Universo da obra
Universo da obra
Por onde tinham ido os chasques. — Entrada nos montes. — Direitos de piso e água. — Recomendações. — Despacho de algumas tropilhas para o Rio 5.º. — Os montes. — Impressões filosóficas. — Utatriquin. — O conto do arreeiro.
Antes de pôr-me em marcha resolvi deixar as mulas para trás. Caminhavam sumamente devagar, por causa do muito que chovera, e era um martírio para os franciscanos segui-las ao passo; o padre Moisés não é tão maturrango, mas o padre Marcos não achava postura cômoda.
Contra meus cálculos, tomamos o rastro dos chasques.
Haviam seguido o caminho de Lonco-uaca.
Meu lenguaraz, mestiço chileno, filho de cristão e de índia araucana, homem muito baqueano, de cujas confidências sou depositário, não por ele mas por outros, o que me permitirá contar suas aventuras amorosas de Terra Adentro, julgou oportuno fazer-me algumas indicações.
Eram muito judiciosas e sensatas; e como entre elas entrasse a possibilidade de os chasques se extraviarem, em razão de que nem Guzmán nem Angelito conheciam praticamente o caminho que haviam tomado, pareceu-me prudente fazer por minha vez minhas recomendações.
Íamos já entrar nos montes; ter de marchar em dispersão, sem nos vermos uns aos outros; por sendas tortuosas, que umas vezes se apagavam de improviso, outras se bifurcavam em quatro, seis ou mais caminhos, conduzindo todas à espessura.
Era facílimo perder a verdadeira rastrillada, e também muito provável que não tardássemos a ser descobertos pelos índios.
Um tal Peñaloza costuma ser o primeiro que se apresenta aos índios ou cristãos que passam por essas terras, alegando serem suas e ter direito a exigir que lhe paguem o piso e a água.
Não há outro remédio senão pagar, porque o senhor Peñaloza se guarda muito bem de sair a cobrar contribuição alguma quando os caminhantes são mais numerosos que os de seu toldo ou vão melhor armados.
Mais adiante há outros senhores donos da terra, da água, das árvores, dos bichos do campo, de tudo, enfim, o que possa ser pretexto para viver à custa do próximo.
Esses direitos interterritoriais se cobram da forma mais política e cumprida, quase suplicando e demonstrando aos contribuintes equestres a pobreza em que se vive por ali, o escasso que anda o trabalho.
Se os expedientes pacíficos surtem efeito, não há novidade; se os transeuntes não se enternecem, recorre-se às ameaças; e se estas são inúteis, à violência.
É ser bastante parlamentar para viver tão longe dos centros da civilização moderna.
Recomendei à minha gente como haviam de marchar; proibi terminantemente que, sob pretexto de compor a montaria, alguém ficasse para trás; adverti que a cada quarto de hora faria uma parada de dois minutos para que pudéssemos ir o mais juntos possível; descrevi a aguada de Chamalcó, onde me demoraria um pouco, o bastante para mudar cavalos caso alguém chegasse a ela extraviado; e aos franciscanos supliquei que me seguissem de perto, para não dar o diabo o mau momento de se me perderem.
Finalmente fiz notar que, achando-nos já onde podia haver perigo quando menos o esperássemos, eu queria, visto que não estávamos bem armados, que todos e cada um nos conduzíssemos com moderação e astúcia, com sangue-frio sobretudo, que, como disse muito bem Pelletan, é a coragem que julga.
Feito isso, mandei que dois soldados, com duas tropilhas que não me faziam falta, voltassem ao Rio 5.º caminhando devagar.
Escrevi a lápis quatro palavras para o general Arredondo e alguns subalternos amigos de minhas fronteiras, avisando-lhes que havia chegado felizmente ao Cuero, e entramos nos montes.
Formosos algarrobos seculares, caldenes, chañares, espinillos, sob cuja sombra inacessível aos raios do sol cresce frondosa e fresca a verdejante grama, constituem estes montes, que não têm a beleza dos de Corrientes, do Chaco ou do Paraguai.
As esbeltas palmeiras, empinando-se como fantasmas na noite sombria; a vegetação pujante, renovando-se sempre pela umidade; as laranjeiras que por toda parte oferecem seu fruto dourado; as enredadeiras emaranhadas, vestindo as árvores mais altas até o cume e suas flores imortais o ano inteiro; o musgo fresco tapeçando os troncos robustos; o líquen pegajoso, que com o orvalho matinal brilha como esmaltado de pedras preciosas; as taboas que se balançam graciosas, agitando ao vento seus brancos e sedosos penachos; as flores do ar, que vivem das auras puríssimas, embalsamando a atmosfera como turíbulos da ridente Natura; as aves pintadas de mil cores, cantando alegres a todas as horas; os répteis variegados serpenteando em todas as direções; os milhões de insetos que murmuram em incessante coro diurno e noturno; a água sempre abundante para consolo do viajante sedento, e tantas, tantas outras coisas que revelam a eterna grandeza de Deus, onde estão aqui? perguntava-me eu, soliloquiando entre os algarrobos carbonizados e carcomidos.
