Silêncio! Eles Estão Observando! O Lorde dos Signos - Livro 1 · Capítulo 11 de 14
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Silêncio! Eles Estão Observando!

A chuva ecoava ao bater no teto de palha da casa. Depois do encontro inesperado, não demorou muito até que a chuva voltasse, obrigando-os a buscar abrigo em uma das muitas casas da cidade estranha. Enquanto os amigos sentavam-se no chão, despindo-se de seus mantos de viagem, o estranho de roupa escura e pele pálida buscava qualquer madeira à vista para acender a lareira da casa abandonada. A chuva não parecia que daria trégua tão cedo.

— Por que você está fazendo isso? — Gabriel olhava com olhos estreitos para o estranho, buscando qualquer sinal de ameaça que justificasse sua prontidão. O sonho parecia tê-lo presenteado com uma coragem incomum, que certamente não manteria quando acordasse, e junto a isso, ele apresentava-se agora muito cauteloso e desconfiado. E ele estava especialmente desconfiado com aquele rapaz. — Não é como se precisássemos nos preocupar com isso em um…

— Quanta estupidez. — O rapaz falou sem sequer olhar para Gabriel, o que o deixava mais ouriçado. — Vocês claramente não sabem o que estão fazendo aqui.

— E você sabe? — Questionou o paladino.

— Sim. Diferente de vocês, recebi treinamento. E, diferente de vocês, sei que sonhos despertos costumam ser bastante perigosos. — Ele balançou a cabeça. — Não sabia que a Trindade era tão… Ah, que seja. Não deveria estar me preocupando com isso. Mas saibam que vocês podem de fato morrer se ficarem hipotérmicos aqui.

Um calafrio percorreu a espinha de Angélica. Sonhos despertos? Morrer? O que ele estava falando? E mais importante, se fosse verdade, como a Trindade permitiria alguém fazer isso.

— Se vocês fossem espertos… — Continuou o rapaz pálido. — …saberiam que não se deve andar em Ariandhelle sem saber o mínimo necessário para se cuidar. Eu levei cinco anos antes de poder fazer isso sozinho.

— E quem é você, exatamente? — Gabriel estava verdadeiramente irritado, a carranca destacada em seu rosto.

— Sim, quem exatamente é você? — Repetiu Angélica, mas em tom conciliador. Se uma briga começasse ali, ela talvez não fosse capaz de parar os dois, qualquer que seja a habilidade do terceiro. — Digo, não entenda errado, mas você apareceu do nada e…

— Eu não sou tolo. Eu sei que eles estão observando! — Eles? Ele se referia aos examinadores acólitos? — Não confio em vocês, especialmente considerando que são aliados da Trindade.

— E o que a Trindade te fez? — Questionou Gabriel.

O garoto se virou bruscamente, rosnando, a raiva estampada em seu semblante, os olhos embebidos em fúria. Claramente Gabriel fizera a pergunta errada.

— Como se vocês não soubessem o que fizeram contra meu povo! — Ele elevou a voz, exaltando-se. — Vocês não podem ser assim tão estúpidos!

Aparentemente eles eram.

— Amiga, desculpe. — Gabriel olhou sério para Angélica. — Eu não confio nele, então… se ele não irá revelar a identidade dele, não vejo por que devemos ficar aqui. Ele deve ser-

— Nada que eu não esperasse. — O rapaz de preto se virou novamente, tentando aumentar o fogo da lareira. — Nós não nos conhecemos de toda forma. Não ainda.

— Ainda? — A fala chamou a atenção de Angélica de imediato, tomando a atenção da garota. — O que quer dizer com isso?

— Você não vê? Esse cara só quer fazer mistério e suspense. Ele deve saber tanto quanto qualquer um de nós de toda forma. — Gabriel irrompe de impaciência, levantando-se. — Isso é uma completa perda de tempo! Vamos logo sair daqui.

— Não é da minha conta de toda forma. — Ele disse. — Mas vocês morrerão na tempestade se saírem agora. Mesmo que isso seja outra armadilha da Trindade para localizar meu povo, não posso ser irresponsável por dois ignorantes que não fazem a menor ideia de com o que estão lidando.

— Ora, seu…! — Gabriel fez menção de avançar no rapaz, mas Angélica interveio rapidamente, impedindo-o.

— Desse jeito não vamos chegar a lugar algum. — Disse ela, olhando para Gabriel e depois para o estranho. Ela então estendeu a mão, cumprimentando-o. — Angélica Aragon. Somos… aprendizes. Apenas aprendizes. — Ela mentiu.

— Ang… por que diabos você fez isso? — Gabriel parecia incrédulo.

— Devo concordar com o loirinho. Isso foi muito estúpido. — O estranho olhou profundamente para a maga. — Você não faz ideia de se há alguém olhando do meu lado.

— Como sabe que não sei?

