Universo da obra
Universo da obra
Regresso de Curupaití. — Ressurreição do cabo Gómez. — Como se salvou. — Relato simples. — Possibilidade de que um pensamento se realize. — Duas escolas filosóficas. — Um assassinato que ninguém vira. — Suspeitas.
O exército voltou a ocupar suas posições de Tuyutí; meu batalhão, seu antigo reduto.
Durante algum tempo foi pão de cada dia conversar sobre o assalto de Curupaití, ora para fazer sua crítica, ora para recordar os heróis que caíram mortalmente feridos naquele dia de luto.
A sucessão do tempo, novos combates, outros perigos iam fazendo esquecer as nobres vítimas.
Só persistia no espírito a lembrança dos prediletos: desses prediletos do coração cuja imagem querida nem a dor nem a alegria desvanecem.
De quando em quando, os hospitais de Itapirú, de Corrientes e de Buenos Aires nos remetiam pelotões de valentes curados de suas gloriosas e mortais feridas.
A humanidade e a ciência faziam naquela época de luta diária e cruenta verdadeiros milagres.
Quantos que saíram horrivelmente mutilados do campo de batalha não voltaram poucos dias depois a empunhar com mão vigorosa o aço vingador!
Os que comandavam corpos enviavam de tempos em tempos oficiais de confiança para revisar os hospitais, tomar boa nota de seus respectivos enfermos ou feridos e socorrê-los quanto cabia.
Eu tinha notícias frequentes dos hospitais de Itapirú e de Corrientes. Os enfermos seguiam bem. Dia a dia esperava algumas altas.
Pensava nisso talvez certa manhã, passeando, segundo meu costume, pelo parapeito da bateria, cujos canhões tinham constantemente dirigidas suas eloquentes e fatídicas bocas ao montezinho de Yataytí-Corá, quando um ajudante veio anunciar-me:
— Senhor, uma alta do hospital.
Sua fisionomia traía surpresa.
— E quem, homem?
— Um morto.
— Qual deles?
— O cabo Gómez.
Ao ouvi-lo, saltei impaciente e alegre do parapeito à explanada, correndo em direção ao rancho da Maioria.
A notícia da aparição do cabo Gómez já havia corrido pelos alojamentos.
Quando cheguei à porta da Maioria, um grupo de curiosos a obstruía.
Abriram-me passagem e entrei.
O cabo Gómez estava de pé, apoiado em seu fuzil, e levava a mochila atravessada. Suas vestes estavam destroçadas, seu rosto pálido, emagrecera muito e custava reconhecê-lo.
Realmente, parecia um ressuscitado.
Dei-lhe um abraço e ordenei no ato que preparassem um baile para celebrar naquela noite a ressurreição de um companheiro e o regresso do primeiro ferido.
O batalhão era um alvoroço. Todos queriam ver o cabo ao mesmo tempo; uns lhe faziam sinais com a cabeça, outros com as mãos, os que não podiam vê-lo bem subiam no vértice dos ranchos; ninguém se atrevia a dirigir-lhe a palavra interrompendo-me.
— E como te foi, homem?
— Bem, meu comandante.
— Onde está a alta? — perguntei ao oficial encarregado da Maioria.
Deu-ma e, notando que era de um hospital brasileiro, dirigi-me ao cabo.
— Então estiveste num hospital brasileiro?
— Sim, meu comandante.
— E como te salvaste de Curupaití? Quando te ordenei que saísses da trincheira, já estavas ferido nas duas pernas, não podias mover-te.
— Meu comandante, quando os demais se retiraram com a bandeira, vendo eu que ninguém me recolhia, porque não me ouviam ou não me viam, arrastei-me como pude e me escondi numas palhas para ver se à noite podia escapar.
— E como escapaste?
