Uma Situação Difícil
Como de costume, o cheiro de incenso doce de flores de champac e sândalo ornava o ar do salão de reunião, onde aqueles velhos eruditos discutiam os mais variados assuntos. Ao todo, treze, doze homens e uma mulher. Treze era um número muito sagrado desde tempos antigos. Treze eram os Signos, treze são os atributos sagrados dos Lordes, treze eram os tronos escavados em Monte Eterno, treze eram as correntes que aprisionavam o Maldito, o Décimo Terceiro Signo. E em cada reunião de sábios, para qualquer propósito que fosse, treze deveriam ser os sábios supervisores. Treze, e sempre treze. As menções a este número só não passavam das menções ao número três, ainda mais sagrado e considerado o símbolo da perfeição. Aquilo tudo era muito entediante.
Ele folheou mais uma vez as páginas do livro que pouco se esforçava para entretê-lo, se é que um livro sobre ocultismo moderno teria tal poder. Enquanto os velhacos discutiam suas questões, o homem estava lá como ouvinte e representante do Rei. Como seu conselheiro, não haveria de ser de outra forma. Porém, o livro era mais cativante do que aqueles senhores. As páginas do livro falavam sobre controle mental, o assunto que não saía de sua cabeça desde o episódio com o guarda. Aquele homem foi aprisionado e praticamente quarentenado pelo conselho dos sábios por meio de uma deliberação arranjada às pressas antes do início da Oniração. Os sábios se moveram muito rapidamente para garantir que tudo seria conforme o planejado, sem interferências externas.
— A bisneta de Aragon tem se mostrado uma questão estranhamente fascinante, de fato. — A menção à Angélica fez seu ouvido tremer, puxando sua atenção de volta à reunião. — Imaginar que ela seria alvo de um aparente espírito obscuro e desconhecido… isso não deveria ser possível.
— Selos são poderosos, mas forças imprevisíveis parecem circundar a família Aragon desde a época de Trevor Goudam. — Os sábios falavam com uma leveza e descontração que pareciam alheias à gravidade da situação. — Talvez o desencadeamento de uma maldição tenha vinculado-a ao…
— Trevor Goudam era habilidoso demais com a magia para um paladino, e lembrem-se de que nem mesmo uma maldição como aquela poderia criar um vínculo capaz de sobrepujar qualquer selo utilizado na Divinação. — Falou a mulher cujo nome ele não lembrava. Não que fizesse questão de lembrar do nome da maioria daqueles treze. — Além do que, Paedhra Corporiam não é uma maldição vinculativa por sangue, apenas por indivíduo.
— E seria estranho se Trevor Goudam sacrificasse sua própria família usando uma maldição de vínculo sanguíneo. — Disse outro homem, de barba grisalha muito cumprida e olhos caídos como folhas de outono. — Ainda assim, mantenho minha proposta de mais cedo. A menina parece estar ligada aos eventos estranhos deste Léxicus. A participação dela coloca todos os participantes em risco.
— Maldohaz tem razão. — Disse a sábia.
— Isso está fora de cogitação, Mein Maldohaz e Mein Katrina. — Disse o Grão-Mestre da celebração, o Arcemago Mein Malquias, este em pé e apreciando um bom chá. O homem era corpulento e mal-encarado, mas ainda mantinha a sutileza de utilizar o onorífico Mein ao se dirigir ao seu igual. Excesso de educação? Talvez. Mas era uma forma sutil de se mostrar superior aos outros. — É do grande interesse da Trindade que este evento extraordinário seja mantido. Não iremos fazer isto, e ponto final.
— Com todo respeito, Grão-Mestre Mein Malquias, senhor, mas já somamos nove aos que desejam a interrupção do Léxicus. — Falou outro homem, aparentemente mais novo que os demais. Talvez uns noventa anos? — Somos eu, Mein Katrina, Mein Maldohaz, Mein Dulval, Mein Zohriah, Mein…
— Mein Zarahaz, isto é irrelevante. — Interrompeu o Grão-Mestre, com aparente impaciência. — A ordem para que continuemos não é minha, é de alguém superior a qualquer um de nós.
