Fiel Escudeiro O Lorde dos Signos - Livro 1 · Capítulo 9 de 14
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Fiel Escudeiro

- Um incidente? - Disse o rei. - Com a bisneta de Trevor?

- Exatamente, senhor. - A forma informal com que o homem se referia ao seu velho amigo nunca cansava de causar-lhe espanto. Normalmente, um rei seria mais reservado nesses assuntos, mas quando se tratava do grande herói Trevor Aragon ah, Rei Melódias não era nem um pouco reservado. Alther, porém, deveria ser mais assim em relação aos seus próprios familiares. - A garota Aragon parece ter se desprendido do avaliador e caído no mundo espiritual. Koesah, o sábio indicado a ela, que de alguma forma conseguiu se manter conectado à garota, disse que um espírito obscuro parecia segui-la.

- Não imagino o que você deva ter sentido, caro Alther. Ela é sua sobrinha, não é?

- Sim, majestade.

- Ah, como esses formalismos me incomodam. - O rei pressionou o tênue vinco entre seus olhos. - De toda forma… Um espírito obscuro durante uma divinação. Não sei o que pensar disso.

- Marezar mencionou que não há registros de espíritos interferirem numa divinação. Os círculos de proteção do ritual são muito poderosos e modelados pelos Três Sábios, eles próprios. Não deveria ser possível a qualquer espírito comum alterar uma divinação.

- E o que você acha disso? - Questionou o Rei Branco. - Você costuma ter uma boa visão do quadro geral.

- Concordo com Marezar, não acho que seja um espírito. - Falou o homem calmamente, embora o que ele estava prestes a falar fosse uma bomba ao ouvido de qualquer outra pessoa. - Algo vem me preocupando nos últimos meses, como o senhor bem sabe, referente aos estranhos acontecimentos que acontecem por onde Vossa Majestade passa. Durante sua última audiência anual com o conselho dos Gighudan, um incêndio tomou a Grande Biblioteca dos Sábios e o senhor mal escapou com vida.

- Lembro-me bem. Nunca pensei que livros antigos fossem algo tão perfeitamente… inflamável. - Resmungou o mais velho. - Como esse fogo surgiu mesmo com os círculos de proteção, é uma incógnita para mim até hoje.

- Em seguida, surgiu aquela incessante onda de manifestantes desejando sua renúncia. - O Rei pareceu se incomodar com a fala de Alther. - Não apenas por sua popularidade notável, majestade. Mesmo em reinados anteriores, as manifestações nunca envolviam atear fogo a prédios públicos nem depredação do Palácio Branco, uma relíquia deixada pelo Lorde da Luz! Além disso… houve os atentados nos últimos três dias…

- Sim. Três dos meus melhores homens foram assassinados em plena luz do dia. Eu treinei pessoalmente cada um dos membros da Guarda de Prata, e eles eram excepcionais.

- O que reforça minha preocupação. - Alther franziu o cenho, a preocupação transparecendo. - Custa-me acreditar que são meros maus agouros ou simples coincidências, me parece muito mais uma tentativa de deposição…

- Ou de assassinato. - O rei se virou, seu cenho também franzido. Ele não parecia nem um pouco preocupado com sua vida, mas sim furioso pela tentativa, como se um forte senso de dever houvesse se apossado dele. - Você crê ser possível que haja um infiltrado?

- Pretendo descobrir, mas há um forte indicativo.

- Faça isso. - Um silêncio se abateu na sala por um momento. - E quanto à garota? Como ela está?

- Koesah disse que ela será uma poderosa maga. - Alther se alegrou, com a satisfação clara em seu semblante. - Ele disse ter visto muitos sinais auspiciosos de glória e poder, e o Infinito se mostrou claro e forte em sua visão, demonstrando uma poderosa conexão com o etéreo. Ele crê que ela possua um fluxo agudo devido à grande movimentação de energia durante o ritual, o que pode ser um desafio para ela.

- Esperado de sua linhagem. - Disse o Rei, compartilhando de sua alegria. - Os melhores magos que conheci possuíam fluxo agudo. - Por alguns segundos, o olhar de Melódias assumiu um tom saudoso, como alguém a recordar um passado muito distante. Então, uma sombra pairou sobre seu olhar. - Creio que a garota esteja envolvida no que quer que esteja acontecendo.

