres letrados nisso se vêm a resolver, ensinados pela experiência. Contudo isto não deixava o Padre de buscar todo o remédio possível a algumas pessoas que lhe pediam para restituição e satisfação do passado. Porém para o futuro nunca de sua parte quis abrir porta para se usar de semelhantes remédios, que se buscavam para os homens poderem ter serviços com boa conciência, comprando e vendendo índios livres, dos quais remédios dizia muitas vezes: " Praza a Deus que por remediar os homens não nos vamos nós com eles ao inferno". Era tão inteiro que, como se fundava deante de Deus em uma verdade, bem se podia pôr todo o mundo contra ele, como foi nisto da liberdade dos Brasis, em defender as fazendas dos Colégios, por serem bens da Igreja, sobre o qual era muitas vezes afrontado por palavras e escritos em resposta de feitos muito feitos, que ele deixava passar sem nem um sentimento, prosseguindo com muita paz a justiça dos Colégios e orando pelos injuriadores e tratando-os com muito amor; em fazer com o governador Mem de Sá, que usasse de força com os índios da Baía para se ajuntarem em aldeias grandes e igrejas para ouvirem a palavra de Deus, contra o parecer e vontade de todos os moradores, o qual depois se estendeu por toda a costa , que foi meio único de salvação de tantas almas e propagação da Fé e na constância da povoação do Rio de Janeiro, que a experiência tem mostrado ser ele movido com o espirito de Deus e puro zelo de seu serviço e salvação das almas. Para estas coisas procurava o remédio com Deus por contínua oração e dos reis, principalmente d'El-Rei D. João o Terceiro e de sua mulher D. Catarina, por cartas, e El-Rei lhe escrevia mui familiarmente, encomendando-lhe a conversão dos gentios e o mais tocante ao bom governo do Brasil e que o avisasse de tudo, e assim mais faziam por uma carta do padre Nóbrega que por tantas outras informações e instrumentos. Por este seu grande zelo e constância era dos que mal viviam murmurado, perseguido e tido por tirano, e algumas vezes afrontado com palavras, em ausência e presença de pessoas ainda baixas e vis. Em um certo tempo, porque o Padre estranhava muito em particular e em público um caso feio de um poderoso e então Ouvidor da Capitania, que tinhá tomado a mulher a um pobre, comparando-o com o caso de Herodes, houve muito provável suspeita e indícios que se lhe maquinava a morte, e assim dizia ele aos Irmãos: "Eu, se houver de ser mártir, há de ser á mão de nossos Portugueses cristãos e não dos Brasis". Com tudo isso, a todos acudia em suas necessidades, quando havia mister sua ajuda. Entre estes, foi o sobredito poderoso, que, estando preso e indo-se já o Padre de Santos para São Vicente, despedido do governador Mem de Sá, que se embarcara e o deixava por alguns casos em poder do capitão da terra, de que ele, com razão, muito se temia, movido de compaixão, tornou do caminho e acabou com o governador que lhe desse remédio, que depois de sua partida nenhum lhe ficava senão ser muito vexado do Capitão. Ao grande zelo da conversão dos Brasis ajuntava outro que lhe era conseqüente, convém a saber: grandíssimo cuidado e dili-
gências de criar Irmãos da Companhia que pudessem ser instrumento desta conversão. Por esta causa ajuntava em casa moços pequenos mestiços e outros de todo Portugueses, nascidos na terra, por serem línguas. E trabalhava pelos fazer chegar até onde alcançasse sua habilidade, assim no espirito como no estudo, e por não deixar coisa por intentar para este fim, determinava mandar a Portugal alguns de maior indole e habilidade, para que de lá viessem feitos bons obreiros, como em efeito mandou dois que morreram na Companhia, no Colégio de Coimbra. Era para com os Irmãos muito benigno e piedoso e pelas entranhas de amor com que os amava, sempre conservou a santa sinceridade antiga de Coimbra, falando a todos por vós; e além de lhe ser muito trabalho só de pronunciar este nome Padre, pelo impedimento da lingua, parece que o nome de Irmão lhe exercitava mais amor e assim aos mesmos Padres falava por estes termos dizendo: "Irmão, vós tal e tal". E posto que os homens de fóra cuidavam que tratava com os Irmãos asparamente, pelo zelo que nele conheciam, contudo a benignidade passava sempre pela severidade para com eles, assim nas repreensões e penitências como nas práticas espirituais, que fazia a min d o com muita suavidade e lagrimas. Com as mesmas entranhas de caridade procurava todo o possível de conservar um na Companhia depois de admitido, ainda que não tivesse tantas partes e outros tivessem diverso parecer, confiando sempre em que não estava abreviada a mão de Deus. Um moço de boa habilidade tinhá ele admitido quando chegou a São Vicente o Padre Visitador Inácio de Azevedo, o qual querendo-o despedir com parecer do Padre Provincial e de outros, com tudo o padre Nóbrega com sua caridade intercedeu por ele, resignado, porém, na vontade e parecer do Padre Visitador, e tratou com ele que o levasse para a Baía, porque lhe dava Nosso Senhor particularmente boas esparanças dele. E assim foi, que procedeu sempre muito bem em tudo, assim na virtude como nas letras, chegando a ouvir o curso e alguma teologia e neste tempo lhe deu
