Prólogo O Lorde dos Signos - Livro 1 · Capítulo 1 de 14
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Prólogo

Destruição. Transformação. Reconstrução.

Um ciclo interminável, sem início e sem fim, tal como o universo e seu fluxo infinito, tal como o tempo e seu ciclo interminável.

Tudo o que começa se encerra. Tudo o que se encerra cria um novo início.

Mas o ciclo foi quebrado.

O mundo se dilatou, se expandiu e se comprimiu. Por um breve instante, foi como ver apenas luz em todas as partes. Nada podia ser compreendido no meio da infinita aberração cromática à minha volta. Então, meus pés finalmente tocaram o chão novamente, agora em um outro mundo, um outro tempo.

Por alguns segundos, fitei o mundo abaixo. Tudo estava destruído, ruínas de cidades que antes possuíam muita vida e que, um dia, voltariam a vê-la inundar suas ruas reconstruídas. Rachaduras rompiam terras e mares, fumegando e jorrando magma para todos os lados, criando grandes oceanos quentes e formando o que, um dia, viria a ser novas montanhas. Planaltos agora afundavam nos oceanos lentamente, enquanto o fundo do oceano subia acima do nível do mar. Apenas dois lugares pareciam não ceder ao Cataclismo. Um deles era um lugar muito distante, em uma grande montanha, onde os Treze Tronos iriam estar para sempre acima dos mortais, em vigília, aguardando o Retorno. E outro, onde estava agora, conhecido por muitos como A Velha Morada.

As antigas ilhas flutuavam muito acima do chão, com seus imensos templos agora em ruínas, após tantos anos sem presença mortal em seu solo. Aquele local, lar do Grandioso, vivia agora longe dos olhos mortais e onde apenas uns poucos, não mais que sete, sabiam como encontrar. Eu era um dos sete que poderiam achar esse lugar, muito embora muito mais que sete viessem a pisar em seu solo mais uma vez. E nesse momento, eu não tenho muito tempo a perder. O tempo está passando.

Apressando o passo, me controlando para não cair devido à tontura da viagem feita, adentrei o enorme templo central, procurando o local certo. Imensos salões, câmaras e antecâmaras surgiam um após o outro, com pilares e paredes deteriorados e cobertos por vinhas, eventualmente mostrando o ninho de alguns poucos pássaros que habitavam o local. Mobiliário muito antigo, vez ou outra, aparecia, seu estofado já desaparecido havia muito tempo. O local fora completamente consumido pelo tempo. Tempo… ele está acabando. Apressei ainda mais o passo.

De repente, no enorme terraço do andar superior, coberto por uma enorme abóbada sustentada por pilares ornamentados em ouro e palavras antigas, onde os ventos uivantes sempre entravam e ascendiam, apareceu um imenso monólito pálido coberto de inscrições em textos antigos, símbolos litúrgicos e selos dos mais diversos, todos pintados com ouro. E voltado para a abertura da escada por onde eu subia, o Selo Triplo. A imagem consistia em três anéis inscritos um dentro do outro, cada um com seu próprio conjunto de símbolos rúnicos que indicavam duas coisas: uma frase em uma das três línguas da aurora e, ao mesmo tempo, os treze sinais que indicam os Signos de cada era. Dentro do anel mais interno, estão entalhados dois triângulos sobrepostos, um com uma das pontas voltada para cima e outro com uma das pontas voltada para baixo, formando um hexagrama. Dentro deste hexagrama, está por fim um círculo seccionado em três partes por três curvas, formando um símbolo como se três chamas rodeassem em um eixo invisível. Nesses três segmentos, estavam inscritos três símbolos que eram, em realidade, três nomes: Agnus, Valuse, Zignih. Todo o detalhado desenho estava pintado em ouro, com exceção do interior dos três segmentos, que era vermelho para Agnus, azul-claro para Valus e amarelo-pálido para Zignih. Apesar de todo o Templo demonstrar a fadiga causada pelo tempo, o monólito central estava imaculadamente perfeito.

A frase entalhada em cada anel, porém, ressoa em meus ouvidos mais uma vez.

Esperem a Última Batalha.

Aguardem o Retorno prometido.

O Enredo deve ser mantido.

O tempo está passando. Corri em direção ao monólito, sabendo que a imagem do Selo Triplo demarcava o local sagrado onde ficava o Portão. Um frio correu a minha espinha conforme os ventos rugiram em direção ao centro, por onde ascendiam e saíam por uma abertura no topo da abóbada. A luz do sol reluzia nos entalhes dourados perfeitamente desenhados sobre a pedra. Não havia tempo a perder.O Enredo deve ser mantido.

