Quem é Você?
O jantar fora muito apressado. Com toda a confusão gerada pelo guarda descontrolado e pelo pedido do Rei para encerrar o Ágape, acólitos se apressaram para levar os participantes do Léxicus até a cozinha, onde todos poderiam se alimentar adequadamente. Claro, assim como tudo o mais na estrutura enorme do Templo, a “cozinha” era grande o suficiente para acomodar todos e atuava também como um salão de jantar separado apenas para os acólitos. Em geral, os servidores fiéis dos três Lordes eram muito amigáveis e receptivos, sempre cuidando para que os convidados se sentissem acolhidos em sua morada. Acólitos eram aqueles que decidiram seguir a Fé dos Lordes, restringindo-se a não usar magia e tão somente conduzindo os demais fiéis - o que compreendia o mundo sábio quase todo - a uma vida tranquila e pacífica. Bom, pelo menos de acordo com o que a Fé acreditava. Por muitos anos foi a única religião permitida nas Terras da Trindade, mais isso fora a milhares de anos atrás. Não que tenham sobrado muitos outros credos para compartilhar espaço com eles.
Tão logo qualquer participante terminava de comer, um acólito surgia para guiar o participante à ala oeste do Templo, do lado oposto àquele grande refeitório e onde ficavam os dormitórios, e com Angélica e Gabriel não fora diferente. O rapaz fora conduzido primeiro, já que ele próprio muitas vezes não resguardava quaisquer modos ao comer, especialmente não com sua família fora de alcance. Gabriel parecia até mais alegre depois de sua mãe ir embora. Para ele, era como finalmente estar livre. Angélica, por outro lado, demorou o suficiente para conseguir se alimentar sem pressa e analisar tudo o que havia acontecido naquela tarde. Algo amargo agarrava-se ao seu paladar, formando um nó desagradável na garganta que refletia a sua ansiedade. Aquelas visões, aquelas palavras, aquilo não saía mais de sua cabeça. A jovem estava inquieta, confusa e, sem sombra de dúvida, muito curiosa com todo aquele mistério. Para ela, a situação toda era tão envolta em enigmas quanto para os sábios que se debruçavam sobre seu caso nos andares acima, juntos ao seu tio e ao Mago da Corte. Mas o que para eles era um assombro e um mau agouro sem precedentes, para ela era um convite tentador para uma jornada rumo ao desconhecido. Então, ela terminou de comer.
Os corredores lentamente pareciam retomar o aroma de ar fresco conforme a noite avançava e ninguém reabastecia os muitos incensários da construção. O aroma ocre daquele início de outono começava a invadir a estrutura rodeada pela floresta escura, o som de grilos quebrando o silêncio da noite. Os passos do acólito e da moça eram lentos e ressoavam pelo corredor cheio de pilares ornamentados e pinturas litúrgicas mostrando os Signos, a criação de Sião e dos Lordes e de outras eras passadas cujos humanos hoje ouviam apenas ecos distantes de um passado há muito perdido. Então eles chegaram a uma porta com o número três mil cento e cinquenta gravado.
— Espero que seja uma noite reconfortante e reveladora. - Disse o acólito enquanto abria a porta — Seu orientador já está o aguardando na sala.
Angélica entrou, esperando mais uma sala cheia de gravuras nas paredes, selos e outras coisas mágicas. Esta sala, porém, era muito mais simples que a primeira. Apenas por entrar já era possível ver em seu centro uma única cama simples e sem cabeceira, com colchão vestido com lençóis assombrosamente pálidos, com uma cadeira de madeira muito simples do lado esquerdo dela e uma pequena mesa de cabeceira à esquerda da cadeira. Nesta pequena mesa, havia apenas uma toalha branca, um copo de água e um frasco azul. Dando mais alguns passos à frente, era possível ver à sua direita uma longa mesa bagunçada cheia de coisas de diversos tipos, mas especialmente repleta de frascos, em sua maioria repletos de líquidos coloridos, muitas ervas e especiarias, e uma grande tábua de pedra com três círculos ligados por linhas e formando uma figura triangular entalhada cuidadosamente em sua superfície. A sala de paredes amareladas parecia ser tomada por uma luz calorosa como o sol e parecia ser a única sala onde ela não sentia cheiro algum de incenso, pelo menos até então. E logo em frente a mesa, mexendo em alguns dos frascos, estava um homem alto e corpulento. Era um homem careca, de pele escura como ébano, de barba grossa e bem feita, e vestia-se como um dos acólitos com trajes púrpuros soltos que cobriam todo o seu corpo como um grande vestido, exceto por detalhes dourados e um colar de safira - o que indicava que ele já servia na Fé há um bom tempo.
