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Uma Excursão aos Ranqueles

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Uma Excursão aos Ranqueles

Capítulo 27 · Uma Excursão aos Ranqueles

Tomo 1 - Capítulo XXVII

27 de 68 ≈ 23 min de leitura

Tomo 1 - Capítulo XXVII

Paixão de Miguelito. — Os homens são iguais em todas as circunstâncias da vida. — Retrato de Miguelito. — Sua história.

Miguelito concebera por mim uma dessas paixões elétricas que revelam a espontaneidade da alma; que são refúgio das grandes tribulações, que consolam e fortalecem; que não recuam ante nenhum sacrifício; que confundem o cético e enchem o crente de inefável satisfação.

Cruzamos o mar tempestuoso da vida entre a angústia e a dor, a alegria e o prazer, entre a tristeza e o pranto, o contentamento e o riso; entre o desencanto e a dúvida, a crença e a fé. E, quando mais fortes nos julgamos, o desalento nos domina; e, quando mais fracos parecemos, inopinadas energias nos emprestam o varonil alento dos heróis.

Vivemos de surpresa em surpresa, de revelação em revelação, de vitória em vitória, de derrota em derrota.

Somos algo mais que um dualismo; somos algo de complexo, de complicado ou indecifrável.

E, no entanto, é falso que os homens sejam melhores na má fortuna que na boa; caídos do que quando estão em cima; pobres do que ricos.

O avaro, nadando na opulência, jamais se crê com deveres para com o desvalido.

O generoso não calcula se o supérfluo de que hoje se desprende será amanhã para ele uma necessidade.

O covarde é sempre forte com os fracos, fraco com os fortes.

O valente nem é opressor nem se deixa oprimir; pode dobrar-se, quebrar-se jamais.

O débil busca quem lhe dê sombra, quem o governe e dirija.

O forte ampara e protege, basta-se a si mesmo.

O virtuoso é modesto.

O vicioso é audaz.

Somos como Deus nos fez.

É por isso que a caridade nos prescreve o amor, a indulgência, a generosidade.

É por isso que a grandeza humana consiste em aderir ao imperfeito.

Tal homem que amo não merece minha estima; tal outro que estimo não é meu amigo.

A razão é a inflexível lógica.

O coração é a inexplicável versatilidade.

Os problemas psicológicos são insolúveis.

De onde brota para a planta a virtualidade de emissão?

Da folha, da célula, das pétalas, dos estames, dos ovários?

Mistério...

As forças plásticas da Natureza são geradoras.

Quem diz biologia diz órgãos produtores.

Mas como se operam os fenômenos da vida?

Do coração nascem os grandes afetos e os grandes ódios; do coração nascem os pensamentos sublimes e as sublimes aberrações; do coração nasce o que me estremece e me enternece, o que me consola e o que me agita.

A impulsos de quê?

O que ontem embelezava minha vida hoje me enfastia; o que ontem me dava a vida hoje me mata; ontem eu cria não poder viver sem o que hoje me falta, e hoje descubro em mim germes inesperados para resistir e sofrer.

Como a lâmpada que se extingue, mas não morre, assim é nosso coração.

Queixamo-nos dos outros, jamais de nós mesmos.

Será que somos ingratos ou severos?

Não!

É que não nos entendemos.

Se nos compreendêssemos, não seríamos injustos, ansiando como ansiamos pelo bem.

“There is a tide in the affairs of men,
Which, taken at the flood, leads on to fortune.”

Que há uma maré nos negócios humanos que, entrando nela quando sobe, conduz à fortuna.

Seja disso o que for, uma coisa é inegável: quem sabe sofrer e esperar, a tudo pode atrever-se. E, se isto se negasse, não me negarão este outro ponto: quando o homem precisa de um homem e o procura, encontra-o.

Nossa desesperação não é frequentemente mais que o efeito de nossa impaciência febril.

A solidariedade humana é um fato tangível: em política, em economia social, em religião, em amizade.

A vida se consome trocando serviços por serviços. A harmonia depende deste convencimento vulgar, que está na consciência de todos: hoje por ti, amanhã por mim.

É por isso que o tipo odioso por excelência é o daquele que, violando a sábia lei da reciprocidade, se mancha eternamente com o borrão da ingratidão.

