Universo da obra
Universo da obra
Teoria sobre o ideal. -- Miguelito continua contando sua história. -- Quadro de costumes.
Toda narração simples, natural, sem artifício nem afetação, acha ecos simpáticos no coração.
O ideal não pode realizar-se senão mantendo-nos dentro dos limites da Natureza.
Ou não existe, ou não é verdade?
Ou não há beleza plástica, traços, linhas, formas humanas perfeitas?
Ou não há beleza aérea, acidentes, fenômenos fugitivos, perfeição moral?
Miguelito me havia cativado.
Era como uma aparição novelesca no quadro romântico de minha peregrinação; da azarosa cruzada que eu empreendera, devorado por uma febre generosa de ação, com uma ideia determinada, e digo determinada porque, sendo a capacidade do homem limitada, para fazer algo útil, grande ou bom, temos necessariamente que circunscrever nossa esfera de ação.
Vendo o tom de tristeza que vagava por sua simpática fisionomia, deixei-o por um momento recolhido em si mesmo, e quando a nuvem sombria de suas recordações se dissipou, disse-lhe:
-- Continua, filho, a história de tua vida me interessa.
Miguelito continuou:
-- Eu não vivia com meus pais; eles estavam sumamente pobres, e eu havia gasto tudo quanto tinha pela liberdade do meu velho. Tive de ir viver com a família de Regina.
Nos primeiros tempos andei muito bem com minha mulher.
Meus sogros me queriam e me ajudavam a trabalhar, emprestando-me dinheiro; cuidavam de mim e me atendiam.
No princípio, todos os sogros são bons. Mas depois!
Por isso os índios têm razão em não se tratar com eles.
-- Conhece esse costume daqui, meu coronel?
-- Não, Miguelito; que costume é esse?
-- Quando um índio se casa, e o sogro ou a sogra vão viver com ele, nunca se veem, ainda que estejam juntos. Dizem que os sogros têm gualicho.
Repare quando entrar num toldo e verá como penduram umas mantas para que o genro e a sogra não se vejam.
-- Eis aí um costume que não anda tão desencaminhado -- exclamei para meus botões, e, dirigindo-me a meu interlocutor, disse-lhe: continua.
Miguelito murmurou:
-- São muito diabos estes índios, meu coronel -- e prosseguiu assim:
-- Pouco tempo depois de estar casado com a Regina, já minha família[1] começou a andar como meu pai e minha mãe.
Todos os dias brigávamos, parecíamos cães e gatos.
E em todas as rixas que tínhamos metia-se meu sogro, algumas vezes minha sogra, sempre dando razão à filha.
Quando saía melhor, tinha que ir embora da casa, deixando que me gritassem patife, estróina, pobretão.
Dava-me raiva e eu não voltava por muitos dias, levava-me por aí entre comadres, e era pior.
Assim é o mundo.
De yapa, quando voltava, como a Regina estava mal-acostumada, porque os pais a aconselhavam, não queria ser minha mulher.
Dava-me raiva e pouco a pouco eu lhe ia perdendo o carinho.
É verdade que, como a Dolores sempre me recebia de noite, às escondidas de seus pais, que, vendo-me casado, nada suspeitavam de nossos amores, eu já não tinha muita necessidade dela.
Ao homem nunca falta mulher, meu coronel, como o senhor não ignora.
Veja aqui: tem-se quantas se quer.
O que costuma faltar é dinheiro.
Havendo, compra-se todas as que se pode sustentar. Mariano Rosas tem cinco agora, e antes teve sete. Calfucurá tem vinte. Que índio bárbaro!
-- E tu, quantas tens?
-- Eu não tenho nenhuma, porque não há necessidade.
-- Como é isso?
-- Sim; aqui a mulher solteira faz o que quer.
Já verá o que Mariano lhe diz das chinas e cativas, de suas próprias filhas. E por que acredita então que os cristãos gostam tanto desta terra? Por alguma coisa havia de ser, pois.
Fiquei pensando nas seduções da barbárie; e como havia tempo para inteirar-me delas, e queria conhecer o fim da história começada, disse-lhe:
-- E te arranjaste afinal com teus sogros e com tua mulher própria?
-- Arranjava-me e desarranjava-me. Uns tempos andávamos misturados; outros, eu por um lado, eles por outro.
Por fim, Regina se tornara muito ciumenta; porque, não sei como, soube das minhas coisas com a Dolores.
Até me ameaçou uma vez que havia de me delatar.