— Bem-vinda, criança. - Falou ele da mesma forma que falaria para alguém muito mais novo que ela. — Você deve ser Angélica Aragon, certo?
— Isso, senhor sacerdote. — A garota procurou em si uma formalidade que não possuía, pois tratar bem um servente da fé era algo não apenas esperado, como necessário. Seu avô havia dado-lhe alguma educação, afinal. — E o senhor seria?
— Mattel. Serei o responsável por orientá-la durante a Oniração. — Ele finalmente se virou para ela, mostrando seus olhos malaquíticos em contraste com um sorriso alegre e sereno. — Imagino que não saiba bem como isso funciona. Sente-se, por favor. Na cama digo. — Ele disse, apressando-se antes que a garota sentasse na cadeira em que ele próprio sentaria. Sentou-se e se aproximou da garota, examinando-a primeiramente pelos olhos como um médico ou curandeiro. — Devo me certificar de que você está bem de saúde. Este é um teste muito complexo e, caso ache necessário, tenho o dever de suspendê-lo. Não se preocupe, se não puder fazer, você será compensada de igual forma.
— Não sei se estou entendendo. — A suspeita e a estranheza tomavam a garota em seu âmago, talvez por causa das visões de mais cedo, ou talvez devido aos olhos estranhos do homem.
— Abra a boca, por favor. — Disse ele, e a jovem prontamente respondeu. Ele começou a analisar mais alguma coisa no fundo de sua garganta. — Pode fechar. Bem, não é comum, mas se não puder realizar o exame, você poderá escolher com base na Divinação ou desistir. Este é o único caso em que a desistência não implica nunca mais poder participar de um Léxicus, sabia? — Ele riu. Ele pegou um dos braços da menina e começou a investigar algo que ela não compreendia. Poucos saberiam dizer o que ele estava procurando, na verdade. — Bom, parece-me que está tudo certo. Mas, se algo estranho ocorrer, posso interromper o processo.
— E como isso funciona? — A curiosidade de Angélica perguntou.
— São um total de oito horas de teste, mas você dormirá e terá um sono bastante reconfortante e revigorante. Tome, beba isso. — Ele entregou o frasco azul para ela. Angélica pegou o frasco, analisou-o, mas não bebeu. — A Oniração é um ritual complexo onde poderei analisar seus sonhos e investigar suas potencialidades. Claro, para isso serei responsável por guiar sua alma dentro de um mundo onírico apenas seu, onde você verá muitas coisas parecidas com o mundo real. Alguns dizem ter a sensação de passar dias inteiros dentro do sonho e… por favor, beba. É para ajudar em seu sono.
— E o que tem nisso? — Ela olhava o frasco curiosamente, como se lhe procurasse as respostas que desejava em sua profundeza azulada.
— Ervas infundidas, principalmente folhas de maracujá, hortelã e erva-cidreira. Também um pouco de alguns minerais e casca de mulungu. — Ele falou da forma robótica de uma resposta memorizada. — Uma infusão especial, mas não chá. É um preparo muito complexo que apenas acólitos têm a autorização para fazer. Isto no frasco é uma diluição alcoólica de algumas poucas gotas dessa solução, e um gole disso a fará dormir profundamente. Se usado de forma errada… — Ele olhou sério para a garota. — …bastariam algumas poucas gotas deste líquido mágico para levar um adulto forte a óbito.
A garota engoliu em seco, decidindo se o homem à sua frente era um benfeitor ou alguma espécie de homicida. Não sabia se confiaria tão cegamente em um estranho que mal conhecera e que lhe oferecia algo tão letal.
— E… por qual razão acólitos ministram esse teste, e não os sábios? — Ela olhou com desconfiança para os olhos estranhos do homem.
— Você é bastante cautelosa. Daria um sábio exemplar. — Angélica revirou os olhos. — Há uma pequena questão relativa ao que a Trindade pode fazer e o que não pode. Por exemplo, magos em geral são proibidos de manipular a alma, pois isso poderia ser usado de forma inadequada, como é o caso da necromancia. Uma coisa que infelizmente está atada àqueles que adoram a magia é a sua forte ambição. Ambição facilmente se transforma em sede de poder. Uma pessoa pode aprender a manipular a alma por boas razões e se perder ao notar o tamanho do poder que possui em suas mãos. Não é por acaso que Necromancia é uma magia extremamente proibida. Esse ritual, a Oniração, necessita que alguém manipule a alma de outra pessoa.