Nosso Senhor bom fim na Companhia com edificação, consolação e sentimento de todos. Procurava que houvesse muito exercício de oração mental e vocal e mortificação. Aos estudantes fazia rezar o Ofício Divino. Aos pequenos não faltavam disciplinas quando era necessário, que lhes mandava dar, as quais aceitavam com muita humildade, e com ser a pobreza muita e o comer muito fraco, fazia-os jejuar os dias que a Igreja manda e ainda toda a quaresma e para tudo lhes dava força Nosso Senhor. Com o grande desejo que tinhá de'acrescentar a Companhia no Brasil, deitando os olhos ao longe com grande espirito de providência, logo em chegando á Baía houve terras e algumas vacas para fundação de colégios e o mesmo fez em São Vicente e depois no Rio de Janeiro, e ainda que a alguns dos nossos parecia sobeja-solicitude por serem poucos os Irmãos daquele tempo, dizia: "Não sabeis, Irmãos, o que dizeis: eu faço isto para os que hão de vir, porque ainda há de haver grande multidão de Padres e Irmãos no Brasil que ajudem as almas". E bem se pode cuidar que além do espirito de providência foi isto mais particular lume de Deus, com quem ele conversava muito na oração, como também se viu em outras coisas, principalmente no cumprimento do que disse aos Tamoios que, se quebravam as pazes, haviam de ser todos destruídos. Tendo o padre Vicente Rodrigues grandíssimas e quasi contínuas dores de cabeça, muitos anos sem remédio algum, lhe disse o Padre Nóbrega: "Vós, Irmão, não haveis de sarar senão quando vos faltar todo o necessário e então vos cairão os dentes". E assim se cumpriu, porque na missão em que veiu acudir ao Rio de Janeiro no princípio, onde se padeceu grandíssima fome e falta de tudo, sarou da cabeça e começou a perder os dentes sem lhe ficar senão dous ou três. De maneira que com a certeza que tinhá da multiplicação dos Irmãos no Brasil, no princípio em Piratininga ainda que se padecia muita fome, mui raramente mandava matar alguma rez, enquanto eram poucas as vacas, para que multiplicassem para os vindouros. Bem mostra a experiência o espirito de Deus que o movia, porque ainda que os Colégios da Baía e Rio têm fundação d'El-Rei, contudo era impossível sustentarem-se com ela, se não foram as
terras e vacas que o Padre Nóbrega com tanta caridade foi grangeando, que é a melhor sustentação que agora têm, com que se criam tantos Irmãos que fazem tantos serviços a Deus no Brasil. No culto divino, ainda que faltavam ornamentos ricos, procurava houvesse toda a perfeição. Dizia as missas cantadas com toda a solenidade, com canto de órgão e frautas, por amor dos índios, cujos filhos as ajudavam a oficiar. Nunca deixava de lavar os pés aos Irmãos á quinta-feira santa publicamente na igreja. Era tão zeloso de se pregar sempre a palavra de Deus que até aos Irmãos que lhe pareciam para isso, fazia pregar em português e brasil, ainda que não fossem sacerdotes. Por este fim e por impedir alguns abusos que se faziam em autos nas igrejas, fez um ano com os principais da terra que deixassem de representar um que tinham, e mandou-lhes fazer outro por um Irmão, a que ele chamava Pregação Universal, porque além de se representar em muitas partes da costa com muito fruto dos ouvintes que com esta ocasião se confessavam e comungavam, em particular em São Vicente á fama dele, por ser parte na lingua do Brasil se ajuntou quasi toda a Capitania véspara da Circuncisão, e estando se representando á noite no adro da igreja, sobreveiu uma grande tempestade, pondo-se uma nuvem muito negra e temerosa sobre o teatro e começou a. lançar umas gotas de água muito grossas, mas logo cessou a chuva, perseverando sempre a nuvem, até que acabou a obra com muito silêncio e todos se recolheram quietamente a suas casas e então descarregou com grandíssima tormenta de vento e chuva, e a gente movida com muita devoção ganhou o Jubileu, que era o principal intento da obra. Dizia sempre missa e como era muito gago, gastava de ordinário nela uma hora e ali se lhe comunicava muito Nosso Senhor. Era mui solícito no rezar do Ofício Divino, no qual usava sempre do companheiro pelo mesmo impedimento da lingua; mas não bastava isso para deixar o ofício da pregação, o qual exercitava visitando as povoações dos Portugueses a miúdo, ouvindo juntamente suas confissões e remediando a todos; e as de suas mulheres, filhos, escravos e índios livres ouvia por intérprete, enquanto os Irmãos linguas não eram sacerdotes.