— Quem? — Perguntou o mais novo, desafiando-o.
— Lorde Metain.
Um silêncio quase sepulcral se instaurou na sala. Claramente nenhum deles esperava que um dos Três Sábios fosse ditar essa regra, e entre estes, que fosse o próprio Lorde Metain a fazê-lo. E ninguém iria contradizê-lo, por óbvio.
— E quanto ao impacto no reinado do Rei Melódias Goudam? — Disse o mais novo. — Sabemos que existe a possibilidade nefasta de que assassinem o homem e…
Mais um silêncio, mas desta vez todos olhavam enfurecidos para o rapaz, quase como se desejassem cortar-lhe a língua por falar demais. Alther fechou o livro, carrancudo. Claramente eles não queriam que ele ouvisse isso.
— Isso não é pertinente. Em todo caso, Melódias Goudam é habilidoso e um dos melhores Gigudam da ordem. Não se esqueçam, ele é, dentre todos, o único que lutou diretamente contra o Necromante e saiu com vida, com exceção de Trevor Goudam. Todos os outros honráveis cavaleiros da ordem morreram de formas grotescas, e Trevor Goudam só morreu porque se sacrificou para pará-lo. — Mein Malquias parecia usar todo artifício mental para contornar a situação. — Além disso, ele é um rei popular. É improvável que ele seja alvo de seu próprio povo.
— Com sua licença, Grão-Mestre Mein Malquias, senhor, mas vocês estavam cientes dos riscos ao Rei? — Perguntou o Conselheiro do Rei, mesmo como ouvinte. Ele, na qualidade de representante do Rei, não possuía poder de fala. Entretanto, aquilo já era demais. A face de Mein Malquias enrubesceu, e seu semblante se fechou.
— Ora, Mah Alther, você não tem autorização deste conselho para se manifestar! — Disse o homem, quase ultrajado, se não fosse por seu claro desespero em encerrar o assunto. — Este é um assunto particular da Trindade, e somente o conselho tem poder para deliberar sobre ele!
— Sei muito bem das regras do ouvinte, caro Grão-Mestre, senhor, e por isso sei que tenho poder de votante. — Replicou, com uma estratégia já muito clara em sua mente. — E veja bem, como votante tenho o direito à resposta a uma pergunta à minha escolha.
— Ora, seu… — Falou o homem, contorcendo-se para reprimir qualquer obscenidade que fosse proferir. O Grão-Mestre estava claramente descompensado. Por fim, endireitou-se, pôs o sorriso mais desdenhoso que pôde encontrar em seu rosto e perguntou. — Pois bem, esta seria a sua pergunta?
— Não, a resposta para esta já me é clara. Vejamos… — Disse, sabendo perfeitamente qual a pergunta que iria fazer. Embora seja muito presunçoso, Malquias tinha razão. O Rei era muito bem capaz de se defender sozinho, e alguém ser capaz de matá-lo tranquilamente era algo fora de cogitação. Não, ele iria usar esta provocação para esclarecer uma outra dúvida do Rei e também sua própria. — Vossa Majestade gostaria de saber… A Trindade sabe quem atacou Angélica Aragon?
— Sim. — Disse ele, sorrindo maldosamente. — Esta sessão de deliberação está encerrada. Dispersem-se. E diga ao Rei Melódias Goudam para comparecer à próxima sessão. Você não é mais bem-vindo entre nós.
***
— E então? — A voz polifônica vibrava no ar, fazendo a pele dos jovens arrepiar. — Quem são vocês? Respondam!
Gabriel levantou-se, espada em riste, perna direita dobrada e esquerda esticada, olhando para os olhos. Os olhos negros no céu se contraíram em uma expressão risonha. Ele parecia se divertir com isso. Em seguida, foi a vez do garoto estranho, perna esquerda dobrada à sua frente, perna direita esticada para trás, punho direito junto ao quadril, braço esquerdo dobrado à sua frente, palma da mão virada para sua direita, cenho franzido. Ele parecia estar se preparando para lutar. Angélica juntou-se a eles, puxando sua adaga e agarrando seu cordão de ametista. A energia pura fluiu pelo seu corpo. Uma risada astral obscura reverbera pelo ar.
