Três Vezes Renascido O Lorde dos Signos - Livro 1 · Capítulo 14 de 14
Obra Menu

Três Vezes Renascido

Em geral, Ariandhelle é um mundo de dissociação usado pelos seres sencientes para muitos fins. Animais primitivos e humanos utilizam o mundo dos sonhos primariamente para consolidar memórias, processar emoções e prevenir situações difíceis. Em animais, os instintos são aperfeiçoados para a sobrevivência. Em humanos, sua experiência ajuda a evitar situações entendidas como de risco por sua mente. Ainda nos dias de hoje, o mundo dos sonhos é buscado como um refúgio. Em tempos de guerra, serviam como um alento aos terrores vividos por soldados de ambos os lados do conflito. Para aqueles atormentados pelos demônios da tristeza e da melancolia, servem como um alívio temporário de seu sofrimento mundano. Entretanto, aqueles dotados de magia aprenderam uma outra forma de utilizar este recurso.

Na antiguidade, muito antes da Era dos Lordes, quando Kah ainda andava junto aos mortais, os mortais utilizavam Ariandhelle para se conectar com um mundo volátil, etéreo, onde suas habilidades eram mais poderosas e fáceis de praticar. Alguns até mesmo utilizavam este recurso para se comunicar livremente com espíritos, com seres elevados e até mesmo com os Signos. Naquela época, intocados pela malícia, os humanos ainda utilizavam a magia para propósitos unicamente benéficos. Conforme as épocas passaram, porém, alguns estudiosos descobriram suas propriedades fascinantes e utilizaram-se do mundo dos sonhos quase como um dos muitos planos das sombras. Magos poderosos podiam usar os sonhos para viajar incríveis distâncias, para encontrar-se com aliados e com inimigos, para aprisionar adversários e torturá-los de formas agonizantes, para vingar-se de inimigos, travar batalhas espirituais e até mesmo para desolar terras inteiras sem estar no local fisicamente. Essas terríveis armas foram extensamente utilizadas durante a Guerra da Luz Contra as Trevas e é a razão pela qual o uso profundo de Ariandhelle se tornou temido e, posteriormente, restrito a pouquíssimas pessoas.

O que estava diante deles era nada menos do que uma das muitas armas oníricas criadas naquela época. Não era por acaso que eles entendiam aquilo como um elemental, pois sua natureza é muito parecida. Elementais são parte do equilíbrio do mundo real, sendo manifestações naturais do desequilíbrio da magia em determinado local. Quando humanos queimam florestas maldosamente para produzir suas lavouras, as chamas podem dar origem aos elementais de fogo, que queimam descontroladamente florestas inteiras e até mesmo causam erupções. Quando extraem riquezas da terra sem cautela, os elementais da terra surgem e causam terremotos, desabamentos, deslizamentos. Quando humanos causam alterações no clima, erguendo prédios muito altos, causando tempestades ou poluindo o ar, os elementais do ar surgem causando vendavais, tempestades tropicais e furacões. Quando poluem a água, criam barragens ou fazem aterramentos, os elementais da água surgem e causam enchentes, inundações repentinas e maremotos, em alguns casos até mesmo grandes secas. Elementais espirituais atuam mais estranhamente. Elementais das trevas podem tomar a forma de mortos-vivos, sombras, vultos e fantasmas, enquanto elementais da luz podem surgir como seres de luz, clarões ou simplesmente como vozes do além, surgindo em locais onde sentimentos muito fortes se acumulam.

Desde a Guerra, elementais se tornaram cada vez mais propícios a surgir por conta do desequilíbrio causado pelo uso desenfreado de magia ao longo de muitos séculos, mas sempre surgindo do grave desequilíbrio. Mesmo os elementais espirituais, cujo desequilíbrio é mais sutil, surgem apenas quando o desequilíbrio está presente. Sem desequilíbrio, criaturas elementais não podem surgir. E era isso que faltava naquele ser que surgira diante dos jovens.

