Os Sofrimentos do Jovem Werther: Partida Os Sofrimentos do Jovem Werther · Capítulo 5 de 15
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Os Sofrimentos do Jovem Werther: Partida

Em 28 de agosto

É verdade: se minha doença pudesse ser curada, essas pessoas a curariam. Hoje é meu aniversário, e logo de manhã recebo um pacotinho de Albert. Ao abri-lo, salta-me aos olhos uma das fitas rosa-pálido que Lotte usava quando a conheci, e que desde então eu lhe havia pedido algumas vezes. Vinham junto dois livrinhos em duodécimo: o pequeno Homero de Wetstein, uma edição que tantas vezes desejei, para não ter de carregar comigo o de Ernesti durante os passeios.

Veja! Assim eles se antecipam aos meus desejos, assim procuram todas as pequenas delicadezas da amizade, que valem mil vezes mais do que aqueles presentes deslumbrantes com que a vaidade de quem dá nos humilha. Beijo essa fita mil vezes e, a cada respiração, sorvo a lembrança daquelas bem-aventuranças com que aqueles poucos dias felizes e irrecuperáveis me transbordaram. Wilhelm, é assim, e não murmuro: as flores da vida são apenas aparições! Quantas passam sem deixar rastro atrás de si; quão poucas dão fruto, e quão poucos desses frutos amadurecem! E, no entanto, ainda há frutos bastante; e, no entanto, oh, meu irmão, podemos negligenciar frutos maduros, desprezá-los, deixá-los apodrecer sem os provar?

Adeus! É um verão magnífico; muitas vezes me sento nas árvores frutíferas do pomar de Lotte, com o apanhador de frutas, a vara comprida, e tiro as peras do alto. Ela fica embaixo e as recebe quando eu as faço descer.

Em 30 de agosto

Infeliz! Você não é um tolo? Não engana a si mesmo? Que significa essa paixão furiosa e sem fim? Não tenho outra oração senão por ela; à minha imaginação não aparece nenhuma forma que não seja a sua, e tudo no mundo ao meu redor só vejo em relação a ela. E isso ainda me dá tantas horas felizes, até que preciso arrancar-me outra vez dela! Ah, Wilhelm! A que meu coração tantas vezes me impele!

Quando estou sentado junto dela por duas, três horas, e me alimento de sua figura, de seu modo de ser, da expressão celestial de suas palavras, e então, pouco a pouco, todos os meus sentidos se retesam, tudo escurece diante de meus olhos, mal ouço ainda, e alguma coisa me agarra pela garganta como um assassino; então meu coração, em batidas selvagens, procura abrir ar aos sentidos oprimidos e só aumenta a confusão deles. Wilhelm, muitas vezes já não sei se estou no mundo!

E, se às vezes a melancolia não toma vantagem e Lotte não me concede o pobre consolo de chorar minha opressão sobre sua mão, então preciso ir embora, preciso sair, e vagueio longe pelos campos. Escalar uma montanha íngreme é então minha alegria; abrir caminho por uma floresta sem trilha, através das cercas que me ferem, através dos espinhos que me rasgam. Então fico um pouco melhor. Um pouco! E quando, às vezes, pelo caminho, caio deitado de cansaço e sede; quando, no fundo da noite, com a alta lua cheia sobre mim, sento-me sobre uma árvore torta no bosque solitário para dar algum alívio às solas feridas, e então adormeço numa paz exausta, na meia-luz... Oh, Wilhelm! A morada solitária de uma cela, a veste de crina e o cilício seriam delícias pelas quais minha alma suspira. Adeus! Não vejo para esta miséria outro fim senão o túmulo.

Em 3 de setembro

Preciso partir! Agradeço-lhe, Wilhelm, por ter dado firmeza à minha decisão vacilante. Há quatorze dias carrego comigo a ideia de deixá-la. Preciso partir. Ela está de novo na cidade, na casa de uma amiga. E Albert... e... preciso partir!

