Um Sonho
Os ventos gélidos sopravam o calor do verão para o leste, anunciando que o outono logo viria para Porto Nashar. As folhas das árvores começavam lentamente a secar, indicando que em breve cada uma delas estaria no chão. Neste clima, a pequena cidade portuária se preparava para mais um inverno rigoroso, típico do extremo-sul de Brishar, e os pescadores apressavam-se para conseguir mais peixe, tanto para as vendas como para provisões que deveriam durar estes quatro meses que viriam nesta próxima quadra sazonal. A vila se agitava para produzir calor, este outono prometia um inverno mais rigoroso do que o anterior.
Porto Nashar era uma simples cidade portuária, embora extremamente privilegiada no comércio devido à sua proximidade com as ilhas do sul e das Terras Gélidas. Era orgulhosamente a cidade mais ao sul de Brishar e, embora modesta, era também uma das mais importantes. Povoada por não mais que duas mil pessoas, a maior parte de sua população era composta por pescadores e mercadores, embora a cidade também fosse o lar de caçadores e, é claro, de magos. Afinal, não havia um lugar no mundo onde os detentores do saber não estivessem a conjurar suas chamas cintilantes e a acender seus incensos de aromas únicos. Em verdade, era em Nashar que estava o terceiro maior templo do país e até mesmo possuía um dos famosos Portões dos Sábios. Apenas por chegar próximo ao templo, no centro da pequena cidade, poderia se sentir o perfume inundando o ambiente por completo, e qualquer um que se aproximasse do Portão se sentiria como uma pequena formiga diante de seus doze metros de altura.
A maioria das pessoas vivia em casas que misturavam alvenaria e marcenaria, pintadas com tintas feitas com calcário branco e adornadas com telhas alaranjadas de barro ou, em casas menos prósperas, um simples telhado de palha. Entretanto, em uma das poucas colinas da cidade, podendo até mesmo ser considerada como afastada dos demais, estava uma simples casa plana de madeira, de paredes feitas de placas de uma madeira clara levemente alaranjada e de piso de uma madeira alva como papel. As janelas de vidro, caprichosamente limpas pelas mãos de Bartolomeu Aragon, por fora possuíam junto a si vasos de flores vermelhas e laranjas, enquanto no interior eram adornadas com belas cortinas azuis. Embora simples em seu exterior, sua decoração interior não era nada modesta e refletia os anos que ele passara na capital junto a seu pai. Fazia mais de cinquenta anos que não ia até Gaia para passeio, apenas uma vez ou outra de passagem para vender alguma coisa durante festivais. O homem, outrora soldado da famosa Guarda de Prata, agora vivia tranquilamente naquele povoado como um simples padeiro. O homem, de cabelos castanhos levemente marcados de branco pelo tempo, de olhos escuros e barba curta, embora ainda estivesse muito novo com seus setenta e oito anos, pouco tempo para a longevidade de Sião que facilmente chegava a trezentos anos de vida, havia decidido que viveria com tranquilidade longe das confusões dos reinos.
E com ele, em um dos três cômodos da casa, ainda presa em seu mundo onírico de fantasia que eram seus sonhos, estava sua preciosa neta. Angélica era uma jovem de meros vinte anos, de longos cabelos azuis e olhos brilhantes como uma safira contrastando com a pele branca levemente amarelada. A genética zúlea de sua mãe suplantara qualquer característica de sua família paterna, o que lhe conferia aspectos que pouco se encontrariam tão ao sul, como a cor do cabelo e dos olhos e sua altura excepcional em comparação com outras jovens de sua idade. O frio parecia incomodá-la naquela manhã tanto quanto em qualquer outra manhã como aquela, o que significava que estava confortável até demais sob suas cobertas. Não fosse pela batida incessante em sua janela, ela provavelmente não acordaria tão cedo.
- Angélica! - A voz soava abafada por trás do vidro, enquanto o jovem loiro de rosto infantil batia na madeira na vã tentativa de acordá-la. - Ow, acorda, Dona Preguiça! A gente vai se atrasar! - Falou ele, batendo na madeira vigorosamente.
