Universo da obra
Universo da obra
Na primeira fase da vida literária de Eça de Queiroz.
I
Julgaram os Editores de este livro ser necessário explicar como ele se escreveu e se denominou.
Fui talvez a testemunha mais próxima da redacção dos escritos agora reunidos em volume, e por esse tempo, o amigo mais inseparável do autor. Esta Introducção é pois uma pagina da sua biografia. Tento esboçar em ela a figura do homem e a do escritor, tais como as conheci, ao formarem-se as creações de este livro,--as circunstâncias e os espíritos que influenciaram a aliás extraordinária originalidade do gênio de Eça de Queiroz.
Quando nos encontrámos, já estavam publicados alguns dos seus Folhetins na Gazeta de Portugal, que fora fundada por Antônio Augusto Teixeira de Vasconcellos (Novembro de 1862), 4 anos antes da aparição do primeiro de eles e terminou (Janeiro de 1868,) pouco mais de um ano depois da publicação do último, sendo,--em rivalidade com a Revolução de Setembro, dirigida por Rodrigues Sampaio,--o mais brilhante periódico do tempo. A Gazeta de Portugal publicava, além das do seu fundador, frequentes producções de Antônio Feliciano de Castilho, José Castilho, Mendes Leal, Rebelo da Silva, Camillo Castelo Branco, Julio Cesar Machado, Tomás Ribeiro, Zacharias de Aça, Graça Barreto, Silveira da Motta, Cunha Rivara,--quase todos os consagrados de então. Os Novos que aí escreviam, ficavam, por este facto, para logo consagrados. Aí primeiro apareceram no folhetim, triunfalmente, Mateus de Magalhães, Pinheiro Chagas, Osorio de Vasconcellos e Xavier da Cunha («Olympio de Freitas.») Todos estes escritores se continuavam uns aos outros, sem contrastes nem revoluções, apenas levemente desenvolvendo formulas aceites e classificadas pelos aplausos de um publico hereditariamente satisfeito.
Em 1866 a Gazeta de Portugal entrara porém em decadência; começava a viver de expedientes. Desde Dezembro de 1865 diminuiu o formato. A 14 de Julho de 1866, José da Silva Mendes Leal, poeta, dramaturgo, romancista, historiador, estadista, orador, diplomata,--para muitos, «o mestre», legitimo sucessor de Almeida Garrett,--despedira-se da direcção literária que até então, pelo menos nominalmente, exercera. Os colaboradores literários mais assíduos, mais legitimamente representantes do gosto geral, eram já então, no folhetim da Gazeta de Portugal, Santos Nazaré e Luiz Quirino Chaves. Por essa época Teixeira de Vasconcellos publicou aí o seu romance A Ermida de Castromino, seguido, desde os primeiros dias de 1866, por O Diamante do Comendador do visconde Ponson du Terrail...
Repentinamente, (em Março de 1866), começaram a aparecer uns Folhetins assignados «Eça de Queiroz».
Ninguém conhecia a pessoa designada por estes apelidos que, por algum tempo, se suppoz serem um pseudônimo.
Os Folhetins de Eça de Queiroz foram todavia notados;--mas como novidade extravagante e burlesca. Geral hilaridade os acolheu desde a Redacção da Gazeta de Portugal, até aos centros intelectuais reconhecidos do paiz, e até á parte mais grave, culta e influente do publico. Para este, uma ou outra frase os arrumou logo no que então se chamava «a Escola Coimbran»,--centro literário e filosófico dedicado, como se supunha, a escrever por modo sistematicamente ininteligível. Citavam-se, por modelos de cômico inconsciente, as scenas, as imagens, os epítetos de esses Folhetins, lidos em voz alta, entre gargalhadas, no Café Martinho, nas Livrarias Silva e Rodrigues, no Gremio literário, nos Salões poéticos e políticos e em outros centros representativos do tempo. O Severo,--o Severo dos Anjos,--principal e celebre Noticiarista da Gazeta de Portugal, entalando o monóculo ao canto do olho direito, inventava quotidianamente, sobre o Eça de Queiroz e os seus Folhetins, epigramas em geral adoptados; e o Teixeira de Vasconcellos, exagerando, com intenção cômica, o seu natural gaguejar, concluia:
--Tem muito talento este rapaz; mas é pena que residisse em Coimbra, que seja inteiramente doido, que haja nos seus Contos, sempre, dois cadáveres amando-se em um banco do Rocio, e que escre...va...va...va em francês.
Pouco tempo depois de publicado o último de esses Folhetins,--em Dezembro de 1867,--já ninguém pensava no autor de eles.
Que importava ao Café Martinho, ao Gremio suposto literário, e aos círculos políticos, a aparição de um novo escritor com um novo estilo? Era ministro... não sei quem; discutia-se no Parlamento... não sei que; os negócios iam andando; os namoricos e a maledicência seguiam o seu curso; a arte, serena e comedida, não sacudia os que dormitavam... e nada mais era de interesse, em Portugal, para as classes cultas.
II
Eu era, por 1867, estudante em Lisboa e muito novo. Por circunstâncias que é inutil mencionar frequentava a Redacção da Gazeta de Portugal, no n.ᵒ 26 da travessa da Parreirinha, perto do Teatro de S. Carlos.
Uma noute, junto da mesa onde escrevia o Severo, vi uma figura muito magra, muito esguia, muito encurvada, de pescoço muito alto, cabeça pequena e aguda. Esta figura mostrava-se inteiramente desenhada a preto intenso e amarelo desmaiado:
Cobria-a uma sobrecasaca preta abotoada até á barba, uma gravata alta e preta, umas calças pretas. Tinha as faces lividas e magrissimas, o cabelo corredio muito preto, do qual se destacava uma madeixa triangular, ondulante, na testa pálida que parecia estreita, sobre olhos cobertos por lunetas fumadas, de aros muito grossos e muito negros. Um bigode farto, e também muito preto, caía aos lados da boca grande e entreaberta. As mãos longas, de dedos muito finos cor de marfim velho, na extremidade de dois magros e longuissimos braços, faziam gestos desusados com uma badine muito delgada e um chapéo de copa alta e cônica, mas de feltro baço, como os chapéos do século XVI que se veem nos retratos do Duque de Alba, de Philippe II de Espanha, ou de Henrique III de França.
Era o Eça de Queiroz.
Contava o quer que fosse a um tempo trágico e cômico, nervosamente, dando a espaços gargalhadas--ricanements, como se diria em francês,--curtas, e sinistras.
O Severo, de monóculo fincado no olho direito, a larga mascara gorda, amarela e irônica, muito dilatada, escutava-o, rindo em notas agudas.
Saí em essa noute do Escriptorio da Gazeta de Portugal com o Eça de Queiroz, jantámos e passámos a noute juntos, e desde então, por anos, não nos separámos quase.
O Eça de Queiroz terminara em 1866 o curso de Direito na Universidade de Coimbra, e viera para Lisboa onde seu pai era magistrado. Por tradicções de família, e como consequência natural dos seus estudos, deveria seguir, ele também, a magistratura oficial, ou, pelo menos, fazer-se advogado. Suponho que em este intuito frequentou algum tempo um Escriptorio em Lisboa.
Mas a Arte tomava-o já a esse tempo fundamente, e ia-se-lhe o tempo a ler, a scismar, a idear, a cogitar os aspectos subtis das coisas.
Eça de Queiroz morava em casa da família, ao Rocio, no 4.ᵒ andar do prédio n.ᵒ 26. O seu quarto--pequeno, com uma mesa ao centro e uma estante para poucos livros,--dava para a rua do Príncipe. Aí foram, em parte, escritos os Folhetins das Prosas barbaras.
III
Haviamos-nos creado um mundo como que áparte da realidade:
Quando por algum tempo nos separavamos durante o dia, reuniamos-nos logo, ás horas de jantar, ou depois, em um qualquer Restaurante pouco frequentado, cerca da rua larga de S. Roque ou do Chiado.
Á sobremeza o café abria-nos as regiões visionarias em que viviamos: O Eça de Queiroz bebia-o com atenção concentrada e reverente, curvado de alto sobre a chávena, para onde cada feição, principalmente o nariz comprido e adunco, como que se prolongava aguçada. A uma primeira chávena seguia-se uma segunda e uma terceira; e íamos para minha casa continuar a beber café, ás vezes até madrugada.
em estas circunstâncias foram escritos, por Eça de Queiroz, muitos dos Contos agora reunidos em volume.
Eu morava no primeiro andar da casa n.ᵒ 19 da então travessa do Guarda-mór,[1] em pleno Bairro alto.