Em 10 de setembro

Que noite foi aquela! Wilhelm! Agora posso suportar tudo. Não a verei outra vez! Ah, se eu pudesse voar ao seu pescoço e exprimir-lhe, com mil lágrimas e arrebatamentos, meu melhor amigo, os sentimentos que assaltam meu coração. Aqui estou sentado, tomando fôlego, procurando acalmar-me, esperando a manhã; ao nascer do sol, os cavalos estarão prontos.

Ah, ela dorme tranquila e não pensa que nunca mais me verá. Arranquei-me dali; fui forte o bastante para, numa conversa de duas horas, não revelar meu propósito. E Deus, que conversa!

Albert prometera encontrar-se comigo logo depois do jantar, no jardim, com Lotte. Eu estava no terraço, sob os altos castanheiros, e via o sol que agora se punha pela última vez para mim sobre o vale encantador, sobre o rio suave. Tantas vezes eu estivera ali com ela, contemplando esse mesmo espetáculo magnífico, e agora... Caminhei de um lado para outro pela alameda que me era tão querida; um impulso secreto de afinidade tantas vezes me retivera ali antes mesmo de eu conhecer Lotte, e como nos alegramos quando, no início de nossa convivência, descobrimos a inclinação recíproca por esse lugarzinho, que é verdadeiramente um dos mais românticos que já vi a arte produzir.

Primeiro, entre os castanheiros, abre-se uma ampla vista. Ah, lembro-me, creio já lhe ter escrito bastante sobre isso: como altas paredes de faias acabam por encerrá-la e como, por meio de um bosquete adjacente, a alameda se torna cada vez mais sombria, até que por fim tudo termina num recanto fechado, sobre o qual pairam todos os arrepios da solidão. Ainda sinto como me foi íntimo e misterioso quando entrei ali pela primeira vez, ao meio-dia alto; pressenti muito suavemente que cenário ele ainda haveria de se tornar, de bem-aventurança e dor.

Eu havia me alimentado por cerca de meia hora dos pensamentos lânguidos e doces da despedida, do reencontro, quando os ouvi subir ao terraço. Corri-lhes ao encontro; com um estremecimento, tomei a mão dela e a beijei. Mal tínhamos subido quando a lua surgiu por trás da colina coberta de arbustos; conversamos sobre várias coisas e nos aproximamos, sem perceber, do recanto sombrio. Lotte entrou e sentou-se; Albert sentou-se ao lado dela, eu também; mas minha inquietação não me deixou sentado por muito tempo. Levantei-me, pus-me diante dela, caminhei de um lado para outro, sentei-me outra vez: era um estado angustioso.

Ela chamou nossa atenção para o belo efeito da luz da lua, que iluminava, ao fim das paredes de faias, todo o terraço diante de nós: uma vista magnífica, tanto mais impressionante porque ao redor nos encerrava uma penumbra profunda. Ficamos calados, e depois de algum tempo ela começou:

“Nunca passeio ao luar sem que me venha o pensamento dos meus mortos, sem que me venha o sentimento da morte, do futuro.” E continuou, com a voz do mais belo sentimento: “Nós seremos! Mas, Werther, havemos de nos reencontrar? Reconhecer-nos outra vez? O que o senhor pressente? O que diz?”

“Lotte”, disse eu, estendendo-lhe a mão enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas, “nós nos veremos de novo! Aqui e lá, nós nos veremos de novo!” Não pude falar mais. Wilhelm, era preciso que ela me perguntasse isso quando eu trazia no coração essa despedida angustiada?

