A Vocação de Cada Um
- Cidadãos de Porto Nashar! - A voz do monarca reverberou, com um aceno com sua mão direita, trazendo o público ao silêncio em pouco tempo. Logo todos estavam calmos novamente. O homem olhou para a população, abaixou sua mão e abriu um alegre sorriso. - É uma imensa alegria poder retornar para esta bela cidade mais uma vez. Um lugar simples, porém muito nobre e extremamente valioso. Graças a vós, nosso Reino mantém conexões maravilhosas com as Terras Gélidas, bem como várias ilhas próximas à Proibição. Estivemos preparando diversos projetos para melhorar a qualidade de vida das terras do extremo-sul de Brishar, as cidades de Entremonte, Belemar, Miridia e, claro, Porto Nashar.
O homem foi mais uma vez ovacionado pela população. Angélica e Gabriel, ali no meio da multidão, encontravam-se animados como os outros, porém aguardando ansiosamente pelo anúncio do início do evento principal.
- Sim, esta cidade ainda virá a melhorar muito durante este reinado, eu prometo. E, como parte destes esforços… - Angélica e Gabriel seguraram a respiração, em antecipação à próxima frase do rei. - …começamos hoje, com o aval da Capital do Saber, Teranova, e da Sábia Trindade aqui representada por seus enviados, o 149º Lexicus do Reino de Gaia.
Os jovens somaram suas vozes aos demais em mais uma comemoração alegre da população, com gritos, pulos e tudo o que havia direito. O homem irradiava luz com seu sorriso alegre ao ver a reação da população.
- Sim, sim, é motivo para imensa festa! - Disse ele, gesticulando para a população reduzir o volume das ovações. A esta altura, o próprio rei parecia constrangido com tantas pessoas lhe rasgando elogios. - Como muitos já sabem, hoje serão realizados os testes preliminares para a participação do Lexicus, que durará o restante do mês inteiro. Temos ao todo três semanas até o fim desta quadra, e no 28º dia deste mês, o último dia desta quadra, teremos conosco magníficos aprendizes que iniciarão seus trabalhos junto à Trindade, que nos acompanharão para Gaia a fim de concluir seu treinamento. - Ele fez uma pausa e apontou para o homem de cabelos brancos ao seu lado. - Este ano, nosso estimado Mago da Corte, Senhor Marezar Azion, irá conduzir os testes. Ele seguirá o discurso de introdução, mas antes de mais nada, gostaria de falar mais duas coisinhas que se fazem necessárias nesta celebração. Primeiramente… - Ele andou um pouco mais para perto, quase saindo do círculo de proteção cuidadosamente preparado pelos magos do templo. - …este é um evento muito especial. Hoje, nessa mesma data, encerramos uma das guerras mais catastróficas do mundo sábio, a Guerra do Necromante, que deixou milhares de mortos por todo o mundo. Este confronto deixou sequelas terríveis em nossas terras e em todos os países ao redor do mundo, e muitos perderam as pessoas que lhes eram mais queridas. - Ele disse, com olhos obscuros, quase apagando sua aura radiante, como ao lembrar de uma profunda tristeza. - Faz exatos sessenta anos do fim da guerra. Que este Lexicus também seja um momento de alegrar a alma daqueles que deram suas vidas para o bem de todos, e que jamais outras guerras como essa sejam travadas.
É claro que Angélica pôde sentir o peso daquelas palavras, não por si, mas por seu avô. O pai de Bartholomeu e bisavô de Angélica, Trevor Aragon, perdera sua vida naquela guerra e seu avô jamais teve a chance de vê-lo novamente. Ainda pior que isso era a forma como ele havia morrido, não por ser grotesca, mas por ser envolta em mistérios. Nem mesmo seu avô sabia em que circunstâncias ele morrera, apenas que seu corpo jamais fora encontrado nem velado. O mistério perturbou Bartholomeu por muitas décadas, mas ele eventualmente foi capaz de superar a perda de seu pai. O sofrimento de Angélica por seus pais era semelhante, uma vez que Arthur e Melissa Aragon et Mayerum morreram em um trágico acidente, em circunstâncias igualmente misteriosas, e seus corpos também nunca foram encontrados. Arqueólogos da Trindade eram responsáveis por pesquisas em terras distantes, próximas do Limiar, e foram responsáveis por inúmeras descobertas a respeito da Proibição de Magni, ao norte, e de ruínas antigas para além do Monte Eterno. Entretanto, eles jamais foram capazes de retornar da exploração destas ruínas. Angélica tinha apenas quatro anos quando seus pais morreram.
