Universo da obra
Universo da obra
Não é possível seguir a marcha. — Civilização e barbárie. — Em que consiste a primeira. — Reflexões sobre esse tópico. — Em marcha. — Maneira de mudar de perspectiva sem sair de um mesmo lugar. — Assombroso adiantamento destas terras. — Ralico. — Tremencó. — Médano del Cuero. — O Cuero. — Seus campos.
O homem propõe e Deus dispõe.
Foi impossível seguir a marcha às nove.
A chuva cessou às quatro horas; mas o céu ficou encapotado, ameaçando voltar a desabar, o aquilão continuou rugindo e os relâmpagos serpenteando no céu pelos espaços sem fim.
Pensei em que a gente mastigasse. Acima! gritei, vamos, depressa, façam um bom fogo, ponham um assado e uma chaleira de água!
Os assistentes saíram de seus esconderijos e um momento depois crepitava o verde e resinoso chañar.
O assado se fazia, a água fervia, uns quantos rodeavam o fogo, aquecendo-se, secando seus trapinhos, olhando para o céu e fazendo cálculos sobre se voltaria a chover ou não.
O fogão estava feito e em regra, porque de seu centro se elevavam grandes e reluzentes labaredas.
Era impossível resistir-lhe. Mais fácil teria sido uma mulher passar diante de um espelho sem dar a si mesma a inefável satisfação platônica de mirar-se.
Abandonei a postura em que me havia colocado e permanecido tanto tempo, e aproximei-me dele.
Deram-me um mate.
Os bons franciscanos tentavam dormir, rendidos pela fadiga do dia e da noite anterior, pois quem não está feito às bragas, as costuras lhe fazem chagas.
Fazendo uso da familiaridade e confiança que tinha com eles, obriguei-os a levantar-se e a ocupar um lugar na roda do fogão.
Apressamos o assado, espalhamos brasas, estendemo-lo, e não tardou em estar pronto.
Enquanto esteve, secamo-nos.
Comemos bem, fizemos camas com alguma dificuldade, porque tudo estava alagado e as pilchas muito molhadas, e nos deitamos a dormir.
Dormimos perfeitamente. Como se dorme bem em qualquer parte quando o corpo está fatigado!
Se os que nessa noite se revolviam no leito elástico e macio, agitados pela insônia, nos tivessem ouvido roncar nos albardões de Coli-Mula, que inveja não lhes teríamos dado!
É indubitável que a civilização tem suas vantagens sobre a barbárie; mas não tantas como asseguram os que se dizem civilizados.
A civilização consiste, se faço dela uma ideia exata, em várias coisas.
Em usar colarinhos de papel, que são os mais econômicos, botas de verniz e luvas de pelica. Em haver muitos médicos e muitos enfermos, muitos advogados e muitos pleitos, muitos soldados e muitas guerras, muitos ricos e muitos pobres. Em que se imprimam muitos jornais e circulem muitas mentiras. Em que se edifiquem muitas casas, com muitos cômodos e pouquíssimas comodidades. Em que funcione um governo composto de muitas pessoas, como presidente, ministros, congressistas, e em que se governe o menos possível. Em que haja muitíssimos hotéis, todos muito ruins e todos muito caros.
Por exemplo, como um em que parei na última noite que dormi em Rosário — que tentei dormir, para ser mais verídico.
São precisamente as camas desse hotel que me sugeriram estas reflexões tão vulgares.
Ah! Naquelas camas havia de quanto Deus criou no quinto dia, que, se não me recordo mal, foram “os animais domésticos, segundo sua espécie, e os répteis da terra, segundo sua espécie”.
Tudo isso, segundo afirma o Gênesis, o Supremo Fazedor viu que era bom, embora seja coisa que não me entra na cabeça: que os animais domésticos do referido hotel de Rosário jamais tenham sido coisa boa; e menos na noite em que estive nele, em que juraria, à fé de cristão, que me pareceram algo mais que coisa má, coisa péssima, tão insuportável que me creio na obrigação de perguntar:
A civilização não tem o dever de fazer que se suprimam essas coisas, que puderam ser boas no princípio do mundo, mas que podem ser postas em dúvida num século em que temos coisas tão boas como as do Orión?
Que fazem então os governos?