Era na pregação muito fervente e suave, e por uma parte movia muito á compaixão os ouvintes pelo trabalho que nela tinha, por outra á devoção. E não era muito abranger aos outros, pois nele era tanta, que bem se lhe sentia nas palavras afetuosas, nos suspiros e coloquios com Nosso Senhor e lagrimas, as quais, assim quando tratava com ele, como compadecendo-se dos próximos em suas aflições, facilmente derramava. Algumas vezes, estando em Piratininga com poucos Irmãos, mais afastado de negócios, se metia na sacristia com um devolto amigo, que lhe tangia uma viola ás portas fechadas, e ele entretanto se estava desfazendo em lagrimas com muita serenidade. Quando deixou o Irmão companheiro entre os Tamoios, indo-se para São Vicente, os Tamoios que lá estavam muito quietos, uma noite por lhes meter um escravo em cabeça que os queriam matar os Portugueses, fugiram todos para suas terras. Sabendo-o o padre Nóbrega, temendo-se que lhe matariam lá o Irmão, teve tanto sentimento e lagrimas que fez um grande pranto cheio de devoção deante de Nosso Senhor e dos Irmãos, arremessado sobre um leito, dizendo entre outras coisas: "Ah! meu Irmão, que vos deixei só entre inimigos e não fui eu merecedor de morrer convosco por amor de Cristo". Isto era com tanta desconsolação que não bastara a o consolar senão o mesmo Deus, que ordenou que daquela fugida se tornassem alguns principais para São Vicente, com o qual se assegurou a vida do Irmão, e contudo lhe escreveu uma carta sobre isso, cujo princípio era: "Irmão, se ainda estais vivo". Nos derradeiros anos que andava já muito fraco em São Vicente, com as muitas doenças que levou da Baía, dormia um pouco á noite e o mais dela gastava em oração, rezar o Ofício Divino, em cuidar e traçar as coisas do governo, não somente as tocantes á Companhia mas de tudo o que entendia pertencer ao bem comum, pretendendo em tudo o aumento da cristandade e salvação das almas, e assim diziam dele pessoas graves que era para governar todo o mundo. No tocante ao voto de castidade tinhá especialissima vigilância, engrandecendo muito a integridade e pureza da Companhia, tão conhecida e louvada de todos nesta parte, e assim dizia muitas
vezes com grande sentimento: "Mal aventurado será aquele por quem se quebrar o selo virginal da castidade da Companhia". Achando-se uma vez no mar em uma grave tormenta, dizia que uma das coisas que mais o consolavam naquele perigo era a guarda do voto de castidade. Nisso todo resguardo lhe parecia pouco, procurando que toda a espécie de mal, ainda em coisas minimas, se evitasse. E com isto fez e faz Nosso Senhor mui especiais mercês aos verdadeiros filhos da Companhia nesta parte, com não pequena admiração e louvor dos seculares. 0 padre Inácio de Azevedo, vendo as muitas e mui propinquas ocasiões pelas quais, quasi por fogo e água, passam os nossos por amor das almas com vitória pela graça divina, dizia que era milagre a castidade dos da Companhia no Brasil. Como os Padres sacerdotes não sabiam a lingua da terra, serviam os Irmãos de intérpretes para as doutrinas e pregações e confissões, ainda dos mestiços, mulheres e filhos dos Portugueses, principalmente nas confissões gerais, para melhor se darem a entender c ficarem satisfeitos. Aconteceu que uma mulher casada das mais graves da vila, que fazia uma confissão geral com um Irmão que só então ali havia e tinhá cargo da doutrina, veiu um domingo á tarde perguntar algumas dúvidas no confessionário e estando as tratando com ele, passou o marido pela igreja, acompanhado de muitos da vila, a tratar alguns negócios da república com o Padre Nóbrega, e indo-se para fóra lhe disse o que o acompanhara: "Senhor, como consentis que vossa mulher esteja falando com um mancebo no confessionário?" Como o crédito do Irmão era mui grande para com todos não fez caso disto. Com tudo deu disso conta á sua mulher, ficando muito satisfeito com sua resposta. Ela contou o que passara ao mesmo Irmão e o Irmão sem mais detença ao Padre Nóbrega. Posto que ele tinhá tanta satisfação do Irmão nisto e em tudo o mais, como de sua própria pessoa, contudo, pelo grande zelo que tinhá da limpeza da Companhia nesta parte, alegrou-se muito e disse-lhe: " O' Irmão, veiu-nos Deus a ver com este aviso, não faleis
mais com ela nem com outra no confessionário, senão presente o sacerdote ou em público na igreja, como costumais a falar e a ensinar a todos". Finalmente não sofria nesta parte coisa, por pequena que fosse, procurando, conforme a perfeição que ele nisto tinha, que vivessem os Irmãos com tanto resguardo quanto demanda a castidade evangélica que nosso padre S. Inácio de Loiola pede nas Constituições. Não tinhá menos zelo e cuidado que a obediência dos subditos para com os superiores fosse exata em tudo e de sua parte ensinava com o exemplo. Em coisas graves esparava, quanto era possível, resposta de Roma ou Portugal, ainda que lhe parecesse que as podia determinar por si. Quando, depois de muito tempo encomendar o negócio a Deus, se resolveu de ir ao rio da Prata por terra, estava tão dependurado de querer a vontade de nosso padre S. Inácio de Loiola, que esparava lhe seria clara com o parecer do padre Luís da Grã, seu colateral, que estava ausente, que tinhá prometido 20 missas de alviçaras a quem lhe desse novas de sua chegada a São Vicente, e posto que estava já para se partir, por não perder a ocasião boa, que então tinhá daquela gente castelhana, principalmente para que com sua presença e autoridade que tinhá com os índios, os ajudar a passar para suas terras a salvamento, contudo deixava ordenado que se chegasse o padre Luís da Grã o fossem chamar a muita pressa, ainda que fosse muitas léguas pelo sertão a dentro. Como Nosso Senhor ordenou que no mesmo dia que estava para partir lhe chegasse a nova, logo desistiu de tudo, até se ver com ele. E chegandolhe o recado a Piratininga ás 9 ou 10 horas antes do meio dia, logo no mesmo dia se partiu para o mar, sem querer deixar descansar o Irmão, que lho levava, e chegando a uma vila daí a três léguas a pousar, lhe mandou fazer a doutrina aos índios da terra. Ao seguinte dia andou mui grande e áspero caminho a pé e mais do que pareciam sofrer sua forças e chegando quasi noite ao mar se embarcou em uma pequena canoa de casca, para passar umas três léguas que havia até a vila. Sobreveiu a noite com grande escuridade, tormentas e chuva e foi forçado a recolher-se á terra. Estava ali um homem poderoso pouco bem afeto ao Padre Nóbrega e que então de fresco estava mui indignado contra ele; á casa deste se
