Interlúdio II O Lorde dos Signos - Livro 1 · Capítulo 8 de 14
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Interlúdio II

Meu corpo emergiu da visão como um corpo emerge de um lago, pesado, frio, enquanto o brilho dourado se dissipava. Algo estava bastante diferente. Minha mente, confusa, parecia não se decidir sobre quem eu mesmo era. Lothen? Angélica? O que foi isso que ocorreu nesta visão?

- Divinação. - O Lorde dos Signos disse. - Uma técnica perigosa se usada incorretamente. Misturada com uma Incursão, pode produzir efeitos bastante imprevisíveis. Me pergunto como você deve estar se sentindo. - Ele riu. - Mesmo sabendo, claro, que está terrivelmente confuso e nauseado.

E era verdade, meu corpo rejeitava aquela confusão com muito vigor enquanto minha mente tentava manter minha última refeição no estômago.

- Você deve descansar. - Disse ele. - Vá, descanse e retorne ao amanhecer. Continuaremos de onde paramos.

- Lorde Zignih, eu posso…

- Basta, Lothen. - Disse ele, ríspido. - Uma Incursão não é algo simples, e sei bem que você já está exaurido. Você ainda tem um importante papel a desempenhar, e não será privando-se de suas necessidades humanas que você o cumprirá. - Ele olhou, sua aura terna como a de uma mãe amorosa. - Descanse. Aguardo-o ao amanhecer.

Hesitei, refleti, mas enfim consenti. Não adiantava lutar contra o Enredo, afinal, sabia que aquele encontro estava destinado a acontecer desde o princípio. Antes que eu pudesse falar algo, a sala tomou sua decisão e muito rapidamente aquele mundo mágico escureceu e desapareceu. Os portões se abriram atrás de mim, e uma voz soou clara logo atrás de mim.

- Venha, Lorde Lothen. - Disse a voz masculina. - Seus aposentos o aguardam.

Quando me virei, me deparei com uma figura quase celestial me aguardando do lado de fora, corpo alto e esguio com seis asas em suas costas, pele alva e cabelos negros, olhos áureos brilhantes, vestindo-se com trajes brancos e leves que aparentavam ser de uma fabricação muito antiga e manual. Ventos gélidos sopravam em minha direção, inundando a sala antes quente com uma essência floral dos jardins. Ajustei minha máscara.

- E você é…

- Ax, venerável. - Disse ele, curvando-se profundamente diante de mim. - Serei seu serviçal durante sua estadia. É meu dever como protetor deste sagrado templo.

Claro, ele deveria ser um Celestial, um dos seres mágicos que protegiam a Velha Morada e que a ocultavam dos olhos mortais. Era dito que eles eram capazes de convocar nuvens diante de si para esconder as ruínas milenares, que eram capazes de fazer flores crescer apenas com seu canto, e que por meramente pedir ao Templo eram capazes de concertá-lo. Ax parecia ser um nome no Primeiro Verbo, a primeira linguagem conhecida dita criada pelos Signos para falar aos humanos. Se fosse remotamente parecido com a Língua Sábia, poderia ser algo como “Mensageiro” ou “Transportador”.

- Belo nome. - Disse, mesmo sem ter certeza de seu significado. Ao sair do Salão do Tempo, meus ouvidos foram tomados em rompante pelos ventos que rugiam sua ira contra as paredes monolíticas da estrutura. Com o Portão mais uma vez selando aquele solo sagrado, notei que a minha volta as nuvens revoltas anunciavam uma tormenta caótica que tomava o mundo. Os ventos mais uma vez ascendiam em direção ao topo, sempre em direção ao monólito marcado com o Selo Triplo, mas dessa vez eles não eram suaves e sim agressivos, uma cacofonia semelhante a urros, uivos e assovios. Segurei meu manto, protegendo-me do frio cortante. - Primeiro Verbo, não é?