Dante coloca esses desgraçados no quarto recinto do último inferno.

Aos que entram ali, Vexilla regis prodeunt inferni, os estandartes de Satanás saem a recebê-los, e a coorte diabólica empedra com seus crânios a morada glacial.

Quantas vezes, sem buscar o homem de que necessitamos, não o encontramos em nosso caminho!

A aparição de Miguelito no toldo de Mariano Rosas é uma prova disso.

Eu estava ameaçado de um perigo e não o sabia.

Miguelito preveniu-me, e pus-me em guarda. Estar prevenido é metade da batalha ganha.

Miguelito tem vinte e quatro anos. É imberbe, branco como o marfim, e o sol não tostou sua tez; tem olhos negros, vivos, brilhantes como duas estrelas, sobrancelhas povoadas e arqueadas, longas pestanas, fronte despejada, nariz afilado, lábios grossos, bem delineados, maçãs salientes, rosto redondo, cabelos negros, lisos e compridos; estatura regular, antes baixa, ombros largos e musculatura vigorosa.

Suas sobrancelhas revelam orgulho; suas maçãs, valor; seu nariz, perspicácia; seus lábios, doçura; seus olhos, impetuosidade; sua fronte, resolução.

Vestia botas de potro, ceroulas crivadas com franja, chiripá de poncho inglês listrado, camisa de Crimeia mordoré, tirador com botões de prata, chapéu de palha ordinária guarnecido de larga fita vermelha; ao pescoço tinha atado um lenço de seda amarelo pintado de várias cores; levava um facón com cabo de prata e boleadoras cingidas à cintura.

Já disse que Miguelito é cristão; falta-me dizer que não é cativo nem refugiado político.

Miguelito está entre os índios fugindo da justiça.

Aos vinte e quatro anos passou por grandes trabalhos; tem história, história que vale a pena ser contada, e que contarei, antes de continuar descrevendo as cenas báquicas com Epumer, tal como ele ma contou noites depois de eu o conhecer, indo em minha campanha de Leubucó às toldarias do cacique Baigorrita.

Falarei como ele falou.

— Eu era pobre, senhor, e meus pais também. Minha mãe vivia de seu conchavo; meu pai era galista; eu, corredor de corridas.

Às vezes meu pai e eu juntos, outras separadamente, conchavávamo-nos como peões carreteiros ou para acarretar gados de San Luis a Mendoza.

Os três éramos nascidos e criados no Morro, e ali vivíamos. Meu velho era um gaúcho bonito, ninguém pialava como ele, nem preparava galos melhor; era jovem e valentão. Não vi homem mais alentado. Só tinha o defeito da chupa. Quando bebia, dava-lhe por ter ciúmes de minha mãe, que era muito trabalhadora e muito boa, a pobre, que Deus a tenha em glória.

Além disso, meu velho era bom violeiro, homem bastante lido e escrito, pois seus primeiros patrões, que foram muito abonados, ensinaram-no bem.

— E como se chamava teu pai?

— O mesmo que eu, meu coronel, Miguel Corro. Somos de uns Corro da Punta de San Luis, que ali foram gente de posses no tempo de Quiroga.

Mas minha mãe, meu pai e eu, como lhe disse, nascemos no Morro, perto do cerro, num rancho que está num terreninho que sempre passou por nosso, embora eu não saiba de quem será. Se conhece o Morro, meu coronel, lhe direi onde fica: fica para o ladinho de baixo da quinta de D. Novillo, a quem como não há de conhecer, se é rico como o senhor.

A casa ficava quase sempre só, porque minha mãe ia de manhãzinha ao povoado e não voltava de seu conchavo senão depois da ceia dos patrões.

Meu pai e eu não parávamos; ele por seus galos, eu pelos cavalos que tinha em preparo.

Todos os dias, tarde e manhã, tinha de caminhá-los. Além disso, o velho e eu éramos alegres e não perdíamos bailinho. Ele me queria muito e sempre me procurava para que eu o acompanhasse; assim é que eu era quem o desculpava e o consertava com minha mãe quando brigavam.

Desse modo passávamos e, embora fôssemos pobres, vivíamos contentes, porque jamais nos faltavam bons réis com que comprar os vícios e roupa. Cavalos, para que falar! Sempre tínhamos superiores.