E como sempre que sob certas impressões elevamos o espírito a visão da pátria se apresenta, pensei um instante no porvir da República Argentina no dia em que a civilização, que virá com a liberdade, com a paz, com a riqueza, invadir aquelas comarcas desertas, destituídas de beleza, sem interesse artístico, mas adequadas à criação de gados e à agricultura.
Ali há pastos abundantes, lenha para toda a vida e água quanto se queira sem grande trabalho, pois correntes artesianas inesgotáveis sulcam as Pampas convidando ao labor.
Cada médano é uma grande esponja absorvente; cavando um pouco em seus vales, a água mana com facilidade.
A mente dos homens de Estado se precipita demasiado, a meu juízo, quando em seu anelo de ligar os mares, o Atlântico ao Pacífico, querem levar o ferrocarril pelo Rio 5.º.
A linha do Cuero é a que se deve seguir. Seus bosques oferecem dormentes para os trilhos quantos se queira, combustíveis para as vorazes fornalhas da impetuosa locomotiva.
São iguais aos de Yuca, cuja exploração fez e continua fazendo a empresa do Gran Central Argentino.
Esses campos são melhores que aqueles.
E se um ferrocarril, além das vantagens do terreno, da linha reta, das necessidades do presente e do porvir, deve consultar a estratégia nacional, que trajeto melhor calculado para conquistar o deserto que o que indico?
A impaciência patriótica pode fazer-nos incorrer em grandes erros; o estudo paciente fará que não caiamos no engano.
Não posso falar como sábio: falo como homem observador. Tenho a carta da República na imaginação e faltam-me o teodolito e o compasso.
Os perigos para o trabalho são mais imaginários que reais. Oportunamente poderia ocupar-me desse tópico. Por ora me atreverei a adiantar que eu, com cem homens armados e organizados de certa maneira, responderia pela vida e pelo êxito dos trabalhadores.
Incito a meditar sobre esse grande problema do comércio e da civilização.
Jamais vi, em minhas correrias pela Índia, pela África, pela Europa, pela América, nada mais solitário que estes montes do Cuero.
Léguas e léguas de árvores secas, abrasadas pela queimada; de cinzas que, envoltas na areia, se levantam ao menor sopro de vento; céu e terra: eis o espetáculo.
Aquilo entenebrecia a alma. As cavalgaduras já iam sedentas, Chamalcó estava perto.
Chegamos.
O perigo estreita, vincula, confunde; a união é um instinto do homem nas horas solenes da vida.
Ninguém ficara para trás. Segundo os cálculos do baqueano, Chamalcó tinha água.
Esperamos um bom tempo antes de deixar beber os animais.
Repousaram e beberam.
Nós achamos um manancial ao pé de uma árvore magnífica, de robustez e frondosidade.
Mudamos cavalos e seguimos, saindo a um grande descampado.
Respirei com expansão.
O europeu ama a montanha; o argentino, a planície.
Isso caracteriza duas tendências.
Das alturas físicas contemplam-se melhor as alturas morais.
Os povos mais livres e felizes do mundo são os que vivem nos picos da terra.
Vede a Suíça.
Pouco depois voltamos a entrar no monte. Aqui era mais ralo. Podíamos galopar e era preciso fazê-lo para chegar com luz a Utatriquin, outra aguada, porque a noite seria sem lua, que saía de madrugada.
Apressamo-nos quanto a arvoredo permitia e chegamos à etapa apetecida.
“Era a tarde, e a hora
Em que o Sol a crista doura
Dos Andes...”
Essa aguada é um imenso charco de água revolta e suja, mal potável para as bestas.
Prevendo que não estivesse boa, havíamos enchido os chifres em Chamalcó.
Havíamos marchado muito bem, ganhando mais terreno do que eu esperava; já não tinha por que apressar-me.
Podia descansar um bom tempo, o que faria muito bem aos cavalos e a meus queridos franciscanos.
Mandei desencilhar.
O padre Marcos me olhou como dizendo: louvado seja Deus! que, se nestes berinjelais me mete, também me ajuda.
Havia um curral abandonado; perto dele acampamos.
Ordenei que se redobrasse a vigilância dos cavalariços, entusiasmei os assistentes com algumas palavras de carinho e pouco depois ardeu flamejante o atraente fogão.
Começou a conversa de uns com outros, sem distinção de pessoas.
Já o disse: o fogão é a tribuna democrática de nosso exército.
O fogão argentino não é como o fogão de outras nações. É um fogão especial.
Estávamos tomando mate de café de sobremesa; a noite havia estendido fazia tempo seu negro sudário.