Aos poucos, os olhos da garota foram se abrindo e logo se encontraram com os olhos de topázio reluzente de Gabriel. O jovem estava radiante como o sol naquela manhã, a empolgação exalando como raios de luz por sua pele clara. Amigos desde criança, ele era com certeza o melhor amigo de Angélica e seu fiel companheiro e conselheiro. A garota, entretanto, ainda encontrava-se embriagada com o sono e não se lembrou de todo aquele alvoroço do rapaz, limitando-se a encará-lo com um olhar de pura confusão.
- Ah, céus, você esqueceu mesmo! - Gritou ele, levando as mãos à cabeça, o desespero visível. - O Lexicus, iluminada! A gente vai se atrasar!
- Quê? - Ela levantou de um salto ao ouvir a palavra, a incredulidade estampada em seu rosto. Não era possível que houvesse aguardado o ano todo para se atrasar justo naquele dia! - Que horas são?
- Quase dez da manhã, Angélica! - Falou ele, os olhos quase saltando de suas órbitas. - Se arruma logo e engole alguma coisa! O Portão já vai abrir!
Ela disparou para o banheiro, cronometrando cada segundo para que não demorasse demais. Claramente não daria tempo de lavar o cabelo àquela altura. Tomou o melhor banho que pôde sem molhá-los, certificando-se de lavar bem o rosto e atrás das orelhas. Quando saiu, vestiu-se com a melhor roupa que possuía, uma calça de lã bege, uma camiseta azul, um colete preto, um casaco azul simples, luvas e botas. Dificilmente uma mulher usaria roupas assim nas redondezas, mas eram bem mais confortáveis. Pegou sua velha bolsa de couro com textos, caderno e grafite dentro e correu para ir tomar café. A pressa da menina assustou seu avô, que já cozinhava alguma coisa - provavelmente ovos frescos.
- Mas que pressa toda é essa, Anjo? - Falou o homem, assustado.
- Estou atrasada, vovô! - Falou ela, com cara de espanto. - O Lexicus, ele…
- Ele ainda vai demorar umas duas horas para começar! - Falou ele, visivelmente confuso. - O que deu em você, querida?
- Mas… não são…? - De repente, ela pôde ouvir um risinho abafado atrás dela, um risinho que só poderia vir de um ser neste mundo. Ela olhou de relance para trás para observar um Gabriel se contorcendo no sofá da sala, segurando-se para não cair na risada. A expressão da jovem assumiu uma carranca furiosa. - Vovô, que horas são?
- São… oito da manhã? - Falou o homem, olhando no relógio de parede da cozinha. As maçãs do rosto de Angélica assumiram um tom vermelho como o de um tomate, bem como a ponta de suas orelhas. Ela claramente havia caído em mais uma pegadinha do seu amigo.
- Seu cretino! - Vociferou ela, punhos fechados, dessa vez se virando para olhar para ele. Ele, por sua vez, não pôde se conter por mais tempo e abriu uma sincera gargalhada. - Eu poderia ter lavado meu cabelo, seu animal! - Elevou ainda mais a voz, arremessando a bolsa de couro na cara do menino.
- Um… - Ele tentou falar, tentando conter a risada. - …Uma planta certamente não sou. E do que você está falando? - Falou, ainda rindo, limpando as lágrimas que fugiram com o riso. - Não é como se os sábios fossem cheirar seu cabelo, sabe?
Ela tentou pensar em alguma forma de argumentar contra aquilo, mas as palavras escorregaram por sua mente enfurecida. O rapaz ainda ria, e ria ainda mais com a dificuldade da garota para respondê-lo. Agora era a vez dela de pensar em alguma forma de retribuir aquela palhaçada.
- Vamos, Anjo! - Disse Bartholomeu, chamando a atenção dos dois. Pães já estavam a mesa, bem como ovos fritos, manteiga fresca e um aromático bolo de limão. - Você vai precisar deles para os testes. Vão durar o dia inteiro!
Por fim, aceitando sua derrota, colocou sua bolsa de lado e sentou-se, recebendo de seu avô um afago na cabeça e um alegre sorriso de “bom dia”. Gabriel também sentou-se, que não surpreendentemente estava ansioso pela refeição. Era de se esperar que ele tivesse deixado para comer lá, embora em sua casa com certeza o café da manhã fosse bem mais requintado e bem servido. O jovem, entretanto, parecia gostar mais dos bolos do seu avô. Era de se espantar que ainda estivesse magro - como sempre fora - depois de comer tantos!