O que estava ali não era criado pelo desequilíbrio de nenhum elemento, tampouco pela marca deixada por uma emoção. Aquele era um ser nascido do mais puro medo, alimentando-se da opressão, do pavor e do desespero. Diferente de um elemental, que surge como uma tentativa de reequilibrar o ambiente à sua volta, solidificando o desequilíbrio em algo tangível para que seu entorno se torne novamente balanceado, o objetivo daquele ser era o de tão somente devorar, consumindo a sanidade daqueles presos no mundo dos sonhos, tomando a forma do desespero de suas vítimas. Aquele parecia se alimentar de três medos muito naturais: da escuridão, da morte e do desconhecido. Esta era uma combinação muito ardilosa e difícil de lidar. Pesadelos eram incontroláveis, razão pela qual até mesmo magos muito experientes morreram presos em Ariandhelle. Dizem que até Salazar, o Último Lorde das Trevas, temia dormir durante a Guerra POR medo de seus inimigos manifestarem Pesadelos contra ele, privando-se de dormir até que sua mente enlouqueceu por completo. Se até um Lorde, com todos os seus poderes, temia este ser, como haveriam três jovens inexperientes de derrotar aquela criatura?

Mais um badalar, um som desagradavelmente alto e grave de um sino velho. Os jovens cobriram seus ouvidos com mais força. O ser desgraçado, com órbitas vazias mas cheias de malícia, ergueu sua mão direita e atacou a jovem maga. Gabriel notou o movimento e se interpôs entre o Pesadelo e a garota, em um movimento rápido e silencioso, cortando ao meio o apêndice de areia e trevas que a criatura jogou contra sua amiga. Sua lâmina fumegava ao contato com a areia, emitindo uma luz tênue e pura. O corte, porém, foi interrompido. A lâmina era poderosa, mas não era forte o bastante para fatiar ossos. Com a lâmina travada, o garoto tentou desvencilhá-la da criatura. Em vão.

— Maha-Kai Yerevai! — Gritou o rapaz desconhecido, atacando com sua mão direita, palma da mão aberta. De sua mão projetou-se uma sombra de mesmo formato que, de alguma forma, parecia mais escura que a própria escuridão. A sombra atingiu o ser e o empurrou, surpreendentemente cortando-o em muitos pedaços por meramente encostar nele. Gabriel viu-se livre novamente. O rapaz de preto, entretanto, cai no chão. Um lamento alto soou de sua boca, revelando que ele estava ferido. Gabriel e Angélica levantaram-se para ajudar, mas uma mão cadavérica ergueu-se em seu caminho, derrubando os dois mais uma vez. A criatura erguia-se, refazendo-se magicamente da mesma forma que haviam se reerguido os mortos-vivos que os atacaram na cidade. Angélica encarou-o e levantou-se. Para sua sorte, a criatura não os prendera com seu ataque. A garota ergueu sua mão na direção da criatura, dedos mínimo e indicador levantados e demais dedos fechados. Aquilo não era estratégia ou conhecimento, apenas puro instinto, e guiada unicamente por isso, conjurou algo que sequer conhecia.

— Ignea Incidius! — Um brilho alaranjado ofuscante surgiu no ponto médio entre os dedos erguidos e dele jorrou uma torre azul de chamas, com labaredas tão quentes que poderiam transformar areia em vidro, correndo rapidamente para queimar o inimigo de sua conjuradora. Ao atingir a criatura, ela congelou, transformando-se em vidro enquanto a escuridão se dissipava e ossos evaporavam. O corpo restante da amálgama de areia, ossos e escuridão desabou, desfazendo-se mais uma vez. Angélica estava sem ar, maravilhada com o que ela mesma havia feito.

— Droga! Você tá bem? — Sem que a maga percebesse, Gabriel havia se levantado novamente e corrido em direção ao mais novo deles. Ele instintivamente leva a mão ao nariz do rapaz, verificando se ainda respira. — O que houve? Como você se feriu?

— As mãos… eu as usei… ah… fora de ordem. — O jovem tentou se mover, resultando em mais um guincho lamurioso de dor. — Esta habilidade… ela… ah… tem um preço. Maldição! Eu não ten… não tenho a autorização Dele… para usá-la.

— Dele? Como assim? Quem é ele?