- A segunda coisa… - Disse o rei, voltando a atenção de Angélica para o presente mais uma vez. - … como comemoração da abertura deste evento, será celebrado um Ágape no Templo Central de Nashar, às oito horas desta noite. Aos participantes do Lexicus, não se preocupem com os horários, pois será tempo suficiente para a realização da primeira etapa, e se encerrará a tempo para o início da segunda, que levará o restante da noite. - Aquela afirmação pegou a garota de surpresa. Eles iriam fazer testes durante a madrugada? E a que hora dormiriam? - Bom, deixo com vocês nosso prestigiado Senhor Marezar. Vejo a todos durante o Ágape.
Com um aceno, Rei Melódias e a Guarda de Prata se retiraram para o templo, seguidos por ovações, cânticos e aplausos. Seu tio seguiu o monarca de perto, como ela esperava. Como seu avô comentara mais cedo, ele só poderia falar com eles durante a ceia, que só ocorreria durante o Ágape.
Não demorou muito para que o homem em vestes escuras e cabelos brancos, aquele que o rei chamara de Marezar, tomasse a frente e continuasse o discurso de abertura do Lexicus. Atrás dele, vários homens e mulheres vestindo as vestes tradicionais de mago, com suas roupas de padrões diversos em branco, preto e dourado, sobrepostas por um grande sobretudo da mesma cor. Aqueles eram os enviados de Teranova, Sábios e Magos que iriam conduzir os diversos testes a seguir.
- Bom, agora que todos fomos cordialmente saudados por Vossa Majestade… - Disse ele. Sua voz tinha um tom de arrogância demasiadamente desconfortável, combinando com seu semblante azedo que não cedera desde sua chegada. Ele olhava para todos da mesma forma que olharia para vermes. - …vamos iniciar os trabalhos deste Lexicus. Embora eu tenha certeza de que a maioria dos presentes não irá se candidatar, estimo que cerca de dez por cento dos presentes o farão. A vocês, peço que prestem bastante atenção. - O público se silenciou. Qualquer um seria capaz de ouvir uma agulha caindo no chão de tão silencioso. - Vocês estarão escolhendo servir não uma companhia qualquer, mas a Sábia Trindade. Como todos sabem, a Trindade é quem rege o Mundo Sábio, acima até mesmo de reis, rainhas ou do título que qualquer governante preferir. A Trindade é responsável por manter a ordem, e ela foi o que nos trouxe milênios de paz e de prosperidade, ainda que na história recente tenham-se travado guerras sem sentido devido a sede de poder de alguns. Vocês serão os responsáveis por auxiliar a Trindade nesta tarefa, especialmente aqueles que ousarem se candidatar ao cargo de Mago, o mais cobiçado em todas as Três Terras desde os Mares Eternos até os Mares da Noite. Isto, meus caros, não é pouca coisa. - Ele encarou a multidão, sua presença desagradável revirando o estômago de todos e criando uma aura terrível em seu entorno. - A vós que ainda se interessam em participar, eis o que hão de fazer: formem uma fila única desde o portão do Templo Central e seguindo pela esquerda da praça, sem pressa e de forma bastante ordenada. Em trinta minutos, nossos aprendizes começarão a atendê-los individualmente e os encaminharão para o local do primeiro teste. Eu pessoalmente os orientarei acerca deste quando o tempo for propício. Vocês terão duas horas para se candidatar, e nenhum minuto a mais. A todos desejo muita boa sorte e que os Lordes lhes concedam grande sabedoria.
***
Horas se passaram enquanto as pessoas andavam lentamente na fila. Angélica e Gabriel permaneceram juntos na fila, mesmo após se perderem na movimentação que, diferente do pedido pelo Mago, fora caótica e apressada. O avô de Angélica tratou de retornar para sua casa, com o intuito de preparar-se para o Ágape. Naquela altura já passara muito do meio-dia, e almoços foram prontamente servidos para todos os que aguardavam. Alguns dos candidatos brincaram com o fato de que aquele teste não seria de resistência. Entretanto, para Angélica, estava sendo um grande teste de paciência, e céus, como era impaciente! A ansiedade tomava a garota por quase um mês inteiro, assim como todo o mês que antecedeu este, sonhando constantemente brandindo espadas e conjurando luz pelas mãos, como faziam os paladinos. Hoje, aquele sonho começaria a se concretizar.
