Mortos
Eles saíram do casebre pouco depois que a tempestade cessou. Nuvens negras ainda pairavam sobre as árvores de copa vermelha e galhos retorcidos, prenunciando que a tempestade poderia voltar a qualquer momento. Os raios do sol não tocavam o solo, e o frio cortante soprava pela pele dos membros do trio em marcha para o oeste.
Angélica estava curiosa com tudo aquilo à sua volta. O tempo era relativo naquele lugar, visto que o que pareciam ser alguns poucos minutos dentro da casa abandonada se mostrou ser um pouco mais de uma hora, como denotado por um relógio no centro daquela cidade por onde passaram. Da mesma forma, Gabriel estranhava as árvores retorcidas de copa escarlate perturbadoras, assim como o tempo permanentemente tempestuoso desde que chegaram. Em nenhum lugar de Brishar o clima era tão denso, e mais parecia que a própria Tempestade engolia agora o sul do mundo, avançando para além da Proibição. Entretanto, nada daquilo parecia assustar o jovem estranho. Ao contrário, aquela situação parecia, de certa forma, diverti-lo.
— Em geral, Ariandhelle é um mundo bastante onírico e volátil, mas durante um Sonho Desperto ele se torna mais como um reflexo distorcido do mundo real, moldado aos nossos maiores anseios e medos. — Explicou o jovem de vestes negras, afastando alguns galhos que atrapalhavam seu caminho.
— A magia, ela funciona aqui? - Questionou a maga.
— De forma muito parecida, mas amplificada. Magos devem usar suas conjurações muito cautelosamente aqui. Então tome cuidado caso vá conjurar algum encantamento, certo?
— Não é algo com que você precisa se preocupar. — Angélica golpeou um galho com sua adaga, deixando apenas um corte liso de onde brotaria um novo galho eventualmente, se é que as coisas funcionavam assim ali. — Eu não sou uma maga ainda, nem sequer uma aprendiz. Não faço ideia de como conjurar algo.
— Pois espero que não precise aprender hoje. — O estranho disse. — Suponho que seu amigo também não seja um paladino, então? — Gabriel acenou positivamente com a cabeça. — Engraçado, nunca vi algo parecido com isso antes. Será que vocês se conectaram com suas próprias potencialidades futuras?
— E você, o que faz? — Pergunta Gabriel. — É um soldado, mago, atirador?
— Espero que vocês não precisem descobrir. — Riu o jovem. — Meu povo utiliza artes marciais para se defender, mas costumamos usar nossa força apenas para autodefesa.
— Então é uma espécie de lutador? — Perguntou Angélica.
— Algo assim. — Disse ele. — Mas não necessariamente.
— Esse medo todo tem algo a ver com a Trindade? — O estranho jovem apenas acenou com a cabeça. — E o que a Trindad-
— Como você conheceu sua amiga? — Cortou Angélica, sabendo que aquele assunto não seria confortável para o súbito aliado de jornada. — Você e seu povo parecem ser bastante reservados. Em que contexto vocês se conheceram?
— Somos de fato bastante reservados. Porém, continuamos existindo pela graça de alguns benfeitores benevolentes que nos ajudam em nossa caminhada. — Ele falava suavemente, com um tom de voz um pouco nostálgico. — Vez ou outra, um de nossos muitos benfeitores vem à nossa morada para nos visitar e buscar conforto em nosso lar. Em uma dessas vezes ela surgiu, quando eu ainda era apenas uma criança silente, ao lado de seu pai. Se me lembro bem, eu era apenas dois anos mais novo que ela e, naquela idade, já havia começado meu treinamento. — Ele golpeou mais um galho, afastando-o da trilha estreita que o grupo percorria. — Lembro-me de que estávamos meditando naquele dia, quando ela veio nos observar de longe. Depois ela veio falar comigo, mesmo sem eu conseguir respondê-la verbalmente. Nos comunicamos inicialmente através da nossa arte.
— Arte? Você diz a magia dela? — Questionou Angélica.
— De certa forma. Tudo o que eu podia fazer era gestos e demonstrações de habilidade. Ela me mostrava as dela em troca. A ela as sombras se curvam, tremem e se contorcem, assumindo formas variadas ou até mesmo lâminas e seres desconhecidos.
— Espera. — Gabriel parou, fazendo o outro olhar para trás. — Sua amiga é uma Umbromante?
— Há algo de errado nisso? — O rosto do jovem demonstrava sinais de preocupação.
— Tá brincando? Claro que não! — Os olhos do rapaz loiro brilhavam com entusiasmo. — Umbromancia é uma arte muito rara e poucos conseguem sequer aprendê-la! Se ela já conseguia fazer tudo isso ainda nova, hoje ela deve ser uma maga muitíssimo habilidosa!
