Universo da obra
Universo da obra
O fogão. — Calixto Oyarzábal. — O cabo Gómez. — Por que foi à guerra do Paraguai. — Por que o fizeram soldado de linha. — José Ignacio Garmendia e Maximio Alcorta. — Minhas predisposições em favor de Gómez. — Sua conduta no batalhão 12 de linha. — Primeira entrevista com ele. — Sua figura no assalto de Curupaití. — A chamada depois do combate. — O cabo Gómez.
O fogão é a delícia do pobre soldado depois da fadiga. Ao redor de seus clarões desaparecem as hierarquias militares. Chefes superiores e oficiais subalternos conversam fraternalmente e riem à vontade. E até os assistentes que cozinham o puchero e o assado, e os que cevam o mate, metem, de vez em quando, sua colherada na conversa geral, apoiando ou contradizendo seus chefes e oficiais, dizendo alguma agudeza ou alguma tolice.
Quando Calixto Oyarzábal, meu assistente, deixou a palavra, com pesar dos que o escutavam, pois é um patife de sete solas, capaz de fazer um inglês rir às gargalhadas, meus circunstantes pediram-me meu continho.
Eu estava de bom humor, de modo que, depois de dirigir algumas brincadeiras a Calixto, que com seu ar de bobo estudado já fez uma revolução nas províncias, para que vejas o que é o país, tomo por minha vez a palavra.
E permitirás que eu dedique este conto a um amigo meu, que fez a guerra no Paraguai como oficial de um batalhão da Guarda Nacional.
Chama-se Eduardo Dimet, e, como lhe quero bem, permitirás que eu não te faça o retrato de seu caráter e qualidades; porque as cores da paleta do carinho são sempre lisonjeiras e suspeitas.
Vou ao meu conto.
O cabo Gómez era um correntino que ficou em Buenos Aires quando da primeira invasão de Urquiza, que pôs por terra a ditadura de Rosas.
Gómez teria uns trinta e cinco anos; era alto, fornido, e balançava-se com certa graça ao caminhar; sua tez era entre branca e amarela, tinha esse tom peculiar às raças tropicais; falava com a toada guaranítica, misturando, como é costume entre os correntinos e entre os paraguaios vulgares, a segunda e a terceira pessoa; numa palavra, era um tipo varonil e simpático.
Gómez marchou à guerra do Paraguai no 1.º batalhão do 1.º Regimento de G. N., que saiu de Buenos Aires sob as ordens do comandante Cobo, se não me engano, e pertenceu à companhia de granadeiros.
O capitão desta era outro amigo meu, José Ignacio Garmendia, que, depois de haver feito com distinção toda a campanha do Paraguai, anda agora por Entre Ríos no comando de um batalhão.
Um dia lia-se na Ordem Geral do 2.º Corpo de Exército do Paraguai, a que eu pertencia: “Destina-se, por insubordinação, pelo prazo de quatro anos, a um corpo de linha, o soldado da G. N. Manuel Gómez.”
Mais tarde apresentou-se um oficial no reduto que eu comandava — guarnecido pelo batalhão 12 de linha, criado e disciplinado por mim — com esta ordem: “Venho entregar-lhe uma alta pessoal.”
Chamei um ajudante, e a alta pessoal foi recebida e conduzida à Guarda de Prevenção.
Logo que me desocupei de certos afazeres, mandei trazer à minha presença o novo destinado para conhecê-lo e interrogá-lo sobre sua falta, admoestá-lo, avaliá-lo e ver para que companhia havia de ir.
Era Gómez, e por sua estatura esbelta foi para a companhia de granadeiros.
José Ignacio Garmendia comia frequentemente comigo no Paraguai, de modo que, depois da chamada da tarde, quase sempre se encontrava em meu reduto, junto com outro amigo muito querido dele e meu, Maximio Alcorta, embora esse excelente camarada, que se apaixona tanto pelo sexo formoso como pelo feio, tenha o raro e desgraçado talento de recomendar de vez em quando, às pessoas que mais estima, uns tipos que não tardam em mostrar suas más manhas.
Coisas de Maximio Alcorta!
Na mesma tarde em que destinaram Gómez, Garmendia jantou comigo.
Durante a conversa à mesa — já que em campanha a um tronco de yatay se chama assim —, disse-me que Gómez havia sido cabo de sua companhia; que era um bom homem, de caráter humilde, subordinado, e que sua falta era efeito de uma bebedeira.
Acrescentou-me que, quando Gómez se embriagava, perdia a cabeça, até o extremo de ficar frenético se o contradiziam, e que nesse estado o melhor era tratá-lo com doçura; assim fizera ele, sempre com o melhor êxito.