- Então, pronto para seguir nos negócios de família? - Perguntou Angélica, casualmente, tentando puxar algum assunto com o amigo. - Ouvi dizer que a Amélia está empolgada pelo destino do filho atirador.
O jovem ao seu lado deu um sorriso morto, como quem é forçado a aceitar o seu destino. A moça, por sua vez, ficou confusa com a expressão de seu amigo. Essa era a primeira vez que via isto vindo de seu amigo.
- O que houve?
- Bom… - Falou ele, com um forte suspiro. - Eu tenho pensado… e se… e se eu não for escolhido para atirador?
- Mas você tem treinado tanto! - Falou Angélica. - Você com certeza vai conseguir. É seu desejo, não é?
Mais uma vez o semblante do rapaz obscureceu e se fechou.
- Não é? - Ela perguntou, confusa. Gabriel não havia comentado sobre isso com ela antes. Claro, ela sabia o quão exigentes eram Amélia e Arthur Hevixot, pais de Gabriel, e o quanto o garoto era frustrado com tanta pressão. Mas ele nunca havia mencionado algo sobre não seguir no ramo de sua família.
- Eh… é um pensamento de algumas semanas, na verdade. - Desabafou Gabriel. - Mas, eu não acho que queira continuar como atirador. Eu não levo jeito para a coisa e sempre erro nas lições, até mesmo as mais fáceis, você sabe. Eu vinha… tentando… aceitar isso. Aceitar que serei um atirador tal qual todos os Hevixot que vieram antes de mim. Mas… - Ele suspirou mais uma vez. - …se o que seu avô disse está correto, sobre eles ouvirem o desejo de cada um… será que eu teria uma chance de não virar um atirador?
- Bom… talvez você possa ser um paladino junto comigo! - Disse Angélica, e o rapaz sorriu com a ideia. Um sorriso fraco, desengonçado, mas sincero. - Podemos nós dois entrar para os Gighudan.
- E eu não precisaria encarar minha família sozinho. - Falou ele, se animando um pouco. - Eu teria o resultado dos sábios para justificar. Eu…
- Próximo. - Disse o homem no portão. Finalmente, depois da longa espera, chegou a vez de Angélica. Gabriel sorriu e gesticulou para que ela seguisse em frente, murmurando um inaudível “conversamos melhor depois”. Angélica andou através do arco de pedra que era a entrada do Templo. Em geral, os Templos dos Sábios eram as maiores construções de cada cidade - exceto talvez as cidades de Gaia, Horus e outras grandes capitais - e sua entrada não era protegida por portões. No lugar disso, era apenas uma grande arcada de pedra. Em seu interior, na câmara oval que formava o salão principal, havia sempre três estátuas olhando para o centro que representavam os três Lordes, o Lorde da Luz, o Lorde das Trevas e o Lorde dos Signos, todas sem rosto aparente, apenas o robe com suas cores específicas - branco e azul para Luz, preto e vermelho para Trevas e dourado e prata para Signos. Em volta, os treze pilares que sustentavam a estrutura possuíam a forma de treze figuras humanoides de rostos indistintos, cujos robes possuíam decorações diferentes que lembravam ossos, olhos, rostos humanos, chamas, tempestades, maremotos, nuvens… e encarando com um semblante irado o arco de entrada, estava a estátua mais bela, cujos ornamentos lembravam uma explosão de luz e chamas ardentes. As estátuas eram os Treze Signos, os ornamentos de cada um simbolizando os seus distintos sinais. Era dito que em tempos remotos, quando os Signos viviam entre os mortais, eles se comunicavam através de sinais ou indicativos que surgiam na natureza. Uns soavam como o som do vento contra as folhas, outros como tempestades e relâmpagos, outros surgiam como sombras e até mesmo como mortos que se erguiam dos solos de sepultamento e dançavam em volta dos presentes. Por isso eram chamados de Signos, um termo antigo para “sinais” e que se manteve na modernidade. E aquele encarando a entrada era Kah, o Signo vigente, o Primeiro, o Criador, o responsável por criar o mundo a partir das cinzas do mundo anterior. Angélica passou pelas imensas estátuas, o grande salão sendo ele próprio muito amplo, e no seu centro residiam cinco fileiras de seis mesas onde cada um era atendido. As fileiras eram divididas para que as pessoas pudessem passar por entre elas e sentar-se para fazer a inscrição. Apenas uma cadeira estava livre, a terceira cadeira da esquerda, na primeira fileira. Uma moça de rosto amigável e vestida nos trajes dos sábios estava de pé atrás da mesa e sorria para Angélica, convidando-a para sentar-se à sua frente. Angélica não perdeu tempo, mantendo o passo compassado o suficiente apenas para não parecer que estava com pressa, a ansiedade invadindo seu coração. Ela sentou-se e assim fez a moça à sua frente.