— Quando os nossos se retiraram, os paraguaios saíram da trincheira e começaram a despir os feridos e os mortos. Eu estava vivo, mas muito mal ferido, e como vi que matavam alguns que estavam penando, acabei de me fazer de morto para ver se me deixavam. Não me tocaram, andaram dando voltas perto de mim e não me viram. Quando a noite ficou escura, fiz força para me levantar, e me levantei, e caminhei me agarrando ao fuzil, que é este mesmo, meu comandante.
Um silêncio profundo reinava naquele momento. Todos continham até a respiração para não perder uma palavra do cabo.
— E por onde saíste?
— Essa noite não pude sair, porque não era baqueano, e me perdi várias vezes, e me custava muito caminhar, porque doíam os tiros. Mas assim que veio a manhãzinha, já soube para onde devia ir, porque ouvi a diana dos brasileiros. Segui o rumo e a fumaça de um vapor, e saí em Curuzú. Ali havia muitos feridos, que estavam embarcando; a mim me embarcaram com eles e me levaram a Corrientes, e ali estive no hospital, e já estou muito melhor, meu comandante, e vim porque já não podia aguentar a vontade de ver o batalhão.
— Viva o cabo Gómez, rapazes! — gritei eu.
— Viva! — responderam os muito velhacos, que nunca são mais felizes do que quando os incitam à desordem e os deixam em liberdade de brincar.
E levaram o cabo Gómez em triunfo, fazendo-lhe mil brincadeiras, e sua vinda inesperada foi motivo de animação e contentamento geral durante muitas horas.
Essas cenas da vida militar, embora frequentes, são indescritíveis.
Garmendia veio naquela tarde compartilhar meu pucherete, meu assado magro e minha farinha, sabendo já por um de seus assistentes que o cabo Gómez havia ressuscitado.
Garmendia tem fibras de soldado e estava infantilmente alegre com o acontecimento; assim, a primeira coisa que me disse ao ver-me foi:
— Então o cabo Gómez não havia morrido em Curupaití, quanto me alegro! E onde está? Chame-o, vamos perguntar-lhe como escapou.
Contei-lhe então tudo o que o cabo acabava de me referir; mas, como ele se empenhasse em ver-lhe o rosto, mandei-o vir.
Interrogado por Garmendia, repetiu o que já sabemos, com alguns acréscimos, como, por exemplo, que na noite em que esteve oculto ele mesmo ligou as feridas, fazendo fios e ataduras da roupa de um morto.
Contou-nos também que estava muito triste e envergonhado porque, nos primeiros momentos do fogo, no dia de Curupaití, o alferes Guevara lhe havia dado uma bofetada, acreditando que estava assustado, e dizendo-lhe: — Eh! faça fogo, deixe de ficar olhando a orelha do fuzil.
Que ele não estivera assustado naquele dia; que, quando o alferes lhe bateu, estava limpando a chaminé de sua arma; que só se assustou um pouco quando os paraguaios saíram de suas posições, despindo e matando, porque não tinha forças para defender-se, e teve medo de que o ultimassem sem poder fazer-lhes frente.
E tudo isso era dito com uma ingenuidade que cativava, dando a medida do têmpera daquele coração de aço.
Garmendia gozava como no dia de suas primeiras revelações. Eu me sentia orgulhoso de contar em minhas fileiras com um menino como aquele.
Confesso que o amava.
Nessa mesma noite, e por motivo das intermináveis perguntas de Garmendia, soube que Gómez padecera em outro tempo de alucinações.
Explicou-nos em sua meia-língua, o melhor que pôde, que em Buenos Aires, sendo mais moço, tivera uma amante. Que essa mulher lhe fora infiel e que ele estivera preso por uma punhalada que lhe dera.
Ao recordá-la, uma espécie de véu sombrio envolveu seu rosto, ao mesmo tempo que certo sorriso terno vagou por seus lábios.
A curiosidade aumentava o interesse desse tipo cru, enérgico e forte, tão comum em nosso país.
Inquirindo as causas que armaram o braço desse Otelo correntino, tiramos a limpo que sua amante não faltara aos compromissos contraídos nem à fé jurada.