- A Palavra de Kah, sim. Significa “Aquele que Espera”. - Um pouco longe do que imaginei. Dei um passo em falso, quase caindo direto no chão, mas o Celestial me segurou pelo braço. - Cuidado, incursões costumam ter efeitos colaterais bastante indesejados.

- Então você já sabia que eu iria passar por esse processo? - Questionei, curioso.

- Um de nós sempre deve permanecer no Templo, aguardando sua chegada. - Ele me levantou, mas permaneceu me guiando pelo ombro. Seguimos em direção à escada, descendo para o segundo andar. - Mesmo com faces e vozes diferentes, tu, venerável, sempre retornas para nós e nós te recepcionamos conforme deve ser. E como sempre, o Grandioso sempre mostra visões do que foi e do que será para ajudar em sua missão. O Terceiro dos Cinco que devem retornar tu és, mesmo que eu não saiba seu rosto. Lothen, o Viajante, tu és.

O vento ascendente cortou friamente minha pele, gelando-me até a alma. A esta altura, a ponta do meu nariz não poderia esfriar mais. Ax sussurrou algo muito baixinho, um som mudo que se assemelhava ao próprio vento, e uma barreira pareceu se formar diante de nós para impedir que os ventos me atingissem. Murmurando um som abafado como o crepitar de uma lareira, ele pôs uma minúscula chama circular em minhas mãos para me aquecer. Aquela magia parecia estranha, embora eu já houvesse lido sobre aquilo que ele habilmente fez em bibliotecas a muito perdidas, em um tempo muito distante.

- É a primeira vez que escuta a Palavra de Kah, a língua que vós mortais nomearam como Primeiro Verbo?

- Temo que sim, caro. Não são muitos os que nestes tempos conseguem pronunciar as palavras tão puras. - Era dito que os Signos e as antigas deidades que viviam neste mundo falavam através dos sons da natureza, como o farfalhar das folhas, o som do vento contra o corpo, a água batendo contra as pedras de um rio, sons puros de uma melodia a muito perdida. - E menos ainda os que conseguem criar algo por meio delas.

- Neste mundo decadente há apenas dois vivos capazes de falar as palavras do Criador, aquela criatura maligna escondida nas trevas e eu. Embora deva admitir que mal posso chamar aquela criatura vil de algo vivo.

- Você se refere a…

- Sim. Ele. - Um frio correu por minha espinha. - Mas não se preocupe. Ainda é cedo demais para Ele, embora tenhamos de continuar nossos preparativos para cumprir o Enredo. É a única garantia de que seremos bem-sucedidos na Última Batalha.

Chegando no andar inferior, percorremos os grandes corredores que agora eram inundados pelas rajadas de vento frio amparadas pelo bloqueio de Ax. Olhei por um breve momento o mundo abaixo. O mundo estava, de certa forma, ainda pior do que estava quando cheguei: novas montanhas basálticas surgiram dos mares, muitos dos quais haviam desaparecido, cidades arruinadas em chamas, afundadas nas águas ou soterradas por deslizamentos, rios de magma ardente corriam e marcavam a terra por onde quer que passassem enquanto a tempestade feroz, feita de fuligem negra e dos mares em ebulição, castigava os pobres humanos que viviam entre escombros. Eu sabia que tal catástrofe não fora causada por algo natural, mas sim por um feitiço, uma poderosa maldição que depredara o mundo inteiro. Quem havia conjurado tal maldição era um mistério para mim, tampouco sabia quais foram suas motivações, mas com certeza o feitiço não fora concluído. Qualquer que fosse a razão para aquilo, é evidente que se pretendia destruir o mundo com essa maldição e haver seres ainda vivos, mesmo que em condições insólitas, era uma dádiva concedida por quem quer que fosse o ser bondoso que o havia impedido.

