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Uma Excursão aos Ranqueles

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Uma Excursão aos Ranqueles

Capítulo 9 · Uma Excursão aos Ranqueles

Tomo 1 - Capítulo IX

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Tomo 1 - Capítulo IX

A Alegre. — Em que rumo saímos. — As viagens são um prazer? — Por que se viaja. — Monte de la Vieja. — O alpataco. — A raposa pendurada. — Pollo-helo. — Us-helo. — O que é aplastar-se um cavalo. — Coli-Mula. — A noitada em claro. — Precauções.

A Alegre é uma lagoa de água doce, permanente, cujo nome lhe cabe muito bem, pois está situada num acidente do terreno de certa elevação, circunvalada de médanos e arbustos que fornecem excelente lenha e pasto abundante.

As cavalgaduras deram ali uma boa empanturrada, que não lhes deu indigestão. Oxalá a ti e ao leitor sucedesse o mesmo com o conto do cabo Gómez! Se sucedesse o contrário, eu me veria no caso de suprimir outros que devem vir a seu tempo.

Pusemo-nos em marcha.

O rumo, sul, reto, ou reuto, como dizem os paisanos.

O caminho, ou melhor, a rastrillada, cruzava um campo cheio de pequenos chañares espinhosos. A lua estava em seu descenso, o céu nublado, a noite obscura, de modo que, não podendo ver com facilidade os objetos, a cada passo o cavalo fugia da senda para não se espinhar, espinhando-se o cavaleiro e evitando o ziguezague do animal que dormíssemos profundamente.

Todos os que viajam ponderam alguma maravilha, a que mais lhes chamou a atenção, ou têm alguma anedota favorita, algo que contar, em suma, ainda que não seja mais do que terem estado em Paris, verniz que nem em todos se percebe.

Dirás que não é certo?

No que costumam dividir-se as opiniões dos touristes, e desde logo as opiniões dos que não viajaram, pois é mais fácil coincidir em pareceres quando se conhecem praticamente as coisas, é sobre o capítulo: prazer das viagens.

Nem todos viajam do mesmo modo, nem pelas mesmas razões, nem com o mesmo resultado.

Viaja-se para gastar dinheiro, adquirir porte e ar chic, comer e beber bem.

Viaja-se para luzir a mulher própria, e às vezes a alheia.

Viaja-se para instruir-se.

Viaja-se para tornar-se notável.

Viaja-se por economia.

Viaja-se para fugir dos credores.

Viaja-se para esquecer.

Viaja-se por não saber o que fazer.

Vamos, seria interminável enumerar todos os motivos por que se viaja; como seria interminável dizer para que se viaja.

Não esqueçamos que essas duas proposições, embora muito parecidas, gramaticalmente não significam o mesmo. Ambas significam causa ou fim; mas para responde mais que por à ideia de efeito.

Por exemplo:

Não é comum ir à Europa por instruir-se para esquecer o pouco que se aprendeu na terra?

Não costuma acontecer fazer uma viagem por curar-se para morrer no caminho?

Ir porpara sair tosquiado.

Madame de Staël diz que viajar é, digam o que quiserem, um prazer tristíssimo.

Seja disso o que for, eu digo que, viajando pelos campos em noite clara ou obscura, é um prazer dormir.

De minha parte, ao passo, ao trote ou ao galope, durmo perfeitamente. E não só durmo: sonho.

Quantas vezes um amigo que tenho em Córdoba, Eloy Ávila, não surpreendeu meus sonhos, e indo a par comigo não me levantou o rebenque.

Seja disso o que for, o fato é que o caminho da Laguna Alegre ao Monte de la Vieja, não permitindo dormir à vontade pelo inconveniente dos arbustos, me pareceu pouco divertido.

Por fortuna, o terreno era melhor que o da primeira etapa. O guadal não nos ameaçava a cada passo, as mulas cargueiras não caíam e levantavam aqui e acolá como antes de chegar à Alegre.

Seriam três e meia da manhã quando chegamos ao Monte de la Vieja.

Amanhecia muito tarde, de modo que resolvi passar ali mais algum tempo.

Desencilhar e à lenha! foi o grito de ordem.

O fogão voltou a arder com uma rapidez maravilhosa.

Um dos talentos do gaúcho argentino consiste na prontidão com que encontra lenha e na assombrosa facilidade com que faz fogo.

Eles acham lenha onde nenhum outro a vê, e fazem fogo na água.