Numa palavra, Garmendia mo recomendou com essa veemência própria dos corações quentes, como é o seu, e por isso quantos o tratam com intimidade lhe querem bem.
A figura varonil de Gómez e as recomendações de Garmendia predispuseram desde logo meu ânimo em favor do novo destinado.
Por minha vez, pois, recomendei-o ao capitão da companhia de granadeiros, dizendo-lhe tudo o que Garmendia me havia prevenido.
O tempo correu...
Gómez cumpria estritamente suas obrigações; circunspecto e calado, com ninguém se metia, a ninguém incomodava. Os oficiais o estimavam e os soldados o respeitavam por seu porte. De vez em quando o procuravam para puxar-lhe a língua e arrancar-lhe uma ou outra agudeza correntina.
Nesse tempo eu era major e chefe interino do batalhão 12 de linha. Todos os sábados passava pessoalmente uma revista geral.
Parece-me que ainda estou vendo Gómez nas fileiras, quadrado a prumo, imóvel como uma estátua, sério, melancólico, com seu fuzil reluzente, com sua correia lustrosa, com seu equipamento tão asseado que dava gosto.
Gómez não tardou em voltar a ser cabo.
Teriam passado cinco meses.
Um dia, eu passeava ao longo da sombra projetada por meu alojamento, que era uma bela carreta.
Isso foi no célebre acampamento de Tuyutí, lá pelo mês de agosto.
Em que pensava? Como sabê-lo agora. Pensaria no que amava ou na glória, que são os dois grandes pensamentos que dominam o soldado. Recordo apenas que, numa das voltas que dei, uma voz conhecida me tirou da abstração em que estava submerso.
Dei meia-volta e, a uns seis passos à retaguarda, vi o cabo Gómez, quadrado, fazendo a continência militar, dobrando-se para a frente, para trás, à direita e à esquerda, como ameaçando perder seu centro de gravidade.
Seus olhos brilhavam com um fogo que eu jamais lhes vira.
No ato conheci que estava bêbado.
Era a primeira vez desde que entrara no batalhão.
Por carinho e pelas prevenções que Garmendia me fizera, dirigi-lhe a palavra assim:
— Que quer, amigo?
— Aqui venho te ver, che comandante, pra que o senhor me dê licença.
— E para que queres licença?
— Para ir a Itapirú visitar uma irmãzinha que veio da Esquina.
— Mas, filho, se não estás bom da cabeça.
— Não, che comandante, não tenho nada.
— Bem, então daqui a pouco te darei a licença, não te parece?
— Sim, sim.
E, dizendo isso, e fazendo um grande esforço para dar militarmente a meia-volta e fazer como era devido a continência, Gómez girou sobre os calcanhares e se retirou.
Passou esse dia, ou melhor, chegou a tarde, e junto com ela Garmendia.
Contei-lhe que Gómez se embriagara pela primeira vez, e ele me disse que devia tê-lo feito para perder o medo de falar com o chefe; que, quando estava em seu batalhão, costumava fazer assim algumas vezes.
Como ele e eu nos interessávamos pelo homem, ali mesmo entramos a averiguar há quanto tempo estava bêbado quando falou comigo.
Chamei o capitão de granadeiros, fizemos-lhe várias perguntas, e delas resultou exatamente o que Garmendia acabara de me dizer: que Gómez bebera para atrever-se a chegar até mim.
Começando pelo 1.º sargento de sua companhia e acabando pelo capitão, a todos a quem devia pedira licença para falar comigo, estando em perfeito estado; do contrário, não a teriam concedido.
No dia seguinte a esse incidente, Gómez já estava bom da cabeça. Eu ia chamá-lo, mas entrava de guarda, segundo vi ao formar-se a parada, e não quis fazê-lo.
Terminado seu serviço, chamei-o e, recordando-lhe que três dias antes me pedira uma licença, perguntei-lhe se já não a queria.
Sua resposta foi calar-se e ficar vermelho de vergonha.
— Por quantos dias o senhor quer licença, cabo?
— Por dois dias, meu comandante.
— Está bem; vá, e depois de amanhã, ao toque de assembleia, esteja aqui.
— Está bem, meu comandante.
E, dizendo isso, saudou respeitosamente, e mais tarde pôs-se em marcha para Itapirú; e dois dias depois, quando tocavam assembleia, a alegre assembleia, o cabo Gómez entrava no reduto, de volta de visitar sua irmã, bastante picado de aguardente, carregado de tortas, queijo e charutos que não tardou em repartir com seus irmãos de armas.