A civilização não nos diz todos os dias, em grandes letras, que o governo é para o povo?
Que, em vez de investir os dinheiros públicos em torpes guerras, deve aplicá-los a melhorar a condição do povo?
Não há inspetores de pontes e caminhos, inspetores de alfândegas, inspetores de fronteiras, inspetores de escolas, inspetores de tudo, e assim vai a coisa?
Pois então por que não haverá inspetores de hotéis?
Acaso esses estabelecimentos não se relacionam muito intimamente com a saúde pública?
Não se albergam neles o cólera, a febre amarela e tantas outras coisas que Deus criou no quinto dia, e que em seu atraso inocente e primitivo acreditou que eram boas, legando-as assim em herança à humanidade ingrata?
Crê-se que faltariam inspetores de hotéis?
Proveja-se o cargo por concurso, prévio exame de conhecimentos, aptidões, moralidade, estado fisiológico dos candidatos, e se verá, sem demora, que sobra patriotismo no país.
Não digo pagando bem o emprego, que é o modo mais eficaz de salvar a moral administrativa e o meio mais seguro, sobretudo, de que abundem requerentes.
Qualquer remuneração que se oferecesse bastaria.
Há no país, felizmente, o convencimento de que todos devem tributar à pátria abnegação, tempo, sangue, alma e vida.
Essa grande conquista é devida à educação oficial dada pelos bons governos que tivemos à Guarda Nacional.
Ela fez tudo: guerras interiores, guerras de fronteira, guerras exteriores.
Decididamente a civilização é, de todas as invenções modernas, uma das mais úteis ao bem-estar e aos progressos do homem.
Entretanto, enquanto os governos não puserem remédio a certos males, continuarei crendo, em nome de minha escassa experiência, que se dorme melhor na rua ou na Pampa do que em alguns hotéis.
Soavam os cinceros das tropilhas; cada qual se preparava para montar a cavalo, tendo esquecido suas penas ao redor do fogão:
“E no Oriente nublado
A luz apenas raiando,
Ia o campo tapeçando
De claro-escuro verdor.”
Galopávamos, aproveitando o fresco da manhã, e à direita, em lontanança, já se viam os primeiros montes de Terra Adentro.
Eu me propunha chegar cedo ao Cuero.
Mal saímos de Coli-Mula, compreendi que não o conseguiria.
O campo estava coberto de água e, quebrando-se em altos médanos, em baixadas profundas e guadalosas, obrigava-nos a marchar devagar.
Os cavalos teriam suportado bem uma marcha acelerada; as mulas, não.
E, no entanto, por mais devagar que andei, ficaram para trás, porque a cada momento caíam com as cargas e era preciso perder tempo em endireitá-las.
Mais além de um lugar em que há água e lenha, e cujo nome é Ralico, o terreno se dobra sensivelmente formando vários médanos elevados, e é dali que já se avistam os montes do Cuero.
Os campos começam a mudar de fisionomia, e a vista não se cansa tanto espaçando-se pela savana imensa do deserto solitário, triste, imponente, mas monótono como o mar em calma.
Sem contrastes, há existência, não há vida.
Viver é sofrer e gozar, aborrecer e amar, crer e duvidar, mudar de perspectiva física e moral.
Essa necessidade é tão grande que, quando eu estava no Paraguai, amigo Santiago, vou dizer-te o que costumava fazer, cansado de contemplar desde meu reduto de Tuyutí todos os dias a mesma coisa: as mesmas trincheiras paraguaias, os mesmos bosques, os mesmos esteros, as mesmas sentinelas; sabes o que fazia?
Subia ao merlão da bateria, dava as costas ao inimigo, abria as pernas, formava uma curva com o corpo e, olhando para a frente por entre elas, ficava um instante contemplando os objetos ao contrário.
É um efeito curioso para a visão, e um recurso a que te aconselho recorrer quando te enfadares ou te cansares da igualdade da vida nessa velha Europa que se crê jovem, que se crê adiantada e vive na ignorância, sendo prova incontestável disso, como diria Théophile Gautier, que ainda não pôde inventar um novo gás para substituir o Sol.
A América, ou melhor, os americanos do Norte, vão deixá-la para trás se ela se descuidar.