- Bem-vinda, querida. Me chamo Auréola. Serei a sua assistente de inscrição deste Léxicus. Qual o seu nome?
- Angélica. - Disse ela, apenas para lembrar-se de que ela deveria querer saber seu nome completo. - Angélica Aragon et Mayerum.
- Um prazer conhecê-la, senhorita. - Ela parecia curiosa, enquanto escrevia o nome dela em uma folha que se apresentava seccionada com vários campos de informação. - Porventura seria você parente de Trevor Aragon, o famoso Gighudan?
- Sim, ele era meu bisavô. - Disse ela, dando-se conta da fama de seu avô. Claro que ele seria famoso na Trindade. Ali naquela cidade, poucos pareciam sequer lembrar dele, visto o pouco que ouvira falar do homem.
- Uma pena que ele tenha sumido naquela batalha… - Disse ela, seu tom parecendo amargurado. Seu semblante ficou brevemente mais sério. - …ele era um querido amigo. Estudei com ele quando ele estava tirando seu título de Sábio… De toda forma. - Ela voltou a sorrir. - Seus pais são Arthur Aragon e Melissa Mayerum, correto?
- Sim, mas… - Tentou falar, apenas para ser interrompida pela mulher.
- Não se preocupe. - Disse ela. - Todos os assistentes aqui são psicomantes. Apenas com seu nome, conseguimos saber informações diversas sobre você e sua família. Sei também seu tipo sanguíneo, A+… - Ela foi anotando no papel conforme falava, sem olhar para a garota que a encarava com espanto. - …Sua ascendência Zúlea, vinda de sua mãe Melissa, e de parte da sua ascendência Alvia, vinda de seu pai. Você tem uma ascendência muito nobre. - Ela finalmente olhou para a garota. - Esta é apenas uma das várias artes que você poderá dominar quando se tornar parte da Trindade, querida.
- Mas… eu não pretendo me tornar maga. - Disse ela, chocada.
- Não, claro que não. Você deseja ser… vejamos… - Ela pareceu pensar por um instante, e então uma luz pareceu surgir no fundo de seus olhos. - …Ah, um paladino, claro! Seguindo os passos do seu bisavô, suponho. E os de seu avô, Bartholomeu.
- Exato… como você faz isso? - Ela finalmente perguntou, ainda em choque com a mulher à sua frente. Ela parecia quase uma criatura com esta habilidade.
- Com muito treinamento, isso eu garanto. - Ela falou, entregando a folha de papel para Angélica. - Este é um papel de grifo, não se preocupe em perdê-lo. Se você por algum acaso perdê-lo, basta procurá-lo em seus bolsos que você o encontrará. Mágico, não é? - Ela riu baixinho. A folha continha todas as informações que ela falara antes e mais algumas coisas, como toda sua ascendência até os avós de seu bisavô, que roupas e comidas ela preferia e até uma lista de alergias que ela sequer sabia que possuía. Pelo menos ela não lembra de ter alergia a mariscos. - Siga pelo portão à direita de Kah. Você encontrará Mestre Marezar lá, junto com os demais inscritos no final do corredor. Cuidado para não se perder!