E, a propósito de lenha que não se vê, conheces, Santiago, o que é o algarrobo alpataco?

É um arbustinho muito pequeno, cujo desenvolvimento se faz subterraneamente, lançando raízes grossíssimas que, embora verdes, têm tanta resina que ardem como sebo.

Tu conheces o chañar. Pois assim é o alpataco.

Nos campos ao sul do Rio 4.º, particularmente nos de Sampacho, e em alguns ao sul do Rio 5.º, abunda esse arbustinho, que antes parece um algarrobo comum nascente.

O olho precisa estar exercitado para distinguir um do outro.

Pôs-se um assado!

Enquanto se fazia, tendo aquecido água num instante, cevava-se mate e davam-se boas cabeçadas de sono.

Nesse fogão não houve contos. Houve fome e sono e algumas ordens para quando amanhecesse.

Comemos, dormimos, e quando... eu ia dizer gorjeavam as avezinhas do monte...

Mas como, se na Pampa não há avezinhas! Por acaso se veem pássaros, um ou outro carancho. As aves, exceto as aquáticas, buscam as imediações dos povoados.

E depois, Monte de la Vieja não é mais que um pequeno grupo de árvores, não muito velhas, sob cuja ramagem destruída mal podem abrigar-se umas quantas pessoas.

A luz crepuscular vinha anunciando o dia no momento em que, cumprindo minhas ordens, puseram-se em movimento todos os assistentes ao chamado de Camilo Arias, homem de toda a minha confiança, alferes da Guarda Nacional do Rio 4.º, cuja pintura não faltará ocasião de fazer.

Era completamente dia quando deixávamos o Monte de la Vieja, dirigindo-nos a outra paragem, onde devia haver lenha e água sobretudo.

O rumo era sul acima, ou sul com alguns graus de inclinação ao oeste.

A noite estivera temperada, de modo que a manhã não apresentou nenhum desses fenômenos meteorológicos que a Pampa costuma oferecer quando, depois de um orvalho abundante ou de uma forte geada, sai o sol quente.

Marchávamos.

O terreno apresenta poucos acidentes; baixadas e baixadões que se vão encadeando, montezinho de pequenos arbustos queimados aqui, crescendo ou rebrotando ali; salitrais que enganam à distância com sua superfície prateada como a da água.

O objetivo a que eu me dirigia era o Zorro Colgado.

Por que se chama assim esse lugar é como lançar-se a nadar em busca de um objeto perdido. Provavelmente o primeiro cristão que ali chegou achou uma raposa pendurada pelos índios em alguma árvore.

Seis léguas representam, não andando com pressa, duas horas e meia de caminho; contemplando as cavalgaduras como é devido nas correrias distantes, um pouco mais.

Quando chegamos ao Zorro Colgado seriam dez da manhã.

O campo percorrido é muito só. Não tem bichos ou aves, como os paisanos chamam os veados, peludos, mulitas, guanacos etc.

O Zorro Colgado, naturalmente, não estava.

Aquele ponto é um grupinho de árvores, chañares velhos mais altos que corpulentos. Tem uma aguadinha que seca quando o ano não é chuvoso.

Ali paramos um pouco, o bastante para que chegassem as bestas de carga que haviam ficado para trás; e, depois de terem bebido bem, seguimos caminhando no mesmo rumo, até chegar a Pollo-helo, que quer dizer, em língua ranquelina, Laguna del Pollo, e cuja pronúncia deve ser feita nasalmente ou fanhosamente, por exemplo como se a palavra estivesse escrita assim e devessem soar todas as letras: Pollonguelo.

Aqui variamos um pouco de rumo, buscando o sul reto, e assim seguimos, cerca de légua e meia, por um campo muito guadaloso e pesado, em que caímos e levantamos várias vezes, assim como as mulas de carga, até chegar a Us-helo, onde há outro grupo de árvores, uma aguada semelhante à anterior e uma lagoinha de água salobra, mas potável quando não há seca.

As cavalgaduras se haviam aplastado um pouco com a légua e meia de guadal.

Aplastar-se é um termo do país, que vale mais que fatigar-se e menos que cansar-se, quando se quer expressar o estado de um cavalo.

Fizemos alto, fez-se fogo, fez-se cama para uma sesta, descansou-se, tomou-se mate, dormiu-se, e por fim chegaram as mulas de carga, que, tendo caído numa baixada, molharam as malas dos padres franciscanos.