Depois de mais cinco minutos caminhando entre os ventos uivantes, chegamos a um corredor largo com arcadas por onde os ventos invadiam os salões, e pequenos portais ao lado direito que marcavam salas. Quando passamos pelo terceiro portal, Ax apontou como se estivesse a convidar para que eu entrasse primeiro. Entrei, e Ax me seguiu. Ele pareceu murmurar algo mais uma vez e, para minha surpresa, até mesmo o som dos ventos pareceu cessar, muito embora as batidas deles contra as janelas da sala fossem perfeitamente audíveis. Na sala havia uma poltrona antiga, mas bem conservada, uma cômoda com um jarro de flores em cima e uma cama confortável com lençóis limpos. Ao lado da cama, em uma pequena mesa de cabeceira, um lampião.

- Você deve descansar, venerável. - Disse Ax. - Este é teu recinto, dispa-te e descansa. Os ventos tempestuosos não hão de te afetar. Nos veremos amanhã. - E então se retirou, fechando a porta atrás de si que, por sua vez, rangeu com os ventos tal qual as janelas.

A sós, me dei a liberdade de me despir da armadura que carreguei por meses sem fim. Primeiramente, removi a máscara incômoda que eu havia de vestir para que nenhum outro lorde me reconhecesse, uma marca da minha sina. Depois, despi-me do sobretudo negro que me protegia contra os ventos dos muitos lugares em que estive nos últimos meses, muitos dos quais assolados por calamidades e guerras, revelando cabelos desgrenhados que, se houvessem sido minimamente cuidados nos últimos meses, ousariam fazer alguns cachos castanho-escuros. Removi a camisa de azul esbranquiçado surrada pelo tempo de uso, as luvas de linho desgastadas e as botas de couro que protegiam meus pés durante a caminhada. Por fim, como mortal, sentei-me na poltrona e olhei para minhas mãos pálidas. Por pelo menos algum tempo, não precisava lidar com o fardo de carregar o destino do mundo em minhas costas. Por um momento poderia ser eu. Recostei-me na cadeira e olhei em direção ao teto, permitindo que meu corpo descansasse pela primeira vez em muito tempo.

Desde aquele fatídico dia, quando vislumbrei por apenas alguns minutos a Última Batalha e contemplei o seu quase desfecho, venho andando incessantemente através do tempo e do espaço na vã tentativa de entender como impedir o fim de tudo. Removi o peso de meu bolso e olhei brevemente para aquele relógio dourado que me guiara um templo seguido do outro, uma relíquia que me parecia quebrada mas que também não compreendia seu propósito. De uma forma ou de outra, ela me guiou para onde precisava ir como se a me guiar pelo meu próprio destino. Se foi por acaso ou não, talvez eu nunca viesse a descobrir. Falei com sábios de tempos antigos, de tempos futuros, e de lugares que não conhecia. Visitei mundos perdidos e conversei com os Lordes de outras eras, tanto da Luz como das Trevas, enquanto sustentava o fardo pesado de lidar com o fim do mundo e com a sensação de urgência de não saber o que fazer para impedi-lo. Eu, que anteriormente sequer desejava me tornar um Lorde dos Signos, agora estava empenhado em tentar descobrir como ser um. Apenas uma estrofe daquela maldita profecia permanecia em minha mente…

Tendo aprendido através dos séculos,

Ele Guia todos os Lordes

Até o final derradeiro.

A estrofe reverbera em minha mente enquanto eu tento entender o seu verdadeiro significado. A Velha Profecia era conhecida por muito poucos e seus poucos registros sobreviventes mostravam o quanto ela era imprecisa e aberta a interpretação. Quase todo o conteúdo da profecia podia ser compreendido de maneiras diferentes a depender de quem a lia, e quase tudo estava aberto a interpretação. Como era suposto eu guiar os Lordes até o fim? Há tantas peças neste quebra-cabeça sem fim…