No meu quarto de estudante[2] havia um grande armário cheio de livros, cavado na espessura da parede, uma grande mesa central sobre que se escrevia, e uma secretaria de feitio estranho, dada a meu pai por Almeida Garrett, usada por este para escrever de pé, que suggerio a Eça de Queiroz a fórma da mesa onde, anos depois, em Paris, quase sempre trabalhava. Uma larga janela de sacada abria para a rua dos Calafates[3] em frente a prédios baixos que, por isso, não impediam o acesso do ar, da luz, e a vista de um espaço aberto que dava uma impressão de vila de província. No mais próximo de esses prédios moravam duas raparigas, muito novas e bonitas, a cantar, costurando activamente o dia inteiro, entre craveiros e mangericões, por vezes, para o Eça de Queiroz e outros líricos fantasistas que me visitavam, pontos de partida de longas variações, em verso e prosa, sobre o Eterno feminino.
Certas noutes, entrava o Eça de Queiroz, já tarde, no meu quarto, com um rolo de papel na mão, dizendo:
--Sou eu, sim, amigo.
E aludindo aos corvos, milhafres, gaviões, que com tanta frequência, fantasticamente apareciam nos seus Contos, acrescentava:
--Sou eu e os meus abutres: Vimos criar, devorando cadáveres!
Muitas coisas preocupavam o Eça de Queiroz quando trabalhava:
Durante tempos só pôde escrever em certo papel almaço, que ele próprio ia comprar a uma loja pequena de chá e papel selado, no n.ᵒ 41 da rua larga de S. Roque.
Havia de entrar no meu quarto com o pé direito, suspendendo-se por isso, no último momento, recuando o pé esquerdo agourento, quando já este inoportunamente se adiantasse, e fazendo, hesitante e confuso, antes de emfim passar a porta, um ruido inexplicável.
Tinha o terror das correntes de ar, e andava continuamente a fechar a janela, ou as portas, a mudar a posição da cadeira onde se sentava, murmurando em voz cava:
--É a pneumonia, a congestão-pulmonar fulminante, a morte, menino!
A luz do candieiro de petróleo, que eu usava, feria-lhe a vista; de modo que, afim de a concentrar sobre o papel em que escrevia, ou sobre o livro em leitura, prolongava, do seu lado, o abat-jour, com longas tiras de papel.
Não podia suportar poeira nas mãos, e levantava-se a miúdo da mesa para ir, cuidadosamente,--interrompendo a composição, mas recitando em voz alta as frases que tinha escrito,--lavar as pontas dos dedos.
Fumava constantemente cigarros, em quanto trabalhava, inclinado sobre o papel que olhava muito de perto.
E, uma vez embebido nas suas creações, não falava, não escutava, não atendia a coisa alguma,--embrulhando o cigarro, indo lavar as mãos ou fechar a porta, passeando pela casa, sempre muito curvo, com passadas altas e largas, fazendo gestos de dialogar com alguém, resfolegando ruidosamente, abrindo muito os olhos, elevando e baixando nervosamente as sobrancelhas, as pálpebras, e as rugas horizontais da testa, onde ondulava, convulsa, a sua madeixa corredia, negra e triangular.
Escrevia com extrema facilidade e, em esta época, emendava muito pouco: As imagens, os epítetos ocorriam-lhe abundantes, tumultuosamente, e ele redigia rápido, insensível a repetição de palavras ou a desequilibrio de períodos, sem exigências criticas de fórma, aceitando, comovido, o que tão espontaneamente, tão sinceramente lhe ocorria.
Quando em essas noutes, ele me lia alguns dos seus Contos, a figura e a voz completavam-lhe as fantásticas creações:
Erguia-se quase nos bicos dos pés, de uma magresa esquelética, livido,--na penumbra das projecções do candieiro,--os olhos esburacados por sombras ao fundo das orbitas, sob as lunetas de aro preto, o pescoço inverosimilmente prolongado, as faces cavadas, o nariz afilado, os braços lineares, interminaveis. Então, com gestos de aparição e espanto, a voz lúgubre, sentimental,--enfaticamente patética, ou gargalhando sinistramente,--declamava.
Ás vezes, alta noute, quando a excitação do trabalho e do café nos havia quase alucinado, saíamos pelas ruas desertas do Bairro alto,--ou estendiamos as nossas explorações á Mouraria, á Alfama, em volta da Sé e pelas encostas do Castelo de São Jorge, a examinar a fisionomia fantástica, e quase humana, das casas antigas, algumas ainda então, em esses bairros, mouriscas ou medievais.
--Ás casas sem luz,--escreveu Eça de Queiroz,[4]--têm o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas.
de uma vez, quase de madrugada, seguindo a rua de São Boaventura, divisámos ao longe, no Pátio do Conde de Soure, uma fila de homens agigantados, segurando como que longas e grossas lanças, cujos ferros se perdiam talvez na atmosfera mal alumiada e cujos coutos se esfumavam na massa confusa do que parecia ser nuvens rasteiras... Estes homens eram para nós apenas esboçados por grandes massas de sombra e luz... de alguns saíam barbas hirsutas... Estavam imóveis... Tivemos a impressão de um quadro sobrenatural... Aproximámos-nos... Eram varredores municipais que esperavam, encostados ás vassouras, a hora de se dispersarem pela cidade.
Nas noutes mais serenas,--nas noutes de luar,--saíamos da cidade e íamos pelos campos e pelos montes, ou ao longo das margens do Tejo, conversando, improvisando, até nascer o Sol.
De ordinário, nas noutes de composição e conversa, ou em seguida ás nossas divagações peripatéticas, o Eça de Queiroz dormia em minha casa. E havia, para ele, ritos determinados no modo de dispôr a roupa que despia, antes de se deitar, colocando os punhos sobre uma mesa pela ordem por que os tinha usado, no braço direito e esquerdo, respectivamente, e dispondo as botas á porta,--para que o meu creado as limpasse, sem nos acordar,--também, pelo mesmo método, ordenadamente emparelhadas.
E ao meter-se na cama, para explicar os seus movimentos supersticiosos, murmurava persignando-se:
--É preciso obedecer com fé e sem exame ás leis subtis das coisas: Ninguém sabe exactamente, menino, de que possa depender o curso dos acontecimentos, e o mistério complicado dos Fados.
Na época em que se publicaram os Folhetins da Gazeta de Portugal, eram poucos os amigos que frequentavam a minha casa. O mais assíduo era, por esse tempo,--além do Eça de Queiroz, o Salomão Saragga que, quando aparecia, se ocupava toda a noute em explicar-nos, simultaneamente, a construcção de carruagens, a fabricação de tecidos com desperdícios de lan, o livro do Profeta Isaias, e os Historiadores das origens do Cristianismo.
De tempos a tempos, o Eça de Queiroz dizia-me:
--Estamos-nos tornando impressos. Basta de lêr e imaginar. Precisamos de um banho de vida pratica. É-nos indispensável o ato humano,--inverosimil, se for possível tanto,--a aventura, a lenda em acção, o herói palpável: Vamos pois cear com o capitão João de Sá,--o João de Sá Nogueira,--de Artagnan de Africa em disponibilidade.
E íamos, com efeito, encontrar este nosso amigo, oficial do Ultramar, que á ceia nos contava,--durante o bacalhau com batatas, o meio bife, e o Colares,--as pitorescas façanhas das suas viagens nos sertões.
IV
Havendo eu pertencido á primeira geração affectada pelos escritos de Eça de Queiroz, as recordações do meu sentir de então têm talvez valor histórico.
O ano de 1867 é uma das datas capitais na historia da educação do meu espirito. A predominante paixão pela musica ligara-me a Augusto Machado, que estudava então piano e harmonia com dois dos melhores mestres da especialidade em Lisboa.
em esta cidade floresciam, por esse tempo, o Pot-pourri e as Variações. A sensibilidade publica alimentava-se de um sem numero de Rêveries. O grão supremo do patético geralmente conhecido ao piano, atingia-se com os Nocturnos de Ravina e Döhler. Os arranjos operáticos de Thalberg e Liszt eram o ideal raras vezes realisado.
Ora em 1867 Augusto Machado, ao voltar de Paris, onde cursara piano, harmonia e composição com Alberto de Lavignac, trazia, como repertorio de estudo, os Preludios e Fugas de Bach, as Sonatas de Mozart e Beethoven, as obras de Mendelssohn, Schumann e Chopin.