Na casa onde minha mãe estava acomodada havia uma menina muito graciosinha, que eu sempre via quando ia por ali de passagem falar com a velha.

Como ambos éramos moços, quando nos víamos ríamos. Eu a princípio achei que era brincadeira da menina; mas depois vi que ela me queria e comecei a fazer-lhe amor, até que minha mãe soube e disse-me que não voltasse mais por ali.

Obedeci-lhe e pus-me a visitar outra moça, filha de um paisano amigo de minha família, que tinha alguns animais e muitas peças de prata, pois era homem de mãos tão baqueanas para o baralho que de qualquer parte tirava a carta que queria. Era pente como ele só. Ninguém lhe ganhava no monte, nem no truco, nem na primera.

A filha da patroa de minha mãe chamava-se Dolores; a outra se chamava Regina. Esta era boa moça, mas onde, comparada àquela!

Não me lembro bem quanto tempo passaria; deve ter passado coisa de meio ano.

Um dia minha mãe voltou a descobrir que eu continuava em colóquios com Dolores sempre que podia, e zangou-se muito comigo; e, embora eu já fosse homenzinho, ameaçou-me.

Eu ria de suas ameaças e continuei cortejando Dolores e Regina, porque as duas me agradavam e me queriam.

O senhor já sabe, meu coronel, como é o homem: quantas vê, quantas quer, e as mulheres, que precisam de pouco!

Não me lembro nem do que fiz, nem do que respondi então. Mas provavelmente aprovei o dito de Miguelito e suspirei.

Miguelito prosseguiu.

Outro dia meu pai e minha mãe me disseram que o pai de Regina lhes dissera que, se eles quisessem, nós nos casaríamos; que ele me habilitaria. Que me parecia.

Respondi-lhes que não tinha vontade de casar. Minha mãe ficou furiosa, e o velho, que nunca se zangava comigo, também. Minha mãe me disse que sabia por que era; que me custaria caro por não escutar seus conselhos; que como eu imaginava que Dolores podia ser minha mulher; que, ao contrário, assim que a família desconfiasse de algo, me lançaria como veterano, porque eram ricos e muito amigos do juiz e do comandante militar.

Eu não escutava conselhos, nem tinha medo de nada, e seguia meus amores com Dolores, embora sem conseguir que me desse o sim.

Minha mãe estava triste, dizia que alguma desgraça nos ia acontecer; já a haviam despedido da casa de Dolores, e de tudo me culpava.

De repente puseram meu pai preso, e depois o soltaram; em seguida puseram-me preso a mim, nada mais porque lhes deu vontade, o mesmo que a meu pai. O senhor já sabe, meu coronel, o que é ser pobre e andar mal com os que governam.

Mas também me soltaram; e, ao soltar-me, disse-me o tenente da partida que já sabia que eu andara maleando.

— Maleando como? — perguntei-lhe.

— Em juntas contra o governo — respondeu-me.

— E onde, meu coronel?

Tudo era puríssima mentira.

O que havia era que já me estavam armando a cama.

Nem meu pai nem eu jamais andáramos com os colorados, porque não tínhamos outra opinião que nosso trabalho e gostávamos de ser livres; e, quando se oferecia uma guarda, por não tomar uma carabina, preferíamos pagar ao comandante, que é como alguém se vê livre do serviço; senão, é em vão.

Uma tarde, já anoitecia, estávamos todos os da casa na fogueira; sentimos um tropel, os cães latiram e logo se ouviu um ruído de sabres.

— Que será, que não será? — dizíamos.

Minha mãe pôs-se a chorar, dizendo-me:

— Tu tens a culpa do que vai acontecer.

O senhor sabe, meu coronel, como são as mulheres, e sobretudo as mães, para adivinhar uma desgraça.

Parece que vissem tudo antes de acontecer, como aconteceu com minha velha naquela noite. Porque pouco depois do que eu lhe ia dizendo, já chegou a partida, e apeou-se quem a comandava, fazendo com que meu pai marchasse com ele sem lhe dar tempo nem de levantar o poncho.

Levaram-no em corpo.

Passamos com minha mãe uma noite triste, muito triste, olhando-nos, eu calado e ela chorando, sentada numa cadeirinha ao lado da cama, porque não se deitou.