Eu também tive minha parte, cabendo-me um excelente queijo de Goya, que me mandava sua irmã, a quem eu não conhecia.
No mundo não há nada mais bom, mais puro, mais generoso que um soldado!
O tempo continuou correndo.
Marchamos dos campos de Tuyutí aos de Curuzú para dar o famoso assalto de Curupaití.
Chegou o memorável dia, e já tarde meu batalhão recebeu ordem de avançar sobre as trincheiras.
Cumpriu-se o ordenado.
Aquilo era um inferno de fogo. Quem não caía morto caía ferido, e quem sobrevivia a seus companheiros contava a vida por minutos. De todas as partes choviam balas. E o que completava a grandeza daquele quadro solene e terrível de sangue era que estávamos como que envoltos num trovão prolongado, porque as detonações do canhão não cessavam.
Aos cinco minutos de estar meu batalhão sob o fogo, suas perdas já eram sérias: muitos mortos e feridos jaziam envoltos em seu sangue, intrepidamente derramado pela bandeira da pátria.
Percorrendo de uma ponta a outra, encontrei o cabo Gómez, ferido num joelho, mas fazendo fogo de joelhos.
— Retire-se, cabo — eu lhe disse.
— Não, meu comandante — respondeu-me —, ainda estou bom — e continuou carregando seu fuzil, e eu meu caminho.
Ao regressar da extrema direita do batalhão para a esquerda, voltei a passar por onde estava Gómez.
Já não fazia fogo de joelhos, mas deitado de bruços, porque acabava de receber outra bala na outra perna.
— Mas cabo, retire-se, homem, eu ordeno — disse-lhe.
— Quando o senhor se retirar, meu comandante, eu me retirarei — replicou, e, soltando um voto, acrescentou: — Paraguaios, agora verão!
E, ébrio com o cheiro da pólvora e do sangue, fazia fogo e carregava seu fuzil com a rapidez do raio, como se estivesse ileso.
Aquele homem era bravo e sereno como um leão.
Ordenei a alguns feridos leves que se retiravam que o tirassem dali, e segui para a esquerda.
O assalto se prolongava...
Indo eu com uma ordem, recebi um casco de metralha num ombro, e não voltei ao fogo da trincheira.
Poucos minutos depois, o exército se retirava salpicado com o sangue de seus heróis, mas coberto de glória.
Para passar a parte, foi preciso averiguar a sorte que coubera a cada um dos companheiros.
Essa cerimônia militar é uma das mais tristes.
É uma revista em que os vivos respondem pelos mortos, os sãos pelos feridos.
Quem não sentiu o peito oprimir-se depois de um combate, durante esse ato solene?
— Juan Paredes!
— Presente!
— Pedro Torres!
— Ferido!...
— Luis Corro!...
— Morto!...
Ah! esse “morto!” faz um efeito que é preciso senti-lo para compreender toda sua amargura.
Segundo a revista que se passou no 12 de linha pelo primeiro-tenente D. Juan Pencienati, que foi o oficial mais caracterizado que regressou são e salvo do assalto de Curupaití, e segundo outras averiguações que se tomaram, conforme a prática, resultou que o cabo Gómez havia morrido, e por morto foi dado.
Na visita que se mandou passar aos hospitais de sangue, não se achou o cabo Gómez.
Para mim não cabia dúvida de que Gómez, se não havia morrido, havia caído prisioneiro ferido.
Os soldados diziam: — Não, senhor, o cabo Gómez morreu. Nós o vimos deitado de bruços ao nos retirarmos da trincheira com a bandeira.
Eu sentia a morte de todos os meus soldados como se sente a separação eterna de objetos queridos.
Mas, confesso-o, entre todos os soldados que sucumbiram naquela jornada de recordação imperecível, o que mais me fazia falta era o cabo Gómez.
A atitude desse homem obscuro, estendido de bruços, ferido nas duas pernas e fazendo fogo com o ardor sagrado do guerreiro, estava impressa em mim com caracteres indeléveis.
Essa visão jamais se apagará de minha memória. Perderei a lembrança dela quando os anos me tiverem feito esquecer tudo.
E por hoje termino aqui; amanhã prosseguirei meu conto.
Hoje te narrei simplesmente a morte de um vivo; amanhã te contarei a vida de um morto.
Se o de hoje te interessou, o de amanhã também te interessará.
Aos do fogão que me escutaram sucedeu assim.
Tradução brasileira de Uma Excursão aos Ranqueles, relato epistolar de Lucio V. Mansilla sobre uma viagem diplomática e militar às toldarias ranqueles, entre pampa, fronteira, negociação e observação histórica. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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