O rapaz de preto analisou Angélica da cabeça aos pés, como se a visse pela primeira vez. Ele então riu baixinho, aceitou o cumprimento e sentou-se. Angélica repetiu o gesto. Aparentemente ela conseguiu ter êxito em desacelerar a situação. Ela sentia que Gabriel permanecia tenso, mas ele próprio sentou-se depois de um tempo.

— Bom, entendo suas motivações, mas permanecerei sem me apresentar. — Angélica estranhou a fala do rapaz pálido. — Mas, se for ajudar vocês, vou compartilhar um pouco do que sei. Talvez vocês consigam sobreviver mais tempo caso nos separemos adiante.

— Justo. — Disse Angélica. — Não gostaria que você ficasse em perigo também. Nenhum de nós. Certo, G…

— Não irei me apresentar. — Disse Gabriel.

— Esperado. — Concluiu o estranho. — De toda forma, se vocês sabem tão pouco, como é que chegaram até Ariandhelle? Não me entenda errado, mas é necessário muito treino para acessar o mundo dos sonhos.

— Na verdade, até pouco tempo eu acreditava que isso era apenas um sonho. — Ela olhou para a figura misteriosa. — Na verdade, nós não entramos aqui por conta própria.

— Angélica, não! — Vociferou Gabriel. — Nós não conhecemos ele, não dê informações demais a…

— Nós viemos parar aqui durante um Léxicus. — Gabriel olhou para a garota, em choque ao ser completamente ignorado. — Desculpa mas, se não dialogarmos, nós não chegaremos a lugar algum.

— Angel… Mas nós…

— Isso explica um bocado. — Falou o outro rapaz, pensativo. — Significa que vocês sequer aprenderam como caminhar nos sonhos.

— Então você sabe o que é um Léxicus!? — Espantou-se Gabriel.

— Claro, também moro nas Terras da Trindade. Não sou estúpido. — O rapaz de cabelos noturnos suspirou profundamente e ajeitou os cabelos, fazendo sua franja pender para a esquerda.

— Mas então, o que é tudo isso? Você fala de andar em sonhos, sonhos despertos e Arien-delo, mas tudo isso não significa nada para nós.

— Evidente. — Disse ele. — Ariandhelle, ou Mundo dos Sonhos, é uma terra onírica onde espíritos podem vagar livremente, embora ainda atados aos seus respectivos corpos. É o local para onde vamos quando dormimos, mas normalmente vislumbramos apenas uma fração do que é este mundo de verdade. Normalmente, Ariandhelle é um mero reflexo de nossas memórias e desejos, desordenados e distorcidos, um local que chamamos normalmente de Plano Onírico, um local inofensivo. - Ele desenha no chão com o dedo, quase como se queimasse a madeira do chão. — Onde estamos agora é uma camada mais profunda deste mundo, o Plano Desperto. Uma pessoa que sabe como manipular o Plano Desperto é capaz de fazer qualquer coisa, como desenhar com os dedos como se fossem um pedaço de carvão. — Ele então desenha uma pessoa de palito, aparentemente uma mulher de cabelo amarrado. Angélica esboça um sorriso com o desenho quase infantil vindo de um rapaz tão… eloquente. — Aqui você tem sonhos mais vívidos, mais tangíveis, e o mundo é normalmente mais coeso. Este lugar, por exemplo, parece muito com o mundo real. — Ele desenha outra figura humana de palitos, desta vez aparentando ser um homem. — Não é incomum que pessoas compartilhem o mesmo sonho no Plano Desperto, embora seja raro. Normalmente, sonhos compartilhados indicam que essas pessoas ou possuem ou irão possuir uma conexão profunda entre si.

— Espera, irão possuir?

— Sim. Passado e futuro não importam aqui. Em um mundo espiritual, o tempo não existe como nós o conhecemos. — Ele adiciona uma terceira figura de palitos, desta vez com uma franja escura. De relance, Angélica viu Gabriel de boca aberta e verdadeiramente intrigado. — Mesmo que essas pessoas não se conheçam, elas virão a se conhecer de alguma forma. É algo meio paradoxal, mas é assim que funciona. — Ele olha para a garota. — Não sei em que circunstâncias nos encontraremos, se seremos amigos ou inimigos, mas com certeza temos algum tipo de conexão, uma intenção em comum, um propósito.

Isso veio para a garota como um forte baque. A cada minuto que passava naquele sonho, mais ela parecia confusa e consternada com toda a situação. Aquilo tudo era simplesmente louco demais para ser real.

— De todo modo, Ariandhelle é moldado pela intenção de quem o sonha. Isso que torna possível nos conectarmos, pois a intenção é a mesma. Então a nossa intenção tripla molda o mundo onírico a nossa volta, se é que somos apenas três.

— Então… você se refere à presença que estou sentindo no oeste? — Gabriel se intrometeu na conversa, sua curiosidade falando mais alto que seu senso de proteção.