No dia seguinte, assim que começou a clarear, encilhei, montei e fui direitinho ao povoado, ver o que havia.

Acusavam meu pai de um roubo.

E diziam que, se não pusesse procurador, iriam mandá-lo à fronteira.

E de onde eu havia de tirar dinheiro para pagar procurador, nem quem haveria de querer ir?

Voltei à minha casa bastante aflito com a notícia que levava a minha mãe. Mas pensando que, se me aceitassem no lugar de meu pai, podia livrá-lo.

Contei a minha mãe o que acontecia e disse-lhe o que queria fazer.

Ficou calada.

Perguntei-lhe o que lhe parecia.

Continuou calada.

Zangou-se muito, expulsou-me; fui embora, voltei tarde; os cães não latiram, porque me reconheceram; cheguei sem que me sentissem até a porta do rancho.

Encontrei-a ajoelhada, rezando diante de um nicho que tínhamos, que era Nossa Senhora do Rosário.

Rezava em voz muito baixa; eu não podia ouvir senão o final dos padres-nossos e das ave-marias.

Continha a respiração para não interrompê-la quando ouvi que disse:

“Minha mãe e senhora, rogai por ele e por meu filho.”

Suspirei forte.

Minha mãe virou-se; entrei no rancho e abracei-a.

Não me disse nada.

Com meu pai não se podia falar; estava incomunicável.

Andei uns quantos dias dando voltas para ver se conseguia conversar com ele, e por fim consegui.

Contou-me o que havia.

Não era nada.

Tudo era para nos fazer mal.

Queriam que saíssemos do pago.

Começavam com ele, seguiriam comigo.

À força de dinheiro, vendendo tudo quanto tínhamos, conseguimos que o soltassem.

Enquanto isso, o juiz deu em visitar minha mãe, solicitando-a, e tive de me casar com Regina, porque seu pai foi quem mais dinheiro nos emprestou para comprar a liberdade do meu.

Desde o dia em que meu pai saiu da prisão, essa noite me casei eu, já não houve paz em minha casa.

O homem ficou tristão; não passava senão em rixas com minha mãe.

Meteram-lhe na cabeça que a pobre andara em tratos com o juiz por sua liberdade; cria que ainda andava.

E que havia de andar, meu coronel, se era uma mulher tão santa!

Mas o senhor já sabe o que é um homem desconfiado.

Meu pai era muito.

— E a ti como ia com Regina? — perguntei-lhe ao chegar a esta altura do relato.

— Como o diabo — respondeu-me.

— Mas antes me disseste que a querias e que te agradava — acrescentei.

— É verdade, senhor, mas é que Dolores eu queria muito também, e me agradava mais — replicou.

— E a vias? — prossegui.

— Todas as noites, senhor, e daí veio minha desgraça e a de toda a minha família — respondeu com amargura, envolvendo-se numa nuvem de melancolia.

— Pobre Miguelito! — exclamei interiormente, admirando aquela ingenuidade infantil num homem cujo braço estivera resolvido, por simpatia a mim, a dar uma punhalada no tremendo e temido Epumer.

Dúvidas/decisões para glossário

Aillancó, Calcumuleu, Leubucó, Carrilobo, Quenque, Chalileo e Wada: manter a grafia original dos topônimos, sem aportuguesamento.

Calcumuleu: registrar a explicação dada pelo narrador: “água onde vivem bruxas”.

Leubucó: registrar a etimologia apresentada por Mansilla: leubú, “corre”, e có, “água”.

mari purrá wentru: manter em itálico, com tradução contextual “dezoito homens”.

peñi: manter em itálico; significa “irmão”.

wentru / uentrú: homem.

chao: pai.

uchaimá: grande.

chachao: “meu pai”, empregado como referência a Deus.

cuchauentrú: “homem grande”, usado como designação do Deus onipotente.

gualicho: manter em itálico na primeira ocorrência e explicar como espírito maligno, feitiço ou força maléfica, conforme o contexto.

yapaí: manter em itálico; fórmula de convite e brinde, acompanhada do consumo recíproco da bebida.

achumado: manter como regionalismo, com sentido de bêbado ou embriagado.