— Ah, e ela é. Embora ela sempre seja bastante humilde em relação a isso. — Disse ele sorrindo, apenas para que ele sumisse rapidamente na penumbra do pesar. — Ou era, antes de ela desaparecer. — De repente, o piso de terra batida da trilha deu lugar a ladrilhos de arenito amarelado que lembravam ouro, e uma clareira se anunciava à frente do trio. — Acho que chegamos a algum lugar.
Para além da floresta se estendia uma cidade costeira muito próxima ao mar. Angélica não notou quando as árvores voltaram a possuir copas verdes e galhos comuns — se bem que a essa altura é possível que tudo houvesse mudado em um piscar de olhos. A cidade, assim como as outras duas por onde passaram, estava completamente deserta. Suas casas eram brancas de teto plano recoberto de telhas alaranjadas, tão alaranjadas quanto suas portas e janelas. A cidade erguia-se sob uma ladeira que descia até a beira-mar, estando o grupo em uma área das mais elevadas da costa. Em outro lado, via-se um enorme Portão dos Sábios — uma raridade de se ver — que denunciava que aquela deveria ser uma cidade muito importante.
— Eu não conheço este lugar. — Exclamou o estranho.
— Nem eu. — Disse Angélica, em uma mistura de encanto e receio.
— Eu menos. Mas olhem. — Ele apontou para o horizonte. — Acho que encontramos o que quer que estivesse emanando aquela presença.
No horizonte, numa proporção irreal que parecia ao mesmo tempo próxima e distante, estava uma ilha envolta em nuvens negras como piche. Relâmpagos brilhavam por entre as nuvens e trovões rugiam pelo céu. Uma aura obscura parecia exalar daquele lugar.
— Fiquem atentos. — Disse o estranho, ajeitando sua capa e andando cautelosamente em direção ao caminho de tijolos de arenito. — Há algo de errado com esse lugar.
— Sinto o mesmo. É como se houvesse uma ameaça ao redor… uma não, muitas! — Falou Gabriel, quase sussurrando. — Vem, Angélica, é melhor não ficarmos distantes uns dos outros.
Angélica não sentia nada disso que eles diziam, apenas se sentia angustiada com aquela aura pairando sobre o local. Talvez fosse essa a forma de ela sentir as coisas, levemente diferente da forma dos outros dois. Conforme foram seguindo ladeira abaixo, o uivar dos ventos se misturou a um outro barulho, um rangido agourento e enjoativo junto a batidas repetidas como o bater de duas tábuas de madeira rígidas uma contra a outra. Isso disparou um sinal de alerta no jovem desconhecido que, por sua vez, os forçou para dentro de uma viela escura. Ele apenas fez um gesto com o indicador sob seus lábios, ordenando silêncio. Não demoraria muito para que os outros dois entendessem o porquê.
A visão estranha era, de fato, a mais perturbadora que eles poderiam imaginar. Até mesmo o inabalável estranho, que desde o início da jornada não demonstrara sinais de surpresa com os fenômenos do mundo dos sonhos, parecia consternado com a visão. Era um cadáver de pele seca, de músculos atrofiados e ressecados, ossos já aparentes por rasgos em sua pele apodrecida, sem olhos, orelhas nem narinas, com uma boca de muitos dentes à mostra por não ter lábios para cobri-los, vestindo roupas esfarrapadas e carregando consigo uma espada oxidada de bronze. E aquilo, contra toda e qualquer lógica, estava em pé. Andando. E naquele momento, finalmente, Angélica sentiu a presença maligna que emanava da criatura. Uma aura negra nefasta, como um breu a envolver o morto-vivo. Ele andava desajeitadamente, como se a pele e os músculos ressecados atrapalhassem seu livre movimento, arrastando pernas e braços contra o vento que insistia em tentar levá-lo.
— Nilfim. — Sussurrou o estranho, perplexo. — Há algo errado. Eles não… eles não sonham. Não deveriam estar aqui.
— Espera, isso não é algo comum nos…
— Shhh! — Sibilou o desconhecido ao notar que Angélica se exaltava. — Apenas criaturas que sonham podem adentrar um sonho, que dirá um sonho desperto. Algo ou alguém fora daqui está fazendo-os surgir. Isso não é normal. Por que alguém faria isso?
— Será a presença mais ao oeste daqui, naquela ilha estranha? — Perguntou Gabriel enquanto puxava sua espada prateada.
— Provavel. É provável que ele tenha algo a ver com o desaparecimento da Ale… Droga, escondam-se.
Eles se retiraram para trás de um baril quando surgiu mais um cadáver seco de ossos completamente aparentes. Diferente da outra criatura, este andava suave e imponente enquanto patrulhava o local, quase como se pertencesse a uma outra casta. Portando uma espada negra como a noite atada à sua cintura por uma faixa de couro e vestindo nada mais que ombreiras e um peitoral de aço, ele parecia procurar alguma coisa pelas vielas.