- Como? - Alther deu um pulo de espanto.

- Não é estranho que a Trindade tenha solicitado um Léxicus especificamente aqui? Há regiões que necessitavam mais da atenção deles, mas mesmo assim decidiram realizá-lo ao sul de Brishar, em uma simples e remota cidade portuária às bordas da Tempestade. Por que aqui? Por que agora? A Trindade Sábia jamais decidiria algo ao acaso. - O Rei parecia refletir consigo mesmo, sem pensar no conselheiro ao seu lado. - Alther, ordenem que reforcem a guarda durante a noite, eu não quero nenhuma interferência durante a Oniração. E você… - Ele se aproximou de Alther, olhando seriamente. - … observe a garota. Se meu pressentimento estiver correto, ela poderá ser envolvida mais vezes.

- Eu, é… claro, senhor. Como ordenar. - Alther curvou-se em reverência e se dirigiu à saída. Ao sair da sala, um som mudo zumbiu em seu ouvido, indicando que ele havia saído da zona do feitiço de espaço silente. Logo em seguida, deparou-se com aquela doninha ardilosa que ocupava o cargo de Mago da Corte. Alther nunca viu o que exatamente as pessoas viram em Marezar para colocá-lo em tal posição. Há cinco anos, quando ele entrou para a corte, muitos magos surgiram para bem falar de seu nome, casas nobres indicaram-no diretamente para o rei e até mesmo nobres de outros países vieram para testemunhar em seu favor. Um homem que passou por muitas cortes e fez grandes maravilhas. Alther não gostava nem um pouco daquele homem. - Noite calma, caro Marezar.

- Calma noite, senhor conselheiro Alther. - Ele retrucou, já se aprontando para ir na direção oposta à sala onde estivera com o rei.

- Por acaso estava tentando ouvir a minha conversa privada com o Rei? - Questionou o conselheiro, prendendo os cabelos rubros em um coque para impedir que flamulassem com o vento.

- Não seria capaz de tamanha ousadia. - Falou o homem, tentando parecer desconcertado. Não convenceu o conselheiro. - Foi um feitiço de silenciamento conjurado pelo senhor; eu não teria poder para neutralizá-lo. Vim apenas falar com o rei sobre a situação da garota.

- Encontraram ela?

- Ainda não. Creio que ela não deveria participar da Oniração. - Disse o mago. - Ela é um talento nato, mas, tendo em vista que não extraí nem mesmo uma nova informação daquele homem irresponsável, não acho seguro que ela fique a sós com tão pouca proteção. Só haverá um acólito com ela na sala. Se alguém…

- Então você imagina que alguém tentou interferir externamente? - Talvez o homem não fosse lá tão débil quanto imaginava.

- Apenas um tolo acharia que aquilo foi obra de um espírito. Não imagino o que um agente exterior desejaria com a garota, mas é o mais provável. Eu tentaria ler as memórias do sujeito, mas…

- Você sabe que essa magia é proibida. - Repreendeu Alther. - Somente pode ser feito com autorização da Trindade, coisa que você não terá.

- Bem, de toda forma… acha que o rei poderia impedir a garota de…

- Não, está fora de cogitação a menos que ela própria desista.

- Ela é um talento nato. - Suspirou Marezar. - Será uma pena se ela for perdida.

- Não será. - Disse Alther, baixo, enquanto se distanciava do homem. - Não será.

***

A garota chorava copiosamente enquanto seu amigo a abraçava na vã tentativa de consolá-la. Àquela altura, já não eram mais necessárias palavras entre os amigos, cujo elo fraternal era tão forte que muitas vezes poderiam até mesmo ler a mente um do outro. E Gabriel sabia, no fundo de seu coração, como aquela notícia machucara o coração de Angélica.

- Isso não é justo! - Ela bateu no chão, lágrimas quentes cortando seu rosto franzido. No fim, seu pranto não era apenas tristeza: era raiva, profunda e enraizada. Uma frustração incomparável. - É apenas uma visão estúpida! Como podem decidir a vida de uma pessoa apenas com visões? E do jeito que aconteceu! Eu… eu…

- Calma… saco. - Pedir calma a alguém aos prantos e não fazer nada surtiam basicamente o mesmo efeito, ele sabia. Ele largou ela do abraço para encará-la diretamente nos olhos. - Mas não tem como fazer um novo teste? Você chegou a falar com o tio Alther?