Aquele era um dia especial para ambos. Hoje, às dez da manhã, o Portão dos Sábios se abriria pela primeira vez em vinte anos e, por ele, uma comitiva do Rei de Gaia e de vários sábios de Teranova chegaria ao Templo. Este evento, raro por si só, aconteceria este ano por um motivo ainda mais especial. Durante o próximo mês, seriam escolhidos dentre os cidadãos de Nashar aqueles que desejavam servir a Teranova em uma das muitas funções que seriam pautadas para este ano através de uma série de testes. Este momento era o Lexicus, e muitos estavam aguardando aquele dia havia anos, mesmo sem saber quando ele aconteceria novamente.
Angélica e Gabriel estavam entre as pessoas que aguardavam aquele momento. Servir a Trindade era algo de imenso respeito, e apenas os melhores poderiam ser escolhidos. Este ano seriam selecionados soldados, atiradores, paladinos, artífices, ferreiros e, é claro, aprendizes de mago, sendo o último o cargo mais cobiçado. Gabriel, vindo de uma extensa família de atiradores e que passara a vida inteira treinando como um, certamente buscaria seguir no ramo. Angélica, por sua vez, perseguia a esperança de se tornar um paladino, assim como seu bisavô havia sido. Quem sabe até mesmo se tornar uma gloriosa Gighudan no futuro, uma das maiores honrarias que um paladino poderia receber. Entretanto, ser aprovado em um Lexicus não era fácil, e os testes que ela faria hoje definiriam seu futuro. Mas, antes de tudo, eles iriam assistir à comitiva do Rei chegando com toda a sua pompa, com suas armaduras prateadas reluzindo ao sol enquanto o Rei declarava o início do grande evento. Todos do porto, independentemente de desejarem ingressar no Lexicus ou não, iriam ver a abertura do Portão, uma visão que muitos definiam como extraordinária, e ouvir as palavras do regente. Rei Melódias I era um rei imensamente popular. Multidões se reuniam por onde quer que ele passasse. Responsável por muitas reformas que beneficiaram pequenos povoados e vilas, assim como pelas iniciativas de comércio internacional e de desenvolvimento tecnológico do país, o homem era visto quase como um santo. Não à toa, ele era o primeiro Rei Branco desde a Era de Ouro da Trindade, milhares de anos atrás. Então, era claro que todos iriam presenciar sua chegada, e era esperado que a Praça Central, logo em frente ao Templo, estivesse tão lotada que mal daria para respirar.
- Tio Bartô… - Começou o rapaz, enquanto colocava mais uma garfada de bolo na boca. - …Compho exaphamenfe é um lechicush? - Quanta classe. Dava para ver por que ele ainda estava solteiro.
- Seria melhor se você engolisse primeiro, jovem! - Riu o mais velho. - Hoje não deve haver grandes testes, embora deva ser o teste mais importante, o da Divinação.
- Ah, é? - Gabriel soou interessado. - E como é esse teste?
- Bom… Por que estragar a surpresa? - Ele riu. - Mas esse teste definirá quem vocês irão se tornar. Normalmente seu desejo é levado em consideração, então se você mentalizar bem o que você deseja, de certo, é o que irá se tornar. Raramente alguém é reprovado neste teste.
- O tio virá com o Rei? - Perguntou Angélica. - Digo, ele ainda é o conselheiro do Rei, certo?
- Sim, claro! Ele virá com o Rei. Alther deve estar animado para te ver, Angélica. - Um frio correu a espinha da garota. Seu tio sempre quis que ela se tornasse maga e era bastante insistente com isso. Fora que ele era muito… grudento. - Embora eu tema que ele só poderá conversar com você durante a ceia.
- Mal posso esperar… - Disse ela, com um sorriso apático.
O restante do café foi bastante silencioso, embora a animação fosse quase palpável. Quando terminaram, nem mesmo o avô desejou ir lavar a louça, dada a empolgação, largando todos os pratos e talheres na pia para se preocuparem com isso em outra hora. Então arrumaram suas coisas e partiram para a cidade, que já se mostrava abarrotada de pessoas se dirigindo ao seu centro. Aparentemente, cidadãos de cidades vizinhas como Belemar e Entremonte haviam chegado também para apreciar o cortejo real, carregando o calor humano pelas ruas e vielas da cidade junto com o som cacofônico das conversas que retumbavam nos tímpanos do trio e que aumentavam cada vez mais conforme se aproximavam do Templo. Mesmo assim, as lâminas gélidas de vento resvalavam na pele de Angélica, resistindo ao calor emanado da multidão. O inverno estava vindo mais frio que no ano passado e vinha aos galopes.