recolheu, atinando com a porta ás apalpadelas, confiando em Deus de o ganhar com isto e torná-lo a reconciliar e disse ao Irmão seu companheiro: "Ide vós adeante e dizei-lhe que estou aqui e faça ele o que quiser". O homem ouvindo o recado, esquecido de seus agravos, saiu logo acompanhado de seus escravos com muito lume e levou o Padre nos braços e o vestiu com seus próprios vestidos e o mesmo fez ao Irmão, agasalhando-os com muita caridade e queixando-se por querer passar o Padre com tal tempo, estando ali sua casa, e dali por deante ficou grande amigo do Padre e da Companhia, na qual depois o mesmo Padre lhe recebeu um filho. Finalmente não descansou até o outro dia se ver com o Padre Grã e tratando com ele o negócio, desfez logo toda a traça e seguiu o do Padre que logo se persuadiu seria mais conforme á vontade de nosso Padre Santo Inácio. Ao Padre Luís da Grã, seu colateral, tratava com tanto respeito e reverência como se fora seu superior, não fazendo coisa de importância sem seu parecer e conselho, o qual facilmente tomava e seguia. Depois que o Padre foi provincial, a todos dava exemplo de obediência. Para ele bastava a minima significação da vontade de padre Luís da Grã, provincial. Desejou muito e procurou que um Irmão pregasse em português: o Irmão excusava-se; finalmente vendo-se apertado, lhe respondeu: "O Padre Luís da Grã me disse á sua partida que não era nada dos Irmãos pregarem sem ordens por falta de autoridade". Com isto se calou o Padre Nóbrega, sem insistir mais, como que fora obediência expressa, posto que tinha para si que nada faltava ao Irmão para isso. Daí a algum tempo foi necessário acudir o mesmo Irmão a pregar uma paixão, ao qual depois de a pregar, disse o Padre: "Vós haveis de dar conta a Deus, porque não quisestes pregar até agora". E contudo nunca mais o convidou para isso, pelo que tinhá dito do padre Luís da Grã. Não era muito ter ele esta obediência aos superiores, porque era tão humilde que aos mesmos subditos se sujeitava facilmente, seguindo o parecer deles,, quando lhe davam boa razão, e deixando o próprio. Estava ele muito determinado, quando se começou a povoação do Rio de Janeiro, de mandar um Padre e com ele um Irmão por superior; dissimulou o Irmão com isso por alguns dias e depois de encomendar a coisa a Deus, disse ao padre Nóbrega que não devia mandá-lo por superior por algumas razões que lhe deu. Ouviu-o o Padre e cuidando nisso mudou logo o parecer e despachando-os para aquela missão, juntos os mais de casa, disse: "O Padre, por ser sacerdote será superior; mas lembrar-se-á, pois o Irmão foi seu mestre, do respeito e reverência que lhe deve ter e de tomar seus conselhos". Tomava muito bem e folgava que os Irmãos fossem avisados de outros Padres e Irmãos, que lhe parecia o podiam fazer.ainda que fosse deante dele m;esmo. Uma vez, queixando-se o Irmão mestre de gramática de si mesmo, porque deante dele os repreendia algumas vezes, respondeu-lhe o Padre: "Fazei-o assim, Irmão, fazei, folgo muito que nisso me ajudais". Quando se achava alguns tempos só sem sacerdote, confessava-se com algum Irmão, desejando descobrir suas faltas, e ser repreendido e recebia dele a absolvição geral da missa. Uma vez com este espirito de humildade praticando com os Padres e Irmãos em um repouso, disse: "Daqui por deante quero ter dois confessores, um Padre que me absolva e um Irmão que me repreenda". No tratamento pessoal era necessário terem cuidado dele, porque ele o não tinhá de si. Seguia sempre a comunidade sem singularidade alguma, salvo para mais estreiteza. Era de pouco comer; e ainda que de compleição delicada, nenhum trabalho receiava, como andar sempre a pé por caminhos muito ásperos de matos e serras, com grandes frios, chuvas e alagadiços. E ás vezes, por não poder com o peso da roupeta, caminhava sem ela, por excusar ser levado ás costas alheias. Seu vestido era o peor e não podia trazer roupa nova, senão velhá e remendada e sem uso de mantéu, porque então pela muita pobreza o não havia. Quando andava fóra de casa, de toda a pessoa que lhe oferecia a pousada a aceitava de boa vontade e jantava e dormia aí todo o tempo que era necessário, assim por ser esmola, como porque com isso ganhava as vontades a todos; a uns para se tirarem do mau estado e a outros para no seu viverem conforme a lei de Deus e serem mais prontos para boas obras. Em especial usava disto com um vigário muito velho e honrado, que conformava pouco com o