Angélica levantou-se, respondendo apenas a um breve aceno da mulher que se despedia atrás de si. Ela olhou para o portão e viu que Gabriel já estava sendo atendido em uma das outras cadeiras. Seguindo pelo portão indicado, a jovem adentrou um corredor muito extenso iluminado apenas por algumas piras de chamas azuis que emitiam um aroma adocicado no ambiente. Ela entendeu o porquê do aviso de Auréola. Cerca de cinco minutos andando pelo local, ela finalmente chegou a um grande campo aberto, o que parecia ser a parte de trás do Templo, uma parte que ficava encoberta pela floresta que cercava os entornos da cidade continental. O local parecia exalar energia, e o aroma adocicado permanecia em suas narinas. Cerca de outras trezentas pessoas se encontravam no local, todas inscritas, e nenhuma delas era o tal mago Marezar. Ele deveria estar no interior do Templo, aguardando o fim das inscrições. Cerca de dois minutos após sua chegada, Gabriel emergiu da escuridão do corredor, parecendo atônito com a visão do campo. Ao ver Angélica, ele apressou o passo e juntou-se a ela.
- Este lugar é imenso! - Disse ele. - O que são essas chamas azuis? Nunca vi nada parecido. Não estou surpreso nem nada, só… - Falou ele, corando por sua falta de jeito. - …curioso com tudo. Eu devo estar parecendo uma criança.
- Você é definitivamente mais novo que eu. - Falou ela, e o menino se irritou brevemente, de uma forma muito cômica. - Então… o que você acha que vai acontecer?
- É pouco provável que façamos um teste pela madrugada. - Disse ele, analisando a situação. - Eu chutaria que é algo relacionado a alguma magia, se fizermos um teste após o Ágape. Eles não nos fariam ficar acordados pela madrugada.
- Eu não teria certeza se fosse você. - Uma voz masculina falou, aproximando-se deles. Um rapaz magricela, cerca de um ano mais velho que Angélica, apareceu, com cabelos loiros bagunçados e roupa amarrotada. Seus olhos azuis, entretanto, pareciam cheios de vida. Claramente de ascendência Alvia, ele sorria para os dois jovens. - Me chamo Daemus, sou de Entremonte. Vim para participar do Léxicus. Vocês são daqui?
- Sim, somos. - Disse Gabriel. Ele não tinha muito jeito com estranhos e se mostrava claramente intimidado com sua presença. Seu olhar para Angélica era de dar dó, um claro “vamos sair daqui” estampado em seu semblante. Angélica, entretanto, era extrovertida demais para isso. E Gabriel, claro, sabia deste fato e se forçou a conversar, nem que fosse apenas um pouco. - Entremonte fica no centro da floresta. Você viajou tudo isso para participar?
- Claro, como poderia perder essa oportunidade? - Disse ele, animado. - Sou aspirante a Mago, mas me contento com qualquer coisa que vier. Trabalhar para a Trindade é uma dádiva e uma garantia de estabilidade por toda a vida. Não poderia querer nada mais do que isso, especialmente vindo de uma cidadezinha do interior. - As pessoas começaram a se agitar nos arredores, chamando a atenção do trio. - Vejam, parece que “vossa graça” decidiu aparecer enfim. - Disse Daemus em tom jocoso. Angélica espichou-se para ver quem vinha ali, e era claro que era o tal homem desagradável em trajes pretos.
- Vejo que todos estão aqui, enfim. - Falou ele, seu semblante ainda bastante lemonesco. - Vamos então iniciar nossos testes, começando com o primeiro de todos. Sejamos diretos ao ponto. - Disse ele. - Hoje serão feitos dois testes, denominados “Divinação” e “Oniração”, dois métodos de leitura que permitiram compreender melhor quem vocês são. A Divinação é mais simples, tratando-se de uma simples leitura das suas tendências externas relativas ao seu eu consciente. Após o Ágape, faremos uma Onirição, um teste de leitura de estados mais profundos de sua mente e uma compreensão de suas tendências a partir de seu inconsciente, nos tornando capazes de compreendê-las de forma mais eficaz e mais efetiva. Isso definirá, claro, a vocação de cada um de maneira bastante definitiva. E isso é imperativo para este teste…
Angélica engoliu o seco em sua boca. Aquilo confirmava o que seu avô falara mais cedo. De fato, sua escolha era praticamente irrelevante naquela situação. Sua ansiedade aumentou.
- Estes testes definirão seu futuro. O que for divinado é aquilo que será permitido a vocês escolher, e nada mais. - Disse ele. Pela primeira vez, um sorriso surgiu em sua face, deleitando-se com a ansiedade no olhar dos presentes. - Boa sorte a todos.