— Eles já sentiram nossa presença. Nilfims são criaturas perigosas, somente uma magia muito pura poderia destruí-los. — Ele olhou para Gabriel. — Diga-me se sabe alguma magia de purificação básica.
— Eu mal sei empunhar uma espada! — Reagiu o outro aos sussurros.
— Mas você é um paladino aqui, me diga que pelo menos…
— Não vai dar. Mas minha espada é de prata. — Disse ele.
— De nada isso serve, eles são nilfims e não Lacans. — Os outros dois se entreolharam, completamente alheios ao que um Lacan poderia ser. — Então somos completamente inúteis nesta situação. Temos que ter cuidado para não sermos vistos enquanto tentamos chegar à praia.
— Espera, você quer que sigamos até a praia? — Angélica olhava para o estranho, incrédula.
— Claro! Viemos atrás de minha amiga, não?
— Sim, mas são esqueletos andando pelas ruas, e não cachorrinhos fofinhos! — Disse Gabriel. — Como espera que passemos por essas criaturas sem sermos percebidos, ô gênio?
— Por dentro das casas. Olhem. — Ele apontou para a porta de uma casa qualquer. — Vamos ver se conseguimos ir para outra rua. Assim evitamos os mortos-vivos por um tempo.
Sem mais palavras ou melhores opções, o trio seguiu por dentro da casa. A casa estava intacta, exceto por alguns objetos espalhados pelo chão como se algo ou alguém houvesse passado por ali e vasculhado a casa, atirando retratos, livros e vasos por todo o lugar. Tão logo avistaram uma porta, Angélica correu para espiar pela fresta e ver se havia alguma criatura na rua. A rua parecia limpa, e ela chamou os outros dois. Saindo sorrateiramente da casa, eles se esgueiraram pela rua sempre tentando se esconder atrás de algum objeto, bem como atentos a possíveis novas aparições. Seguiram assim por mais duas ou três quadras quando Gabriel empurrou os outros dois para uma viela, fazendo sinal para que se abaixassem. Uma fenda negra surgiu no tecido do sonho, cortada por uma lâmina afiada e negra como a noite, e por ela dedos esqueléticos passaram e alargaram-na o suficiente para que dela emergisse uma nova criatura sepulcral. Este era novamente um cadáver completamente seco, apenas ossos rangendo e batendo, mas esta possuía pelo menos o dobro de altura da anterior, esta apenas um pouco maior que Gabriel. Ele parecia farejar algo, andando de um lado para o outro em busca de alguma coisa — claramente os jovens escondidos na viela. Infelizmente para a criatura, seu cérebro já atrofiara com todo o resto. Gabriel apontou para o outro lado, sugerindo que fossem em direção à rua paralela a esta. Porém, quando lá chegaram, a visão de mais um morto-vivo os surpreendeu. Angélica engoliu em seco, amedrontada com a situação em que estavam. Desta vez não havia portas dos fundos por onde pudessem passar e os dois lados contavam com seu próprio guarda esquelético para vigiar a rua. Eles estavam encurralados.
— E agora? — Perguntou Gabriel, recuando. Por descuido e desatenção, o rapaz esbarrou em uma pilha de caixas de madeira que, por sua vez, caíram e se quebraram no chão, fazendo considerável barulho. Angélica e o outro rapaz travaram. Nem mesmo ar passava por suas narinas. Estava claro o que aconteceria agora. — Desgraça.
Angélica viu quando a criatura esquelética avançou em direção à viela onde se escondiam, agora claramente ciente de que estavam ali. Tudo foi muito rápido: antes que o desconhecido ou Angélica agisse, os instintos recém-adquiridos de Gabriel chicotearam-no rumo à criatura, fazendo-o pular sobre a dupla paralisada, puxar sua espada e golpear o esqueleto com toda sua força. A criatura se estatelou no chão e se despedaçou, ossos se espalhando por todo lado, espada voando contra a parede de uma casa do outro lado da rua. Gabriel olhou para o ser, incrédulo com o que acabara de fazer. Mas no fim, deu um sorriso de vitória e socou o ar em comemoração!
— Salazareno maldito! — Berrou o rapaz, empolgado! — Tá vendo? Espadas de prata funcionam!
— Não comemora não, olha! — Apontou o rapaz estranho.
Ele estava certo. Ossos rolavam em direção ao ponto onde a criatura caíra, voando e se juntando novamente. O sorriso de Gabriel foi lentamente se desfazendo e dando lugar ao mais puro horror. Em poucos segundos, o cadáver seco estava mais uma vez de pé e, com apenas um gesto, a lâmina obscura que carregava voou em sua direção. O ataque claramente não surtirá efeito algum.