— E por que um acólito pode fazer isso?
— Nós devemos ser livres de ambição. — Ele olhou calmamente para ela. Seus olhos de repente não pareciam tão desconcertantes. — Acólitos são treinados por anos a não se deixar levar pelo desejo, e por anos somos proibidos de usar magia. Mesmo após muito tempo, apenas podemos usar magia em rituais específicos como este, e apenas para benefício alheio. Nem mesmo em autodefesa podemos fazê-lo. Este é nosso voto, e votos são coisas muito poderosas. — Ele sorriu. — Agora vamos. Beba isto, está ficando tarde.
— Certo. Tudo bem. — Ela olhou mais uma vez para o frasco, a incerteza no seu olhar gritando surdamente. — Vamos ver onde isso vai dar. — Ela virou o frasco de uma vez.
O líquido aquoso desceu queimando sua garganta devido ao álcool em sua composição. O gosto da solução era misto, flutuando entre amargor e doçura, frescor e ardência, um sabor indistinto e exótico que ela nunca havia experimentado antes e que ela não sabia dizer se era bom ou ruim. Seu semblante fechado decidiu-se por ela, expressando uma careta enojada com o gosto esquisito. Então, poucos segundos após tomar, um baque como se uma marreta atingisse sua cabeça. Seu corpo ficou pesado e pouco responsivo, e os arredores giraram com sua queda na cama. Ela tentou formular mais alguma palavra, em vão. Ela notou apenas o homem ajeitando-a na cama e balbuciando algumas palavras que ela não entendeu. Antes da escuridão invadir sua visão, ela viu apenas o homem cobrindo seus olhos com a mão direita e cobrindo os dela com a mão esquerda, murmurando baixinho algo elegante e refinado, palavras douradas e brilhantes, onduladas e enfeitadas como letra cursiva. Aquele som de alguma forma parecia tomar seus pensamentos. Pensamentos que se apagaram na escuridão.
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O sol brilhava quente no céu pálido. O mundo parecia ter pouca cor e um tom um pouco mais azulado que o normal, como em um dia frio e nublado. Aquele era o clima perfeito. Angélica olhou ao seu redor como se estivesse vendo o mundo pela primeira vez, encarando o céu enquanto sentia as suas costas pressionarem o piso de pedra abaixo dela, com algumas poucas gramíneas farfalhando ao vento entre elas. Ela acordava agora em um mundo diferente do que estava, em um corpo um pouco diferente, mas com as mesmas memórias. Sua mente dançava entre memórias perdidas, um profundo senso de familiaridade e estranheza se adensando dentro de si, como se tudo fosse muito familiar, mas, ao mesmo tempo, nunca estivera ali antes. Ela se levantou. A cidade em que estava era de tijolos brancos reluzentes, de casas de teto plano enfeitadas com belos jardins, praças floridas com árvores frutíferas, altas torres brancas brilhantes encantando o horizonte montanhoso coberto de floresta densa. Era possível ver dali uma muralha branca luminosa - realmente eram luzes que irradiavam da muralha ou era mais uma ilusão? - circundando a cidade que se erguia em um formato que parecia o de uma colina, dividida em três platôs com a cidade cada vez mais densa conforme se descia pelas ruas. Ela estava no topo, e olhando para trás ela via apenas um grande castelo dourado refletivo brilhando sob a luz do sol pálido. Aquela cidade um dia poderia ter abrigado muita vida, mas naquele momento parecia apenas uma ruína abandonada. Na verdade, o próprio mundo parecia um pouco morto.
Conforme ela andava, pôde sentir o vento forte que soprava do leste, um cheiro de incenso forte tomando suas narinas. Era isso, ela estava na Oniração. Aquele lugar nada mais era do que um sonho, embora, se muito tivesse de dizer, aquela cidade parecia-se com as descrições de viajantes sobre a Cidade de Gaia, capital do reino. Mas agora, a cidade estava vazia, esquecida pelo tempo em um mundo que parecia definhar. As folhas restolharam e desviaram o seu olhar para uma das enormes quedas d’água que circundavam o palácio e que formavam espelhos perfeitos com seu fluxo fino e perfeito. Ela se vislumbrou pela primeira vez desde que surgira no sonho e notou a indumentária estranha que vestia. Primeiramente, notou seus cabelos azul-claros atados no topo de sua cabeça, formando um feixe único que descia até o pescoço. Em seguida, via-se que vestia uma túnica muito branca similar à que os rapazes utilizavam, com exceção de que esta era bordada com flores azuis desde o punho da manga até o colarinho. Sobre ele, um colete azul-escuro fechado que lhe conferia uma silhueta feminina, muito diferente do que usava no seu dia a dia. Abaixo, via-se algo que parecia com um vestido de viagem, aberto no centro e se fechando conforme descia por trás até os pés. Vestia uma calça escura bordada com flores brancas. Sobre seus ombros, um manto azulado enfeitado com linhas prateadas e bordados sinuosos que formavam espirais. Prendendo o manto, um broche formado por três triângulos, dois apontando para a direita e um para a esquerda, formando um trapézio rotacionado. O triângulo mais acima era branco, o mais abaixo era preto e o intermediário era amarelo. Aquele era um broche da Trindade. Naquele sonho, ela era um membro da Trindade. E pela vestimenta era claramente… uma maga.