Seriam três horas quando nos movemos dali em direção a Coli-Mula, que da etapa anterior fica em rumo sul.

Esse trajeto é mais variado que os demais; o terreno se quebra aqui e ali em grandes baixios salitrosos e em grupos consideráveis de arbustos crescidos.

Num imenso pajonal, semeado de grandes árvores disseminadas, pegamos um cavalo que fazia poucos dias andava por ali, pois ainda não estava alçado.

Quando chegamos a Coli-Mula, que quer dizer mula colorada, havíamos andado três léguas.

Não sei por que se chama assim essa paragem. Não há árvores. É uma linda lagoinha circular, de água excelente e abundante, que dura muito.

Resolvi descansar ali até as nove da noite e adiantar dois homens.

O céu começava a franzir o cenho, uma barra negra se desenhava no horizonte para o lado do poente, o sol brilhava pouco.

Íamos ter vento ou água.

Chamei o cabo Guzmán, magnífico tipo crioulo, e o índio Angelito, escrevi algumas cartas, dei-lhes minhas instruções e os despachei depois de assegurar-me de que haviam entendido bem.

Levavam encargo especial de chegar às toldarias do cacique Ramón, que são as primeiras, e de dizer-lhe que eu passaria de largo por elas, não sabendo se ao cacique Mariano pareceria bem que eu visitasse primeiro um de seus subalternos, e que no regresso o faria.

Partiram os chasquis.

Enquanto eu tomava as sobreditas disposições, outros se ocupavam em fazer um bom fogão, preparando-nos para a noitada.

Os chasquis ainda não se haviam perdido de vista quando frescas e fortes rajadas de vento começaram a augurar a inevitável proximidade da tormenta.

O céu ficou negro.

A experiência nos disse que devíamos renunciar ao fogão e ao assado e preparar-nos para uma noite toledana, para não dizer pampeana.

O vento recrudesceu, grossas gotas de água começaram a cair, a noite avançava, ou melhor, antecipava-se com rapidez.

Logo estivemos envoltos em completa obscuridade.

Chovia a cântaros, o vento assobiava, fulgores elétricos resplandeciam no céu a distâncias incomensuráveis, fazendo chegar a nossos ouvidos o ruído surdo do raio.

As tropilhas se haviam agrupado, davam as ancas ao vento e permaneciam imóveis.

Cada qual se havia acocorado o melhor possível e com manha procurava molhar-se o menos possível. Não tínhamos sequer onde fazer costas, nem era possível conversar, porque o ruído da chuva, que caía a torrentes, afogava as palavras que saíam debaixo dos ponchos ou capotes com que estávamos cobertos até a cabeça.

Durante duas horas choveu sem cessar, caindo a água a prumo.

Quando as intermitências do aguaceiro o permitiam, eu trocava algumas palavras com Camilo Arias, que estava quase colado a meu lado.

Numa dessas palestras diluvianas, disse-lhe assim:

— Pode ser que os índios me matem; é difícil. Mas não é difícil que queiram reter-me, com a ilusão de um grande resgate. Nesse caso, é preciso que o general Arredondo o saiba sem demora. Previne os rapazes — eram estes cinco homens especiais, meus baqueanos de confiança.

Será sinal de que ando mal que eu não tenha no pescoço este lenço.

Era um lenço de seda da Índia, vermelho, que sempre uso no campo debaixo do chapéu, por causa do sol e da terra.

Pode, no entanto, acontecer que eu tenha de presentear o lenço. Nesse caso, o sinal será que me vejam com a pera trançada.

Não comuniques isso a ninguém além dos rapazes. E, quando chegarmos às toldarias, não te aproximes jamais para falar comigo. Serve-te de um intermediário.

Camilo é como um árabe, fala pouco; sabe que a palavra é prata e o silêncio, ouro. Respondeu apenas:

— Está bem, senhor.

E fiquei seguro de que me havia entendido, ruminando: algum mosqueteiro chegará a Londres e falará com Buckingham.

Depois verás que caso extraordinário sucedeu com minha pera. (Previno-te que estou falando da barba.)

E como continua chovendo e estou molhado até a camisa, despeço-me até amanhã.

Uma Excursão aos Ranqueles

Sinopse

Tradução brasileira de Uma Excursão aos Ranqueles, relato epistolar de Lucio V. Mansilla sobre uma viagem diplomática e militar às toldarias ranqueles, entre pampa, fronteira, negociação e observação histórica. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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