Ato III — Cena III. Cela de Frei Lourenço. Romeu e Julieta · Capítulo 16 de 26
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Ato III — Cena III. Cela de Frei Lourenço.

Ato III — Cena III. Cela de Frei Lourenço.

Entra Frei Lourenço.

FREI LOURENÇO.

Romeu, vem para fora; vem para fora, homem temeroso.

A aflição enamorou-se de tuas prendas,

E tu estás desposado com a calamidade.

Entra Romeu.

ROMEU.

Padre, que notícias? Qual é a sentença do Príncipe?

Que dor deseja travar conhecimento comigo,

Que eu ainda não conheça?

FREI LOURENÇO.

Familiar demais

É meu caro filho com tão azeda companhia.

Trago-te novas da sentença do Príncipe.

ROMEU.

Que menos que o juízo final é a sentença do Príncipe?

FREI LOURENÇO.

Um juízo mais brando escapou-lhe dos lábios:

Não morte do corpo, mas banimento do corpo.

ROMEU.

Ah, banimento? Sê misericordioso: dize morte;

Pois o exílio tem mais terror em seu semblante,

Muito mais que a morte. Não digas banimento.

FREI LOURENÇO.

Daqui de Verona estás banido.

Tem paciência, pois o mundo é largo e vasto.

ROMEU.

Não há mundo fora das muralhas de Verona,

Senão purgatório, tortura, o próprio inferno.

Banido daqui é banido do mundo,

E o exílio do mundo é morte. Logo, banido

É morte mal nomeada. Chamando morte de banimento,

Tu me cortas a cabeça com um machado de ouro

E sorris ao golpe que me assassina.

FREI LOURENÇO.

Ó pecado mortal, ó rude ingratidão!

Tua falta nossa lei chama morte; mas o bondoso Príncipe,

Tomando teu partido, pôs de lado a lei

E mudou aquela negra palavra, morte, em banimento.

Isto é cara misericórdia, e tu não a vês.

ROMEU.

É tortura, não misericórdia. O céu está aqui,

Onde vive Julieta; e todo gato e cão,

E o ratinho pequeno, toda coisa indigna,

Vivem aqui no céu e podem contemplá-la,

Mas Romeu não pode. Mais valimento,

Mais honroso estado, mais cortejo há

Nas moscas da carniça que em Romeu. Elas podem pousar

Na branca maravilha da mão da cara Julieta,

E furtar bênção imortal de seus lábios,

Que, mesmo em pura e vestal modéstia,

Ainda coram, como se julgassem pecado seus próprios beijos.

Mas Romeu não pode; ele está banido.

Isto podem fazer as moscas, enquanto eu disto devo fugir.

Elas são homens livres; eu, porém, estou banido.

E ainda dizes que o exílio não é morte?

Não tinhas veneno misturado, faca de fio agudo,

Algum meio súbito de morte, por mais vil que fosse,

Senão “banido” para matar-me? Banido?

Ó Frei, os condenados usam essa palavra no inferno;

Uivos a acompanham. Como tens coração,

Sendo homem divino, confessor espiritual,

Absolvedor de pecados e meu declarado amigo,

Para me dilacerar com essa palavra: banido?

FREI LOURENÇO.

Homem louco e apaixonado, ouve-me falar um pouco.

ROMEU.

Oh, tornarás a falar de banimento.

FREI LOURENÇO.

Dar-te-ei armadura para afastar essa palavra:

O doce leite da adversidade, a filosofia,

Para consolar-te, embora estejas banido.

ROMEU.

Ainda banido? Enforque-se a filosofia.

A menos que a filosofia possa criar uma Julieta,

Transplantar uma cidade, reverter a sentença de um Príncipe,

Ela não ajuda, não prevalece; não fales mais.

FREI LOURENÇO.

Oh, vejo então que os loucos não têm ouvidos.

ROMEU.

Como os teriam, quando os sábios não têm olhos?

FREI LOURENÇO.

Deixa-me discutir contigo acerca de teu estado.

ROMEU.

Tu não podes falar daquilo que não sentes.

Fosses tu tão jovem quanto eu, Julieta o teu amor,

Casado apenas há uma hora, Tebaldo assassinado,

Apaixonado como eu, e como eu banido,

Então poderias falar, então poderias arrancar os cabelos

E cair ao chão como eu caio agora,

Tomando a medida de uma sepultura ainda por fazer.

Batidas dentro.

FREI LOURENÇO.

Levanta-te; alguém bate. Bom Romeu, esconde-te.

ROMEU.

Eu não, a menos que o alento de gemidos de coração enfermo

Me envolva como névoa, ocultando-me à busca dos olhos.

Batidas.

FREI LOURENÇO.

Escuta como batem! — Quem está aí? — Romeu, levanta-te,

Serás tomado. — Espera um pouco. — Põe-te de pé.

Batidas.

Corre ao meu gabinete. — Já vou. — Vontade de Deus,

Que simplicidade é esta! — Vou, vou.

Batidas.

Quem bate com tanta força? De onde vindes? Que quereis?

AMA.

Dentro. Deixai-me entrar, e sabereis meu recado.

Venho da Senhora Julieta.

FREI LOURENÇO.

Bem-vinda, então.

Entra a Ama.

AMA.