Ela olhou para o cinto afivelado que segurava a sua calça. Do seu lado direito, via uma adaga de lâmina retorcida e sinuosa. A lâmina parecia afiada e possuía um tom arenoso, o que indicava que não era aço. Seu punho era coberto por couro e um único cristal vermelho em sua guarda. Suas roupas eram de material um pouco mais grosso, indicando que era inverno. Suas botas negras prendendo a calça aos tornozelos também lhe mostravam a proteção contra o frio. Por fim, viu que de seu pescoço pendia um colar muito simples, de corrente fina brilhante e prateada, cujo pingente era um cristal púrpuro enrolado pela prata. Uma ametista. Mais um sinal de sua profissão. Maga. Aquela palavra naquele mundo cinzento não parecia tão aversiva quanto era no mundo real, mas ainda lhe era causa de amargura. Por muitos anos sonhou com os feitos de seu bisavô, venerando-o como um herói, desejando ser como ele, apenas para que aquele sonho fosse destruído diante de si. Ela não desejava aquele destino para si, e dentro de si aquela ideia quase a ultrajava.
O Enredo deve ser mantido.
As palavras ressoaram em sua mente, quase palpáveis, quase sólidas. Ela sentia uma profunda sensação de dever que nunca havia surgido em si antes, uma sensação de que ela era de alguma forma parte de algo muito importante. Algo maior do que um sonho. Algo maior que um desejo. Algo maior que qualquer coisa mundana. Algo além de sua compreensão. E isso a enchia de medo, mas também lhe dava aquela curiosidade que sempre a metia em confusão. Talvez, só talvez, seguir por este caminho não fosse tão mau.
Reflexões à parte, ela decidiu vasculhar a cidade vazia. O local era um grande deserto pálido, sem pessoas ou qualquer sinal de vida por exceção de um ou outro inseto voando pelo ar, alguns pássaros e um ou outro animal silvestre que se escondia rapidamente ao notar a presença da maga. Um cheiro antigo e obscuro se misturava ao aroma de incenso constante da Oniração. Não se lembrava de incenso na sala. Será que o homem - qual era mesmo seu nome? - Acendera após seu sono? Ou era mais uma ilusão do sonho? De qualquer forma, o local parecia abandonado. Ela notara que algumas das construções pareciam demolidas por um forte impacto, outras jaziam retorcidas como se derretidas por fogo. Móveis viam-se revirados dentro de casas tomadas por vinhas, flores e teias de aranha, poças se formando onde buracos se abriram com o tempo. Livros antigos de texto indecifrável viam-se jogados no chão, sobre mesas ou ainda, embora muito raramente, bem guardados em estantes que resistiram aos ventos. Angélica visitou muitas casas abandonadas, tentando entender o que havia acontecido à mágica cidade do Castelo Branco, mas nada encontrou a não ser resquícios de uma vida há muito esquecida.
Conforme avançava, deparou-se com lagos artificiais há muito por limpar, outras praças tomadas pela floresta, um dos trens a vapor que circulavam pela cidade e que agora jazia parado em meio a escombros de uma antiga estação. Em outro local da cidade, via-se que o rio que circulava a cidade começava a se apossar de parte dela, esta agora inundada pelo descer da terra. Torres se erguiam sobre a água onde um dia era terra firme. Ainda assim, chegou a locais quase intocados pela vegetação ou pelo esquecimento, como a famosa Biblioteca do Alvorecer, o Mercado Branco ou o famoso Distrito das Flores, onde muitas das casas permaneciam tal qual estavam quando todos desapareceram. Ela não entendia o que o sonho desejava mostrar com todas aquelas ruínas. Seria este seu futuro ou meramente um reflexo de seu estado de espírito? Ela não saberia dizer. Quem sabe aquele acólito não diria qual era o seu propósito? Apesar de que era pouco provável.