Por enquanto, nós vamos resolvendo os problemas sociais mais difíceis — degolando-nos —, e as teorias e cifras de Malthus sobre o crescimento da população não nos alarmam nem por um minuto.
Temos grandes empíricos da política que todos os dias nos provam que a dor pode ser não só um anestésico, mas um remédio; que as tiranias e a guerra civil são necessárias porque sua consequência inevitável, fatal, é a liberdade.
Isso te demonstram em quatro palavras e com espantosa clareza, a tal extremo que nossa juventude já tem seus axiomas políticos dos quais não apeia, crendo neles piamente e demonstrando-os prematuramente por A mais B.
Tu te assombrarias se voltasses a estas terras longínquas e visses o quanto avançamos.
Procurarias inutilmente o moinho de vento; o pinheiro da quinta de Guido escapou por milagre. A civilização e a liberdade arrasaram tudo.
O Paraguai não existe. A última estatística depois da guerra arroja a cifra de cento e quarenta mil mulheres e quatorze mil homens.
Essa grande obra realizamos com o Brasil. Entre os dois mandamos López à difuntería.
Não te parece que não é tão pouco fazer em tão pouco tempo?
Agora a empreendemos com Entre Ríos, onde López Jordán encarregou-se de despachar Urquiza.
Todos, todos sentiram muitíssimo sua morte.
Desta guerrinha, em que nos meteu a fatalidade histórica, consolamo-nos pensando que acabará logo, e que, como Entre Ríos estava muito rico, fazia-lhe falta conhecer a pobreza.
A letra entra com sangue.
É o princípio da dor fecunda.
Falo-te e conto-te essas coisas porque vêm a propósito. E não tão sem motivo, pois mais adiante verás que elas se relacionam bastante, mais do que parece, com os índios.
Não há quem sustente que é melhor exterminá-los em vez de cristianizá-los, civilizá-los e utilizar seus braços para a indústria, o trabalho e a defesa comum, já que tanto se grita que estamos ameaçados pelo excesso de imigração espontânea?
Sigamos caminhando...
Passados os médanos de Ralico, chega-se à aguada de Tremencó. São duas lagoas, uma de água doce, outra de água salgada. Ambas costumam secar.
De Tremencó passa-se ao Médano del Cuero.
Dali ao próprio Cuero há duas léguas.
Essa lagoa terá uns cem metros de diâmetro. Sua água é excelente, e durante as maiores secas ali podem abeberar sua sede muitíssimos animais, sem outro trabalho que cavar as vertentes do lado sul.
Na Laguna del Cuero viveu muito tempo o famoso índio Blanco, açoite das fronteiras de Córdoba e San Luis; terror dos caminhantes, dos arreeiros e tropeiros.
Já te contarei como o tirei do Cuero com uns quantos gaúchos, sem cuja circunstância eu o teria encontrado em seus antigos domínios.
Esse episódio tem seu interesse social, e fará conhecer a muitos que não saem dos bairros cultos de Buenos Aires o que é nossa pátria amada, em que há de tudo e para tudo: um negro que mate uma família inteira por vingança e por amor, e um branco que mate um governador também por amor à liberdade, depois de haver sustentado com seu braço viril a tirania.
Enquanto isso, direi que os campos entre o Rio 5.º e o Cuero são diferentes. Ricos pastos abundantes e variados; grama, porotillo, trevo, quanto se queira. Água inesgotável, lenha, montes imensos.
Um estancieiro entendido e laborioso ali faria fortuna em poucos anos.
Mas do Cuero ao Rio 5.º há trinta léguas.
Que ponham o guizo no gato. Dali aos primeiros toldos permanentes há outras trinta léguas, e os índios andam sempre boleando pelo Cuero.
Estou esperando as mulas que ficaram para trás, e refletindo na margem da lagoa se o grande ferrocarril projetado entre Buenos Aires e a cordilheira não seria melhor trazê-lo por aqui.
Não vás acreditar que os índios ignoram esse pensamento.
Também eles recebem e leem La Tribuna.
Ris, Santiago?
Tempo ao tempo.
Tradução brasileira de Uma Excursão aos Ranqueles, relato epistolar de Lucio V. Mansilla sobre uma viagem diplomática e militar às toldarias ranqueles, entre pampa, fronteira, negociação e observação histórica. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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