Ó santo Frei, ó, dizei-me, santo Frei,

Onde está o senhor de minha senhora, onde está Romeu?

FREI LOURENÇO.

Ali no chão, embriagado das próprias lágrimas.

AMA.

Oh, ele está justamente no estado de minha senhora.

Justamente no estado dela! Ó dolorosa simpatia!

Lastimoso transe. Assim mesmo jaz ela,

Soluçando e chorando, chorando e soluçando.

Erguei-vos, erguei-vos; ficai de pé, se sois homem.

Por amor de Julieta, por amor dela, levantai-vos e ficai de pé.

Por que haveríeis de cair em tão profundo “ó”?

ROMEU.

Ama.

AMA.

Ah, senhor, ah, senhor, a morte é o fim de tudo.

ROMEU.

Falaste de Julieta? Como está ela?

Não me julga ela um velho assassino,

Agora que manchei a infância de nossa alegria

Com sangue tão pouco distante do seu próprio?

Onde está ela? E como está? E que diz

Minha senhora oculta ao nosso amor desfeito?

AMA.

Oh, ela nada diz, senhor, senão chora e chora;

Ora cai sobre o leito, ora se ergue de súbito,

Ora chama Tebaldo, ora clama por Romeu,

E então torna a cair.

ROMEU.

Como se esse nome,

Disparado da mira mortal de uma arma,

A assassinasse, assim como a mão maldita desse nome

Assassinou seu parente. Oh, dize-me, Frei, dize-me,

Em que vil parte desta anatomia

Se aloja meu nome? Dize-me, para que eu possa saquear

Essa odiosa morada.

Desembainhando a espada.

FREI LOURENÇO.

Detém tua mão desesperada.

És homem? Tua forma brada que és.

Tuas lágrimas são feminis; teus atos selvagens denotam

A fúria irracional de uma fera.

Mulher indecorosa em aparência de homem,

E fera mal-aprumada na aparência de ambos!

Tu me espantaste. Por minha santa ordem,

Julgava tua disposição mais bem temperada.

Mataste Tebaldo? Queres matar-te a ti mesmo?

E matar tua dama, que em tua vida vive,

Fazendo contra ti mesmo ódio condenado?

Por que ralhas contra teu nascimento, contra o céu e a terra?

Pois nascimento, céu e terra, todos três se encontram

Em ti de uma só vez; e tu, de uma só vez, os queres perder.

Fie, fie, envergonhas tua forma, teu amor, teu juízo,

Que, como usurário, abundas em tudo,

E não usas nada no verdadeiro uso

Que deveria adornar tua forma, teu amor, teu juízo.

Tua nobre forma é apenas figura de cera,

Desviada da valentia de um homem;

Teu caro amor jurado, apenas oco perjúrio,

Matando esse amor que juraste acalentar;

Teu juízo, ornamento da forma e do amor,

Disforme no governo de ambos,

Como pólvora no frasco de soldado inábil,

É incendiado por tua própria ignorância,

E tu, desmembrado por tua própria defesa.

Como? Desperta, homem. Tua Julieta vive,

Por cujo caro amor há pouco estavas morto;

Nisso és feliz. Tebaldo queria matar-te,

Mas tu mataste Tebaldo; nisso és feliz.

A lei que ameaçava morte torna-se tua amiga

E a transforma em exílio; nisso és feliz.

Um fardo de bênçãos pousa sobre tuas costas;

A ventura te corteja em seu melhor traje;

Mas, como moça disforme e carrancuda,

Repeles tua Fortuna e teu amor.

Guarda-te, guarda-te, pois tais homens morrem miseráveis.

Vai, chega-te ao teu amor como foi determinado;

Sobe ao quarto dela, parte daqui e consola-a.

Mas cuida em não ficar até que a guarda seja posta,

Pois então não poderás passar a Mântua;

Ali viverás até que possamos achar ocasião

De proclamar vosso casamento, reconciliar vossos amigos,

Pedir perdão ao Príncipe e chamar-te de volta

Com vinte vezes cem mil vezes mais alegria

Do que partiste em lamentação.

Vai adiante, Ama. Recomenda-me à tua senhora,

E manda-a apressar toda a casa para o leito,

Ao que a pesada dor os dispõe.

Romeu está chegando.

AMA.

Ó Senhor, eu poderia ter ficado aqui a noite inteira

A ouvir bons conselhos. Oh, que coisa é o saber!

Meu senhor, direi à minha senhora que vireis.

ROMEU.

Faze isso, e dize à minha doce que se prepare para censurar-me.

AMA.

Eis aqui, senhor, um anel que ela mandou dar-vos, senhor.

Ide, apressai-vos, pois já se faz muito tarde.

Sai.

ROMEU.

Como meu consolo revive bem com isto!

FREI LOURENÇO.

Vai-te daqui; boa noite. E nisto assenta todo o teu estado:

Ou parte antes que a guarda seja posta,

Ou, ao romper do dia, sai daqui disfarçado.

Demora-te em Mântua. Encontrarei teu criado,

E ele te fará saber, de tempos em tempos,

Todo bom acaso que aqui suceder.

Dá-me tua mão; é tarde; adeus; boa noite.

ROMEU.

Não fosse uma alegria além da alegria chamar por mim,

Seria dor tão breve separar-me de ti.

Adeus.

Saem.

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