Então um grito profundo e gutural ressoou pela cidade, fazendo tremer o chão e as estruturas ao seu redor, fazendo o vento vibrar e as árvores mexerem. Como que por instinto, Angélica olhou para o leste. Nuvens negras se acumulavam naquela direção, como se uma forte tempestade se formasse no horizonte e ameaçasse a tênue luz diurna daquelas ruínas. Ela notou, entretanto, que uma forte presença vinha do lado oposto, do Oeste, muito além das muralhas da Cidade Branca. Poucos respingos de água caíam do céu, demonstrando que a tempestade densa já se aproximava dali. Se ela queria descobrir o que era aquela presença, ela deveria se apressar. E é claro que ela queria.
Mais um raio percorreu seu corpo, e os seus instintos a levaram a sacar sua arma. Ela ergueu a adaga como se a manuseasse há muito tempo, elevando-a em defesa para aparar uma outra lâmina que descia guiada pelas duas mãos do rapaz que a empunhava. O peso posto na lâmina a fez curvar-se para trás, compensando assim o desvio do ataque. O rapaz de cabelos e olhos dourados, pele rosada e rosto infantil era o primeiro rosto que via naquela cidade, mas, embora fosse um rosto familiar, ele em si estava completamente diferente. Os cabelos agora estavam apenas um pouco mais longos do que o habitual, como alguém que passou muito tempo sem cortar o cabelo. Suas roupas eram de longe as mais diferentes, vestindo um casaco branco e dourado sobre a túnica alvejada, espirais douradas subindo pelas mangas desde seus punhos. A calça era elegante, mas confortável, presa também por grossas botas alaranjadas indicando o preparo para o clima local. Sobre seus ombros, um pesado manto branco com pelagem adornando em volta do pescoço, o mesmo broche trapeziforme prendendo ambos os lados. Os olhos brilhantes do rapaz agora pareciam calcular seu próximo movimento… embora, ao ver quem atacara, sua postura meticulosa tomara um tom risonho e alegre.
— Essa foi por pouco, huh? — Ele riu, recolhendo a espada novamente à sua bainha. — Bom ver um rosto familiar neste lugar estranho, Zuzu.
— Cala a boca, palerma. — Disse ela, imediatamente dando-lhe um abraço. Ela sabia que ele não deveria ser real, mas saber que seu amigo estaria com ela no futuro era um grande alívio. — Fico feliz de te ver aqui, Gabo.
— Oras… - Disse ele, todo envergonhado. - Desse jeito vou achar que você me ama.
— Vai sonhando, Zé. — Ela empurrou o garoto ao chão, fazendo-o cair de costas. Não obstante, o rapaz apenas caiu e começou a rir. — Você ouviu…
— O rugido? — Ele completou. — Sim, um bem grande vindo do Leste. Parece que uma tempestade está a caminho.
— Mas senti algo vindo do Oeste. — Ela olhou para aquela direção. A saída já não era mais visível, afinal, a garota já descera do platô mais alto. - Há um portão, pelo que observei mais acima, uma saída em direção a floresta. Creio que há alguém para além dos portões.
— Bem observado. — Ele sentou-se de pernas cruzadas, encarando-a. — Notei a mesma coisa, mas não acho que seja a origem daquele som. Você quer ver o que é?
— Como se você não me conhecesse.
— Imaginei. Clássica Angélica. — Ele se levantou e espanou a poeira de sua roupa. — Roupas brancas são um pesadelo, por que paladinos têm de usar logo esta cor?
— Para demonstrar que não derramaram sangue. — Ela falou por impulso, embora não soubesse como aquela informação surgiu em sua mente. Algo que pesquisara sobre paladinos há muito tempo? Algo do sonho? — Vamos, temos um bom caminho pela frente.
— Sim. - Disse ele. Algo em seu olhar parecia incrivelmente feliz ao ver a garota. — É bom saber que estaremos juntos no futuro.
— O que… — Antes que pudesse concluir sua frase, a chuva começou a cobrir os campos ao seu redor. — A tempestade! Droga!
— Você é maga, não é? — Disse Gabriel. — Não consegue conjurar algo para repelir a chuva?
— Não sei? — O tom da garota soou mais como uma pergunta do que como uma resposta. — Como que eu… você tem ideia de como fazer isso?
— Sei lá! Tenta imaginar alguma coisa! Não sei como a magia funciona. — A chuva se adensava e o som das pancadas de água contra o chão se tornava cada vez mais barulhento. A esta altura, ambos estavam aos berros.