- Hio… - Entoei em voz alta, como a falar diretamente com o Monólito… - …Valto, Mahbo, Luzbia, Thano… - …Cantando e enumerando os nomes dos Treze, não esquecendo de realizar o gesto manual associado a cada Signo. - …Croxie, Voltoy, Krox, Fhogisto, Hoam, Pholux, Saaroh…

Olhei para o selo. Em todos os anéis, doze símbolos brilhavam com uma luz pálida. Só faltava um único nome, o símbolo no topo do selo. Manobrei mais uma vez meus dedos de ambas as mãos, polegar tocando polegar, indicador tocando indicador e dedo mínimo tocando dedo mínimo, com os demais dedos entrelaçados e unindo as palmas das duas mãos.

- …Kah. - O nome do Signo regente. Estava feito.

Por um momento, os ventos que antes entravam e ascendiam pararam e então, como se ordenados a regressar, desceram pela abertura central da abóbada e saíram pelos arcos laterais formados pelos pilares sustentadores, rugindo como os ventos de uma tempestade. Ao mesmo tempo, onde estava o até então enorme e maciço monólito, agora se abria um grande portão que separava o Selo Triplo exatamente na metade, este brilhando fortemente como a luz do próprio sol. À medida que o Portão se abria, a sala interior revelava o que parecia uma grande parede de vidro, e o que havia em volta parecia ser uma grande quantidade de algum líquido prateado. A parte interior do próprio Portão parecia ser feita deste material, embora não parecesse possuir nada no seu meio. Aquela aparência, como eu já sabia a esta altura, era apenas uma mera ilusão.

Assim que o portão se abriu por completo, adentrei na sala e permaneci em seu centro. No meio, a imagem do Selo Triplo surgiu em luz dourada onde não havia qualquer entalhe. O portão, por sua vez, se fechou atrás de mim, lentamente obscurecendo todo o ambiente. As paredes começaram a desaparecer na escuridão e apenas o selo dourado podia ser visto. Quando os portões finalmente se fecharam por completo, era como estar flutuando no vazio. A única coisa que indicava que havia um chão ali era o Selo Triplo abaixo dos meus pés.

- Lorde Zignih! - Gritei, minha voz ecoando por todo o vazio. - Ouve minha prece em todas as direções do tempo e do espaço! - O som reverberava até tornar-se um som agudo e abafado como o vibrar de um sino. - Por favor, vinde a mim! Agracia-me com tua presença etérea de sabedoria! Alegra-me com tua voz de sabedoria infinita! Necessito de vosso auxílio!

Como ao responder ao meu chamado, o mundo tremeu e tremeluziu, e onde antes havia apenas escuridão surgiu luz. Acima de mim, um fio dourado se desenhou e adensou até se tornar um grande fluxo dourado que era o Infinito. À minha volta, da luz dourada surgiu um grande campo aberto de grama verdejante, com flores silvestres e seres vivos que pareciam seres surgidos de um sonho. A única exceção era o chão onde estavam meus pés e o Selo Triplo, onde se formara um vasto círculo de pedra onde raras gramíneas surgiam. Por fim, à minha frente, de uma luz dourada radiante como a luz do sol, uma forma corpórea começou a se desenhar como a de um corpo humano completamente feito de luz dourada. Em sua volta surgiam palavras em uma multitude de línguas distintas, tecendo um enorme manto pálido e dourado que vestia o corpo do ser. Em seu rosto se formaram feições gentis, com olhos risonhos que brilhavam em luz branca. No centro de sua testa, um terceiro olho parecia olhar para todas as direções ao mesmo tempo. Ele parecia ser pelo menos três vezes maior do que eu, e sua presença exalava sabedoria.

- Lorde Lothen. - Disse ele, sua voz reverberando pelo espaço, soando como mil vozes falando em um poderoso e sonoro coro. - Esperei ansiosamente sua chegada. Bem-vindo, Lorde dos Signos, à vossa morada.

- Lorde Zignih. - Apressei-me para fazer uma profunda reverência.

- Levanta-te. - Disse ele tão logo pus meus joelhos e testa ao chão. - Eu sou o Espírito dos Signos. Não há tempo para perceber, nem espaço para me conter. Sou Zignih, Cristoph, Aurora, Lothen, Hiux e Yaham. Sou a essência da Sagrada Linhagem condensada em um só. Eu sou você, e você sou eu. Não há qualquer razão para esta reverência, querido.

- É verdade que somos um e o mesmo, em essência. O Espírito transcende carne, sangue e até mesmo o próprio tempo. Porém… - Disse, levantando-me. - …decerto ainda sou muito jovem e ainda não sou um Lorde completo. Há algo em mim que me impede de ver a Verdade por completo, de tocar o Infinito por completo. Vós sabeis muito melhor do que este eu atual.