Por fim, chegaram à praça central. O Portão dos Sábios era imponente, erguendo uma sombra sobre todos os que estavam ali ao oeste. Glifos mágicos monumentais estavam inscritos na pedra negra monolítica, formando veios púrpuros que iluminavam-nos. Embora pouco visível, era possível notar vez ou outra um grupo de homens reunidos em volta da estrutura. Eles aparentemente entoavam cânticos de proteção em volta da estrutura, para proteger a comitiva. Embora popular, havia aqueles que não gostavam do Rei, então um pouco de segurança não era demais. Pelo despontar do sol, não faltava muito tempo para sua chegada.
- Atenção, cidadãos! - Entoou um dos homens que estavam na formação, saindo do círculo de proteção para falar com as pessoas que estavam aguardando a chegada do Rei. - Por favor, atentem-se à linha de ladrilhos amarelos em volta do Portão. Retornem para antes desta linha imediatamente, pois iremos iniciar a abertura do Portão.
Logo, tal como uma onda se forma ao cair de uma pedra em um lago calmo, as pessoas se movimentaram para trás da linha ladrilhada, movendo-se rapidamente, mas de forma bastante organizada. Quando todos estavam para além da linha amarela, os preparativos começaram. Os homens no círculo, agora em silêncio, uniram as palmas de suas mãos na altura do coração, como alguém o faz para fazer preces, e o homem que havia se destacado anteriormente entrou mais uma vez no círculo, indo em direção ao enorme monólito de pedra adornado. Ele se aproximou até estar muito próximo da estrutura e, assim como os outros, uniu suas mãos na altura do coração para logo destacar a mão esquerda para o lado, estendendo-a então em direção ao monólito com os dedos indicador e mediano apontados para a pedra. Ele por um momento pareceu descrever um círculo em sentido anti-horário com os dedos e passou a desenhar no ar formatos indistinguíveis que apenas um mago poderia compreender. Então, uniu novamente a mão esquerda à sua mão direita, que por sua vez foi destacada para revelar um pedaço de papel negro em sua mão, com inscritos dourados indistinguíveis àquela distância. Ele pareceu descrever círculos em espiral subindo e descendo com o papel, enquanto murmurava algo desconhecido aos presentes. Então, tomou o papel na palma de sua mão e grudou-o à pedra, afastando-se lentamente. Quando estava à mesma distância que os outros homens, o mundo, que antes respirava freneticamente seus ventos gélidos, pareceu segurar a respiração. E então, um vendaval fluiu em direção à estrutura gigante. O interior do Portão pareceu ceder e se compactar para dentro de si, deixando apenas um arco de pedra negra com veios brilhantes irradiando uma luz púrpura que, estranhamente, parecia absorver qualquer luz que houvesse ao seu redor, formando uma aura sombria muito estranha. Dentro do arco negro, por sua vez, o que antes era pedra se transformara em algum tipo de matéria obscura que ondulava como água turva. Aos poucos, uma imagem borrada e escurecida começou a se formar na superfície tremulante: uma cidade pálida com muitas pessoas em volta do que parecia uma caravana prateada, todos montados em cavalos brancos com exceção de três homens que vinham à frente e uma comitiva que seguia por trás. Um destes, o que estava no centro, parecia estar mais à frente e se aproximava cada vez mais do outro lado do espelho trêmulo, quase como se ele fosse submergir nas águas de um lago. E então, atravessou.
O homem de meia-idade, não mais que 90 anos, cujos cabelos brancos indicavam sabedoria, e de barba muito bem feita, de pele rosada e olhos de safira, vestindo um traje branco e azul com bordados de flores prateadas que brilhavam ao toque dos raios do sol, surgiu diante de todos. Sobre suas vestes, um manto de um azul profundo cobria seus ombros. Em sua cintura, uma faixa prateada segurava uma espada longa de bainha prateada e guarda-mão dourado no qual ele apoiava sua mão esquerda. O homem parecia emanar uma aura brilhante à sua volta e olhar para ele parecia transformar tudo em sua volta, deixando tudo mais sereno. Era como olhar para uma ilusão. Mesmo que seus jeitos indicassem a realeza, sua presença indicava não poder, mas sabedoria, uma sabedoria profunda e inigualável. Não por acaso, Rei Melódias fora coroado o primeiro Rei Branco após milhares de anos sem ninguém usar tal título.