Que, em sonhos, enquanto dormiam juntos, ele a vira nos braços de um rival a quem aborrecia muito; que, quando despertou, o homem não estava ali, mas ele o via patente; que o feriu no coração e que, a um grito de sua querida, voltou a si, despertando de todo, e vendo então que estavam os dois sós e que sua faca se cravara no peito de sua bem-amada.
Esse relato deve conservar-se indelével na memória de Garmendia, porque, depois, naquela noite, me disse várias vezes que eu devia escrever aquilo.
Eu então tinha meu espírito em outra linha de tendências e nunca o fiz.
Não fosse minha excursão a Terra Adentro, a história de Gómez ficaria inédita no arquivo de minhas recordações.
Alguns acreditarão que, à medida que corre a pena, vou forjando coisas imaginárias, para encher papel e aumentar o efeito artificial destas cartas mal alinhavadas.
E, no entanto, tudo é certo.
Os abismos entre o mundo real e o mundo imaginário não são tão profundos.
A visão pode converter-se em amável ou espantosa realidade.
As ideias são precursoras de fatos.
Há mais possibilidade de que o que eu penso seja do que segurança de que um acontecimento qualquer se repita.
As velhas escolas filosóficas discorriam ao contrário.
O passado não prova nada. Pode servir de exemplo; de ensinamento, não.
Mas me meto por esses trigais da pedanteria e temo perder-me neles.
Gómez nos fez passar uma noite amena.
No dia seguinte outras impressões serviram de pasto à conversa; sem dúvida alguma, nada há tão fecundo para a cabeça e para o coração como dois exércitos que se espreitam, que se fuzilam e se canhoneiam desde que o sol nasce até que se põe.
Gómez deixou de ocupar por algum tempo a atenção de Garmendia e a minha.
Que persistência de personalidade!
Uma manhã, regressando a cavalo ao meu reduto, passei como de costume pelo acampamento do velho querido Mateo J. Martínez.
Jamais o fazia sem receber ou dar alguma brincadeira.
Esse velho em prospecto, para que não se zangue se desconhece sua atualidade, tem a facilidade difícil de fazer-se querer por quantos o tratam com intimidade.
Ia dizendo que, ao passar pelo alojamento de dom Mateo, soube por ele que em meu batalhão tivera lugar um acontecimento desagradável.
— O senhor passeando, amigo, e em seu reduto matando vivandeiros?
— Não brinque, velho!
— Que não brinque? Vá e verá.
Piquei o cavalo e, cheio de ansiedade e confusão, parti a galope, chegando num momento a meu reduto.
Não tive necessidade de interrogar ninguém.
Um homem manietado que rugia como uma fera na guarda de prevenção abriu-me o véu do mistério.
— Desatem esse homem! — gritei, com inexplicável mistura de coragem e tristeza.
E no ato o homem foi desatado, e os rugidos cessaram, ouvindo-se apenas:
— Quero falar com meu comandante.
Veio o comandante de campo, e em duas palavras me explicou o acontecido.
— Assassinaram um vivandeiro que estava de visita no rancho do alferes Guevara!
— Quem?
— O cabo Gómez.
— E quem o viu?
— Ninguém, senhor; mas suspeita-se que seja ele, porque está bêbado e murmura entre os dentes: “Eu havia jurado matá-lo, uma bofetada em mim!...”
Fiquei aterrado!
Passei a parte sem mencionar Gómez.
E aqui termino hoje.
O que não tem interesse em si mesmo pode chegar a atiçar a curiosidade do amigo e dos leitores, segundo o método que se siga ao fazer a relação.
O cabo Gómez fica preso.
Tradução brasileira de Uma Excursão aos Ranqueles, relato epistolar de Lucio V. Mansilla sobre uma viagem diplomática e militar às toldarias ranqueles, entre pampa, fronteira, negociação e observação histórica. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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