— Crianças tolas. Vocês pretendem lutar? Sabem pelo menos com quem estão lidando? — Riu o ser.
— Onde está Aléxia? — Gritou o garoto. Gabriel olhou para ele tal qual ao avistar uma assombração, como se reconhecesse o nome proferido. Já Angélica apenas se assustou, o nome sequer tocando seu consciente.
— E o que faz você imaginar que sei seu paradeiro? — Riu.
— Minha intenção nos trouxe até você, maldito. — Disse o rapaz, sério.
— Intrigante! — Escarneceu a criatura no horizonte. — E imaginar que alguém como você saberia utilizar Ariandhelle! Explendido! Você treinou com a Trindade, garoto? — O estranho respondeu apenas enrijecendo o corpo, não por medo, mas por raiva.
Um impulso estranho, quase fantasmagórico, fez Angélica tomar a vanguarda para si. O impulso de um instinto que nunca possuiu, uma possessão pelo seu próprio potencial, aquilo formou-se em sua mente e transformou-se em palavras mais ásperas do que poderia conceber:
— Nós não devemos nenhuma resposta a você! — Vociferou ela. Sua mente estava atordoada; o mundo parecia girar à sua volta. — Nós vamos resgatá-la, quer você queira ou não!
— Ora, mais uma reviravolta! — A criatura riu. — Mesmo que vocês estivessem certos, como exatamente pretendem retirá-la daqui, por meio de um sonho? — Eles se olharam entre si, confusos. — De toda forma, não é como se vocês fossem sair daqui.
— Merda. — Disse Gabriel, para a surpresa de Angélica. Até então, poucas foram as vezes que o rapaz proferiu algum insulto. — Ele deve ter razão. Não sinto a presença do meu acólito há algum tempo.
Subtamente, Angélica se deu conta de que já não sentia o cheiro de incenso.
— Vocês não vão sair daqui. — As vozes disseram, sérias. — Eu pessoalmente garantirei que vocês não acordem. E quanto a você, bisneta de Aragon… — Um calafrio percorreu a espinha de Angélica. Por que ele estava se referindo ao seu bisavô? — …Você não irá atrapalhar meus planos. Manterei você viva lá fora, assim você servirá ao seu propósito. Enquanto isso, vou mantê-los ocupados por aqui….
Então, os olhos obscuros em meio às nuvens se fecharam, e os cadáveres inertes caíram no chão, misturando-se com a areia. Então, um tremor abalou o piso, o céu e todos os objetos oníricos do mundo do sonho, como se o próprio sonho tremulasse com a vibração. Nuvens no céu se desfizeram, fissuras se abriram pelo chão, objetos se partiram e se desfizeram como fumaça. A areia deslizou sob si mesma, formando fractais espirais cada vez mais complexos. Filetes de escuridão pura começaram a se erguer do chão, condensando-se, enquanto a própria areia levitava em padrões hipnóticos e complexos, que pareciam infinitos. Aos poucos, uma esfera feita de uma amálgama de escuridão e areia se formou à frente dos jovens e, como se, ao ser moldada por mãos invisíveis, se moldasse em um tronco, pernas e braços, mas sem cabeça. Do centro do tronco, um vórtex de espirais parecia dar origem a todo o movimento. As pernas se conectaram ao chão, o tronco tornou-se cada vez mais cadavérico e os braços se alongaram como borracha amolecida. O padrão fractal espiral era hipnótico e belo, mas ao mesmo tempo perturbador e sombrio.