proceder da Companhia no governo de suas ovelhas, que achavam nele refúgio para suas conciencias, com pouco escrúpulo da verdade que dos Padres ouviam e criam. Com este pousava muitas vezes e recebia suas esmolas, advertindo-o do que tocava á sua conciência e de suas ovelhas. E tendo ele alguns tempos impedimentos de enfermidade e outros, supria o Padre Nóbrega por si e pelos Padres nas missas e em tudo mais por ele e depois pondo-lhe embargo em sua paga pelos oficiais d'El-Rei lhe fez pagar tudo. Com estas boas obras o vigário se chegava cada vez mais aos Padres, até que já no cabo da vida fez uma confissão geral com um deles e por seu conselho deixou muitos meses de dizer missa, por ser trêmulo pela muita velhice e fazer o mais do seu ofício, deixando tudo aos Padres, e com isto acabou em paz, com muita edificação de todas suas ovelhas, que com esta ocasião se deixavam também reger pelos da Companhia. Era o Padre Nóbrega em suas enfermidades muito paciente, dando pouca ocupação e trabalho aos Irmãos e como sua última idade foi uma contínua doença, esta passou alguns anos com muita falta de remédios temporais. E abraçado com esta pobreza deu com muita paz seu espirito ao Senhor. (A. Franco, o. c, II, p. 183-92). PADRE DIOGO JACOME Viveu sempre em toda a sujeição e obediência, exercitando os ofícios baixos da Companhia, e entre eles foi fazer um torno de pé por mandado da santa obediência, sem nunca ter aprendido aquele ofício; e,fazia nele muitos rosários de contas, que se repartiam pelos Cristãos para se encomendarem a Deus e á Virgem Nossa Senhora. Era isto mui comum naqueles tempos trabalharem os Irmãos de saberem alguns ofícios proveitosos para a comunidade. E assim o dito Padre e outros Irmãos aprenderam a fazer alpargatas, por- que então não havia sapato nem meia. Faziam muitos nos tempos que furtavam ao estudo da gramática e outras mais graves ocupações, de que usavam nos caminhos, que são muito ásperos de montes e serras e grandes alagadiços: a matéria destes alpargotes é como linho mui rijo tirado de uns cardos, que os mesmos Irmãos tiravam do mato e deitavam na água, até que a cabo de quinze ou vinte dias apodreciam e lhes tiravam o linho. Com o mesmo desejo de servir aos Irmãos, um Padre de missa começou a fazer um banco sem nunca aprender ofício de carpinteiro, e pouco a pouco se fez oficial, de maneira que por suas mãos fez as casas e igrejas de Piratininga, São Vicente e parte das do Rio de Janeiro, sem deixar por isso de acudir continuamente a missões e confissões, até que pela muita velhice não pôde trabalhar. Viu-se sempre no dito Padre Diogo Jacome um grande zelo da salvação dos Brasis, e por esta causa, ordenando-lho a Obediência, estudou alguns anos gramática com muita diligência e trabalho, posto que pouco ajudado de engenho e memória, para poder ser sacerdote e ajudar os índios. Posto que neste estudo trabalhou muito, contudo muito mais trabalhava por saber a lingua da terra, e assim soube dela o que bastava para ensinar os índios e aparelhá-los para o batismo e ouvir suas confissões. Depois de ordenado sacerdote, foi posto pela Obediência na Capitania do Espírito Santo, onde havia duas aldeias de índios com suas igrejas, uma das quais teve a seu cargo muito tempo, exercitando com eles sua caridade, curando-os corporal e espiritualmente até á morte. Esta se lhe gerou de uma grave doença de febres, em que padeceu muito por falta do necessário. Foi recolhido á casa da Companhia, que está na vila com os Portugueses, e parecendo que já convalescia o tornou a mandar o Superior á sua igreja. E posto que ele sentia em si muita fraqueza e receiava que na aldeia tornaria a recair de maneira que se lhe seguisse a morte, e assim o significou e propôs, contudo, obedecendo com toda a prontidão e alegria, se foi lá, e logo recaiu de tal maneira que daí a cinco ou seis dias, tornando-o a trazer para casa, acabou, como obediente e verdadeiro fi- lho da Companhia, em Abril de 1565, e está enterrado na nossa igreja de S. Tiago daquela residência do Espírito Santo. (A. Franco, o. c., II, p. 203-4). PADRE, MANUEL DE PAIVA O padre Manuel de Paiva entrou já sacerdote de boa idade em Coimbra. Foi homem muito chão e cândido em sua conversação, guardando sempre uma perpetua paz. Estando nos exercícios logo em entrando (como então era costume), o Irmão que o servia neles esqueceu-se dois ou três dias de o prover, e o Padre não curou de lho lembrar, cuidando que ou assim era regra da Companhia, ou que o não havia no Colégio por ser pobre. Finalmente com este último pensamento o lembrou ao Irmão dando-lhe umas luvas que comprasse alguma coisa de comer, já que o Colégio não o tinha. O Irmão dissimulou e teve melhor cuidado dali por deante. Em chegando á Baía, como a pobreza era muita, o Padre Nóbrega, com este pretexto, como era muito fervente no espirito da mortificação, tão exercitado dos Irmãos em Portugal, mandou vender o Padre Paiva, entregando-o a um porteiro que o prègoasse pela cidade, se havia quem o quisesse comprar, e foi a coisa tão de siso que se persuadiam todos ser verdade, e que por falta do necessário o vendiam, e não faltava quem desse cem e mais cruzados por ele, para o ter por seu capelão, espantados da obediência e humildade do Padre Paiva, o qual também se persuadia que de verdade o mandavam vender, e dizia aos homens que o comprassem, que os serviria muito bem. Até que daí a alguns dias que o porteiro andou nisto, dando recado ao padre Nóbrega do que passava e quanto subia o preço que davam por ele, entenderam o negócio, ficando todos mui edifiçados da maneira da Companhia. Foi cura de almas antes que entrasse na Companhia; não sabia muito latim, coisa de que naquele tempo se fazia pouco caso e exame com os clérigos; mas depois que veiu ao Brasil trabalhou