“E será que os queridos que partiram sabem de nós?”, prosseguiu ela. “Será que sentem quando estamos bem, que nos lembramos deles com amor ardente? Oh! A figura de minha mãe paira sempre ao meu redor quando, numa tarde silenciosa, estou sentada entre os filhos dela, entre meus filhos, e eles se reúnem à minha volta como se reuniam em torno dela. Quando então olho para o céu com uma lágrima saudosa e desejo que ela pudesse olhar para dentro por um instante, ver como cumpro a palavra que lhe dei na hora da morte: ser a mãe de seus filhos. Com que sentimento exclamo: ‘Perdoe-me, querida, se não sou para eles o que você foi. Ah! Faço tudo o que posso; eles estão vestidos, alimentados, ah, e, o que é mais do que tudo isso, cuidados e amados. Se pudesse ver nossa concórdia, santa querida! Glorificaria com a mais ardente gratidão o Deus a quem rogou, com as últimas e mais amargas lágrimas, pelo bem-estar de seus filhos.’”

Ela disse isso! Oh, Wilhelm, quem pode repetir o que ela disse? Como a letra fria e morta pode representar essa flor celeste do espírito? Albert interrompeu-a suavemente: “Isso a comove demais, querida Lotte! Sei que sua alma se prende muito a essas ideias, mas eu lhe peço...”

“Oh, Albert”, disse ela, “sei que você não esquece as noites em que nos sentávamos juntos à pequena mesa redonda, quando papai viajava e havíamos mandado os pequenos dormir. Você muitas vezes tinha um bom livro, e tão raramente conseguia ler alguma coisa. A convivência daquela alma magnífica não valia mais que tudo? A bela, suave, alegre e sempre ativa mulher! Deus conhece as lágrimas com que muitas vezes me atirei diante dele em minha cama, pedindo que me tornasse semelhante a ela.”

“Lotte!”, exclamei, lançando-me diante dela, tomando-lhe a mão e molhando-a com mil lágrimas. “Lotte! A bênção de Deus repousa sobre você e o espírito de sua mãe!”

“Se o senhor a tivesse conhecido”, disse ela, apertando-me a mão, “ela era digna de ser conhecida pelo senhor!” Julguei que ia morrer.

Nunca uma palavra maior, mais altiva, fora pronunciada sobre mim. E ela prosseguiu:

“E essa mulher teve de partir na flor da idade, quando seu filho mais novo ainda não tinha seis meses! Sua doença não durou muito; ela estava tranquila, resignada; só os filhos lhe doíam, especialmente o pequeno. Quando se aproximava o fim e ela me disse: ‘Traga-os aqui para cima!’, e quando eu os conduzi para dentro, os pequenos, que não sabiam, e os mais velhos, que estavam fora de si; quando ficaram ao redor do leito, e ela ergueu as mãos e rezou sobre eles, beijou-os um a um, mandou-os embora e me disse: ‘Seja a mãe deles!’ Eu lhe dei a mão em promessa. ‘Você promete muito, minha filha’, disse ela, ‘o coração de uma mãe e o olhar de uma mãe. Muitas vezes vi, em suas lágrimas agradecidas, que você sente o que isso é. Tenha-o por seus irmãos e, por seu pai, a fidelidade e a obediência de uma esposa. Você o consolará.’ Ela perguntou por ele; ele havia saído para esconder de nós a dor insuportável que sentia; o homem estava inteiramente despedaçado.

“Albert, você estava no quarto. Ela ouviu alguém andar, perguntou quem era e mandou chamá-lo; e como olhou para você e para mim, com o olhar consolado e tranquilo de que seríamos felizes, felizes juntos...”

Albert lançou-se ao pescoço dela, beijou-a e exclamou: “Nós o somos! Nós o seremos!” O tranquilo Albert estava inteiramente fora de si, e eu nada sabia de mim mesmo.

“Werther”, começou ela, “e essa mulher devia ter partido! Deus! Quando às vezes penso em como se deixa levar embora aquilo que há de mais querido na vida, e ninguém sente isso tão agudamente quanto as crianças, que ainda por muito tempo se queixavam de que os homens negros tinham levado mamãe!”

Ela se levantou, e eu fui despertado e abalado; permaneci sentado e segurei sua mão.

“Vamos embora”, disse ela, “está na hora.”

Ela quis retirar a mão, e eu a segurei com mais força.