— Não custa tentar! — Ela ergueu a mão com a palma contra o céu. — Sei-lá-qualquer-coisa-faz-essa-chuva-parar!
Para a surpresa da zúlea, algo como uma barreira invisível surgiu entre eles e a chuva, algo que pareceu ser conjurado a partir da palma de sua mão. Isso foi uma verdadeira surpresa para ambos.
— Ahn… alguma magia para secar as roupas? - Ele olhou para ela com um sorriso cômico.
— Não force a barra. — Disse ela, rindo. Raios brilhavam no horizonte. — Vamos. Temos algo ou alguém para encontrar. Esse sonho está sendo divertido.
— Sonho? Espera, como você… — Trovões ribombaram pelos ares. — Como você sabe que isso é um sonho?
— Espera, você sabe que isso é um sonho? — Ela retornou a pergunta, embora aquela conversa não fizesse sentido. Talvez o sonho estivesse afetando ambos.
— Claro, foi o que o Nikolam me falou antes do teste. — Falou ele. — Você não é… digo, você é a verdadeira Angélica?
— Como? Que diabos de pergunta é essa? Claro que sou.
— Então o que você está fazendo no meu sonho, criatura? - O garoto possuía indignação visível em seus olhos.
— Eu que pergunto: o que você tá fazendo no meu sonho, palhaço? Não era suposto estes serem sonhos individuais?
— Será que estamos tão no futuro um do outro que até nos sonhos estamos conectados? — Gabriel parecia estar levando isso muito a sério. — O meu acólito não falou nada sobre isso para mim.
— Nem o meu. — A confusão a deixava um pouco nauseada. O cheiro de incenso não parava mesmo com o petricor invadindo suas narinas. — Parece que eles sempre deixam de falar coisas importantes. De toda forma, não temos como saber se somos reais ou não.
— Como não?
— Não é óbvio? — A maga começou a marchar em direção ao portão. O paladino a seguiu. — Vamos supor que você seja fruto da minha mente. Não importa o que eu fale ou o que eu pergunte para você, você sempre vai acertar a resposta. Não há nada que você possa fazer para me provar que você é real. Você só poderá provar quando acordarmos.
— Bem pensado. Então, como vamos indicar que nos vimos no sonho?
— Essa é fácil. — Ela riu. — Eu vou falar para você sobre o Rugido do Leste. Você pensa em alguma coisa para me falar também.
— Pô, mas esse era o mais óbvio! — Ele falou, chateado. Ele andou um pouco e viu algo em uma praça. — Espera, já sei. — Ele correu em direção a um lago, abaixou-se e pareceu colher alguma coisa. Quando voltou, ele possuía uma única flor azul em suas mãos ainda molhadas. — Um nenúfar azul. Difícil de encontrar. Aqui. — Ele colocou delicadamente a flor sob a orelha esquerda da garota. — Não tem erro, você ouviu o rugido e eu te dei um nenúfar azul. São nossos identificadores.
— Hum… — Ela pegou a flor e a olhou. Seu azul era intenso, mas sua aparência sugestionava uma sensação pacífica e sossegada. — Gostei da ideia. E da flor. — E ela colocou novamente a flor sob sua orelha. Ela olhou ao redor. — Espera, já chegamos ao platô inferior?
E era verdade, a paisagem pálida bruscamente se alterou para uma ligeiramente mais amarelada e gasta, com prédios cor de areia e muito mais aglomerados. Os canteiros de flores viam-se mais mal cuidados e as ruas de tijolos viam-se cada vez mais enlameadas. A Cidade Branca era densamente povoada em seu pavilhão mais baixo, onde foram construídas muitas casas, negócios e mercados ao longo das eras. Diferente dos andares superiores, mais organizados por natureza, o andar inferior era mais desordenado e desgastado. E agora com toda aquele vazio, parecia mais assustador do que imaginara.
— Me pergunto se Gaia se parece com este sonho. — Falou Gabriel abruptamente, cortando o silêncio. — Se isso for como um sonho mesmo, talvez simplesmente tudo tenha se transformado enquanto estávamos distraídos. Sonhos costumam ser meio sem nexo, não é?
Ela sabia que o garoto tinha razão. Aquilo era um sonho e eles simplesmente terem cortado uma viagem de quilômetros em poucos segundos não seria algo surpreendente.