muito nisso, especialmente ao princípio, que se começou o estudo de Piratininga, onde ele era Superior dos Irmãos, e com acudir a todas as necessidades dos próximos e ás mais obrigações de seu ofício, estudava com eles, deixando de dormir muita parte da noite, depois de todos dormirem; e ás vezes alta noite acordava o mestre para lhe declarar o que não entendia, e assim saiu com seu intento de tal maneira que depois, estando na residência do Espírito Santo, ensinou muitos moços com grandíssimo zelo e diligência, alguns dos quais continuaram depois os estudos no Colégio da Baía, até ouvirem o curso e teologia. Com a muita caridade que tinhá era nisto incansável, por dar algum lume aos moços nascidos no Brasil, de que eles pouco curaram, e com isso desafeiçoá-los dos costumes dos Brasis, a que são tão afeiçoados. Posto que não era letrado, contudo estava muito bem nos casos de conciência, que com a mesma diligência estudava por si e perguntando. Tinhá grande púlpito, não tanto de letras como de fervor e desejo de aproveitar ás almas, e assim a gente comum do povo lhe era muito afeiçoada, e se aproveitava muito de suas pregações, as quais ele fazia acudindo a pé a umas e outras povoações, oito e dez léguas. Era tal sua devoção, que uma vez pregou a Paixão não sei quantas horas de joelhos. Trabalhou por saber a lingua dos índios, mas não chegou a mais que a saber ensinar a doutrina por escrito, ajudando os naturais por intérprete com práticas e confissões com muito zelo. Com este zelo das almas trabalhava muito de as ajudar e tirar do pecado, ainda que alguns Portugueses que viviam mal se ofendessem disso, por ser ele causa de se lhes tirarem os cúmplices do pecado, não faltando ameaças e injúrias, nas quais ele guardava sua costumada paz e quietação, como que se lhe não fizessem nada. Um homem casado, a quem ele com suas admoestações tinhá tirado uma manceba, por respeito da qual dava má vida á sua mulher, e posta em bom estado de matrimônio, e por esta causa andava inchado contra ele, o encontrou só em um caminho e o começou a afrontar e a empunhar da espada todo enfiado; mas o Padre, sem se mover, lhe disse com muita paz: "A mim, fulano? a mim?" Isto bastou para o outro ficar atado e deixá-lo ir em paz seu caminho. Depois entrou em si e folgou de lhe ser tirada a ocasião do mal e pecado em que estava. Outro que tinhá cargo de justiça principal na Capitania, injuriou um dia ao Padre no meio da rua, deante de pessoas, com palavras feias e mui irado, ao qual ele nada respondeu, antes se foi muito quietamente passeando e ouvindo o que o vinhá injuriando até se recolher na igreja. Chegou a desordem do outro a tanto que fez um auto do Padre com testemunhas, dizendo que lhe queria mal, mas com a paciência do Padre se curou tudo. Da mesma maneira curou outra pessoa principal que o maltratava de palavras publicamente deante de muitos, dizendo-lhe que se não fora Padre lhe houvera de fazer e acontecer. A isto o Padre respondeu: "Dai graças a Deus por que o sou". Com o qual o outro ficou não somente confuso, mas também cheio de temor e não sem causa, porque o Padre (posto que disso nenhum caso fazia) era homem de grande esforço de ânimo e forças e conhecido de todos por tal, mas sua paciência e paz interior com que isto curava era maior. Era intrépido para todo o perigo corporal, especialmente se intervinhá obediência, na qual era prontíssimo; tanto que um dia, indo por um monte abaixo muito íngreme com o Padre Nóbrega, lhe mandou o Padre que se deitasse por ele a rodar, o qual ele fez logo sem nenhuma dilação, indo a tombos pelo monte abaixo, até que lhe disseram que bastava. Ordenaram os capitães de São Vicente duas guerras contra os Tamoios; foi necessário mandar o Padre Nóbrega em sua companhia ao Padre Paiva, o qual todo o caminho, que foi largo, lhes disse missa e pregou sempre, esforçando os Portugueses e confessando-os e acudindo juntamente aos índios cristãos com o Irmão Gregorio Serrão, que era o lingua que levava. Em uma guerra e em outra foi sempre o Padre Paiva sem medo com cruz na mão deante até á cerca das aldeias, uma das quais foi rendida de todo, e com o esforço do Padre se salvaram muitos dos nossos, que estavam a ponto de fugir com perigo certo das vidas; os quais o Padre fez esparar até que de todos se renderam os inimigos, de que havia ainda boa cópia recolhidos em uma casa forte, e se sentiram covardia nos nossos, houveram de sair e matar muitos nas canoas, em que se queriam ir com pouca ordem e com muitos já frechados. Pelo grande perigo em que estavam, se pôs o Padre Paiva sem medo algum defronte daquela casa, donde se tiravam muitas frechadas, até que se tomaram os inimigos ás mãos e os nossos ficaram salvos. A outra aldeia não foi rendida, antes muitos dos nossos feridos, os quais o Padre Paiva ajudava a tirar do perigo presente de os acabarem de matar, e recolhendo-se todos para as canoas, ele foi o último que ficou no mato; porque, além dele ser homem velho e pesado, quis que todos fossem deante, e achando-o menos no porto, um índio cristão o veiu buscar e, encontrando-o no mato já perto, o acompanhou até o embarcar com toda a gente. Neste combate nunca o Padre Paiva se apartou da cerca com a Cruz em a mão animando a todos, e depois os Tamoios nos perguntavam: "Quem era aquele de uma roupa longa, que estava com uma cruz perto da cerca, porque lhe tirávamos muitas frechadas e nunca o pudemos acertar?" Desta maneira guardou Nosso Senhor por sua misericórdia por meio do Padre Paiva os nossos; e não quis que se destruísse aquela aldeia, porque depois esteve nela o Padre Nóbrega fazendo pazes com os Tamoios, muitos dos quais são agora cristãos. Finalmente o padre Paiva, que era na idade o mais velho dos da Companhia do Brasil, depois de muitos anos de serviço de Nosso Senhor, estando na capitania do Espírito Santo, eufermou de uma doença prolongada, sem dar com ela trabalho a ninguém, e mandando-o a Obediência que se fosse á casa de um homem muito nosso devoto a outra vila, para ver se se achava melhor, ele com a saudade da conversação dos Irmãos e desejo de outro recolhimento maior e mais necessário para tal tempo, não pôde lá aturar senão dois dias e se veiu para casa, e carregando a enfermidade em que teve grandíssimo trabalho e paciência, se foi para o Senhor dia de S. Tome, Apóstolo, no ano de 1584, e jaz sepultado na nossa igreja. (A. Franco, o. c, II, p. 212-4).