Os Folhetins de Eça de Queiroz fizeram-me uma impressão só comparável, em profundidade e consequências subjetivas, á que, justamente pela mesma época, me fazia a descoberta das obras dos grandes creadores da musica moderna.
Esses Folhetins pareceram-me uma grande novidade,--não tanto nos assumptos e na intenção, como no poder de realisação artística: Emfim encontravam formas intensas de expressão, factos, antes, na Literatura portuguesa, insuficientissimamente revelados.
Pelos pontos de vista, pelo estilo, esses Folhetins eram, ainda no ano de 1866, uma quase inteira novidade para os Leitores da língua portuguesa;--como haviam sido, para todo o sul da Europa, á aparição do Romantismo francês nos primeiros anos do século XIX, as mesmas ideias e estilos semelhantes.
em esses primeiros escritos Eça de Queiroz era, na verdade, o que geralmente se denomina um Romantico. Ele próprio dizia da época imediatamente anterior:
«em aqueles tempos o Romantismo estava nas nossas almas. Faziamos devotamente oração diante do busto de Shakespeare.»[5]
E, então mesmo, achava ser preferível, «á saúde vulgar e inutil que se gosa no clima tépido que habitam Racine e Scribe... a doença magnifica» que leva ao «hospital romântico...»[6]
Com efeito, por uns dois séculos, pareceu gozar-se, nas regiões mais evidentes da Literatura, uma inalterável saúde: Só certos factos do espirito perfeitamente determinados,--só as ideias e os sentimentos susceptiveis de clara determinação,--eram em essa Literatura expressos. Os meios de expressão uzados, os vocábulos e os seus grupamentos, os gêneros literários,--tudo parecia claramente, definitivamente assente, segundo normas antigas e, por isso, venerandas, em um sistema de simetria, de equilíbrio, de ordem, aplicável sem hesitações, com o mínimo esforço, na mais segura tranquilidade. Assim viveu na Europa, em geral, a gente culta, do século XVI ao século XVIII.
Começaram pelos meados de este, a mostrar-se nos espíritos sinais inquietadores: Além das ideias completamente comprehensiveis e dos sentimentos inteiramente claros, outras ideias e outros sentimentos se impozeram á expressão dos Literatos. Entre as grandes formas dos affectos, como entre as cores mais vivas, distinguiram-se transições e meias tintas: Os homens não pareceram estar sempre, ou exhuberantemente alegres, ou definitivamente tristes. Havia comoções de sentimentos entremediarios ao amor e ao ódio. Entre o preto e o branco descobriram-se gradações infinitas.
Cada ideia classificada, cada sentimento catalogado antes, começou então, pouco a pouco, a mostrar-se o centro de grandes grupos psychologicos, de factos espirituais diversamente complexos, susceptiveis de definição variável, de claresa decrescente: uns que podiam ser nitidamente,--como que linearmente,--desenhados, inteiramente descriptos, completamente iluminados; outros que só podiam indeterminadamente suggerir-se, sumariamente indicar-se por vagas massas de cor, de sombra e de luz; uns que são as ideias e os sentimentos que todos os homens conscientemente reconhecem como a matéria superficial da existência; outros mais ou menos inconscientemente dominantes, sem nome ou descripção que os esgote, prolongando-se pelas profundidades insondaveis e inexpressiveis das almas.
Do conhecimento de estes estados mais subtis e ráros do espirito, resultou, inevitavelmente, a sua cultura; os sistemas nervosos pareceram desenvolver-se em sentidos anormais: e imprevistas, ou mais conscientes vibrações vieram impôr-se, criar ou tornar mais complexas as nevroses.
Novas formas de expressão foram necessárias, não só para os novos estados da consciência, mas porque cada espirito começou a sentir e a pensar independentemente, reconhecendo dever procurar por si,--por isso quanto possível fora de formulas e regras já feitas, os termos que mais exactamente lhe symbolisassem as concepções pessoais.
Toda esta revelação espiritual,--toda esta descoberta de regiões ignoradas ou indolentes dos espíritos, toda esta aparição de aspirações, de incertezas, de incoherencias novas, toda esta quebra de moldes, todo este desequilibrar de forças e simetrias,--pareceu ser, ás gentes cultas, serenas e classicamente imitativas, uma grande doença mental, ou variadas doenças nervosas que atacassem a humanidade.
A este estado dos espíritos e da Literatura deu-se, como é sabido, o nome de Romantismo,--facto estético, ainda hoje em busca de suficiente definição, mas que, pelo que deixo explicado, me parece poder essencialmente definir-se, como a procura directa de formas de expressão, para todos os sentimentos e todas as ideias, por isso, para as mais intimas ideias e os mais vagos sentimentos do espirito humano.
Muitos pretendem que essa doença moral foi apenas, nos fins do século XVIII, a reincidencia da epidemia que devastara a Europa durante o período secular desdenhosamente denominado, por os saudaveis neo-greco-romanos, como a «Edade Media», escura, de transição, que em Historia ha a considerar entre os dois períodos clássicos de equilíbrio e saúde normal.
O Romantismo pareceu ser, geralmente, a resurreição idealisada de essa «Edade media».
É que, durante esta, gradualmente se formaram as nações modernas da Europa na sua intima complexidade sentimental. em elas as forças humanas,--com o integral resultado de forças naturais que são,--deram fórma aos mais íntimos sentimentos do espirito. Os povos haviam vivido tradicionalmente mergulhados nas creações completas da sua arte e da sua religião; haviam amado, adorado, temido, trabalhado, luctado, cantado, dançado, cercados por todas as vibrações inconscientes da sua fantasia; haviam formado com a interpretação dos aspectos naturais, com os gênios e as fadas de mil religiões evolutivas, os novos santos christãos e milagrosos; haviam sentido em cada ser, orgânico ou mineral, real ou fantasiado, propicio ou hostil, influencia humana, e haviam-se suposto indissoluvelmente solidários com uma natureza sempre animada, por onde os próprios cadáveres se dispersavam em pulverisações de espíritos e actividades.
Estas manifestações da vida espontânea dos povos durante a Edade Media, sem dúvida solicitaram a interpretação dos Romanticos, cuja rasão de ser, cuja missão era também, como já mostrei, expressar completamente, até aos mais profundos e subtis, todos os factos do espirito.
Mas o chamado Romantismo deu-se na Europa dos fins do século XVIII aos anos de 1830 ou 1850, modificando durante esse tempo a Literatura do remoto Portugal. Que novidades podia pois ainda apresentar o romântico Eça de Queiroz aos Romanticos portuguezes de 1866?
É o que vou explicar:
O Romantismo tomou, primeiro, corpo saliente, ao norte da Europa, e só depois se estendeu ao sul. Veio dos paizes de luz atenuada e nevoas visionarias, indeterminadoras de formas e de cores, para as terras de sol brilhante, atmosfera límpida, formas vincadas e cores elementares.[7]
em esta descida através das latitudes as ideias fôram ganhando nitidez, definição, brilho,--e correlativamente perdendo meias tintas, claro escuro, indeterminação. Os sentimentos, transportados com simplificações lucidas á superfície dos espíritos, pelos artistas das terras do sul, perderam muitos dos nimbos esfumados, muitas das atmosferas de atenuada iluminação, que os rodeiam nas regiões profundas onde eles nascem completos. Enquanto o norte expressava tudo o que nas ideias é quase apenas suggerivel, o sul tão somente aproveitou o que póde nitidamente descrever-se. Os Romanticos das raças do sul da Europa começaram a fazer assim, mais uma vez, por uma fatalidade atávica e climatérica, o que os antepassados cultos de muitos de eles completamente consumaram, muitos séculos antes, na construcção equilibrada e nítida do Classicismo greco-romano, resultado da atrofia estética e religiosa de exhuberantes regiões da alma humana, pela reducção das misteriosas formações misticas do Oriente, da Hellade e da Itália, aos moldes rethoricos, ás esculpturas luminosas mas frias, e ás biografias anecdóticas dos polytheismos heroicos.
Eis porque tantos românticos portuguezes,--no extremo dos paizes claros do meio dia,[8] só fôram superficialmente românticos.
Nas partes mais profundas, mais obscuras, mais indeterminaveis do espirito, para além do real, do logico, do coherente, do explicável,--como que para preencher as lacunas deixadas no completo da totalidade psychica, pelas definições fragmentarias do comprehensivel,--existem com efeito, infinitamente, as necessidades misteriosas do contradictorio, do sobrenatural, do maravilhoso.
É para as satisfazer que todos os povos criam, fatalmente, formas estéticas e religiosas especiais, e é de elas que todo o homem completo se sente, por vezes, essencialmente possesso.