— De toda forma, temos que achar a saída. — As coisas pareciam bem diferentes do que lá de cima. Talvez o deslocamento misterioso os tivesse levado para outro lugar, e aquela parte da cidade muito se assemelhava a um labirinto de tijolos arenosos. — Eu não sei onde a gente está. — Ela olhou para cima, buscando o sol. Apenas nuvens lhe surgiram. Nuvens escuras. — Não dá para ver o sol daqui. Não sei onde fica o oeste.
Mais um rugido, o frio repentino correndo pela espinha da maga como um raio. O paladino não ficou muito atrás. Por alguns segundos, o mundo pareceu apenas um pouco mais sombrio e os ventos assobiaram mais fortemente conforme passavam, cortando o pouco de pele exposta dos jovens como navalhas geladas.
— Eu acho que é para lá. — Gabriel apontou em direção a uma rua que seguia até uma encruzilhada com prédios altos ao redor. — Estou sentindo aquela presença vinda de lá.
— Então vamos seguir seu palpite. — Ela disse, já correndo em direção à rua. Gabriel ficou para trás, consequentemente encharcando-se com a chuva torrencial que varria a cidade. — Vamos, senão vai ficar todo molhado!
Gabriel correu até ficar próximo da moça e manteve o passo apenas o suficiente para que ele não saísse da zona do que quer que ela estivesse conjurando para impedir a água de molhá-los. As ruas pareciam-se com rios de água barrenta correndo sem rumo conforme a chuva se intensificava, e os prédios formavam um padrão labiríntico pouco habitual para qualquer cidade, o que Angélica via como um indicativo de que aquela cidade era bem mais onírica do que a verdadeira Cidade de Gaia. Por um tempo, apenas o que havia eram rios de água e encruzilhadas esquecidas. Da mesma forma que Gabriel a seguia para não se molhar, ela seguia Gabriel para onde quer que o instinto dele os levasse. Ele, por ser treinado como atirador, aperfeiçoara muito sua habilidade de sentir quando alguém estava próximo, mesmo que fora do seu alcance de visão. Era uma habilidade curiosa e muito útil. Muitas vezes esta percepção aprimorada era o que os havia salvado de problemas com guardas ou com pessoas ainda mais desprovidas de bom senso do que eles. Mas desta vez, no lugar de afastá-los do perigo, ela sentia que ele estava os levando diretamente para ele.
Felizmente não demorou muito até que eles chegassem a um grande arco quebrado de tijolos brancos. Portões de pedra verde restavam caídos e quebrados no chão como se algo os tivesse derrubado com um impacto brusco, embora parecessem bastante maciços. Mais adiante, uma ponte de alvenaria cinzenta os levava diretamente para uma floresta muito densa. O rio que circundava a cidade parecia a ponto de transbordar com tantas cachoeiras caindo dos canais que passavam pelas muralhas da cidade.
— Algo me diz que algo muito grande e perigoso está por vir. — Refletiu a garota.
— Sim, uma tempestade. — Gabriel olhou para sua amiga com perplexidade. — Vamos, sinto que estamos perto.
Tempestades não eram inerentemente ruins. Uma boa tempestade poderia ser o clima perfeito para ler um livro se as condições corretas se reunissem, como um bom teto sobre sua cabeça e uma xícara de sua bebida quente favorita. Porém, este não era o caso e o fato de tudo isso se passar em um sonho a assustava ainda mais, afinal, tudo naquele sonho poderia trazer consigo presságios profundos sobre o que viria adiante em sua vida caso decidisse seguir como maga. Pela primeira vez em muito tempo, a aventura em que Angélica se metera a fez sentir algo tão primordial que faz até mesmo o mais inerte dos animais se esconder diante de uma forte tempestade ou de qualquer outro ser que lhe pareça ligeiramente maior do que a si própria. Um sentimento do qual nem mesmo os humanos poderiam se libertar, especialmente em meio à escuridão e ao desconhecido, especialmente neste último caso. Pela primeira vez em muito tempo, Angélica sentia medo.
— Angélica! — Gritou o rapaz. — Vamos, não sabemos quanto tempo ainda temos!
— Certo. — Ela olhou uma ultima vez para em direção à cidade e à núvem negra que pairava sobre o leste. O que quer que fosse, aquela tempestade em seus sonhos não parecia um bom presságio. Mas não era hora de pensar nisso. — Vamos.
A dupla correu floresta adentro, a escuridão tomando conta da visão deles. As copas das árvores eram tão densas que a chuva forte de antes minguava perante suas barreiras esverdeadas, escorrendo por galhos e troncos até o chão. Alguns poucos pingos ainda passavam pelas frestas entre uma folha e outra, entretanto. A escuridão banhava seus corpos e escorria para dentro de seus narizes, preenchendo seus pulmões com cautela e apreensão. Um passo em falso e eles poderiam cair em um precipício de escuridão infinita, sensação de que a jovem não gostava nem um pouco de se lembrar e tampouco desejava reviver.
