Ato IV — Cena I. Cela de Frei Lourenço. Romeu e Julieta · Capítulo 19 de 26
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Ato IV — Cena I. Cela de Frei Lourenço.

Ato IV — Cena I. Cela de Frei Lourenço.

Entram Frei Lourenço e Páris.

FREI LOURENÇO.

Na quinta-feira, senhor? O tempo é muito curto.

PÁRIS.

Meu pai Capuleto assim o quer;

E eu nada faço de vagar para abrandar-lhe a pressa.

FREI LOURENÇO.

Dizeis que não conheceis a vontade da dama.

Desigual é o curso; não me agrada.

PÁRIS.

Desmedidamente ela chora a morte de Tebaldo,

E por isso pouco tenho falado de amor;

Pois Vênus não sorri numa casa de lágrimas.

Agora, senhor, seu pai julga perigoso

Que ela dê tanto governo à sua tristeza;

E, em sua sabedoria, apressa nosso casamento,

Para deter a inundação de seu pranto,

Que, demasiado cultivado por ela a sós consigo,

Pode ser afastado dela pela companhia.

Agora conheceis a razão desta pressa.

FREI LOURENÇO.

À parte. Quisera eu não saber por que deveria ser retardada. —

Vede, senhor, aí vem a dama para a minha cela.

Entra Julieta.

PÁRIS.

Feliz encontro, minha senhora e minha esposa!

JULIETA.

Isso poderá ser, senhor, quando eu puder ser esposa.

PÁRIS.

Isso poderá ser, há de ser, amor, na próxima quinta-feira.

JULIETA.

O que deve ser, será.

FREI LOURENÇO.

Esse é texto certo.

PÁRIS.

Vindes confessar-vos a este padre?

JULIETA.

Para responder a isso, eu deveria confessar-me a vós.

PÁRIS.

Não negueis a ele que me amais.

JULIETA.

Confessar-vos-ei que amo a ele.

PÁRIS.

Assim também o fareis, estou certo, quanto a me amardes.

JULIETA.

Se o fizer, terá mais valor

Sendo dito às vossas costas do que ao vosso rosto.

PÁRIS.

Pobre alma, teu rosto está muito maltratado pelas lágrimas.

JULIETA.

As lágrimas alcançaram pequena vitória com isso;

Pois ele já era mau bastante antes de seu despeito.

PÁRIS.

Tu o injurias mais que as lágrimas com tal relato.

JULIETA.

Não é calúnia, senhor, aquilo que é verdade;

E o que eu disse, disse-o ao meu próprio rosto.

PÁRIS.

Teu rosto é meu, e tu o caluniaste.

JULIETA.

Pode ser assim, pois não é meu próprio.

Tendes vagar agora, santo padre,

Ou devo vir a vós na missa da tarde?

FREI LOURENÇO.

Meu vagar me serve agora, filha pensativa. —

Meu senhor, devemos pedir que o tempo seja a sós.

PÁRIS.

Deus me guarde de perturbar a devoção! —

Julieta, cedo na quinta-feira hei de despertar-vos;

Até então, adeus; e guardai este santo beijo.

Sai.

JULIETA.

Oh, fecha a porta; e, quando o houveres feito,

Vem chorar comigo, além da esperança, além da cura, além do socorro!

FREI LOURENÇO.

Ó Julieta, já conheço tua dor;

Ela me força para além do alcance de meu juízo.

Ouço dizer que deves, e nada pode prorrogá-lo,

Na próxima quinta-feira casar-te com este Conde.

JULIETA.

Não me digas, Frei, que ouviste falar disso,

A menos que me digas como posso impedi-lo.

Se, em tua sabedoria, não podes dar auxílio,

Chama apenas sábia a minha resolução,

E com esta faca eu a auxiliarei sem demora.

Deus uniu meu coração ao de Romeu, tu uniste nossas mãos;

E antes que esta mão, por ti selada a Romeu,

Seja o rótulo de outro contrato,

Ou que meu coração fiel, com traiçoeira revolta,

Se volte a outro, isto os matará a ambos.

Portanto, do longo tempo de tua experiência,

Dá-me algum conselho presente; ou contempla

Entre meus extremos e mim esta faca sangrenta

Exercer o império, arbitrando aquilo

Que a comissão de teus anos e de tua arte

Não pôde conduzir a nenhum desfecho de verdadeira honra.

Não tardes tanto em falar. Anseio por morrer,

Se aquilo que falas não falar de remédio.

FREI LOURENÇO.

Detém-te, filha. Avisto uma espécie de esperança,

Que requer execução tão desesperada

Quanto é desesperado aquilo que queremos impedir.

Se, antes que casar-te com o Conde Páris,

Tens força de vontade para matar-te,

Então é provável que empreendas

Uma coisa semelhante à morte para afastar esta vergonha,

E que enfrentes a própria morte para escapar dela.

E, se ousares, dar-te-ei remédio.

JULIETA.

Oh, manda-me saltar, antes que casar-me com Páris,

Do alto das ameias daquela torre;

Ou andar por caminhos de ladrões; ou manda-me esconder-me

Onde haja serpentes. Acorrenta-me a ursos rugidores;

Ou oculta-me à noite numa casa mortuária,

Toda coberta de ossos de mortos a chocalhar,

De tíbias fétidas e crânios amarelos sem queixo.

Ou manda-me entrar numa sepultura recém-aberta

E esconder-me com um morto em seu sudário;

Coisas que, só de ouvi-las contadas, me fizeram tremer,

E eu as farei sem medo nem dúvida,

Para viver esposa sem mancha de meu doce amor.

FREI LOURENÇO.

Escuta, então. Vai para casa, mostra-te alegre, consente

Em casar-te com Páris. Quarta-feira é amanhã;

Amanhã à noite cuida de deitar-te só,

Não deixes tua Ama dormir contigo em teu quarto.

Toma este frasco; estando então no leito,

Bebe por inteiro este licor destilado,

E logo por todas as tuas veias correrá

Um humor frio e sonolento; pois nenhum pulso

Conservará seu curso natural, mas cessará.

Nenhum calor, nenhum alento testemunhará que vives;

As rosas em teus lábios e faces murcharão

Em cinzas pálidas; as janelas de teus olhos cairão,

Como a morte quando fecha o dia da vida.

Cada parte, privada de seu governo flexível,

Há de parecer rígida, hirta e fria como a morte.

E nesta semelhança emprestada de morte contraída

Continuarás por quarenta e duas horas,

E então despertarás como de um sono agradável.

Quando o noivo vier pela manhã

Despertar-te do leito, ali estarás morta.

Então, conforme o costume de nossa terra,

Em tuas melhores vestes, descoberta, sobre o esquife,

Serás levada àquela antiga abóbada

Onde jaz toda a parentela dos Capuleto.

Entretanto, para quando despertares,

Romeu saberá por minhas cartas nosso intento,

E para cá virá; e ele e eu

Velaremos teu despertar, e nessa mesma noite

Romeu te levará daqui para Mântua.

E isto te libertará desta vergonha presente,

Se nenhum capricho inconstante nem temor feminil

Abater teu valor ao executá-lo.

JULIETA.

Dá-me, dá-me! Oh, não me fales de medo!

FREI LOURENÇO.

Toma; vai-te, sê forte e próspera

Nesta resolução. Mandarei um frei com presteza

A Mântua, com minhas cartas para teu senhor.

JULIETA.

O amor me dê força, e a força me dará socorro.

Adeus, caro padre.

Saem.

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