Essas formas constituem a Arte e a Literatura mistica e fantástica.
A França,--a mais norte das Nações definidoras,--recebeu, em grande parte, a sua Literatura fantástica da Alemanha. Da Alemanha, por intervenção da França, a recebeu Portugal. Teve ela, de 1866 a 1867, em Eça de Queiroz, o seu mais genial representante portuguez.
E porque essa Literatura me punha em vibração tantas faculdades intimas e latentes, me comoveu ela,--a mim e a outros espíritos contemporâneos da minha primeira mocidade, talvez por educação, e quem sabe se por atavismo, não inteiramente, ou não exclusivamente filhos das raças e dos climas claros e definidores do sul.
V
Assim as primeiras influencias que actuaram em Eça de Queiroz,--aquelas que mais evidentemente se reconhecem nas suas primeiras creações literárias, os escritores de cuja frequência eu posso dar testemunho,--fôram, principalmente, Henrique Heine, Gerardo de Nerval, Julio Michelet, Carlos Baudelaire; mais distantemente, mais em segunda mão, Shakespeare, Goethe, Hoffmann, Arnim, Poe; e, envolvendo tudo poderosamente, Victor Hugo.
A maior influencia em esse período sobre Eça de Queiroz,--a de Heine,--foi também considerável sobre alguns dos seus mais ilustres contemporâneos e amigos: Vê-se nas poesias, mais tarde reunidas por Antero de Quental sob o nome de Primaveras românticas, e no que este diz de si nas paginas autobiográficas que estão publicadas;[9] vê-se também nas poesias primeiro escritas para o Século XIX de Penafiel, de 1864 a 1865, e depois coligidas, com o titulo de Lyra meridional, por Antônio de Azevedo Castelo Branco.
Eça de Queiroz não sabia alemão. As obras de Heine adquirem nas traducções francesas,--algumas feitas pelo próprio autor, outras por este em colaboração com Gerardo de Nerval,--um caráter novo.
Heine é para mim,--e não é para todos ainda hoje, mesmo na Alemanha,--um dos maiores escritores das línguas germânicas. Traduzil-o é, sem dúvida, empobrecel-o: foi ele quem disse que «um verso traduzido é um raio de lua... empalhado». Mas as qualidades musicais de som e ritmo que as suas obras perdem, ao passar para o francês, são substituidas por outras: a singeleza patética como que se torna mais dolorosa á claridade nítida da nova língua; o humorismo, a um tempo irônico e ingenuo, como que se faz mais subtil nas formas do espirito latino; os versos, passados a prosa de ritmos incertos, como que adquirem uma indeterminação, um vago, que faz lembrar versículos bíblicos.
Recordo-me da impressão nova que me fizeram as poesias de Heine,--que eu decorara no Colégio alemão, onde fui educado,--quando Eça de Queiroz mas fez conhecer em francês; e de uma noute em que ele me declamou enfaticamente, quase com lagrimas, as paginas dos Reisebilder onde Heine,--a quem a musica sempre suggeria formas e cores definidas,--conta as transformações fantásticas porque a seus olhos passara, em um concerto, Paganini, tornado, pela evocação da sobrenatural rabeca, em galan cortejante do século XVIII, assassino por ciumes, forçado, monge solitário junto ao mar e sob as abobadas de catedrais, gênio planeta entre as harmonias apoteóticas das esferas, ou figura humilde e grutesca, agradecendo os aplausos dos auditórios.
Em muitas paginas das Prosas barbaras se encontra a influencia de esta lenda fantástica de Paganini.
O conto a Ladainha da dor, que tem o próprio Paganini por assumpto,[10] é diretamente inspirado por Heine e por Berlioz.[11] As Notas marginais[12] parecem estancias do Intermezzo ou do Livro de Lazaro.
Gerardo de Nerval foi, como se sabe, um dos iniciadores directos da França no Romantismo germânico. Foi ele o primeiro traductor francês do Fausto de Goethe, e, como já disse, o colaborador, com Heine, na traducção de algumas das obras de este último.
É evidente, nas paginas das Prosas barbaras, a influencia dos próprios escritos originais de Gerardo de Nerval, principalmente a dos misteriosos e fantásticos sonetos que começam:
Je suis le ténébreux, le veuf, l'inconsolé,
Le Prince de Aquitaine à la tour abolie...
Ma seule étoile est morte, et mon Luth constellé
Porte le soleil noir de la mélancolie!...[13]
Julio Michelet, pela originalidade, pelo poder evocador do seu estilo, pelo dom de criar vida intima e fantástica, pela resurreição mitográfica e profunda,--sobretudo nos 8 primeiros volumes da sua Historia de França,--da Edade media, da Renascença e da Reforma,--e, na Sorcière, pela materialisação sentimental e explicação, a um tempo natural e visionaria, da vasta Historia do Diabo,--foi um dos pais artísticos do primeiro Eça de Queiroz.
H. Heine,--alemão que aliaz alguns criticos chegam a considerar um espirito francês,--Gerardo de Nerval e Julio Michelet representam, em França, profundas influencias alemãs. Foi na fórma vaga, intima e completa das suas obras, que o Romantismo fantástico principalmente impressionou a Eça de Queiroz.
Por toda a parte, nos escritos das Prosas barbaras, se encontram os mitos, as cores e formas do maravilhoso popular germânico, os aspectos evocadores da natureza alemã, as personalidades da Historia do Norte da Europa localisando, a cada passo, as historias do romântico portuguez: São as Nixes, as Wilis, os Elfos, as Ondinas, «as velhas mitologias do Reno», «as Monjas dos Conventos da Alemanha a quem o diabo escreve», «o abbade de Helenbach», «as abbadessas de Vecker a quem o diabo faz sonetos», «as mães melodramáticas dos Burgraves», «os Pastores de Helyberg», «o abbade de Tritheim vendendo a alma pelo segredo da circulação do sangue»,--que passam de continuo nas narrações; e «as encruzilhadas da Alemanha», «as encruzilhadas da floresta negra», «as florestas da Turíngia», «os prados hircinios», as alturas do Borxberg, onde a 30 de Abril se encanta a assembleia de Walpurgis, as catedrais da Alemanha, o Reno, o Mar do Norte, «a Alemanha onde nasce a flôr do Absyntho», onde se ouvem as velhas baladas da Turíngia e a guitarra de Inspruck, onde «a poesia popular foi a Invisivel que levou pela mão os trovadores... ás lareiras dos senhorios feudais...», «ás brancas castellans onde vão os Minnesingers errantes», onde se celebram as «kermesses de Leipzig» e se bebe «a cerveja de Heidelberg», onde Alberto Dürer desenhou a sua Melancolia, onde correm as caçadas fantásticas do Freischütz e passam os Imperadores do Santo Império, Fausto, Mephistopheles, Margarida, Lutero... Spohr Weber...
O conhecimento directo das poesias de Carlos Baudelaire e a sua influencia considerável em Eça de Queiroz,[14] só se deu de uma maneira importante, depois da dos autores que acabo de mencionar. A edição em volume das Flores do Mal só tarde lhe chegou ás mãos. Recordo-me, na falta de ela, de passarmos muitas noutes na Biblioteca do Gremio literário, procurando, em coleções antigas de Revistas francesas, as poesias que Baudelaire aí havia pela primeira vez publicado.
Carlos Baudelaire é um espirito essencialmente francês. Frio, impassível, correcto de maneiras e toilettes, sempre preocupado com a realisação duma certa simetria de fórma, o mistério, o fantástico é, por ele, intelectualmente sentido. Penetrou, sem dúvida, em profundas, tenebrosas e inexploradas regiões do espirito; mas para principalmente revelar o que em elas é capaz de expressão lucidamente estranha. em ele o delírio é sempre critico, a nevrose intensa, mas methodisada. Cria na arte o frisson nouveau que Victor Hugo celebra, mas compõe-em o rigorosamente segundo as melhores formas da sabia língua francesa, com sintaxe directa e rimas ricas, pé a pé, vibração a vibração.[15]
São, porém, estas qualidades especiais que tornam mais tarde decisiva a influencia de Carlos Baudelaire sobre Eça de Queiroz, no período de transição, quando, gradualmente impressionado pelo Realismo e por Gustavo Flaubert, ele justamente denominou a presente coleção de escritos.