- Não... - Ela respirou fundo na tentativa de sufocar o choro. - Eu saí correndo logo depois da notícia. Não acho que eles abrirão uma exceção de toda forma. Não sou especial.

- Bom, eles disseram que a Divinação não era um resultado definitivo, então pode ser que…

- O avaliador está muito certo do resultado… - Cortou Angélica. Mais um suspiro. Era evidente que ela seria pessimista. Mas, de fato, sua visão fora distinta demais para ser um resultado equivocado pelo que ela lhe contou. Ou talvez justamente por ser distinta, deveria ser um resultado diferente? Ah, aquela altura já não fazia qualquer diferença, e isso era claro para o garoto. Àquela altura, ele próprio chorava por ela.

- Então… o que você planeja fazer? - Perguntou Gabriel inocentemente, como se estivesse tentando encontrar uma resposta para um problema seu.

- Não sei. Não… eu não quero pensar nisso agora. - Respondeu Angélica, em meio aos soluços. Depois de um tempo, ela limpou o rosto e retribuiu o olhar do amigo. - Eu não sei se quero ser maga. Não sei se quero desistir disso. Eu… não consigo pensar nisso agora. Vou pensar amanhã, depois do resultado da Oniração.

- Então… você vai continuar? - Gabriel estava surpreso com a resposta.

- Sim. - Ela olhou com aqueles olhos cheios de determinação, olhos que sempre precediam uma grande confusão, daquelas em que eles dois sempre se metiam e que tanto divertiam o garoto. No final, ela era aquela parte dele que sempre o fazia esquecer os trejeitos de sua ascendência nobre. - Pelo menos esta noite.

- Certo. - De repente, no coração de Gabriel não havia mais tanto pesar. Ele levantou-se e estendeu a mão para a garota, para ajudá-la a se levantar. - Eu tô contigo, não importa o que aconteça. Afinal, você sempre esteve ao meu lado e eu ao seu, não é?

A garota sorriu, com memórias de muitas aventuras juntos passando por sua mente. Aventuras que lhes renderam muitas encrencas e dores de cabeça, mas que sempre os divertiram. Um laço de amizade que nem mesmo o tempo poderia desfazer e que, de fato, não desfaria.

- É. Vai ser mais uma confusão daquelas. - Ela pegou sua mão, e o garoto ajudou-a a subir. Agora os dois estavam de pé, mesmo com muitas emoções confusas dentro deles. Angélica triste por não conseguir se tornar paladino. Gabriel angustiado pela amiga, mas feliz por seu próprio veredicto na Divinação. Em sua visão, o sábio fora claro que ele poderia até não se tornar paladino, mas ele com certeza não se tornaria atirador se escolhesse a Trindade. O garoto de coração gentil agora possuía em seu coração aquilo que sempre sonhou. Mas sua amiga… bom, isso não importa agora. O que quer que aconteça… - Juntos?

- Juntos. - Ele falou de imediato, a determinação dela refletindo nos olhos dele.

O momento de união durou apenas um segundo, e então eles foram interrompidos. Sons de passos apressados, como se uma multidão corresse pelos corredores. E, de fato, havia muitos convidados a correr, fugindo de algo que os jovens desconheciam. Os olhos deles se cruzaram por um instante e ele já sabia o que ela queria fazer: ir contra o fluxo e checar o que estava acontecendo. Aparentemente, mais uma aventura para os amigos de tanto tempo. Os olhos dela brilhavam como brasa. Os olhos gentis dele encaravam-na com admiração. Então eles correram contra o fluxo de pessoas, com o olhar de aflição que faziam, denunciando que realmente estavam fugindo. Alguns gritavam algo como “Ele ficou louco!” ou “Prendam aquele insolente!”, como os nobres faziam, e claramente os que fugiam eram justamente os nobres de Nashar. Ele, nascido na nobreza, sabia muito bem como se comportavam aqueles que detinham riquezas e poder naquelas terras: como covardes. Ou pelo menos era o que sua mãe, aquela mulher impiedosa de olhos de escárnio e de semblante desdenhoso, sempre dizia. E todos a temiam, pois entre todos os nobres ela era a única que se punha na linha de frente quando surgia um inimigo. E seu olhar de decepção para seu filho… não, ele não tinha tempo para pensar nisso. Acompanhou a amiga de perto, o ar entrando e saindo muito rapidamente de seus pulmões enquanto corriam. Quando enfim chegaram de onde se originava o afluxo de pessoas amedrontadas, eles puderam encarar a cena mais inusitada daquela noite, porém, de fato uma muito perturbadora.