Aquilo era uma meada que não se podia desenredar, e, além disso, tinham dado na mania de falar mal de minha mãe, de modo que eu os ouvisse. Diziam que ela era minha alcoviteira e eu a do juiz.
Uma noite quase me desgraço com meu sogro.
Se não é por Regina, enfio-lhe o alfajor até o cabo, por malfalado.
Era uma patifaria; porque minha mãe, meu coronel, era mulher de lei.
Trabalhava como um macho o dia inteiro, e rezar era sua vida.
Como sempre acontece nas famílias, nos compusemos. Mas dos lábios para fora. Por dentro havia outra coisa.
Eu prudenciava, porque minha mãe me dizia sempre: tem paciência, filho.
-- E a Dolores? -- perguntei-lhe.
-- Sempre a via, meu coronel -- respondeu-me.
-- E como fazias?
-- Já lhe vou contar, e verá todas as desgraças que me sucederam.
Eu ia quase todas as noites escuras à casa da Dolores.
Saltava a tapia e me escondia entre as árvores da horta, e ali esperava até que ela viesse.
Meu cavalo eu deixava maneado do lado de fora.
Quando a Dolores vinha, porque nem sempre podia fazê-lo, ficávamos um longo tempo em amor e companhia, e depois eu voltava para minha casa.
Um dia minha mãe me disse:
"Filho, já não posso suportar teu pai; cada vez fica pior com a bebida; o dia inteiro está nessa lengalenga com o juiz. Disse-me que se ele vier esta noite há de matá-lo, e a mim também. E eu não me atrevo a despedi-lo, porque tenho medo de que a vocês venha algum prejuízo. Já vês o que aconteceu da vez passada. E agora, com os boatos que correm, hão de se agarrar a qualquer coisa para fazê-los veteranos."
Com esta conversa fui muito pensativo ver a Dolores.
Estivemos como sempre, afastando penas.
Despedimo-nos, saltei a tapia, desmaneei meu flete, montei, soltei-lhe a rédea e ele tomou o caminho da querência ao trotezinho.
Eu ia pensando em minha mãe, dizendo: se lhe terá acontecido alguma coisa; melhor será que vá para lá, quando o cavalo parou de golpe.
O animal estava acostumado a que eu apeasse em meu caminho para acender um cigarrinho, num nicho onde todas as noites punham uma vela pela alma de um defunto.
Desmontei.
O nicho tinha uma portinhola.
Fazia muito vento.
Fui abri-la antes de ter armado o cigarro e me ocorreu que, se a luz se apagasse, eu não poderia acendê-lo.
Deixei-a fechada até armar bem.
Acabei de fazê-lo, abri a porta e, segurando o cavalo pela rédea com uma mão e me empinando, porque o nicho estava numa pedra alta, acendia o cigarro com a direita quando, zás, trás, me deram um bofetão.
Soltei a rédea, o cavalo, com o ruído, espantou-se e disparou; eu acreditei que era a alma do defunto, que não queria que eu acendesse o cigarro em sua vela, gelei de medo e pus-me a correr assustado, sem saber o que me acontecia, sem me ocorrer de pronto que não era um bofetão o que eu recebera, mas uma portada dada pelo vento.
Corria despavorido e havia tomado o rumo errado. Em lugar de correr para minha casa, que ficava nos arrabaldes, corria para o povoado. A noite estava como boca de lobo. Parecia-me que me perseguiam por trás e pela frente. De todos os lados eu ouvia ruído; nunca me assustei mais feio, meu coronel.
Ao chegar às ruas do povoado, o sangue foi se me aquecendo; e eu via claro na escuridão e ouvia bem.
Muitas vozes gritavam:
-- Por ali! Por ali!
-- Caiam sobre ele! Deem nele!
Ao dobrar uma quadra, topei com uns quantos, que não tive tempo de reconhecer.
-- Alto aí! -- gritaram-me.
Fiz alto.
-- Quem é o senhor? -- perguntaram-me.
-- Miguel Corro -- respondi.
-- Matem! Matem! -- gritaram.
Fizeram fogo de carabina, deram-me sabladas e caí estendido numa poça de sangue. Por sorte não me acertaram nenhum balaço. Senão, ali fico para toda a ceifa.
E, dizendo isto, Miguelito caiu numa espécie de torpor, do qual logo voltou.
-- E?... -- disse-lhe.
-- No dia seguinte -- prosseguiu -- despertei no corpo da guarda da partida. Não podia ver bem porque o sangue coagulado me tapava os olhos. Quis levantar-me, não pude.