— Impressionante que tenha percebido. Nem todos podem sentir uma presença tão sutil. Sim, ela mesma. O que quer que esteja naquela direção, não só parece ser uma outra pessoa como aparenta ter uma intenção maligna.

— Você está buscando essa presença? — Questionou o garoto.

— De certa forma, sim.

— Então essa deve ser nossa intenção em comum. Estamos buscando por essa coisa desde que chegamos e…

— Não é bem assim, eu disse “de certa forma”. — O rapaz de cabelos escuros interrompeu. — Estou em busca de uma amiga. Creio que aquilo tenha algo a ver com o seu desaparecimento.

— Espera, o quê? — Angélica olhou com confusão nítida nos olhos. — Volta tudo, amiga? Desaparecida? Você não mencionou nada disso antes.

— Bom… já que estamos nos abrindo um ao outro, não vejo por que não contar. Não é como se vocês fossem saber algo de toda forma. — Ele olhou para Gabriel com uma sombra de dúvida pairando em seu semblante, e em seguida para Angélica. — Costumo me encontrar com uma amiga muito querida em Ariadhelle, mas faz alguns meses que ela não aparece. Primeiramente, achei que fosse um problema, mas depois fiquei muito preocupado. Coincidentemente, uma de minhas caminhadas me levou aos sonhos de seus pais, onde eles falavam que ela estava desaparecida. Ela… - Ele cerra os punhos. — Ela é uma amiga muito preciosa. Minha única amiga desde que estou vivo. Venho procurando por ela há muitas semanas, mas não consigo encontrá-la. Meus últimos sonhos me revelaram que ela poderia estar aqui, em Brishar, por isso vim para cá hoje. — Ele olha para Gabriel. — Eu realmente não esperava ver estranhos andando nos sonhos por essas bandas. Não há muitos andarilhos por esta região. Sinto muito se assustei vocês.

Gabriel olhou para o rapaz, com olhos de dúvida, decidindo se confiaria nele ou não. Angélica, por outro lado, já havia tomado sua decisão sobre o rapaz de preto: ele definitivamente não era um inimigo. Para ela, sua sinceridade já era prova suficiente de suas intenções.

— De toda forma, não sinto a presença dela por aqui. Minha intenção em procurá-la me trouxe até vocês, o que me indica que minha intenção é muito clara. Então vocês podem ter algo a ver com ela, mesmo que seja no futuro. — Ele olhou para a lareira atrás de si. — Se ela não está aparecendo, pode ser que ela esteja impossibilitada de se conectar à Ariandhelle, o que explicaria ela não ter me procurado.

— Como alguém pode impedir alguém de entrar neste mundo? — Perguntou Angélica.

— Com muito esforço e habilidade. — Respondeu o rapaz. — Além do que, é uma tortura fazer isso. Não entrar em Ariandhelle significa que você não terá sono profundo, o que significa que ela não dorme bem há meses. Isso também indica que o responsável é um mago muito habilidoso. Não apenas por conseguir impedi-la de vir para cá, digo. Ela também é uma maga muito habilidosa.

— Então deixa eu ver se eu entendi. — Disse Gabriel subitamente. — Você está atrás de sua amiga. De alguma forma estamos conectados a você e a sua intenção de encontrá-la, o que indica que ela também está relacionada conosco.

— Bom… essa é uma simplificação bem complicada de fazer, mas vamos dizer que sim. — Respondeu o rapaz.

— Então isso significa que de alguma forma estamos envolvidos no trabalho de encontrá-la?

— Não necessariamente, mas…

— Então está decidido. — Gabriel se levanta bruscamente. — Para mim, acho que está claro que temos que te ajudar a encontrar a sua amiga, mesmo que isso não faça sentido algum. — Gabriel olha para Angélica, sério. Sua expressão desconfiada mudou completamente e de forma muito súbita, quase como se outro Gabriel estivesse ali diante deles.

— Bom… — Angélica olhou para o rapaz de preto, confusa.

— Não é incomum. — Respondeu ele, como se lesse sua mente. — Demorei anos para controlar minhas emoções em Ariandhelle. — Ele olha para ela, mais curioso do que desconfiado. — Vocês então irão me ajudar?

— Acho que sim? — Disse ela, olhando para Gabriel. O rapaz assentiu. — Se de alguma forma estamos conectados, não há por que não o fazer. Além do mais, é uma boa oportunidade para testar nossas habilidades, imagino. Certo?

Gabriel olha para suas mãos, novamente imerso em confusão. Será que o que ele estava fazendo era certo? Mesmo que a história do rapaz fosse comovente, ainda assim havia riscos. E se o rapaz se revelasse ser maligno? E se ele na verdade fosse aliado da força no oeste? E se… Ele respirou fundo, e em meio a desconfiança e senso de dever, ele estendeu a mão.

— Gabriel. — Ele sorriu para o estranho. — Vamos encontrar sua amiga.

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