Ao redor do centro do salão, muitos guardas pareciam isolar os demais convidados enquanto os acólitos do templo os direcionavam para as saídas. No Centro, três pessoas dividiam a atenção dos espectadores que se recusaram a sair. Uma, claramente, era Amélia Hevixot, a matriarca da família e mãe de Gabriel, e que, assim como esperado, sacara sua arma de fogo e tentava atirar para defender não os outros, mas sim sua própria prole. O que não mais incluía Gabriel, ele temia. Outro, para a surpresa de Angélica, era Bartolomeu que tentava segurar outro homem aplicando-lhe um golpe de enforcamento. E, para o espanto de não apenas ambos os jovens, mas de todo o salão, o terceiro era ninguém menos que um membro da Guarda de Prata, mas este possuía um pequeno detalhe que o distinguia dos demais e aterrorizava os ali presentes: olhos negros como carvão e veias negras saltando pelo corpo inteiro. Algo não estava certo ali. Amélia tentou atirar, mas no momento em que o tiro chegaria ao guarda, ele se movimentou, derrubando o avô de Angélica e desviando da bala dourada da Víbora de Nashar.

- Maldito seja! Alguém pare este homem! - Praguejou ela. - Bartolomeu, faça algo! Você era um soldado da Guarda, não?

- Que inferno! - Angélica nunca vira seu avô xingar na vida. Bom, para tudo há uma primeira vez, aparentemente. - Eu fui da Guarda há sessenta anos, hoje sou padeiro! Sugere que eu faça o quê? Faça-lhe bolos?

O homem falou algo, palavras cuspidas que pareciam arranhar e lacerar a garganta de tão arranhadas que saíam junto a sibilos indistinguíveis a qualquer ser humano... Ou foi o que os jovens pensaram. Amélia e Bartolomeu se olharam, chocados, concluindo algo completamente inesperado e que ninguém com pouca experiência, quanto mais meros cidadãos leigos, conseguiria concluir.

- Maldição, me diga que não é o que estou pensando! - Gritou a mulher enquanto atirava mais três vezes contra o homem, sem sucesso, o guarda dançando como uma cobra.

- Infelizmente é! - O homem murmurou algo e balançou sua espada contra Bartolomeu, que se esquivou com facilidade. Da forma desajeitada com que o homem brandia a espada, claramente seria difícil acertar alguém experiente. - A Palavra Morta. Ele deve estar sob a influência de alguma magia obscura. - Mais uma vez ele balançou a espada contra o homem e mais uma vez fracassou. - Por que raios ele está atacando somente a mim?

- Chamem alguém! Que inferno, por que essa demora para trazer alguém competente? - A mulher estava irritada. Com um sonoro clique, ela notou que suas balas se esgotaram. - Maldição salazarena! - Jogou a arma para o lado, ciente de que não conseguiria lutar mais à distância sem munição. De sua meia-calça ela tirou um par de adagas. A matriarca Hevixot não possuía sua fama por acaso. - Agora é tudo ou nada. Bartô, segura ele!

Antes que o homem pudesse reagir, porém, os dois notaram que o soldado possuído já não olhava para o homem corpulento a quem até então ele insistentemente atacava. Agora ele olhava para um dos arcos por onde os convidados eram evacuados, para uma jovem mulher de alta estatura e cabelos azuis como o céu. Ele agora olhava diretamente para Angélica, em seu rosto uma expressão vazia que durou apenas um instante, transformando-se então num sorriso perturbador. Ele investiu, gritando o que quer que fosse naquela linguagem gutural. Mesmo com golpes desleixados, ele conseguiu cortar através da armadura de alguns guardas e fez o sangue fluir de um par de convidados que também o separavam da garota. A garota ouviu apenas uma palavra compreensível vinda dele, Aragon, seu sobrenome. Ela fechou os olhos, como se tentasse defender-se com a escuridão que surgia apenas para ela ou como se aceitasse seu próprio destino. Entretanto, não foi isso o que aconteceu. Um tinido reverberou pelo salão anunciando que alguém bloqueou o homem louco. Angélica abriu os olhos.