— Pessoal, temos companhia.
Angélica avisou tarde demais. O outro esqueleto, aquele que emergira das trevas na outra rua, já estava no encalço deles. Ao redor deles, outras fendas se abriram e delas mais criaturas cadavéricas emergiam, algumas ainda com pele, outras apenas osso e ferro. A situação desandara completamente, e o rapaz até então sem nome sabia disso. E ele sabia muito bem o que fazer naquele momento:
— Corram! — Gritou o rapaz de preto.
Mal houve tempo de reação, raios despencaram dos céus tão logo o rapaz de preto colou os lábios. Angélica deu um impulso contra um dos esqueletos, removendo-o do caminho com um chute. Gabriel atingiu outro com a lâmina, e mais uma vez ele apenas se despedaçou. O céu se fechou com nuvens, cada raio destroçando um prédio, o chão ou até mesmo um dos esqueletos. Claramente a força que estava controlando aquele local do sonho finalmente notara a presença do trio. Nesse momento, esqueletos brotavam até mesmo das paredes dos prédios, criando uma legião numerosa que os perseguia. Em apenas alguns segundos, o caos estava instaurado.
— Não adianta lutar contra eles! — Gritou o rapaz de preto com os olhos arregalados, assustado com a situação. — Só a purificação funciona contra essas coisas!
— E não tem nada que purifique esses troços além de magia?! — Berrou Gabriel.
— Eu não lembro direito! Faz muito tempo que estudamos isso na Ab… ARGH! — Berrou o desconhecido em frustração. — Luz, água abençoada, fogo… sei lá!
— Fogo? — Angélica falou e, em um lapso de consciência tão rápido quanto um relâmpago, olhou para os vários postes nas ruas da cidade. A cidade possuía luminárias a óleo facilmente removíveis e, com certeza, bastante inflamáveis. Eles, por alguma razão, estavam acesos no sonho, talvez em resposta à própria intenção da moça. — Vão na frente! — E, sem pensar muito, correu para um dos postes e arrancou uma luminária, atirando o óleo em chamas contra os esqueletos logo em seguida. Três deles foram atingidos e, como palha, incendiaram-se rapidamente. Então, uma explosão de chamas serpenteando no ar irrompeu dos corpos das criaturas atingidas. Umas criaturas se afastaram, outras foram lambidas pelas línguas de fogo e entraram em combustão violentamente como as outras, gerando assim um imenso efeito dominó que resultou em sucessivas explosões ao longo da rua por onde corriam. Angélica alcançou os outros logo em seguida. — Isso deve nos dar algum tempo, certo?
— Eu não contaria com isso. — Outros cadáveres começaram a emergir de fendas negras por todo o lugar. Olhando sempre para frente, porém, Gabriel avistou a praia. — Estamos chegando! — Anunciou o paladino.
— Aquilo também! — Angélica apontou para a ilha que estava cada vez mais próxima da costa, beirando o irracional. Nuvens negras pairavam sobre ela e a ocultavam de tal forma que ela inteira parecia uma enorme sombra. Raios choviam ao redor do grupo, atingindo aliados que explodiam em chamas violentas. Conforme eles se aproximavam, o horizonte se tornava cada vez mais escuro.
Então, no momento em que os pés do trio tocaram a areia dourada da praia, um raio vitrificou o chão logo à frente deles e seu impacto arremeçou-os contra o chão.
— Ihksh-sa! — Berrou o garoto estranho. Nenhum dos outros dois entendeu o que dissera, mas era claramente algum tipo de insulto. Ele olhou em volta, olhos arregalados de espanto. — Maldição salazarena, estamos cercados.
Cadáveres, secos, desnudos e até mesmo frescos se juntaram ao redor do grupo. Os raios cessaram e uma ventania forte soprou por toda a costa. Os esqueletos iam de encontro ao grupo, armas em punho, prontos para atacar, a aura sombria emanando o desejo pelo sangue de suas vítimas.
— Parem! — Um grito polimórfico soou por toda a costa, como um coro de vozes gritando ao mesmo tempo. Tão logo soou, as criaturas estremeceram e se retesaram, a aura maligna sumindo completamente delas.
O trio olhou para além da costa, no horizonte escuro como a noite. Agora até mesmo o vento havia cessado e cada um deles olhava sem fôlego, assombrado demais para conseguir sequer respirar.
Enormes olhos negros como a noite pairavam por entre nuvens, encarando-os com desdém e fúria. Aquele olhar parecia julgá-los, como se tentasse entender a razão da intromissão dos jovens. Então várias vozes, masculinas, femininas e até mesmo inumanas, perguntaram, em uníssono:
— E quem são vocês?