caldeado / caldearse: traduzir por “aquecido pela bebida”, “embriagado” ou “alterado pelo álcool”, conforme o contexto; evitar padronizar como simples “bêbado” quando houver gradação.

rematarse: no contexto da bebida, “completar a embriaguez” ou “ficar completamente bêbado”.

malón: manter conforme o glossário geral, com nota apenas na primeira ocorrência da obra.

maloquear: manter como derivação gauchesca de malón, no sentido de participar de uma incursão.

china / chinas: manter como termo histórico do narrador para mulheres indígenas, com nota editorial inicial; evitar substituir sistematicamente por “mulher indígena”, para não apagar o registro da época.

cristiano / cristãos: manter quando designar a população não indígena ou o universo social da fronteira, conforme o glossário geral.

toldería / tolderías: padronizar como “toldaria / toldarias”.

toldo: manter como “toldo”, entendido como habitação indígena de couro; não confundir com “toldaria”.

capitanejo: manter o termo histórico, com nota breve na primeira ocorrência: chefe indígena de posição inferior à de cacique.

lenguaraz: traduzir preferencialmente por “intérprete”; manter “lenguaraz” apenas quando o narrador destacar a função oratória ou o uso histórico do termo.

parlamento: manter como nome do encontro cerimonial e diplomático entre representantes indígenas ou entre indígenas e cristãos.

razón / razones: traduzir como “razão / razões” quando designar cada mensagem ou fórmula do parlamento, preservando o jogo irônico de “fazer de uma razão dez razões”.

junta: manter como “junta” para a assembleia deliberativa indígena descrita por Mansilla.

descubierta: traduzir por “patrulha de reconhecimento” ou “grupo de reconhecimento”, conforme o contexto.

Tierra Adentro: manter em espanhol, com maiúsculas, como designação histórica do território indígena além da fronteira.

afuera / adentro: traduzir pelo sentido contextual, observando a inversão explicada pelo narrador entre o ponto de vista indígena e o cristão.

rastrillada: manter como termo histórico, com nota curta: trilha larga formada pela passagem reiterada de pessoas, animais e tropas.

abra: traduzir por “clareira” ou “abertura no bosque”, conforme o contexto.

médano: padronizar como “duna”.

guadal: registrar como terreno de areia ou poeira muito fofa, onde animais e cargas atolam.

jagüel: manter como “poço” ou “cacimba”, conforme o contexto; decidir uma forma única para toda a obra.

boleadoras: manter “boleadeiras”, forma corrente no português brasileiro.

bolear: traduzir por “caçar com boleadeiras” ou “lançar boleadeiras”, conforme o contexto.

pingo / flete: traduzir por “cavalo” quando não houver valor expressivo; manter como regionalismo apenas quando o tom gauchesco justificar.

marchado: manter em itálico e explicar como andamento específico da mula, intermediário entre passo e trote.

tomar caballos a mano: traduzir como “apanhar os cavalos à mão”, isto é, sem laço.

rayar / rayada: manter como termo equestre regional, com nota breve: frear ou deter bruscamente o cavalo, fazendo-o riscar o chão.

pechada: choque de peito entre cavalos ou cavaleiros.

loncotear / loncoteada: confirmar a forma adotada nos demais blocos; refere-se ao cerimonial de abraçar, erguer e saudar fisicamente.

bota de potro: manter como termo gauchesco, com nota curta se ainda não houver entrada no glossário.

chiripá: manter em itálico na primeira ocorrência e incluir nota breve sobre a peça de vestuário masculina gauchesca.

tirador: manter como cinturão ou faixa de couro, geralmente ornamentada com moedas ou botões.

calzoncillos cribados: traduzir de modo uniforme como “ceroulas rendadas” ou “ceroulas vazadas”; requer harmonização entre os blocos.

pilquén: manter em itálico; manta feminina indígena.

manía: o termo aparece designando a peça estreita em que as mulheres vão envoltas; verificar no original e harmonizar a tradução com outros blocos.

chambao: manter em itálico e explicar como pequeno recipiente ou caneco de chifre.

cominillo: verificar se deve ser mantido como nome regional de bebida anisada ou traduzido por “licor de cominho”.

charque / charqui: padronizar como “charque” no corpo da tradução, preservando variantes apenas em fala marcada.