Em apenas uma fração de segundo, como se guiado por um instinto que nunca possuiu, Gabriel logrou pegar a espada de um dos guardas caídos. Em um instante, ele se interpôs entre a garota e o que quer que fosse aquela criatura de velocidade e força sobre-humana. A espada do guarda rebateu contra a sua, de forma que o corte escorregou para o lado e cortou o lado esquerdo de seu rosto, logo abaixo do olho, um corte fino e limpo que não deixaria qualquer cicatriz, mas que, se feito um pouco mais perto e para o alto, lhe teria custado a visão. Naquele momento súbito, de puro instinto de sobrevivência, aquele pequeno corte era um pequeno preço a pagar para salvar a vida de sua amiga. A criatura, porém, não parecia nem um pouco cansada. Ele ergueu a espada mais uma vez e Gabriel travou. Ele não conseguiria agir novamente, não a tempo nem por vontade própria. A espada desceu.

- Impetrus! - Correntes conjuradas surgiram no ar, a prata translúcida brilhando enquanto enlaçavam o sujeito e o atraíam de volta ao centro da sala. A voz familiar anunciou a chegada de uma dupla formidável: Alther, dono da conjuração, e atrás dele, o próprio Rei Branco. O homem gritou, as palavras lacerando sua garganta. - Verbo Mortis. Sinais de magia escura e proibida. Parece-me o feitiço Encarnatum, majestade.

- Seja o que for, lide com isso sem matá-lo. - Disse o rei, olhando para os guardas e convidados feridos. - Não precisamos de mais feridos hoje.

- Como desejar, majestade. - Alther seguiu para o centro com a clara intenção de combatê-lo. O homem seguia de pé, lutando contra as correntes que brotavam do chão. Alther fez um gesto, guiando sua mão de baixo para cima com a palma voltada para si, como ao dar um tapa com as costas da mão. - Abrakia. - O som da palavra soou calmo, mas enérgico. Uma força pareceu bater contra o homem, que então se desequilibrou e caiu de costas no chão, agora completamente imobilizado pelas correntes. - Não faça disso algo difícil, Alberto. Você sempre foi um bom guarda. - Ele então segurou o rosto do homem com as duas mãos, a direita apoiando-o no queixo e a esquerda com a palma na testa. Ele recitou algo incompreensível para os presentes, em uma linguagem que tilintava como cristal e era melodiosa como o som de uma harpa. Então, mais uma palavra enérgica e calma soou pelos lábios do mago: - Hestia.

Raios de luz branca irradiaram-se do ponto onde os homens se encontravam, permeando o ambiente inteiro com seu brilho. Então, com o cessar da luz, os convidados e a dupla de jovens viram o habilidoso mago já levantado e o homem deitado no chão não mais amarrado por correntes, agora desacordado. Alther se abaixou e abriu levemente um dos olhos do guarda, constatando a esclera esbranquiçada do homem. Ele havia cortado com sucesso o feitiço que o prendia. Rei Melódias olhava para o homem com orgulho, sabendo que poderia confiar nele para tomar decisões no momento correto. Apenas cinco pessoas feridas, nenhum morto. Apesar do fiasco, todos foram bem-sucedidos em impedir uma noite mais desastrosa.

- Gabriel! - Gritou a garota, agarrando seu amigo e virando-o para si. Ela olhou o corte logo abaixo do olho dele, a culpa a consumindo. Tudo bem que eles eram conhecidos por arrumar confusão, mas isso nunca terminava com ele machucado.