Limpei o rosto, pouco a pouco fui vendo luz. Tinham-me posto no cepo do pescoço e dos pés. Já sabe como são os da partida de polícia, meu coronel, os mais patifes de todos os patifes, e os mais maus.
Todo esse dia não vi ninguém, nem ouvi mais que ruído de gente entrando e saindo. Estariam tomando declarações.
À noite entrou uma partida e atirou-me uma tumba de carne. Não tive alento para comê-la. Estava me esvaindo em sangue.
Como tinha as mãos livres, rasguei a camisa, fiz umas tiras e meio atei minhas feridas, que eram na cabeça e na caixa do corpo. Estava perto de um canto e alcancei a tirar umas teias de aranha. Quem sabe, senão, como me iria!
Passei uma noite péssima; quando não me despertavam as dores, despertavam-me os ratos ou os morcegos. Que fartura de bichos, meu coronel! Os ratos comiam minhas botas e os morcegos me chupavam os coágulos de sangue.
No outro dia, bem cedinho, tiraram-me do cepo e levaram-me entre dois até onde estava o juiz.
Perguntaram-me como me chamava, quantos anos tinha e outras coisas mais.
Perguntaram-me de onde vinha na noite em que me prenderam, e para não comprometer a Dolores impingi uma mentira. Disse que da casa de minha mãe. Foi para prejuízo.
Esquecia-me de lhe dizer que o juiz não era o que eu conhecia, o que visitava minha mãe, causador de tantos males em minha casa, mas outro sujeito do Morro.
Esse dia não me perguntaram mais. No outro tomaram-me outras declarações, e no outro, outras, e assim me tiveram uma porção de tempo incomunicável, dando-me ao meio-dia uma tumba de carne e um guámparo de água.
Eu estava meio louco, nada sabia de minha mãe, nem de meu pai, nem de minha mulher, nem da Dolores. Acreditava que não se lembravam de mim e me davam ganas de enforcar-me com a faixa.
Por fim, uma noite escutei uma conversa do sentinela com não sei quem e soube que eu havia matado o juiz. Assim diziam. E diziam também que, se não me fuzilassem, me destinariam. Eu não entendia nada daquele barulho.
Um dia, o soldado da partida que me dava de comer e beber fez-me um sinal, como dizendo: tenho algo a lhe dizer.
Respondi-lhe com a cabeça, como dizendo: já entendo.
Mais tarde entrou e me disse: manda dizer a filha de dom... que, se precisa de dinheiro, avise.
Temendo que fosse alguma jogada que me quisessem fazer, respondi: dê-lhe as graças, amigo.
E quando o policial ia se retirar, disse-lhe: faça-me um favor, paisano; diga-me por que estou preso?
-- Isso o senhor saberá melhor que eu.
-- Sabe se está em casa meu pai, Miguel Corro?
-- Sim, está.
-- E minha mãe?
-- Também.
-- E onde mataram o juiz?
-- Perto da casa do senhor, pois. Para que quer fazer-se de quem não sabe? Não vê que já está tudo descoberto!
Fiquei confuso, não lhe perguntei mais nada, e o homem se foi.
Poucos dias depois me puseram comunicado.
Minha mãe foi a primeira pessoa que vi. Não lhe dizia, meu coronel, que era uma santa mulher!
Por ela soube o que havia. Chorando, contou-me tudo. Pobrezinha! Meu pai havia matado o juiz por ciúmes. Mas ninguém senão ela o havia visto. E a mim me acreditavam o assassino, porque me haviam encontrado correndo a pé pelas ruas do povoado, a desoras.
Minha velha estava muito aflita. Dizia que diziam que me iam fuzilar e que isso não podia ser, que culpa tinha eu?
Eu lhe disse: minha mãezinha, eu quero salvar meu pai.
Ela chorava...
Nesse momento entrou um da partida e disse:
-- Já é hora de retirar-se. O sol vai entrar.
Abraçamo-nos, beijamo-nos, choramos; minha velha se foi e eu fiquei triste como um dia sem sol.
Prometeu-me voltar no dia seguinte, para ver o que nos ocorria.
Isto disse Miguelito, e, como quem tem necessidade de respirar com expansão para prosseguir, suspirou... lágrimas de ternura lhe rasaram os olhos.
Enterneceu-me.
### Notas
[1] Nossos paisanos chamam assim a mulher, e vice-versa.
Tradução brasileira de Uma Excursão aos Ranqueles, relato epistolar de Lucio V. Mansilla sobre uma viagem diplomática e militar às toldarias ranqueles, entre pampa, fronteira, negociação e observação histórica. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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