Uma voz murmurou, como para que eu ouvisse:
— Se o coronel contasse algum conto.
Era meu assistente Calixto Oyarzábal, de quem já falei em uma das anteriores; bom rapaz, espirituoso e desses a quem basta dar o pé para que tomem a mão.
— Sim, sim — disseram os franciscanos, ao ouvi-lo, os oficiais e demais adláteres —, que o coronel conte um conto!
Fiz-me rogar e cedi.
É costume que os homens tomamos das mulheres.
E sabes, Santiago, que conto contei?
Um dos teus.
O do arreeiro.
Vamos, aposto que esqueceste.
Vou contá-lo a três mil léguas.
O respeitável público que assiste a este colóquio me dispensará.
— Prestem bem atenção — disse antes de começar —, que este conto é bom ter presente quando se viaja por entre montes cerrados.
Todos estreitaram a roda do fogão, alguém atiçou o fogo, os olhos brilharam de curiosidade e me olharam como dizendo: já somos todos ouvidos, comece, pois.
Tomei a palavra e falei assim:
— Era este um arreeiro, homem que correra muitas terras; que se metera com a montonera nos tempos de Quiroga e a quem a justiça perseguia.
Indo um dia pelos Llanos de La Rioja, saiu-lhe uma partida de quatro. Quiseram prendê-lo, ele resistiu; quiseram tomá-lo à viva força, e ele se defendeu. Matou um, feriu outro e fez disparar três.
Nesses momentos avistou-se outra partida; prevenida esta pelos derrotados, apuraram o passo. O arreeiro fugiu e internou-se num monte.
Montava uma mula zaina, meio velhaca. Corria por entre o monte quando a cincha lhe foi às virilhas.
Ir-se a cincha e agachar-se a besta para corcovear foi tudo um.
O arreeiro era gaúcho e ginete.
Descompondo-se e recompondo-se sobre o lombilho, andou muito tempo, até que numa dessas, como tinha as mechas do cabelo muito longas e porrudas, enganchou-se no galho de um algarrobo.
A mula continuou corcoveando, saiu-lhe de entre as pernas e ele ficou pendurado.
Permaneceu assim como um Judas, longo tempo, esperando que alguém o ajudasse a sair do aperto; mas em vão.
Chegou a noite.
Os que o seguiam acertaram passar por ali.
O arreeiro, com a rapidez do pensamento, concebeu uma estratagema.
Deixou que a partida se aproximasse, pondo a cara lânguida, e quando ao resplendor da lua vieram vê-lo, disse com voz cavernosa:
— Viva Quiroga!
A partida, ao ouvir falar um morto, fugiu possuída de terror pânico, segurando os pingos sabe Deus onde.
O arreeiro salvou-se assim.
Mas aquela atitude não podia prolongar-se demasiado.
Era incômoda.
Procurou sair dela. Buscou sua faca; com os corcovos da mula a havia perdido.
Era uma verdadeira fatalidade. Não tinha com que cortar os cabelos e, como eram muito longos, não alcançava com a mão para desprendê-los do galho em que estavam enredados.
Um homem como ele, acostumado a todas as fadigas, podia resistir ao peso do próprio corpo, se não houvesse outro remédio, não digo um dia, muitos dias, tendo o que comer. É claro. A necessidade tem cara de herege.
Mas não tinha nada. Tudo fora levado pela mula nos alforjes. Felizmente tinha um pedaço de queijo nos bolsos, isqueiro, tabaco e papel.
Água era o de menos para um arreeiro.
Comeu o pedaço de queijo.
Depois tirou sua chuspa e armou um cigarro; depois tirou fogo e fumou.
Ninguém passava por ali, apesar da voz que deviam ter espalhado os da partida, despertando a curiosidade popular.
O arreeiro fumava e fumava e, em lugar de outras coisas, quando tinha necessidade, soltava fumaça e fumaça.
E assim passou muitos dias, até que de fome comeu a camisa e morreu de indigestão.
E entrei por um caminhinho e saí por outro.
Não sei se ao público agradará este conto; no fogão foi aplaudido.
Sou portenho, do bairro de San Juan, e ninguém é profeta em sua terra.
Por isso Sarmiento, sendo de San Juan, é presidente, tendo-se cumprido com ele uma de minhas profecias do Paraguai.
Quando eu chegava ao fim de meu conto, seriam oito horas.
Dei minhas ordens, encerraram no curral os cavalos, tomou-se e encilhou-se num abrir e fechar de olhos, montamos, pusemo-nos a caminho e nessa noite sucederam coisas raras...
Basta de contos.
Tradução brasileira de Uma Excursão aos Ranqueles, relato epistolar de Lucio V. Mansilla sobre uma viagem diplomática e militar às toldarias ranqueles, entre pampa, fronteira, negociação e observação histórica. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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