Exerceu-se no mesmo sentido a influencia das obras de Edgar Allan Poe, que Eça de Queiroz,--ainda então ignorante de inglez,--só conheceu pelas traducções francesas de Baudelaire. A nitidez fria com que o espirito americano determinou o nevrosismo das Historias extraordinarias, acentua-se ainda mais,--privado, em todo o caso, da indeterminação literária e fluctuante da língua inglesa,--nas formas logicas e lapidares de um dos mais claros escritores da França.
Indico apenas, como já disse, as influencias dominantes; mas o trato intimo com quase todos os grandes românticos franceses,--Musset, Gautier, Mallefille,--é sensível em este primeiro período da vida literária de Eça de Queiroz.
As influencias portuguezas importantes que pódem distinguir-se são pouco numerosas e superficiais:--quase somente as da poesia popular,[16] e as de alguns seus companheiros de Coimbra,--João de Deus, Antero de Quental. Foi aliás o conto de Eça de Queiroz, o Milhafre[17] que suggerio a Antero de Quental uma das suas poesias.[18]
Na fórma literária, a acção reconhecivel em Eça de Queiroz é a da língua francesa: Foi por meio de muitas das formas da sintaxe de esta, e quase se póde dizer, do seu vocabulário, que ele modelou uma como que nova língua portuguesa.
Mas esta Introducção ás Prosas barbaras tem por fim explical-as; não critical-as: Não lhe cumpre por isso mostrar que diferenças profundas ha, entre o fantástico alemão e o fantástico do Escritor portuguez, entre a ironia subtil de Heine e a ironia poderosa de Eça de Queiroz, entre a fantasia ingenua e vaga dos homens do norte e a imaginação eloquente, exhuberante, e imprevista do creador meridional; não tem emfim que provar como todas as influencias notadas se sentem apenas á superfície da obra do grande artista eminentemente original, que escreveu, na sua primeira mocidade, as extraordinarias paginas reunidas em este livro.
VI
Na intenção de Eça de Queiroz os Folhetins da Gazeta de Portugal,--apesar da sua desconexão episódica,--formavam serie, obedeciam a um pensamento, constituiam um corpo, uma obra sistemática, cujos capítulos, separados por lacunas que nunca fôram preenchidas, pódem, chronologicamente, reunir-se nos seguintes dois grupos:
A
--------------------------------+-----+--------+---
Sinfonia de abertura[19] | 1866|Outubro | 7
Macbeth | » | » | 14
Poetas do Mal[19] | » | » | 21
A Ladainha da dor | » | » | 28
Os mortos | » |Novembro| 4
As Miserias: I Entre a Neve | » | » | 13
Farças[19] | » | » | 18
Ao Acaso[20] | » | » | 27
O Miautonomah | » |Dezembro| 2
Mysticismo humorístico | » | » | 23
--------------------------------+-----+--------+---
B
---------------------------------+----+--------+---
O Milhafre[22] |1867| Outubro| 6
Lisboa[23] | » | » | 13
O Senhor Diabo[24] | » | » | 20
Uma carta (a Carlos Mayer) | » |Novembro| 3
Da Pintura em Portugal[21] | » | » | 10
O Lume | » | » | 17
Mephistopheles (J. Petit)[25]| » |Dezembro| 1
Omphalia Benoiton[21] | » | » | 15
Memorias de uma forca | » | » | 22
---------------------------------+----+--------+---
O primeiro Folhetim em data,--março de 1866,--as Notas marginais,--tendo por epigrafe as frases interrompidas de uma trova á Bernardim Ribeiro, e influenciado, como já mostrei, pela traducção francesa das Poesias de Heine, foi inserido, na Gazeta de Portugal, fora do seu logar.
Porque os Folhetins têm uma introducção formal,--uma Sinfonia de abertura, que se publica a 7 de outubro de 1866,--e continuam, quase sem interrupção, semanalmente, aos domingos, até 23 de Dezembro do mesmo ano. Uma longa ausência de Lisboa interrompe a publicação: Dos primeiros dias de Janeiro a 1 de Agosto de 1867 Eça de Queiroz reside no Alemtejo, onde funda e redige o Districto de Évora, periódico politico, literário e noticioso. Os folhetins da Gazeta de Portugal recomeçam no dia 6 de Outubro, e proseguem até 22 de Dezembro do mesmo ano de 1867.
A Sinfonia de abertura[26] prepara, com efeito, o espirito para a ideia que os diferentes trechos depois vão desenvolvendo. em eles a fantasia,--livremente, irregularmente, fragmentariamente,--esboça, suggere, deixa entrever, faz sentir essa ideia, em episódios, em alegorias fantásticas e como que musicalmente vagas:
Trata-se, na «Sinfonia de abertura», das viagens dos Deuses, «desde os templos de Ellora,--onde eles andavam ferozes por entre os Elefantes,--até á cruz de Jesus, onde um rouxinol veio pousar cantando de amor»... «desde a matéria negra e informe, até ás serenidades vivas para além das nuvens, das estrelas e dos caminhos lácteos».
em estas viagens ideais os Deuses têm uma companheira que intimamente estabelece a sua comunicação com os homens,--a Arte.
Da historia visionaria de esta,--na longa peregrinação divina,--a Sinfonia de abertura, faz-nos ouvir,--adagio ou vivace, piano ou forte,--alguns trechos maravilhosamente instrumentados:...
«Quando» os povos--na Chaldea, no Egypto, na Grecia,--«plantavam tendas debaixo das estrelas»,... e, mais tarde, em céus de profundo misticismo christão, nas regiões transcendentes «onde as próprias estrelas são» apenas, «gotas de sombra...»[27]
Entreveem-se, fluctuando em imagens, as diferentes Artes:
A Architectura «que se abriu em transparências e transfigurações, como se quizesse ser, no espaço, a morada suspensa do espirito».
A Musica emfim «liberta dos contornos, dos coloridos, e das gravidades, dissipando-se nos amolecimentos divinos...»
«...no terror da natureza, onde o diabo era visível... a alma alemã tinha toda a sorte de penumbras, de desfalecimentos, de pálidos silêncios que se exhalavam divinamente no canto...»
Esvae-se «aquela melopea grega esfarrapada pela aspereza do latim dos versículos...»
«Apparece Lutero», a alma alemã... que desfalecia em aquelas melancolias imensas que Alberto Dürer revelou...»
Mas «a Musica, que é a alma, o espiritualismo, o vapor da Arte, sumiu-se com a aproximação da Renascença que vinha cheia das rebeliões da carne...»
Até que outra vez «se produziu, na nossa época, como a Grecia produziu a Esculptura, como a Europa gótica produziu a Architectura...»
Chega-se assim aos tempos modernos:
«A alma começou a entrever cimos luminosos, por entre os astros, que se chamavam Homero, Eschylo, Dante, Miguel Angelo, Rabelais, Cervantes e Shakespeare. A alma queria subir aqueles escarpamentos divinos para colher a flôr do ideal.»[28]
A melancolia dá cor ao Romantismo...
«O tipo em quem se resumem todos os sofrimentos, todas as desesperanças, as melancolias, as incertezas, as aspirações, os lirismos de esta época pálida e doentia: Fausto, Manfredo, Lara, Antony, Werther, Rolla, D. Juan...» que saem então de «toda uma mocidade pálida e nervosa, de «toda uma primavera...»
«O indefinido da alma de D. Juan revelado pela Arte,--eis aí a Musica...», «aquela vaga Ofélia que se chama Musica...», «uma voz inesperada em que se entendem os desconsolados...»[29]
Constitue-se emfim a Musica moderna:
«A Alemanha... a loura Alemanha de ideal seriedade, luminosa, um tanto nuvem, cheia de vapores e de constelações... A Alemanha que pensa com um doce ruido inefável», fórma a sua «Musica que é o vapor da Arte...»
E, ao lado de ela, «a Musica italiana... tendo o quer que seja do palpável... de ondeante como seda invisivel».
Tal é, muito vagamente, a significação sentimental da Sinfonia de abertura.
Os escritos coligidos em este volume são assim, em prosa, os Cantos fragmentários de um imenso Poema:
O Universo é um infinito de almas. As coisas têm sentimentos humanos que se disseminam, sem se alterarem, com a pulverisação de todas as mortes. Os que morrem vão difundir-se nas coisas, sem nas decomposições aniquilarem a personalidade, passando por formas inferiores no homem, e por formas purificadas na natureza. Na alma é que se concebe, cria, o mal: o corpo, a matéria, essencialmente inalterável, volta sempre á pureza natural. Dos sucessivos ideais, e das sucessivas e profundas comoções, o homem gera, para todo o sempre, Deuses que o dominam, que vivem de uma vida sentimental e independente, mas que fogem, uns ante os outros, para desvairados destinos, que se asilam, errantes, em todos os grandes centros de vida misteriosa da creação, que se fazem seducção sob a fórma ainda angelica e já irônica do diabo, que se dispersam na natureza transformadora.