'í PADRE SALVADOR RODRIGUES No ano de 1550 vieram de Portugal quatro Padres, três dos quais são já falecidos. O primeiro que foi o padre Salvador Rodrigues, foi homem de muita simplicidade e obediência. Partindo o Padre Manuel de Nóbrega da Baía para São Vicente, o deixou enfermo e lhe disse que não morresse até sua tornada. Recebeu ele isto como mandado da Obediência e estando depois á morte parecia-lhe que não podia morrer contra aquele mandado; até que o Padre Luís da Grã lhe tirou e escrúpulo e lhe disse que bem podia, porque ele o desobrigava daquela obediência, e com isso se determinou de morrer com muita alegria. Ele só era sacerdote, e contudo ficou debaixo da obediência do Irmão Vicente Rodrigues, e dilatou-lhe Nosso Senhor a vida, até que chegou o Padre Luís da Grã com seus companheiros que suprissem por ele. Era em particular devotissimo da Assunção da Senhora, tanto que Ascensão e Assunção tudo na sua boca era Assunção; e ainda que muitas vezes avisado, contudo, pela muita devoção que lhe tinha, confundia os vocábulos e assim quis Nossa Senhora levá-lo no mesmo dia, porque depois de estar em cama vinte e tantos dias com muita paciência, recebidos os sacramentos, expirou em dando meia noite, princípio do dia da Assunção de 1553. Foi o primeiro que morreu da Companhia no Brasil. (A. Franco, o. c, II, p. 215). PADRE FRANCISCO PIRES O padre Francisco Pires sempre viveu na Companhia como todo exemplo de virtude, ocupado com o próximo em confissões, pregações, ensinar meninos, e outros ministérios da Companhia com muito fruto. Não soube a lingua da terra, posto que lhe não faltou diligência para aprendê-la; contudo por intérprete ajudou muito os
naturais em doutrinas e principalmente em ouvir confissões, em que era mui contínuo. Foi Superior em muitas residências da costa e residindo em Porto Seguro, logo no princípio de sua vinda, na ermida de Nossa Senhora, que é da Companhia, que por sua ordem e de seus companheiros se fez, lhes fez Nossa Senhora mercê de abrir milagrosamente aquela fonte tão afamada por toda a costa do Brasil; em que se fizeram e fazem muitos milagres, sarando muitos de diveçsas enfermidades, onde vão de algumas partes da costa em romaria a buscar saúde e a acham e outros para o mesmo efeito mandam buscar água dela. Alguns anos nos princípios do Colégio da Baía foi Reitor dele e depois de andar por todas as residências da costa exercitando os ministérios da Companhia com muita satisfação, foi chamado de uma para o dito Colégio, e enfermou no caminho lançando sangue pela boca, por ser já velho, fraco e consumido de trabalhos. Depois de muitos dias, que esteve com esta enfermidade no Colégio com muita paciência e alegria e com muitos coloquios com Nossa Senhora, de que era devotissimo, morreu deixando muito edificados e consolados os Irmãos no ano de 1586 em Janeiro. (A. Franco, o. c, II, p. 215-6). PADRE GREGORIO SERRÃO Um dos companheiros do Padre Manuel de Nóbrega, que ajudaram a edificar em seus princípios a casa de Piratininga, foi o Padre Gregorio Serrão, o qual entrou na Companhia em Coimbra o ano de 1550. Foi enfermeiro muito tempo com grande satisfação de todos, de muita diligência, caridade e alegria para com os enfermos, e por serem conhecidas estas partes e outras virtudes nele, o escolheu o Padre Mirão para enfermeiro do santo Padre Mestre Gonçalo (ainda que bem o sentiram os enfermos do Colégio) e companheiro de uma última peregrinação que fez a S. Gonçalo de Ama-
rante, donde tornou a Lisboa. Foi curado dele com singular diligência e caridade, até que expirou. Teve depois disto Gregorio Serrão muitas enfermidades, e como lhe aproveitassem pouco os muitos remédios que se lhe faziam, por parecer dos médicos foi mandado quasi por incurável ao Brasil em companhia do Padre Luís da Grã o ano de cincoenta e três. Quasi toda a viagem foi enfermo, mas contudo muita parte dela teve cuidado de servir e ministrar aos Padres. Da Baía foi logo mandado a Porto Seguro, onde esteve alguns cinco meses mui enfermo na casa de Nossa Senhora da Ajuda e no cabo deles, ainda muito fraco, foi passado para São Vicente, onde continuou com suas enfermidades algum tempo. Dando-lhe Nosso Senhor alguma melhoria, começou a ser participante dos trabalhos de Piratininga, nos quais era dos deanteiros: teve quasi sempre o cuidado de soto-ministro, cozinheiro, dispenseiro e finalmente de toda a casa. E com isso estudava latim com toda a diligência sem faltar em nada e a lingua do Brasil, a qual soube de maneira que podia ensinar a doutrina, instruir para batizar, confessar e ainda pregar. Residiu em uma aldeia muito tempo, que se a juntou duas léguas de Piratininga com o Irmão Manuel de Chaves, aprendendo ali a lingua e ensinando os meninos da escola, passando