choclo: preferir “milho-verde” no texto corrido; manter “choclo” apenas se o sabor regional for considerado editorialmente necessário.

chala: traduzir por “palha de milho”.

piquillín: manter como nome da bebida ou fruto regional, com nota breve na primeira ocorrência.

algarroba: traduzir por “farinha ou pasta de algarroba” conforme a preparação mencionada.

carancho: traduzir por “carcará”.

peludo: identificar como tatu-peludo; decidir se a primeira ocorrência terá nota zoológica.

calamaco: verificar a identificação exata do tecido ou do tipo de poncho antes de fixar tradução.

cambrónico: em “voto cambrónico”, traduzir pelo sentido de praga ou palavrão forte; não manter literalmente sem nota.

chachino: insulto regional dirigido a cristão; etimologia e sentido exato precisam de verificação.

calamucano: termo coloquial para pessoa levemente embriagada; confirmar a melhor equivalência brasileira.

patriada: traduzir por “levante”, “revolta” ou “campanha política”, segundo o contexto; requer uniformização.

colorados: manter como designação política histórica, com nota quando necessário; não traduzir pela simples cor.

federal / unitario: manter como “federal” e “unitário”, com sentido político argentino do século XIX.

personero: no contexto do recrutamento, explicar como substituto pago para cumprir serviço militar em lugar de outro.

veterano / hacerlo veterano: traduzir pelo sentido de incorporação forçada ao serviço militar ou envio à fronteira.

partida: quando designar força policial, traduzir como “patrulha” ou “destacamento policial”.

cuerpo de guardia: traduzir como “corpo da guarda” ou “posto da guarda”; padronizar.

cepo del pescuezo y de los pies: manter descrição literal do instrumento de contenção, sem modernizar.

tumba de carne: expressão regional para porção grosseira de carne; verificar equivalência mais precisa.

guámparo: recipiente feito de chifre; harmonizar com “cuerno” e “chambao”.

andar de comadre / compadrear / comadrear: preservar o tom oral com equivalentes como “andar em farra”, “circular entre compadres” ou “vadiar em festas”, conforme o contexto.

hacer la cama: traduzir por “armar uma cilada” ou “preparar a queda de alguém”.

hacer pata ancha: traduzir como “resistir”, “fazer frente” ou “bancar o valente”.

peine: no contexto de jogador trapaceiro ou muito hábil, requer verificação antes da fixação.

rayero: juiz de chegada ou marcador da raia em corridas de cavalos.

gateado overo, oscuro overo, bayo, tordillo, alazán, cebruno: harmonizar os nomes de pelagens equinas em toda a obra, evitando traduções inconsistentes.

quedarse en cuerpito: traduzir como “ficar apenas com a roupa do corpo” ou “sem sequer poder pegar o poncho”.

andar por las gavias: expressão usada para situação de perigo ou aperto; verificar equivalente idiomático.

una de pópulo bárbaro: provável alusão latina ou expressão jocosa; requer nota ou solução interpretativa uniforme.

no hubo tutía: traduzir como “não houve jeito”, preservando o caráter coloquial.

estar entre San Juan y Mendoza: metáfora regional para estado intermediário de embriaguez; traduzir pelo sentido e considerar nota.

poner una pica en Flandes: manter a expressão consagrada em português.

salam-alek: manter como fórmula jocosa de saudação, podendo grafar salam-alek em itálico.

Ananké / ἀνάγκη: manter como “Ananké”, com a nota original “fatalidade”.

Dilatamini: manter em latim, em itálico; verificar se será necessária nota editorial.

citações em francês e inglês: manter no original e oferecer tradução em nota ou no corpo apenas quando o próprio narrador a traduzir.

grafia dos nomes indígenas: manter as formas do original, inclusive Caniupán, Cayupán, Epumer, Relmo, Melideo, Achauentrú e Wenchenao; verificar possíveis variantes entre os dois tomos antes da consolidação final.

Uma Excursão aos Ranqueles

Sinopse

Tradução brasileira de Uma Excursão aos Ranqueles, relato epistolar de Lucio V. Mansilla sobre uma viagem diplomática e militar às toldarias ranqueles, entre pampa, fronteira, negociação e observação histórica. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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