E para completar, havia as visões com esta garota que vislumbrei durante a Incursão. Durante a Incursão, tudo era muito vívido e não conseguia pensar muito por mim mesmo, minha mente assumindo o papel de um mero espectador. Angélica não parecia ser uma pessoa extraordinária, pelo menos não a princípio, mas estas últimas visões mostraram perfeitamente que ela é tudo exceto comum. Poucos são capazes de vislumbrar o Infinito tão facilmente, especialmente com tanta nitidez, e menos ainda são capazes de entrar em contato com o mais profundo do seu inconsciente. Ela havia entrado em contato com aquela parcela minúscula da sua alma que tocava o Infinito diretamente, demonstrado pelo espaço dourado à sua volta que era como estar na presença do próprio Lorde Zignih. Palavras de sabedoria e aquele ser assustador que revelava, para além de tudo, o conteúdo da Velha Profecia. O homem havia dito que pensava ser um espírito que perturbava a visão dela, mas soava muito mais como se o próprio inconsciente dela tivesse tomado a forma de seus maiores medos para mostrar o destino que a seguia. Uma versão velha, quebrada e distorcida dela mesma, consumida pelo mal. Eu ainda não consigo entender quem é a garota, nem qual a razão de ela surgir na minha Incursão e tomar um papel de tanto protagonismo, e menos ainda entendia a razão de minha mente ter se mesclado com a dela durante o vislumbre da Profecia. Qualquer que seja a razão, nada iria retirá-la do papel de importância que ela possuía.

Meus olhos piscaram rápido quando notei que eles lutavam para permanecerem abertos. Os ventos retumbavam ao bater nas portas e janelas. Uma cama limpa, uma sala aquecida. Talvez eu devesse aproveitar isso um pouco, afinal eu não reencontrarei este privilégio tão cedo.

***

- Venerável? - Uma voz suave tocou meu ombro. Uma voz tocou meu ombro? Minha cabeça rodopiava, dolorida, e minha boca parecia abrigar um deserto. Típico de alguém que dormiu mais do que deveria. Abri os olhos. - Sinto por acordá-lo, mas o Grandioso clama por sua presença uma vez mais.

Ax parecia exatamente igual ao dia anterior, porém mais claro. O som do bater dos ventos cessara e agora a luz entrava pela janela do quarto, iluminando o local com luz solar cálida e revigorante. Olhei para a mesa de cabeceira e vi apenas minha máscara, um jarro repleto de água e um copo bem servido de água. Creio que ele imaginou que estaria com sede após tantas horas de sono. Levantei-me sem dizer uma palavra, peguei o copo de água e olhei pela janela, percebendo indiretamente que o sol já estava alto no céu marcando metade do dia. Bebi da água no copo e olhei para Ax.

- Sabe, esta é a primeira noite de sono verdadeiro que tive em muitos meses. - Desabafei, tomando mais um gole de água. - E é a primeira vez que sou tratado com tanto cuidado. Obrigado, Ax, por sua hospitalidade.

- Esta casa é sua casa, venerável. - Disse Ax, porém não pude deixar de notar um leve sorriso se formando em seu semblante. - É natural que seja bem servido e bem cuidado. E é para garantir isto que estou aqui. - Ele se curvou profundamente.

- Não se curve a mim, eu sequer sou um Lorde completo. - Disse, e era verdade. Embora eu fosse a nova encarnação do Lorde dos Signos, eu ainda carecia de poder e conhecimento e certamente não havia alcançado a tal “Onisciência” dos Lordes, uma conexão profunda que me permite enxergar o passado, o presente e o futuro, e entender toda a cronologia por meio de me conectar com encarnações passadas e futuras. Eram necessários os três fatores, especialmente o último, para ser considerado um Lorde completo. Fui em sua direção e o ajudei a retornar para uma posição mais digna, peguei a máscara e coloquei em meu rosto. - Por hora, não há necessidade de um tratamento tão respeitável.

- Humildade é um dom de todos os Lordes, certamente. - Disse ele, sorrindo. - E isto é mais um motivo pelo qual devo curvar-me, venerável. - Pelo visto, terei de me acostumar com isso. - Se não te importa, por que usas esta máscara?