Junto a ele, logo em seguida, surgiram dois homens. O primeiro era um homem esguio, de cabelos brancos que caíam até seus ombros, de pele clara como a lua e olhos dourados reluzentes. Seu semblante era sério e frio, ornando perfeitamente com seu traje escuro em tons de azul e ébano que remetiam a um frio gélido de uma noite das terras para lá das proibições do sul, trajes estes cobertos pelo manto clássicos dos sábios da Trindade, um grande sobretudo de algodão - que no caso dele era preto como a noite e bordado com padrões em azul e prata. Pela sua aparência, parecia que o homem era um noturno, vindo das Terras da Noite. Uma aura pesada parecia cercar aquele homem, provavelmente um passado muito sombrio, uma história há muito esquecida. Quando olhou a sua volta, seu semblante azedou como a cara de um nobre ao ver estrume. A figura era desconhecida para a garota, embora boa parte da multidão o conhecesse como o Mago da Corte, Senhor Marezar.
O outro, por sua vez, estava decididamente animado. O homem alto e musculoso, de aparência jovial, vestia um uniforme real indicativo do seu cargo. O colete dourado contrastava com a camisa vermelha de fundo, e de suas calças brancas pendiam correntes de ouro afiveladas ao cinto. Brincos dourados pendiam de suas orelhas, um par deles adornado com pedras negras brilhantes. Os cabelos vermelhos trançados e o rosto de barba mal feita eram uma expressão de sua animação ardente. Os olhos risonhos olhavam a cidade com saudade, afinal, o conselheiro do Rei crescera naquele mesmo lugar. Seu tio Alther parecia ainda mais radiante do que lembrava.
Junto a eles, acompanhando-os em marcha, uma comitiva de guardas de armadura prateada surgiu resplandecente e altiva, brilhando como uma grande constelação montada nos cavalos brancos. A energia vívida que eles emanavam tomava todo o lugar, e todos encaravam espantados e boquiabertos, como se vissem algo vindo de um sonho. E para a maioria que olhava a procissão que chegava pelo Portão, aquilo era um sonho. Um sonho se tornando realidade. Os olhos de Angélica e Gabriel brilhavam como os olhos de uma criança em um parque de diversões.
- Cidadãos de Porto Nashar! - Reverberou a voz do homem que abrira o Portão mais cedo, enquanto a própria estrutura retomava sua forma original. Os ventos acalmaram-se, e todos podiam ouvi-lo claramente. - Recebam Vossa Majestade, Rei Melódias do Reino de Gaia, de Gelofino e das Atalaias, primeiro de seu nome, Sábio Arcano das Terras do Olho do Mundo, Paladino da Ordem dos Gighudan, Vencedor nas Batalhas e Conquistador das Três Torres, seguido de Senhor Alther Aragon, Mestre Senhor do Conselho Real, Protetor dos Segredos e Vigilante de Castelo Branco, e de Senhor Marezar, Mestre Senhor da Biblioteca do Saber, Protetor dos Selos e das Fortificações de Castelo Branco, Sábio Secreto das Terras do Olho do Mundo e excelentíssimo Mago da Corte Branca, além da honrável Guarda de Prata do Castelo de Luz e arredores, e da alegre assembleia de Sábios vindos desde às Terras do Olho do Mundo, a Cidade do Saber, Teranova. Sede bem-vindo às vossas terras, Vossa Majestade e seu glorioso séquito!
Antes que o porta-voz pudesse sair em sua profunda reverência, a multidão explodiu em aplausos e cantos proclamando as grandiosidades do Rei e de sua assembleia. A grandiosidade daquele evento seria lembrada por muitos durante muitos anos, aqueles gritos e aplausos ecoariam pela história por muito tempo. A alegre comitiva radiava, o sorriso de Vossa Majestade irradiando serenidade.
Infelizmente, aquela calmaria não duraria muito tempo.