“Nós nos veremos de novo!”, exclamei. “Nós nos encontraremos; sob todas as formas nos reconheceremos. Eu vou”, continuei, “eu vou de bom grado, e no entanto, se tivesse de dizer: para sempre, eu não suportaria. Adeus, Lotte! Adeus, Albert! Nós nos veremos outra vez.”

“Amanhã, penso eu”, respondeu ela, brincando.

Senti aquele amanhã! Ah, ela não sabia, quando retirou sua mão da minha... Eles desceram a alameda; eu fiquei parado, acompanhando-os com o olhar ao luar, e me lancei à terra e chorei até me esvaziar. Depois saltei, corri para o terraço e ainda vi, lá embaixo, à sombra das altas tílias, seu vestido branco cintilar em direção à porta do jardim. Estendi os braços, e ele desapareceu.

Segundo Livro

20 de outubro de 1771

Ontem chegamos aqui. O embaixador está indisposto e, por isso, ficará recolhido por alguns dias. Se ao menos ele não fosse tão intratável, tudo estaria bem. Percebo, percebo: o destino me reservou duras provações. Mas ânimo! Um espírito leve suporta tudo! Um espírito leve? Tenho vontade de rir ao ver essa palavra sair da minha pena. Ah, um sangue um pouco mais leve me faria o homem mais feliz debaixo do sol. Como! Ali onde outros, com sua pequena força e seu pequeno talento, pavoneiam-se diante de mim numa satisfeita complacência, eu desespero da minha força, dos meus dons? Bom Deus, tu que me deste tudo isso, por que não retiveste a metade e me deste confiança em mim mesmo e contentamento?

Paciência! Paciência! Vai melhorar. Pois eu te digo, meu querido, tens razão. Desde que sou arrastado todos os dias entre o povo, e vejo o que fazem e como o fazem, estou muito melhor comigo mesmo. Certamente, já que fomos feitos de tal modo que comparamos tudo conosco e a nós mesmos com tudo, a felicidade ou a miséria está nos objetos com que nos pomos lado a lado; e, nesse ponto, nada é mais perigoso que a solidão. Nossa imaginação, impelida por sua própria natureza a se elevar, nutrida pelas imagens fantásticas da poesia, forma diante de si uma cadeia de seres em que nós ocupamos o lugar mais baixo, e tudo fora de nós parece mais magnífico, cada outro nos parece mais perfeito. E isso acontece com toda naturalidade. Sentimos tantas vezes que algo nos falta; e justamente aquilo que nos falta parece, muitas vezes, pertencer a outro, a quem então damos também tudo o que possuímos, e ainda acrescentamos certo bem-estar ideal. E assim o felizardo fica perfeitamente acabado: criatura de nós mesmos.

Em compensação, quando seguimos trabalhando em linha reta, com toda a nossa fraqueza e todo o nosso penar, descobrimos muitas vezes que, com o nosso andar aos tropeços e nossas manobras, avançamos mais do que outros com suas velas e seus remos; e isso, afinal, é um verdadeiro sentimento de si mesmo: igualar-se aos outros, ou até passar adiante deles.

26 de novembro

Começo a me achar aqui, até certo ponto, de modo bastante tolerável. O melhor é que há bastante a fazer; e, além disso, a variedade de pessoas, as muitas figuras novas, põe diante da minha alma um espetáculo colorido. Conheci o conde C..., um homem que sou obrigado a venerar cada dia mais: uma cabeça ampla, grande, e que nem por isso se tornou fria por enxergar tanta coisa; de seu convívio irradia tanta sensibilidade para a amizade e para o amor. Ele se interessou por mim quando fui cumprir junto dele uma incumbência de serviço; e, às primeiras palavras, percebeu que nos entendíamos, que podia falar comigo como não falaria com qualquer um. Também não consigo louvar o bastante sua conduta franca para comigo. Não há no mundo alegria tão verdadeira e tão cálida quanto ver uma grande alma abrir-se diante de nós.

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