Com este vago tema geral, o Poema em prosa de Eça de Queiroz propunha-se a ser a expressão das mais profundas regiões do sonho, da visão, do indeterminavel, do substracto fantástico que se encontra sob a realidade evidente, queria tornar sonoras as capacidades de vibração musical que fórmam a intimidade de todos os seres,--todas as vibrações impossiveis de completamente reduzir aos sons calculados de uma escala musical;--era a fantasia tocando, um momento apenas, o mundo da realidade, para logo se afastar de ele, voando, exilada pela incomprehensão, pela insensibilidade, pela determinação nítida e clara das forças sensatas do espirito. E assim, após os belos Deuses de mármore, que se escondem fugitivos nas florestas ainda cheias dos símbolos de religiões anteriores, os anjos sublimados ou réprobos do cristianismo,--a própria ironia espiritualista de Satanás, a própria pálida e doce figura de Jesus,--vão egualmente perder-se e ser esquecidas: Morreu a fantasia. São futeis todas as ilusões. Reina o calculo demonstrável.[30]
Heine também já contara o exílio dos antigos Deuses,[31] e Michelet[32] recorda o brado, «Le Grand Pan est mort!»[33] que se ouviu pelo mundo ao aparecer de novas crenças.
O que caracterisa este momento da vida literária de Eça de Queiroz é a sincera comoção do criar fantástico, sem excluir, já então, a ironia,--que mais tarde é o principal instrumento de trabalho do seu espirito,--fornecedora de tão delicadas velaturas, ou de toques tão vivos e reais a todas as suas obras. Consegue assim criar um mundo imaginário, um scenario de alegorias; sabe que esse mundo é ilusório, que só parece povoado por metáforas,--e enternece-se, e comove-se, e comunica essa ternura e essa comoção como se as produzissem realidades, sentindo e fazendo sentir, ao mesmo tempo, inexplicavelmente, que com efeito exista uma profunda realidade, vagamente symbolisada por todas essas imagens.[34]
Como quer que episodicamente fale de assumptos inteiramente reais,--da America do Norte, de Lisboa, da vida de estudante em Coimbra,--é sempre o mesmo substracto visionário da realidade para que o seu espirito procura expressão.
Esta situação especial do espirito de muitos artistas não foi ainda, parece-me, suficientemente estudada pela critica e pela filosofia da arte.
VII
Eça de Queiroz tinha, por essa época, a mesma exhuberancia e originalidade de fantasia em verso: porque sentia muitas vezes a necessidade de metrificar,--quase que o mesmo gênero de necessidade de som e ritmo que o fazia com frequência cantarolar, em voz baixa, pequenas frases musicais, quase sempre erradas, mas sempre impregnadas das mais patéticas inflexões.
Os versos que compunha tinham um enorme relevo pela originalidade da concepção e das imagens, e conservavam ainda a fluência romântica, apaixonada, fantástica, dos primeiros escritos, quando já ele a havia quase inteiramente eliminado da sua prosa realista. Mas teve sempre grande dificuldade em comprehender e sentir os processos technicos da metrificação.
São exactamente do período dos escritos coligidos no presente volume as linhas seguintes que deviam, na intenção do autor, ser versos alexandrinos:[35]
Oh Satan tenebroso, trágico fulminado,
Tu vencerás em mim o intimo Deus bom
Não com as armas bíblicas com que bateste os astros,
Mas vindo unicamente vestido á Benoiton.
Mas é de pouco depois a seguinte admirável poesia, mais tarde publicada com a assinatura de C. Fradique Mendes:[36]
Serenata de Satan ás estrelas
Nas noites triviais e desoladas,
Como vos quero, misticas estrelas!...
Lucidas, antigas camaradas...
Gotas de luz no frio ar nevadas,
Pudesse a minha boca inda bebel-as!
Não vos conheço já. Por onde eu ando!...
Sois vós, misticos pregos de uma cruz,
Que Cristo estais no Céo crucificando?
Quem triste pelo ar vos foi soltando
Profundos, soluçantes ais de luz!
Oh viagem nas nuvens desmanchadas!
Doces serões do Céo entre as estrelas!
Hoje só ais, ou lagrimas caladas...
Ai! sementes de luz mal semeadas,
Ave do Céo, pudesse eu ir comel-as!
Triste, triste loucura, oh flor's da cruz,
Quando vos eu dizia soluçando:
--Afastai-vos de mim cardos de luz!--
Pudesse eu ter agora os pés bem nus,
Inda por entre vós i-los rasgando!
Hoje estou velho, e só, e corcovado;
Causa-me espanto a sombra de uma estola;
Enche-me o peito um tédio desolado:
E corro o mundo todo, esfomeado,
Aos abutres do Céo pedindo esmola.
Eu sou Satan o triste, o derrubado!
Mas vós estrelas sois o musgo velho
Das paredes do Céo desabitado,
E a poeira que se ergue ao ar calado,
Quando eu bato com o pé no Evangelho!
O Céo é Cemiterio trivial:
Vós sois o pó dos deuses sepultados!
Deuses, magros esboços do ideal!
Só com rasgar-se a folha de um missal,
Vós cahis mortos, hirtos, gangrenados.
Eu sou expulso, roto, escarnecido;
Mas a vós já ninguém vos quer as leis
Oh! velho Deus, oh! Cristo dolorido!
Lembrae-vos que sois pó enegrecido
E cedo em negro pó vos tornareis.[37]
Dois episódios mostrarão o seu então quase permanente desejo de improvisação poética:
Uma noute, no verão de 1867 ou 1868, depois de cear, o Eça de Queiroz, o Salomão Saragga e eu, fômos de passeio, conversando, até Belém.
A noute estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia.
Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos á praia da Torre.
Quase varado na areia, havia um barco. Mettemos-nos dentro. A maré enchente fez-nos fluctuar.
Aí continuámos a nossa conversação até que o dia apareceu e o sol se levantou por detrás da casaria e dos altos de Lisboa.
Desembarcámos então e dirigimos-nos para Belém, com fome, em busca de uma Taberna ou Restaurante. Queriamos almoçar ali mesmo, continuando, á beira do rio, a nossa discussão. Mas conheciamos os nossos três apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que ele apenas pagaria um insuficiente repasto.
Que fazer?
--Tenho uma ideia, disse o Eça de Queiroz,--fazendo o gesto consagrado de bater na testa.--Tenho uma ideia genial,--acrescentou, erguendo tremulamente os braços ao Céo:--Sigam-me.
E negro, esguio, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse, com passos largos e rítmicos, que pareciam saltar obstáculos invisiveis, a sombra da figura esguia e imensa, projectada pelos raios horizontais do sol nascente, Eça de Queiroz adiantou-se em direcção á calçada que leva de Belém á Ajuda.
Salomão Saragga e eu íamos atraz, famélicos, murmurando.
Seriam quase 5 horas da manhã.
Junto da Egreja da Memoria o Eça de Queiroz dirigiu-se a uma casa baixa, de janelas cerradas, e bateu.
Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus somnos.
O Eça de Queiroz explicou-nos:
--Móra aqui o Mancilia a quem vamos dár um tiro. Só ele nos póde salvar, em este deserto.
E continuou a bater durante minutos.
Por fim ouviu-se falar dentro da casa. Alguém abrio a porta resmungando, e vimos diante de nós uma cara larga, um bigode castanho, e uns olhos, entre terríveis e risonhos, sob uma grande trunfa de caracóis desordenados. Era o Lourenço Malheiro.
--Menino, contou o Eça de Queiroz, estamos esfomeados após muitas horas de incalculável creação romântica. Jurámos não morrer antes de produzirmos 3 obras de gênio. Dá-nos entretanto dinheiro para almoçar. Mas olha lá... Communicámos toda a noute, espectralmente, no Restelo, com as armadas portuguezas que de ali fôram ao descobrimento da Índia e do Brasil: Dá-nos pois dinheiros antigos e suggestivos,--sequins, dobrões, florins, ducados, escudos, peças, ou, quando menos, pintos...
O Malheiro foi dentro e trouxe três moedas de cinco tostões.
--Ouvirás falar da tua generosa dadiva, Mancilia,--disse o Eça de Queiroz apertando-lhe as mãos com comoção e solemnidade.
Voltámos a Belém.