muito frio e fome. Pela muita pobreza que então havia de mantimento e vestido, nunca trouxe mais naquele tempo que a roupeta velha sobre camisa e ceroulas, dormindo em uma rede, tendo o fogo por cobertor. Aos domingos e dias santos lhes acudia um Padre de Piratininga a os confessar e dizer missa e algumas vezes vinham eles entre semana a ver os índios. Nestas idas e vindas aprendia as regras da arte da lingua com grande cuidado e gosto, para poder com ela ajudar as almas, como sempre ajudou, visitando os índios por suas aldeias e as vilas dos Portugueses com seus escravos, pregando em português, que tinhá para isso grande talento, e sendo intérprete nas confissões dos escravos e das mestiças suas senhoras, e ensinando a doutrina. Passados alguns anos nestes exercícios, foi mandado á Baía, onde tomou ordens sacerdotais e empregou seu talento com grande fruto das almas. Pregava de contínuo com grande satisfação. Foi
Reitor do Colégio muitos anos, o qual acrescentou muito no temporal com sua grande indústria e modo de tratar com os seculares, cujos ânimos atraía com sua caritativa conversação e afabilidade de maneira, que lhe davam muitas e grossas esmolas com que sustentava o Colégio. Era muito inteiro no seu ofício, fazendo guardar as regras e Constituições com suavidade, não se esquecendo a seus tempos da severidade. Era verdadeiramente escravo e ministro com todos. Não se satisfazia quando alguns haviam de ir fora com os mandar aviar, mas ele por sua mão lhes aviava todo o necessário, nem se esquecia de sua amada cozinha, antes muitas vezes a visitava e temparava o comer por sua mão e particularmente o fazia para os enfermos. Tinhá particular cuidado de prover os Irmãos, que tratavam na conversão, visitàva-os a eles e aos índios, ajudando-os também a catequisar e aparelhar para o batismo. E assim de uns e de outros dos nossos e dos de fóra era amado como verdadeiro pai. Foi eleito por Procurador para Roma no tempo do nosso Padre Everardo, o qual ofício fez com muita prudência, diligência e edificação. Por ver nosso Padre tantas partes nele o tornou a mandar ao Brasil com o cargo de Reitor do Colégio da Baía, no qual perseverou muitos anos, cada vez com mais exação de diligência e caridade, assim para os nossos como para os de fora, aos quais acudia com muita benignidade" em seus negócios e necessidades, buscando remédio para os pobres e principalmente para casar órfãs, para o qual ajudavam os ricos devotos com muita liberalidade. Tinhá muita autoridade para com os Governadores e assim por seu respeito tinham muita conta com favorecer o Colégio, e o negócio da conversão e liberdade dos índios. Finalmente em tudo os achava benevolos, cuja amizade e autoridade e dos Bispos e mais Justiças ele por todas as vias trabalhava de conservar. Andando assim ocupado nestes ofícios e indo uma noite em um barco a fazer uma obra de serviço de Deus e misericórdia como costumava, lhe deu o ar na cabeça, de que começou a enfermar, e pouco a pouco se foi alienando, mas nunca deixou de fazer seu ofício, até que pareceu bem ao Padre Cristóvão de Gouvêa, que então era Visitador, que tinhá necessidade de ajuda, a qual lhe deu substituin- do-lhe um Padre, ficando ele ainda com título de Reitor; mas como a enfermidade não tinhá melhoria, antes cada dia se agravava mais, o aliviou de todo. Era ele muito escrupuloso para consigo (ainda que para os outros escrupuloso largo) e nestes tempos que não governava tudo era entender consigo, e expedir-se de coisas passadas no mundo, muito miúdas, confessando-se muitas vezes, e porque já não podia dizer missa comungando, até que lhe deu Nosso Senhor muita paz interior e ficou muito sossegado em seu espirito e de todo alienado junto com outras enfermidades velhas, que se lhe renovaram, mas sempre andou em pé conversando com os Irmãos. Parecendo aos Superiores que se acharia melhor na banda do Sul, por ser aquela terra melhor, determinaram de o mandar ao Rio de Janeiro com esparanças de convalescer, porque ainda tinha boas forças. Dando-lhe o Provincial a nova, respondeu ele: "Sabe Vossa Reverência como eu estou?" E dizendo-lhe: "Sim",- aceitou a ida de muito boa vontade, como que estivera em todo seu siso, despedindo-se dos Padres e Irmãos com lagrimas e embarcado em companhia de outros Padres e Irmãos, foi ter á Capitania do Espírito Santo, e esparando ali por tempo para cumprir sua viagem, quis Nosso Senhor que cumprisse primeiro a de sua peregrinação, dando-lhe uma febre, a concluiu brevemente em um dia ou dois, acabando com muita paz a 25 de Novembro de 1586, tendo 36 anos de Companhia e 33 do Brasil. Jaz sepultado na nossa igreja de São-Tiago da mesma Capitania. (A. Franco, o. c, II, p. 217-9).
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