- Lothen… um Lorde que não deve ser reconhecido. - Disse, vestindo a camisa desbotada que certamente já vira dias muito melhores. - Viajar pelo tempo é arriscado, paradoxos podem ser criados e meu poder de ajudar o Enredo a se cumprir pode ser prejudicado se eu for reconhecido. Portanto, não posso vestir o mesmo rosto mais de uma vez. - Ajustei o sobretudo sobre meus ombros. - Devo trabalhar sem reconhecimento, sem chamar atenção. Devo passar despercebido.

- Curiosa forma de ver o Enredo, venerável. - A dúvida estampava o rosto de Ax. - Embora não tenha certeza de que entendi sua motivação. De toda forma, o senhor certamente sabe melhor do que eu.

- Eu… digo, claro. Como queira. - Lutar contra o respeito excessivo ao celestial não daria muitos frutos.

- Todavia, venerável Lothen, e digo isso sem faltar com respeito nem mesmo por um segundo, devo observar que seus trajes estão muito desgastados e impróprios para se apresentar perante o Grandioso. - Disse Ax. O esforço para não parecer desrespeitoso era nítido. - Perdão pela minha grosseria, mas suas botas estão gastas, suas vestes desbotadas e amarrotadas, e devo dizer… - Ele ponderou um pouco o que dizer e como, certamente para não soar rude. - …bom, tenho certeza de que há fragrâncias que melhor adornem seu semblante, confesso.

- Então, o que quer dizer é que visto farrapos e estou fedendo. - O rosto do homem enrubesceu tanto que por alguns segundos ele quase se tornou uma uva, ele claramente não sabia onde se esconder. Sorri. - Estou brincando. Como posso resolver isso?

- Neste caso… - Ele respirou de alívio, claramente me levando a sério demais. - … temos um jardim abaixo com um belo e limpo lago onde pode limpar-se e descansar mais um pouco. Certamente posso dar mais vida às suas roupas, embora requeiram algum trabalho. - Falou ele, analisando mais de perto as minhas vestes. - Venha, vou mostrar-lhe o local.

Mais uma vez seguimos pelos corredores da Velha Morada que, desta vez, estava radiante e bem mais tranquila. Nuvens alvas como algodão cercavam a edificação e seus jardins pareciam revigorados após as tempestades. Arcadas sem fim adornavam os corredores, e por uma delas pude contemplar o mundo abaixo mais uma vez. Sião ainda estava desolada, claro, mas parecia mais quieta. Parecia que seria um dia de reconstrução. Caminhamos pela construção antiga cujas marcas do tempo eram nítidas, descemos até o patamar mais abaixo e nos deparamos com um belo e vasto jardim, de grama verde vibrante e árvores frutíferas por toda parte, flores salpicadas adornando o solo, vinhas floridas adornando as paredes e pilares. Havia em seu centro um grande e claro lago, tão limpo que não parecia natural. Uma cascata caía do teto abobadado acima de nós e preenchia o lago. Eram notáveis pequenos animais e insetos andando pelo local, e todos eles olhavam para mim para então se afastar lentamente como que em sinal de respeito. A esta altura, eu sequer duvidava disto.

- De fato, este é um tratamento digno de um rei. - Falei.

- Poucos reis teriam poder para ter tamanha bênção, venerável. - Falou Ax, impassível aos meus comentários.

- Bom, suponho que devo aproveitar. - Despi-me, colocando a minha máscara delicadamente sobre uma pedra acinzentada ao lado do lago. Ax pegou minhas roupas e me entregou um conjunto de limpeza com água perfumada e sabão. - Obrigado, Ax.

- Irei levá-las para consertá-las, venerável. Caso necessite, basta chamar-me que virei atendê-lo. - E ele saiu, seguindo por um arco que levava a um dos muitos corredores do velho templo.