- Sim. Muitas obstruções te impedem de enxergar a Verdade, e não a vê-la te impede de te tornar um com todos os Lordes. Por esta razão, foste instruído a vir diante de mim por meus irmãos, o Lorde da Luz e o Lorde das Trevas, para ter o conhecimento que te libertará destas algemas e te capacitará a cumprir teu papel no Enredo. - Ele sorriu. - Ó, jovem Lorde Lothen, eu sei muito bem de tudo isso. E claro, clarearei sua mente.

- Obrigado, Lorde Zignih.

- Porém… - A voz dele soou grave. - …o seu caminho como Lorde dos Signos é seu e apenas seu. Eu não posso ultrapassar os limites que regem este universo e não posso agir em seu lugar nem te guiar para um caminho certo. Posso tão somente ensinar-te a enxergar por conta própria, tendo você a responsabilidade de agir de acordo com o que verá. - Ele parou por um breve momento, como se a tomar ar, e continuou. - Seu papel no Enredo só pode ser cumprido por ti, e não podemos interferir de nenhuma forma em suas ações. Compreendes esta condição?

- Certamente. - Assenti, embora relutante com o aviso.

- Então, como deve ser, conte-me o que viu.

- Um mundo em ruínas, devastado por guerras intermináveis. - Disse, engolindo o seco em minha boca. A imagem ainda era muito nítida em minha memória, vívida como se vista há poucos minutos. - Não como este mundo de agora, devastado pelo mal, mas sim inundado pela malícia. No Olho do Mundo, tal qual é dito, a Batalha Final foi travada. Mas no fim, o mal venceu e destruiu o mundo inteiro. Por muito pouco, escapei do destino de ser eu mesmo obliterado pela escuridão. Tudo isto na Era da Última Batalha, nos tempos de Yaham. O Enredo deve ser mantido. Como podemos evitar este desastre?

- Certamente que o que viu foi a Batalha Final, o momento em que todos seguraram seu fôlego para assistir ao fim dos tempos. Um momento ainda por acontecer para você, mas que aconteceu há muito tempo para mim. Os olhos de toda Sião voltados para o Olho do Mundo, onde os Três aguardaram pacientemente o Retorno prometido para que a Última Batalha começasse. - Seu olhar sereno tomou então um semblante muito sério. - Sim, o Enredo deve ser mantido, mas você ainda não compreende o peso destas palavras, nem aquilo que viu. Você precisa, antes de tudo, entender.

- E como obtenho este conhecimento?

Em resposta, mais uma vez o mundo tremeu. Logo atrás do Lorde dos Signos, do chão de pedra que forma o círculo, formou-se um trono ornamentado com símbolos e desenhos de flores. As formas surgiram como papel se desdobrando, e a pedra bruta do chão tornou-se lisa e plana como se fosse esculpida. Em seu topo, um forramento almofadado dourado com bordados brancos que desenhavam lindas flores surgiu para tornar o assento mais confortável. Então, notando que o acento estava ali, Zignih sentou-se e cruzou suas pernas, de forma que uma ficou voltada para dentro do trono recém-surgido, e a outra esticada ainda tocava o chão.

- Para que batalhes contra este Mal, você deve primeiro conhecê-lo. Este espírito poderoso que desdenha da vida e que destruirá o mundo e rasgará o universo inteiro, com suas garras afiadas desprovidas de essência que destroçam o próprio Infinito, surgiu muito antes do tempo começar. - Ele disse com uma voz suave, como uma mãe cantando uma canção de ninar para um bebê. - Mostrarei para ti não como este mal começou, mas um de seus muitos despertares, muito embora este em especial seja de todos o mais revelador em relação à sua natureza. - Novamente, ele fez uma breve pausa. - Estais pronto, Lorde Lothen?

Respirei fundo. Minha jornada, eu sei que ela está muito longe de terminar. Porém, este passo mudaria o destino do mundo inteiro. Apenas me tornando um Lorde dos Signos completo, poderei cumprir meu papel no Enredo. É necessário. Senão…

- Estou pronto. - O tempo está se esgotando. - Mostre-me a verdade.

- Então, vamos começar.

Em instantes, o mundo pareceu se tornar luz, desaparecendo desde seu horizonte até chegar a mim. Meu próprio corpo desapareceu. Em instantes, a luz era tudo o que havia. Eu não era nada mais do que um mero pensamento no centro desta luz. O tempo está acabando, e o Enredo deve ser mantido a qualquer custo.

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