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Uma Excursão aos Ranqueles

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Uma Excursão aos Ranqueles

Capítulo 8 · Uma Excursão aos Ranqueles

Tomo 1 - Capítulo VIII

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Tomo 1 - Capítulo VIII

O Palmar de Yataití. — Sepulcro de um soldado. — Sua memória. — Seus últimos desejos cumpridos. — O rancho do general Gelly e o que ali se passou. — Ressurreição. — Visão realizada. — Fanatismo.

Nas imediações de meu reduto estava o Palmar de Yataití, onde tantos e tão honrosos combates para as armas argentinas tiveram lugar.

Ali foi enterrado o cabo Gómez, e sobre seu sepulcro mandei colocar uma tosca cruz de pinho com esta inscrição:

“Manuel Gómez, cabo do 12 de linha.”

Durante algumas horas sua memória ocupou tristemente a imaginação de meus bons soldados. E, pouco a pouco, o esquecimento, o doce esquecimento, foi apagando as impressões lutuosas daquele dia. No seguinte, se seu nome voltou a ser mencionado, já não foi por impulso da dor sofrida.

Assim é a vida, e assim é a humanidade. Tudo passa felizmente, numa sucessão constante, mas interrompida, de emoções ternas ou desagradáveis, profundas ou superficiais.

Nem o amor, nem o ódio, nem a dor, nem a alegria absorvem por completo a existência de nenhum mortal. Só Deus é imperecível.

A multidão esqueceu logo, como vês, o trágico fim do cabo.

Dispuz-me a cumprir suas últimas vontades.

Chamei o 1.º sargento da companhia de Granadeiros e, com essa preocupação fanática que nos faz cumprir estritamente os caprichos póstumos dos mortos queridos, paguei-lhe o peso que o cabo lhe devia.

Confesso que, depois de fazê-lo, senti um consolo inefável.

Custa tanto às vezes cumprir as pequenezas!

É por isso que o homem deve ser observado e julgado por suas obras pequenas, não por suas obras grandes.

No cumprimento das últimas está geralmente interessado o honor ou o crédito, o amor-próprio ou o orgulho, o egoísmo ou a ambição.

No cumprimento das primeiras não influi nenhuma dessas poderosas molas da alma humana, senão a consciência.

Cancelada a dívida com o sargento, restava-me fazer a remessa prometida dos haveres vencidos de Gómez à Esquina.

Esperar o comissário era um sonho. Quando viria ele? E, se viesse, estaria eu vivo? Entregar-me-ia, sobretudo, os soldos do cabo? O Estado não é o herdeiro infalível de nossos soldados mortos no campo de batalha, por ele mesmo, ou pela liberdade da pátria, ou por sua honra ultrajada?

Não é essa a consequência do odioso e imperfeito sistema administrativo militar que temos?

Gómez não era um soldado antigo em meu batalhão. Reservando-me, pois, ver se recolhia seus soldos de Guarda Nacional, resolvi mandar a sua irmã os seis ou oito que lhe deviam como soldado de linha.

Simbad, o correspondente do Standard, então no teatro da guerra, era vizinho da Esquina e meu antigo amigo.

Devo a ele a iniciação em um mundo novo, a leitura do Cosmos, esse monumento imperecível da sapiência do século XIX.

De Simbad ia valer-me para remeter a seu destino a pequena herança.

Teriam passado cinquenta e duas horas desde o instante em que o cabo Gómez, segundo deixei relatado, recebeu em seu peito intrépido as balas de seus próprios companheiros, em cumprimento de uma ordem e do mais terrível dos deveres.

Eu havia ido de meu reduto, segundo costume que tinha, ao alojamento do chefe do Estado-Maior.

Tinha este duas portas. Uma dava para o nascente e outra para o poente. A última estava aberta. O general Gelly escrevia com uma pausa metódica que lhe é peculiar, numa mesinha cuja colocação variava segundo as horas e a porta por onde entrava o sol. Desta vez achava-se colocada perto da porta aberta. Eu estava sentado numa cadeira de baqueta paraguaia, dando-lhe as costas.