Enquanto me banhava no lago, contemplei a beleza do lugar. A Velha Morada era, dentre todas as localizações em que estive, a mais bela e a mais tranquila. Quando estive nas Terras da Noite, o local parecia inóspito à vida e uma aura tensa pairava no ar. Meu encontro com o Lorde das Trevas também não fora muito confortável, embora isso tenha se dado pela reputação do homem e não por suas maneiras. Ao contrário, o Lorde das Trevas soára como alguém muito tranquilo e até mesmo paternal. A morada do Lorde da Luz também havia sido apressada e cheia de truculências devido às guerras que ocorriam durante a era em que estive lá. O Lorde em si fora muito hospitaleiro e foi muito gentil e cuidadoso comigo, como uma mãe. Uma pena que espíritos não possam oferecer muita hospitalidade ao meu corpo físico. Era estranho ser tão bem tratado. Faz muito tempo que não me sentia tão bem, mesmo antes de me tornar um Lorde não havia tanta abundância. É claro, em um mundo dividido não há qualquer equilíbrio.

- Aqui está, venerável. - A volta repentina de Ax me assustou de tal forma que dei um pulo e escorreguei para dentro do lago. Ergui-me novamente para ver Ax surpreso, porém risonho. Parecia que ele sabia que eu não me machucaria. - Trouxe roupas limpas novas para você. Claramente não haveria como consertar as do senhor em tão pouco tempo.

- Claro. Obrigado, Ax. - Ele curvou-se. Uma parte de mim estava desapontada. Talvez o canto de um celestial não pudesse de fato reconstruir o templo, embora parte de mim duvidasse que Ax houvesse alguma vez sequer tocado em um martelo na vida. Saí do lago e me sequei. Peguei as roupas perfeitamente brancas que Ax me entregou, muito semelhantes a dele próprio. Elas pareciam ser do meu tamanho, embora fossem feitas para serem bem mais largas que as minhas roupas atuais. Branco. Essa cor não combina comigo. - Por que roupas brancas?

- Ah, imaginei que não fosse de seu feitio, venerável. Porém, nós não costumamos usar nenhum pigmento em nossas vestes. - Explicou. - Então não temos nenhuma veste de outra cor. Também espero que não seja um problema andar descalço como nós fazemos, venerável.

Bom, andar descalço seria o menor dos meus problemas, e vestir branco não era algo impossível. Vesti-me com os trajes celestiais e coloquei novamente minha máscara. Quando percebi, Ax estendia-me uma bandeja com alimentos: um pedaço de pão estranho, quadrado e de aparência amarelada, queijo fresco que não conseguia imaginar como haveria de ter parado em um lugar tão acima do solo, pedaços de várias frutas como laranja, banana e pêssego e um copo morno de algo que imaginei ser chá, que possuía uma essência floral bastante aromática.

- Este é um prato celestial muito apreciado pelos Lordes. Chama-se Kahil e deverá fornecer energia ao senhor pelo restante do dia. - De fato, era um prato muito bem servido. - Não será possível levar comida ao Mundo Espiritual, mas prepararei uma refeição leve quando o senhor voltar.

Meu estômago rugiu ao ver o prato diante de mim. Haviam semanas desde a última refeição decente que fiz, e esta fora apenas uma sopa fria com meio pedaço de um pão muito seco. Este tal de Kahil parecia muito apetitoso. Servi-me rapidamente do pão com queijo fresco que estava delicioso e levemente picante, devorei-o com tamanha voracidade que àquela altura portava-me como um ser irracional e sem modos. Às frutas dispensei igual tratamento, mas tive de ser cuidadoso com o chá. Ax não parecia notar minha falta de etiqueta.

Quando terminei o prato, levantei-me. Ax, por sua vez, entendeu que havia chegado o momento de irmos ao encontro de Lorde Zignih e me guiou mais uma vez pelos corredores do templo até chegarmos mais uma vez a longa escadaria que levava ao monólito. À medida que subíamos, aqueles mesmos ventos ascendentes da noite anterior assobiavam em meus ouvidos uma canção suave e melodiosa.