E, enquanto na cosinha da Taberna, onde bebiam marinheiros e uma guitarra gemia frases do Fado, se preparava a pescada com batatas e a caldeirada que encomendáramos, o Eça de Queiroz e eu, em um quarto do primeiro andar, organisavamos o seguinte problema cuja glosa e solução seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro:
Cristo deu-nos o amor,
Robespierre a liberdade;
Malheiro deu-nos três pintos:
Qual de eles deu a verdade?
O Salomão Saragga fez-nos uma sabia dissertação sobre a prosa rítmica dos livros hebraicos e declarou-nos que, como Semita puro, não pudera jamais fazer versos,--mas comporia, para o caso memorável, um Psalmo penitenciário sobre a vaidade da pescada cosida e das caldeiradas humanas.
Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em 4 decimas, cantadas ali logo, ao acompanhamento do Fado que continuava a ouvir-se gemer na cosinha ao rés-do-chão.
Perderam-se estas decimas que com efeito sobrescriptámos para o Lourenço Malheiro, e duas das quais, escritas pelo Eça de Queiroz, eram de uma graça cintilante.
de outra vez dois dos nossos amigos,--o capitão João de Sá e o Zagallo,--convenceram-nos a irmos com eles a uma espera de touros.
Na volta, de madrugada, abancámos a cear em uma tasca ao Arco do Cego. Eramos, a esse tempo, um grupo numeroso. Appareciam amigos, conhecidos, desconhecidos. Nós, expansivamente, íamos convidando. Eles iam comendo, bebendo, desaparecendo. Quando rompeu o dia e quizemos nós mesmos partir, descobrimos que haviamos gasto, em bacalhau e Colares, um dinheirão que não tinhamos na algibeira.
Comeramos em um pátio onde havia galinhas, perto de uma horta com couves e uma parreira. Ao lado, dava para esse pátio uma casa estreita, sem vidraças, onde se guardava fructa, legumes secos e feno.
O Eça de Queiroz e eu, já somnolentos, resolvêmos esperar ali, até á tarde seguinte, que o João de Sá e o Zagallo nos viessem desempenhar com o dinheiro necessário a pagar as nossas dividas.
Cerca do meio dia acordavamos sobre os molhos aromáticos do feno, rodeados por galinhas e pombos familiares. As paredes da casa onde dormiramos eram caiadas. Então,--depois de almoçarmos ainda a credito,--com dois lápis, comendo fructa, começámos a cobrir as paredes com um longo poema, indeterminado, lirico, humorístico, tristissimo e hilariante, misto, como gênero, do Childe Harold e D. Juan de Byron, do Mardoche e Namouna de Musset, do Intermezzo de Heine, e da Fabia de Francisco Palha. Este exercício durou por 4 ou 5 horas. Duas das paredes da casa ficaram, até á altura de homem, cobertas de versos.
Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do Eça de Queiroz em esta colaboração extravagante. Lembro-me nitidamente de que havia em ela trechos espantosos pelas imagens originais, pela fantasia, pela graça, pelo inesperado.
VIII
Ainda dormiamos, um dia que o Eça de Queiroz ficara em minha casa, quando á porta do quarto apareceu uma pequena cabeça de cabelo muito curto, faces pálidas, feições miúdas, ligeiro buço sobre os beiços grossos, e uns olhos pequenos, piscos, risonhos e maliciosos. Por cima de esta cabeça via-se outra de longo cabelo negro e crespo, nariz aquilino, olhos grandes, bigode audaciosamente retorcido, e mais abaixo uma terceira cabeça rosada, de olhos avermelhados, cabelo aos caracóis louros, bigode louríssimo pendente.
Acordámos.
--Luiz! Manoel! exclamou o Eça de Queiroz bocejando.
--Chavarro! Conclui eu sentando-me na cama.
Eram o conde Luiz de Rezende, seu irmão Manoel,[38] o João de Souza Chavarro.[39]
--Chegámos do Porto. Vimos buscal-os para jantar, disse o conde de Rezende.
em essa noute jantámos no José Manoel, ao Caes do Sodré,--um Restaurante celebre, a preço fixo, onde nós causavamos devastação e horror, pela quantidade inverosimil do que comiamos, discutindo toda a sorte de assumptos ininteligíveis.
em esse jantar demonstrou-se o vasto ridículo do Romantismo, descreveu-se, discutiu-se e aprovou-se o Realismo na arte, fez-se a apologia violenta e clamorosa da frieza, da impassibilidade, da serenidade critica, da correcção nas ideias, nas maneiras, no estilo, na toilette,--a apoteose de todas as correcções. Terminámos, depois da meia noute, abraçando efusivamente o velho Andrews,--o inglez que tinha uma lenda misteriosa, e que ali jantou, durante anos, despejando por noute, em silencio, com método, lentidão e continuidade, 3 garrafas de vinho do Porto.
Tempos depois o Eça de Queiroz partia em viagem com o conde de Rezende:--Le comte de Rezende, grand amiral du Portugal et le chevalier de Queiroz,--diziam jornais do Cairo. Assistiram á inauguração do Canal de Suez, visitaram o Egypto e a Palestina.
Na Primavera de 1869, estavamos uma tarde,--o Antero de Quental e eu,--na casa que então habitavamos a São Pedro de Alcântara, quando entrou o Eça de Queiroz que chegara, havia pouco, do Oriente, e ainda não viramos:
Trajava uma longa sobrecasaca aberta; cobria-lhe o peito, em relevo, um plastron que nos pareceu enorme, sobre o qual se erguia um colarinho altissimo, onde a custo a cabeça se movia. Os punhos, que os botões uniam pelo centro com uma corrente de ouro, encobriam grande parte das mãos metidas em luvas amarelas muito claras. Vestia calças claras, arregaçadas alto, mostrando meias de seda preta com largas pintas amarelas e sapatos muito compridos, ingleses, de polimento. Tinha na cabeça um chapéu alto, de pelo de seda brilhantíssimo. E olhava-nos com um monóculo que lhe estava sempre a cahir e que ele por isso, abrindo a boca em esgares sarcásticos, a miúdo reentalava no canto do olho direito.
Abraçámol-o com entusiasmo--e cobrimol-o de epigramas.
Contou-nos casos das suas viagens, descreveu-nos tipos, scenas nos bazares do Cairo, no deserto egípcio,--os guias, os cheiks, e á noute, em volta das fogueiras, os camelos, «de expressão humorística, sorrindo ironicamente», e alongando as cabeças para escutar o narrador, por sobre os hombros dos beduínos atentos, graves e encruzados.
Contou-nos, minuciosamente, as sensações que lhe dera, no Cairo, o uso do Haschich, e as visões fantásticas que nos preparava,--por que ele e o conde de Rezende haviam trazido Haschich em geleia, em bolos, e em pastilhas que se fumavam em uns cachimbos especiais.
Mas pretendia haver voltado doentissimo, de uma extrema debilidade, de uma mórbida impressionabilidade nervosa, e agitava, de continuo, um grande lenço perfumado de seda branca com que limpava a testa, cofiava a barba, que atirava sobre a mesa, interrompendo-se para entalar o monóculo e exclamar em voz desmaiada:
--Meu Deus! como me sinto mal! Vou ter o meu delíquio! o meu apoplêté! Meninos, depressa, os meus sais... onde estão os meus sais?!...
E tirava, com efeito, da algibeira, um longo frasco de sais que aspirava sofregamente.
Ficará para sempre o prazer delicado de ler os livros de Eça de Queiroz: mas perdeu-se o prazer, ainda talvez maior, de o ouvir, quando ele conversava, quando ele contava, quando ele representava algum personagem que quizesse imitar ou a que quizesse dar vida. Parecia, com o seu forte e inesperado poder de expressão, de imagem, de replica, de graça, o representante de uma raça especial falando em Portugal uma língua nova.
Ouvimol-o toda aquela tarde, fômos jantar com ele,--não o podiamos largar.
As ideias estéticas de Eça de Queiroz haviam-se, a esse tempo, profundamente modificado.
Citava especialmente a Salammbó e a Tentação de Santo Antão de Gustavo Flaubert. Preocupava-se com a perfeição da forma, com a realisação da cor, segundo este literato. Lia também a Vida de Jesus, o São Paulo, de Ernesto Renan, e as Memorias de Judas, de Petrucelli dela Gattina.
Foi sob estas influencias que,--com as impressões locais da sua recente viagem á Palestina,--começou em Lisboa, a escrever a Morte de Jesus, publicada em folhetins, na Revolução de Setembro, de 13 de Abril a 8 de Julho de 1870.