- Tá tudo bem. - Falou ele, abaixando a mão da jovem. Ele sorria, feliz por ver sua amiga viva e a salvo. - Somos parceiros, não é? - Ele olhou ao redor e todos pareciam se revezar entre encarar os dois, a outra dupla e o homem no centro do salão. Gabriel reparou, entretanto, que uma pessoa parecia bastante curiosa ao olhar para ele. Rei Melódias o olhava com indignação e curiosidade. O garoto conseguiu, de alguma forma, atrair a atenção do lendário paladino Gighudan.

- Que lástima. - O rei desviou o olhar, agora levando sua atenção aos demais na sala. - Sinto por nossa celebração precisar ser encerrada em uma nota tão trágica e tão cedo. Mas, dadas as circunstâncias, não sinto que seja seguro darmos seguimento ao Ágape hoje. Portanto, convido a todos os cidadãos de Nashar a se retirarem do Templo. A Guarda de Prata garantirá a segurança de vocês até suas casas. - Ele suspirou ao notar que muitos não pareciam muito felizes com a tal segurança. - De toda forma, aqueles que desejarem seguir para a Oniração devem permanecer no Templo. Os acólitos irão guiá-los aos seus respectivos aposentos. Desejo uma noite… melhor para todos. - Ele gesticulou para Alther, abaixou-se para falar algo em seu ouvido e retirou-se acompanhado de um trio de guardas. Ninguém o impediu, o homem saberia se virar muito bem se mais um guarda ficasse possuído e todos estavam cientes disso.

Aos poucos, os cidadãos fluíram portão afora, esvaziando o salão, todos escoltados pelos guardas. O avô de Angélica veio até ela, mesmo mancando. Alther, que ainda estava nas redondezas, veio em auxílio de seu velho pai.

- Não se preocupe, eu estou bem. - Disse ele, recusando ajuda. - Angélica, você ficará para a Oniração? Como foi seu teste? Você desapareceu, fiquei muito preocupado!

Angélica ficou atônita. Não havia falado com seu avô desde que saíra do teste, nem mesmo para trocar de roupa para a celebração. Era evidente que ele havia se preocupado com ela.

- Estou bem, vovô. O teste… não foi dos melhores. - Ela olhou cabisbaixa, e o mais velho entendeu o que ela queria dizer. - Mas ficarei para o próximo. Quero ver onde isso vai dar.

- Isso é… inesperado. - O homem estava incrédulo. Angélica raramente mudava de ideia quando estava determinada a fazer algo. O que seria capaz de mudar sua mente em menos de um dia? - Bom, eu confio em você. Qualquer que seja sua decisão, sei que será a certa. - Ele sorriu. - Garoto, trate de cuidar de minha neta. Você daria um bom paladino.

- Não abuse da sorte, Bartô. - A Víbora se aproximou, sibilando palavras de raiva. A mãe de Gabriel não parecia nada feliz. À Angélica, ela dispensou apenas um olhar de desdém, claramente culpando-a pelo desfecho do teste de seu filho. - Gabriel não ficará para o teste, já puseram bobagens demais na mente dele. Vejam só, até brandiu uma espada! Chega desse teatro, vamos. Hora de irmos.

Gabriel respondeu apenas apertando a mão de sua única amiga. Ela o apoiou sempre, não a família dele. Outras pessoas confiavam em seu potencial, não a família dele. Enquanto ele vivesse para atender às expectativas deles, jamais seria feliz. Não, ele já havia tomado sua decisão. Ele a encarou, determinado como Angélica, suas pernas moles como papel.

- Não. - A senhora de cabelos dourados olhou-o de cima a baixo, como se não o reconhecesse. - Eu ficarei. Eu participarei do teste.

- Você está me desafiando? - A mulher soava ultrajada.

- Sim. Eu nunca servi como atirador, e você sabe disso. - Ele disse, dispensando qualquer tratamento de respeito e desenterrando aquele amargor que guardara por tantos anos. - Eu sempre notei o olhar de desdém de vocês por eu não atingir suas metas, não ser bom nos testes ou qualquer coisa que valha. Desta vez eu vou fazer a minha escolha. E eu escolho isto.

- Você trairia a confiança de sua família para se tornar um paladino solitário e servil? - Ela disse em escárnio, rindo como se tivesse escutado a coisa mais ridícula do mundo. - Que patético. Você é um Hevixot, uma família poderosa e orgulhosa. Você será o herdeiro, o patriarca Hevixot, e mesmo assim recusa?