Em que pensava?

Provavelmente, amigo Santiago, no mesmo que aquele tipo de comédia de San Luis, que um dia te ponderava as delícias de sua estância.

— Aqui passo o tempo — dizia-te certa bela tarde de primavera, desde o corredor que dominava vasta campina — pensando... pensando...

E tu, interrompendo-o, com tua sorna característica:

Em quê... em quê...

E o pobre homem respondia: em nada... em nada...

O general era distraído de sua escrita a cada passo por oficiais que se apresentavam com distintas solicitações, dirigindo-lhe a palavra desde o umbral da porta.

Eu seguia pensando...

No instante em que meu pensamento se perdia, que sei eu em que nebulosa, um eco do outro mundo com toada correntina ressoou em meus ouvidos.

— Aqui venho te ver, V. E., para que...

Meu sangue gelou, minha respiração se interrompeu... quis voltar-me: impossível!

— Estou ocupado — murmurou o general, e o ruído do raspar de sua pena, que não se interrompeu, produziu em minha cabeça um efeito nervoso semelhante ao que produz o ranger estridoroso dos dentes de um moribundo.

— Faz-me, che, V. E., o favor...

— Estou ocupado — repetiu o general.

Senti algo como quando em sonhos se nos figura que uma força invisível nos eleva pelos cabelos até as alturas em que pairam as águias.

Eu devia estar pálido como a cera mais branca.

O general Gelly fixou casualmente em mim o olhar e, ao ver a emoção angustiosa de que eu era presa, perguntou-me com inquietude:

— Que tem o senhor?

Não respondi... Mas ouvi... A vertigem já ia passando.

O general estava confuso. Eu devia parecer morto, não enfermo.

— Mansilla! — disse.

— General — repliquei, e, fazendo um esforço supremo, voltei a cabeça e olhei para a porta.

Se eu fosse mulher, teria lançado um grito e desmaiado.

Meus lábios calaram; mas, como suspenso por uma mola, e à maneira desses manequins mortuários que se levantam nas tábuas da cena teatral, fui me levantando pouco a pouco da cadeira, como querendo retroceder.

— Che, V. E., fazei vós o favor — voltou a ouvir-se.

O general Gelly pôs-se de pé e, dirigindo-se à voz que vinha da porta, respondeu:

— Que queres?

Senti um suor frio na fronte e, levando a mão a ela, como querendo condensar todas as minhas ideias e lembranças ou fazê-las convergir para um só foco, olhei para o general e exclamei com pavor:

— O cabo Gómez.

Efetivamente, o cabo Gómez estava ali, na porta do rancho do general, com o mesmo rosto que tinha na noite em que o vi pela última vez.

Só sua roupa havia mudado. Já não revestia o uniforme militar, mas uma veste talar negra.

Meus olhos estiveram fixos nele um instante que me pareceu uma eternidade.

O general Gelly voltou a repetir:

— Vamos, que queres? — E, dirigindo-se a mim: — O senhor está enfermo?

A aparição respondeu:

— Quero que me deixe velar a cruzinha de meu irmão.

— A cruzinha de teu irmão? — replicou o general, com ar de não entender bem.

— Sim, pois, Manuel Gómez, que já morreu...

E, dizendo isso, pôs-se a chorar, enxugando as lágrimas com a ponta do lenço negro que lhe cobria os ombros.

Enquanto se trocaram essas palavras, voltei a mim.

— E onde está a cruzinha de teu irmão? — disse o general.

— No cemitério da Legião Paraguaia.

Então, tomando eu a palavra, como aquela desventurada mulher não podia deixar de interessar-me, disse-lhe:

— Não, estás enganada, a cruz de Gómez não está aí.

— Eu sei — murmurou.

Querendo convencê-la, disse-lhe:

— Sou o chefe do 12 de linha, que era o corpo de teu irmão.

— Eu sei — murmurou, retrocedendo com marcada impressão de espanto.