Mas havia escrito, além do que se publicou,--uns capítulos que ele me leu, e depois sem dúvida destruiu ou se perderam.
IX
Entre os Folhetins da Gazeta de Portugal e a Morte de Jesus na Revolução de Setembro, medeiam quase 3 anos.
Passou mais tempo ainda. A evolução critica do espirito de Eça de Queiroz continuava.
Um dia veio mostrar-nos, ao Antero de Quental e a mim, o primeiro esboço, muito desenvolvido,--tão extenso que levou varias noutes a ler,--de um romance intitulado Historia de um lindo corpo.
Foi a sua primeira tentativa de Literatura realista. A ideia da obra era, até certo ponto, se bem me recordo, a do Affaire Clémenceau de Alexandre Dumas filho; mas a execução, já, em grande parte, devida á influencia dos processos da Madame Bovary, e da Educação Sentimental de Gustavo Flaubert.
Pouco depois,--em 1871,--Eça de Queiroz descrevia em uma das Conferencias democráticas do Casino, o Realismo na arte, expondo as ideias em parte praticadas por Flaubert e Courbet, e teoricamente descriptas, por Proudhon, no livro Do principio da arte e do seu destino social.
O fim da Arte é, desde então, para Eça de Queiroz, a reprodução exacta da natureza, da realidade, impessoalmente, impassivelmente. A intervenção da ironia representa a fórma superior, a única fórma admissível da opinião se manifestar e a correção para qualquer excesso de sentimento.
Foi por este tempo que eu lhe aconselhei a reunião em volume dos antigos Contos fantásticos da Gazeta de Portugal e lhe reli, se não me engano, As memorias de uma forca.[40]
Ao ouvir a sua obra primitiva, Eça de Queiroz soltava gargalhadas sarcásticas, gritos de indignação contra as imagens, o assumpto, o estilo: não comprehendia como pudesse ter escrito assim, tão pessoalmente, tão apaixonadamente, com tanto desleixo--dizia ele,--na construcção da frase e no emprego dos vocábulos.
Mas depois de uma longa discussão concluiu dizendo:
--Tens talvez razão,--está claro, tens razão. Talvez se deva republicar isso em livro;--mas sob o titulo critico e severo de Prosas barbaras.
Não pertence a esta Introducção descrever as subsequentes fases do desenvolvimento estético, e da obra literária de Eça de Queiroz, e eu devo resistir á tentação de mostrar aqui como ele foi um dos artistas mais eminentes da Literatura portuguesa de todos os tempos,--e de todas as Literaturas, nos últimos anos do século XIX.
Juntarei ainda, apenas, uma última recordação:
Eu lamentava sempre muito que Eça de Queiroz houvesse abandonado o mundo das creações fantásticas onde a sua imaginação tão maravilhosamente vivêra.
Um dia, no verão de 1891, foi o Eça de Queiroz a minha casa,--por esse tempo, em Vaucresson, em uma clareira da floresta de Saint Germain, não longe de Paris. Então, passeando sob as árvores do macisso de alto fuste que rodeia os Lagos românticos de Saint Cucufas, contou-me ele:
--«Saberás, por ventura com satisfação, que estou seguindo o teu antigo conselho: Enevoei-me, outra vez, totalmente, no fantástico,--em aquele velho fantástico da Gazeta de Portugal, feito agora com menos abutres, e em prosa talvez menos barbara que então: Estou escrevendo a vida diabólica e milagrosa de São Frei Gil;--e por sinal,--dir-to-hei agora aqui, quando justamente nos achamos sob arvoredos,--que a nossa riquissima língua portuguesa me parece deficiente em cores com que se pintem selvas;--e também te confiarei que, tendo metido, por minhas próprias mãos, o santo bruxo em uma floresta, não sei como o hei de tirar de lá».
Cintra, Setembro de 1903.
Jayme Batalha Reis.
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Hoje, travessa do Gremio Luzitano.
[2] Veja-se Eça de Queiroz. Um gênio que era um Santo. Antero de Quental. In memoriam--Porto, 1896, p. 499-502; J. Batalha Reis, Anos de Lisboa, Idem, 442-445.
[3] Hoje, rua do Diario de Noticias.
[4] Pag. 107 do presente livro.
[5] Veja-se p. 133 do presente volume.
[6] 3 de Novembro de 1867, p. 142 do presente volume. Veja-se também a Carta a Carlos Mayer, p. 133-145.
[7] «Na Europa o Sul representa... a maneira de ser exterior, como o Norte representa o vago sentimento intimo...» Eça de Queiroz, Da Pintura em Portugal, Gazeta de Portugal, 10 de Novembro de 1867.
[8] «... nós... os que estamos em este canto da velha terra portuguesa, com a alma serena, sob o céo claro...» Eça de Queiroz, Sinfonia de Abertura, Gazeta de Portugal, 7 de outubro, 1866.
[9] «du Heine de deuxième qualité». Antero de Quental, Carta a Wilhelm Storck, 14 maio 1887.
[10] Pp. 27-43 do presente volume.
[11] H. Heine, Reisebilder. Les nuits florentines, II, 316-330, (cito a traducção francesa que Eça de Queiroz conheceu).
[12] Pp. 2-13 do presente volume.
[13] Veja-se p. 8, XV; 10, XX; e passim, no presente volume.
«Luzia um grande sol, mas negro; o sol da melancolia...» Sinfonia de abertura, Gazeta de Portugal, 7, outubro, 1866.
[14] Veja-se p. 5, VIII; 89, 98 e passim do presente volume.
[15] «...Baudelaire, poeta retorico,...» A. Z. (Eça de Queiroz) Leituras modernas. Districto de Évora, 6, janeiro 1876, p. 2.
[16] Vejam-se p. 112, 120-121, 122, 131.
[17] Vejam-se p. 93-101 do presente volume.
[18] O Monge, destruida pelo autor e nunca publicada.
... aux voûtes gothiques
Des portiques,
Les vieux saints de pierre athlétiques
Priant tout bás pour les vivants!
A. DE MUSSET, Premières Poésies, Stances, 1828.
[19] Não incluido no presente volume.
[20] Com o titulo «A Peninsula» no presente volume.
[21] Não incluido no presente volume.
[22] Tem uma Introducção omitida no presente volume.
[23] Tem uma epigrafe e primeira parte omitidas no presente volume.
[24] Tem uma pequena introducção omitida no presente volume.
[25] Tem uma parte critica relativa ao cantor Julio Petit omitida no presente volume.
[26] Gazeta de Portugal. 7 de outubro 1866.
[27] «Constelações, gotas de sombra», p. 100 do presente livro.
[28] Veja-se Victor Hugo, William Shakespeare; principalmente, Livre II; Les Génies, II. Veja-se também p. 22 do presente volume.
[29] Veja-se, p. 20 de este volume, uma outra definição de Musica.
[30] «Oh, egoismo humano, os que vão morrer saudam-te», Eça de Queiroz, O Milhafre, Introducção, Gazeta de Portugal, 6 de outubro de 1867.
[31] De l'Allemagne. Les Dieux en exil, IX partie, p. 181-242 (cito a traducção francesa que Eça de Queiroz conheceu).
[32] La Sorcière.
[33] Veja-se p. 6, XIII, do presente livro.
[34] As visões «são as atitudes fantásticas e desmanchadas que a sombra dá ás verdades», p. 91 do presente livro.
«... à ceux qui ont mis leur foi dans les revés come dans les seules réalités.» Edgar Allan Poe, Eureka. trad. de Ch. Baudelaire.
[35] Omphalia Benoiton, Gazeta de Portugal, 15 Dezembro, 1867.
[36] Os versos citados na Revista Moderna (20, Novembro 1897, p. 324) não são de Eça de Queiroz. Nunca ele publicou na Revolução de Setembro, em folhetins,--como também na Revista Moderna se afirma,--os primeiros cantos de um poema, A tentação de S. Jeronymo. Existe, com efeito, de Eça de Queiroz, mas inedito, um poemeto sobre este assumpto.
[37] Revolução de Setembro, 29 de Agosto de 1869.
[38] Hoje conde de Rezende.
[39] Official da marinha real portuguesa, e desde 1881, Consul geral de Portugal nas ilhas Sandwich.
[40] Vejam-se p. 161-172 do presente volume.
PROSAS BARBARAS
Prosas Bárbaras, de Eça de Queirós, preserva dezessete textos de sua fase inicial em edição Literunico de domínio público, conservadoramente normalizada para PT-BR moderno.
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