- Sim. - A voz de Gabriel soou firme.

- Então vá. - Ela disse, agora seu escárnio transformado em desaprovação e nojo. - Não precisamos de um paladino inútil em nossa família, nem de um moleque indisciplinado. Não retorne pedindo nossa ajuda. - Ela se virou, dispensou um último olhar de desdém aos três Aragon e partiu. Angélica sentiu a mão do seu amigo apertar a sua ainda mais forte, mas o que a comoveu foi ver as lágrimas escorrendo pelo rosto dele, ainda encarando sua mãe determinado.

- Você está bem? - Alther se aproximou, olhando para o garoto. - Digo, claro que não está, mas…

- Está tudo bem, tio. - Disse o garoto, enxugando as lágrimas. - Eu já tomei minha decisão. Não voltarei atrás.

- Você pode contar com nossa ajuda. - Disse Bartô, sua alma de pai sensibilizada ao ver o pranto do jovem. - Estamos abertos para você, querido. Sempre.

- Valeu, tio Bartô.

- E você, Anjo? - Alther olhou para a garota cujos olhos viu pela última vez quando ela saiu correndo daquela sala esotérica onde ocorreu a Divinação. - Você está melhor? Irá ficar?

Angélica pareceu pensativa. Era verdade que ela não queria se tornar maga nem continuar os testes. Porém, aquelas visões haviam marcado sua própria alma a ferro e fogo, deixando uma marca mental que ela se via incapaz de apagar. E quanto mais ela tentava esquecer, mais aquela frase a perturbava, as palavras batendo em sua mente como o martelar de um tambor ressoando pelo ar. O Enredo deve ser mantido. Havia algo naquilo que acendia uma chama cálida em seu coração, plantando uma semente de estranha curiosidade que germinava e crescia em direção contrária aos seus instintos, impelindo-a a seguir em frente mesmo que a contragosto. Seus desejos pediam que ela parasse, mas sua mente e alma imploravam de joelhos para que ela desvendasse o que aquela frase misteriosa que ribombava dentro dela realmente significava. Havia um mistério não resolvido naquelas visões, e ela não conseguia se negar a tentar desvendá-lo.

- Sim. - Disse Angélica, levando Alther à estranheza tal como fora com Bartolomeu. - Estou intrigada com algo. Preciso… eu tenho que ficar e entender.

Alther compreendia melhor que os outros que esse “intrigada com algo” deveria estar relacionado à visão. Detalhes raramente eram ditos quando se tratava da Divinação, porém ele sabia por experiência própria que aquelas visões eram cheias de significado, muitas vezes até impossíveis de se mudar. Afinal, ele antevira a morte de sua querida irmã muitos anos antes de ela acontecer, e mesmo assim fora incapaz de impedi-la.

- Então, que seja o caminho que lhe sirva melhor, Anjo. - Ele a abraçou, ao que a jovem retribuiu.

- Bom, suponho que vocês devam ir para o interior do Templo. - Disse o avô da garota. - Vocês não comeram e, portanto, devem servir algo para vocês lá dentro, não?

- Claro. - Disse Gabriel, notando que várias pessoas iam em direção aos arcos que levavam às salas mais internas da estrutura, provavelmente por este motivo. - Acho que é melhor irmos logo, até.

- Então nos vemos amanhã? - Perguntou Bartolomeu retoricamente, já abraçando os dois jovens. Gabriel se sentiu acolhido naquele momento, acolhido como nunca fora por seus próprios pares.

- Eu ficarei aqui. Preciso garantir que tudo esteja em segurança para o teste de hoje. Pai, posso falar com o senhor por um segundo? - Falou ele para Bartolomeu, indo para mais longe dos jovens a fim de não serem ouvidos.

- Ei. - Falou Angélica quando os dois já estavam mais afastados. Uma sensação estranha encheu seu peito. De alguma forma, ela pôde sentir que o caminho que havia escolhido a levaria ao perigo tal qual alguém andando em direção à beira de um desfiladeiro. E o pior de tudo, ela pretendia pular. - Você vai mesmo ficar comigo? Não importa o que aconteça?

- Claro. - Falou seu fiel protetor e escudeiro. - Juntos, não importa o que aconteça.

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