— Tenho para ti os soldos de teu irmão; vem a meu batalhão, que está no reduto da direita, eu os darei e mandarei mostrar-te onde está sua cruz.

— Eu sei — murmurou.

Seguiu-se um longo diálogo. Eu pugnando para que a mulher fosse a meu reduto, para dar-lhe os soldos de seu irmão e indicar-lhe o sítio de sua sepultura; e ela aferrada em que não, respondendo apenas: Eu sei.

O general Gelly, picado pela curiosidade daquele caráter tão tenaz, ao que parecia, fez-lhe várias perguntas:

— De onde vens?

— Da Esquina.

— Quando saíste de lá?

— Anteontem.

— Onde soubeste da morte de teu irmão?

— Em parte nenhuma.

— Como em parte nenhuma?

— Em parte nenhuma, pois.

— Deram-te a notícia em Itapirú, ou aqui no acampamento?

— Em parte nenhuma.

— E então como a soubeste?

A irmã de Gómez referiu então, com simplicidade, que em sonhos vira seu irmão sendo levado a fuzilar; que, como seus sonhos sempre lhe saíam certos, acreditara na morte dele e que, tomando o primeiro vapor que passou pela Esquina, viera velar sua cruzinha, que estava no cemitério dos paraguaios, ideia que nela era fixa.

Às interpelações do general Gelly seguiram-se as minhas.

O sonho da irmã de Gómez tivera lugar precisamente no momento em que este estava em capela recebendo os auxílios espirituais.

Um fio invisível e magnético une a existência dos seres amantes, que vivem confundidos pelos vínculos terníssimos do coração.

E como disse um grande poeta inglês: “Há mais coisas no céu e na terra do que sonhou a filosofia.”

Empenhei-me com a mulher quanto pude, a fim de que fosse a meu reduto, tentando seduzi-la com o atrativo dos soldos de seu irmão.

Foi em vão!

O general a despediu, dizendo-lhe que podia velar a cruzinha de seu irmão.

E, depois de trocar algumas palavras comigo sobre aquele estranho sonho realizado, filosofando sobre a vida e a morte, a sós comigo, voltei a meu campo.

Mandei chamar Garmendia no ato e relatei-lhe tudo o que sucedera.

Despachamos em seguida emissários em busca da irmã de Gómez.

Acharam-na, mas foi inútil lutar contra sua inquebrantável resolução de não me ver, e menos ainda convencê-la de que a cruzinha de seu irmão não estava no cemitério que ela dizia.

Nessa noite houve um velório ao qual assistiram muitos soldados e mulheres de meu batalhão, prevenidos por mim.

Por eles soube que a irmã de Gómez, sendo eu o chefe do 12, atribuía a mim sua morte; e, igualmente, que na Esquina tinha alguns meios de viver, confirmando todos, naturalmente, que a notícia do fuzilamento fora dada por Deus em sonhos.

No dia seguinte ao velório, a mulher desapareceu do exército, sem que ninguém pudesse dar-me razão dela.

O único mérito que tem este conto de fogão, que aqui conclui, é ser certo.

Nem todas as histórias podem reivindicar esse crédito.

Será verdade que o público não adormeceu ao lê-lo?

Aos do fogão passaram coisas distintas.

Quando terminei, uns roncavam, outros, a maior parte, dormiam.

Ouviam-se soar os cinceros das tropilhas; a lua já desprendia alguma claridade.

— A cavalo, cordobeses! — gritei. — Acabaram-se os contos!

E todo mundo se pôs em movimento, e um quarto de hora depois rumávamos em direção a um oásis denominado Monte de la Vieja.

Boa noite! Para não dizer bom dia, ou saúde, leitor paciente.

Uma Excursão aos Ranqueles

Sinopse

Tradução brasileira de Uma Excursão aos Ranqueles, relato epistolar de Lucio V. Mansilla sobre uma viagem diplomática e militar às toldarias ranqueles, entre pampa, fronteira, negociação e observação histórica. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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