- Deixo-o aqui, Lorde Lothen. - Disse ele. - Nos veremos mais uma vez muito em breve, quando sua próxima sessão com o Grandioso estiver encerrada. - Ele curvou-se. Pensei em corrigi-lo mais uma vez, mas claramente seria em vão. Assenti e segui em direção à pedra alva e polida. As inscrições douradas no monólito, bem como as gravuras e entalhes dos pilares que seguravam o teto abobadado acima, pareciam brilhar intensamente à luz do sol. O Selo Triplo era majestoso, imponente e revelava os segredos mais sutis que havia na Realidade. Me aproximei na intenção de entoar novamente o nome dos Treze, porém o Selo se adiantou e, como se ouvissem meus pensamentos, os símbolos rúnicos entalhados na pedra brilharam e o portão do monólito se abriu. Mais uma vez senti a força dos ventos mudar de direção enquanto eles sibilavam em direção às arcadas formadas pelos pilares sustentadores. Quando o portão estava totalmente aberto, adentrei mais uma vez o Salão Espiritual e a pedra se fechou mais uma vez comigo em seu interior.

- Lorde Zignih! - Gritei em meio ao vazio que se formou ao meu redor mais uma vez, o Selo Triplo brilhando sob meus pés. - Me chamastes diante de ti, e aqui estou mais uma vez. - Abaixei minha cabeça em uma reverência não tão profunda quanto as de Ax. - Ilumina-me com tua sabedoria. Aparece diante de mim. Agrada-me com…

- Basta.

Luzes irradiaram de várias direções, mesclando-se, torcendo-se e então transformando-se em um belo ambiente. A grama alta e verdejante habitada por seres incompreensíveis, ruínas antigas imbuídas de sabedoria, ventos melodiosos soprando em várias direções. Sob meus pés, a pedra fria onde o Selo estava entalhado. Acima de mim, o Infinito brilhante. À minha frente, O Grandioso se desenhava mais uma vez com seu corpo de luz e manto de sabedoria, sentando-se em uma posição suntuosa com a perna direita dobrada e a esquerda estendida.

- Caro Lothen, não convém dispensar tantas palavras de louvor se a ti mesmo não agrada que o façam. - Falou ele, e senti um leve tom de gracejo em sua voz onipresente. - Não faça com os outros o que não deseja que façam contigo.

- Claro, Lorde Zignih. - Disse ao mesmo tempo que senti meu rosto e minhas orelhas esquentarem. Claro, afinal, ele era eu de certo modo.

- Creio que tiveste teu tempo de reflexão. Suponho que nosso fiel anfitrião tenha cuidado bem de ti. - Disse ele, ao que assenti. - Então, o que tens para me dizer antes de iniciarmos nossa jornada?

- A garota. Que papel ela possui no enredo?

- Se eu respondesse a esta pergunta agora, não haveria razão para continuarmos. - Disse ele. - Há uma razão pela qual optei por apresentar-te a história dela por meio de uma Incursão e não de forma meramente narrativa. Você deve sentir, entender e chegar às suas próprias conclusões. Isto é imprescindível.

- Claro, certamente. - Respondi, a inquietação tomando meu peito. - Mas, mesmo com tudo o que vi, não consigo imaginar qual a importância desta jovem no Enredo.

- Há muito o que se aprender sobre o Enredo e como ele molda as pessoas a sua volta para que ele se cumpra. - Divagou o Lorde. - Para que o Enredo seja realizado corretamente, todos devem atuar em seus respectivos papéis, Lordes ou não.

- Então ela não é um Lorde, como eu pensei.

- Sobre isso, você terá de ver com seus próprios olhos. Deves lembrar-te sempre que todos são importantes para o Enredo. Você, nós, os seres mundanos… sem todas as peças em seu devido lugar, a Última Batalha será fadada à destruição.

- E como saberei se meu papel no Enredo está sendo cumprido? - Perguntei.

- Ora, caro Lothen, não é óbvio? - Ele gracejou. - O simples fato de existirmos é prova de que ainda não falhamos. - E com mais esta frase enigmática ele estendeu a mão a mim. - Vamos?

Sem mais uma palavra, peguei em sua mão. O mundo tremeluziu e desapareceu desde o horizonte até mim. Por um instante havia apenas luz e minha própria consciência, sem corpo, sem forma. Apenas eu.

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