— EMET. — Reverberou a voz polísona uma última vez. Desta vez, um impacto como o de uma explosão jogou os jovens para trás, exceto o rapaz de preto. Uma luz estranha púrpura, que parecia mais absorver a luz do que de fato emití-la, surgiu do centro do tronco da amálgama estranha. Algo como um olho surgiu no centro de seu preto, com um forte brilho púrpuro da mesma luz estranha sendo emitido por ele. Veios de luz púrpura inquietantes se espalharam pelas espirais, complementando-as. E tão logo ele se ergueu, atacou. A criatura arremessou seu braço esquerdo contra Gabriel, esticando-se rapidamente e atingindo-o em uma velocidade quase impossível. O apêndice agarrou o rapaz, bateu-o com força contra o chão e prendeu-o a ele com um fluxo espiral contínuo de areia e trevas. Angélica soltou um grito de espanto com o movimento repentino.
— Droga! — Gritou o desconhecido, girando seu corpo rapidamente em direção ao braço da criatura. — Thei-Kai! — Com o punho junto ao seu quadril, o garoto golpeou com força a areia. Aquele golpe pareceria inocente e sem sentido contra aquela coisa; qualquer pessoa em sã consciência jamais tentaria algo tão simples. Entretanto, uma energia estranha se acumulou em volta do rapaz estranho, de forma que os outros dois tiveram a breve ilusão de que muitos outros braços surgiam dele. O golpe foi surdo, porém dilacerou o braço arenoso da criatura, que explodiu ao mero toque de seu punho. Gabriel estava livre outra vez, e apressou-se para se desenterrar do restante da areia que o prendia. Levantando-se e agarrando sua espada, ele se posiciona novamente em posição de ataque. Tentáculos de areia e trevas se ergueram do chão, na intenção de atacá-los. — Ha-Kai! — Gritou o jovem mais uma vez, abrindo os braços amplamente. Um círculo de fogo alaranjado se formou em volta deles, criando uma parede que parecia carbonizar os tentáculos que batiam nela. Os baques ondulavam na parede de chamas, mas eram incapazes de atravessá-la.
— O que… que raio de habilidade é essa? — Perguntou Gabriel.
— Foco! — Alertou o outro rapaz. — Você, levante-se! — Falou ele com Angélica e, sem pensar duas vezes, ela obedeceu ao comando. — Alguém sabe o que é essa coisa?
— Um elemental? — Disse Gabriel, meio em afirmação, meio em questionamento. — Não sei, nunca vi isso antes!
— Com certeza é um elemental de trevas. — Disse Angélica rapidamente. — Não me pergunte como sei. Eu apenas sei.
— Isso ficou muito perigoso. — O rapaz de preto parecia consideravelmente preocupado, o que, levando em consideração sua constante calma perante as situações oníricas do sonho, era um péssimo sinal. — Estou me sentindo desconectado do meu corpo, e pelo visto vocês também. Precisamos focar em resolver esta situação e sair deste sonho.
— Tá, e como nós derrotamos…. — Tentou falar Gabriel, mas foi rapidamente interrompido.
— Não dá para derrotar essa coisa. Isso pode parecer um elemental, mas criaturas assim não surgem em sonhos. Só alguém experiente saberia derrotar um….
O badalar de um sino reverberou no ar, levando todos, exceto o rapaz desconhecido, ao chão, tampando seus ouvidos com todas as suas forças para evitar o som ensurdecedor. A areia se agitou, parecendo se reformatar. Agora, olhando atentamente para a criatura, notava-se que os ossos dos esqueletos pareciam se mover e se integrar à criatura. A silhueta dela cresceu, tornando-se duas vezes e meia maior que Gabriel. Ossos se amontoaram e formaram costelas, clavículas, tíbias e fêmurs. Crânios retorcidos, quebrados e deteriorados formaram um colar sob o que antes era a coroa da criatura, mas de onde agora se erguia um outro crânio, este maior que os outros, dotado de um olhar profundo e abismal. Todas as caveiras pareciam olhar diretamente para eles. Aquela era uma visão apavorante.
— Apenas… apenas alguém muito experiente… — disse o rapaz, ofegante, com veios púrpuras como hematomas surgindo em todo o seu corpo. — …saberia como derrotar um Pesadelo.