Subitamente, as copas verdes foram trocadas por folhas vermelhas similares a lâminas e troncos arroxeados que não pareciam ser qualquer coisa senão uma criação vinda da imaginação de alguém. Angélica mesmo duvidava que uma planta tão exótica realmente existisse. Sons como sussurros perturbavam a mente dos jovens, fazendo sua coragem vacilar. Talvez a ideia de entrar no meio de uma mata escura durante uma tempestade não fosse a coisa mais inteligente do mundo, pensou Gabriel. A chuva parecia cessar enquanto corriam, como se eles estivessem correndo tão rápido que conseguissem despistar a nuvem negra que trazia consigo a tempestade. E no meio disso tudo, em uma clareira que apenas respingava algumas últimas gotas do temporal, uma cidade surgiu. A cidade parecia apenas uma pequena vila, para falar a verdade, com casas de alvenaria simples e com pintura branca rachada e desgastada, telhados na sua maioria de palha e apenas uma ou duas casas com mais de um andar. As ruas eram mais terra batida do que calçamento; muita da vegetação estranha e retorcida tomava a cidade, até mesmo a grama era avermelhada. As nuvens acima pareciam mais azuladas. Somado ao estranho tom cinzento que todo aquele sonho possuía, a paisagem parecia vinda diretamente de um pesadelo.
— Que diabos de lugar é esse? — Angélica estava assombrada. — Eu realmente não quero saber o que quer que isso signifique. Não me parece um bom sinal.
— Angélica, olha! — Gabriel empunhou sua espada rapidamente, uma coragem estranha tomando o seu semblante corriqueiramente quieto. Angélica preparou-se igualmente sacando sua adaga, embora não soubesse o que estava por vir. — Temos companhia.
Quando ela se virou, viu primeiramente apenas uma sombra. Esta sombra, porém, logo mostrou-se ser apenas uma pessoa coberta de preto da cabeça aos pés. A primeira coisa que reparou foi a estranheza de suas vestes, muito mais amigáveis aos climas quentes do que ao frio de Brishar. Vestia uma túnica similar às usadas pelos homens locais, com exceção da sua cor preta e de suas mangas muito curtas, mas suas calças pareciam bem mais justas e de tecido bem mais leve, parecendo amarradas aos tornozelos por algum tipo de faixa, indicando que muito andava, e à cintura por um cordão tão escuro quanto o restante das suas vestes. Ele calçava um sapato simples muito escuro, feito de couro e de solado de madeira escura, vestindo também luvas escuras firmemente amarradas aos pulsos por faixas como as dos pés. Sob seus ombros, um manto preto de tecido leve preso por um broche com um símbolo vagamente familiar, um circulo com um triangulo circunscrito e com outros três círculos negros em suas pontas. Em seu pescoço, um colar de pedra púrpura. O rapaz diante deles, não muito mais velho do que Gabriel, não deveria possuir mais do que um metro e sessenta e possuía pele pálida como papel, cabelos negros como carvão e olhos que eram um poço de escuridão, ambos adornados com olheiras profundas que denunciavam o quão pouco vinha dormindo. Sua própria expressão, meio morta e meio em assombro, anunciava que, embora estivesse em um sonho, pouco havia descansado. Além disso, sua fisionomia muito magricela e sem viço apontava que vinha comendo muito pouco. O rapaz estranho erguia apenas um pouco as mãos, uma delas densamente coberta pelo manto, como a indicar que não oferecia perigo. Na verdade, o garoto parecia demasiadamente assustado.
— Você é o primeiro que vemos em quilômetros, então não é possível que você seja algo da minha cabeça. — Falou Angélica com firmeza e aspereza na voz. Mesmo que ainda acreditasse que tudo à sua volta, até mesmo seu amigo, era apenas um sonho, a única coisa de que se lembrava era daquela mulher de olhos abismais em suas visões. Mesmo sem saber como se defender, ela não se mostraria displicente diante de mais um possível adversário. — Quem é você e o que você quer?
— O quê? — De alguma forma, o rapaz parecia ainda mais assustado. Porém, algo em seu olhar mostrava uma certa irritação. A frase que ele viria a proferir em seguida certamente surpreenderia a dupla e os deixaria com um olhar de profunda incredulidade e confusão. — Eu é que deveria perguntar isso a vocês dois! Quem são vocês e por que estão invadindo o meu sonho?