— Excelsior Glacius! — O grito interrompeu a conversa. Enquanto a criatura tentava se recompor, Angélica dançava com as mãos em movimentos suntuosos que se convertiam em gelo para cobrir o ser. O ser se contorcia, tentando se soltar da magia da garota. Mãos obscuras surgiram do chão para quebrar o gelo, mas não obtiveram muito êxito. Se eu conseguir manter este ritmo, talvez consigamos atrasá-la. Talvez eu consiga…

Tarde demais. O sino rangeu mais uma vez, levando-a ao chão. Ela olhou para a criatura, e a escuridão em seus olhos olhou de volta. Múltiplas mãos estranhas, de areia e ossos, erguiam-se do chão e seguravam as pernas dos jovens, envolvendo-os em um abraço como tentáculos. A criatura erguia-se imponente enquanto corpos cadavéricos envolvidos em areia surgiam do chão, puxando os jovens e enterrando-os lentamente. Sem concentração, Angélica não conseguia conjurar mais nada. Gabriel tentou cortar as criaturas, mas uma delas arrancou-lhe a espada. O mais novo nada fez, entregando-se à dor e ao abraço mortal do Pesadelo.

Angélica se debateu, tentando se livrar de seus captores. Em vão. Quanto mais tentava sair, mais ela era puxada para baixo pelas mãos esqueléticas das criaturas. Não demorou muito até que ela estivesse coberta por elas da cabeça aos pés. Sua última visão antes de a escuridão tomá-la por completo foi das órbitas vazias e arrogantes daquele ser hostil, olhando-a com desprezo.

***

Mas este não era o fim.

De olhos fechados, ela sentiu os ventos correrem em todas as direções, uivando. O vento batia contra sua pele como se ela estivesse no topo de um monte, em campo aberto. O cheiro era limpo e fresco. A escuridão transforma-se em luz, e chamas cálidas aquecem seu coração. Distantes, vozes sussurradas cantavam frases familiares, mas há muito esquecidas…

Cinco. Um. Todos. Nenhum.

Para a todos salvar, o Enredo deve ser mantido.

Acorde, criança.

Ainda é cedo para morrer.

E, com um sobressalto, Angélica acordou. Já não estava mais na praia, e seus amigos já não estavam lá. Tampouco estava a criatura terrível que surgiu, aquele Pesadelo malevolente. Ali era um outro local. Para onde se olhava, o campo de luz dourada se estendia infinitamente. Ao olhar para cima, um desenho familiar se contorcia no céu, um fio dourado feito de muitos outros fios, em uma trama perfeita: O Infinito, tal como vira em sua Divinação.

Então, algo chamou sua atenção. Com o som ôco e retumbante como o de um tambor, algo mudou. À sua frente estava uma chama dourada, pura, cálida, misteriosa. De alguma forma, ao olhar para ela, ela sentia como se a própria essência do universo estivesse diante dela. Uma conexão profunda, mais antiga que o tempo, mais poderosa que qualquer criatura, além de sua compreensão. Ela fez menção de tocá-la.

Bam — ressoou o tambor.

Ao seu redor, estava o mundo. Vivo e fluido, como energia pura. Animais ruminantes pastavam, aves voavam pelos céus, seres parecidos com humanos andavam pela grama dourada. Rapidamente, como em um piscar de olhos, eles morriam e renasciam. O mundo repentinamente sumia, e então um mundo novo não tão diferente ressurgia, em um ciclo perpétuo. Um Ciclo que se encerra. Um Ciclo que se inicia. O Fim é um pretexto para o Começo.

Bam — ressoou o tambor.

Agora, o mundo se moldara em uma forma estranha à sua frente, uma única tábula de pedra circular, que parecia irradiar uma luz forte, ameaçadora, mas bela. Nela estava cravado um selo complexo que, por meramente olhar para ele, o mundo se transformava. As linhas dançavam sobre a pedra, como se o próprio selo mudasse ao longo do tempo, como um sonho ou uma ilusão. Por olhar para ele, os segredos mais escondidos do universo se revelavam para a garota, segredos que escorriam por seus dedos tão logo ela os encontrava. Ela olhava e o selo se transformava, mas na pedra um único ponteiro permanecia imóvel, quase atingindo o topo da pedra. Como um relógio quebrado, eternamente estático. Um propósito corrompido.

Bam — ressoou o tambor.

A pedra gravada tornou-se um ser de luz dourada, semelhante a um cervo. Ele possuía longas galhadas, seis olhos e oito patas, cada casco cheio de runas antigas que brilhavam a cada passo. A criatura olhava profundamente para Angélica, tentando decifrá-la. Ou como se a deixar que a garota a decifrasse. Seus pelos dançavam como se o ar batesse neles, e deles irradiavam-se letras antigas que desapareciam no ar. O ser possuía uma aura de sabedoria. Angélica fez menção de tocá-lo. Todas as coisas devem ser unas, em harmonia.

Bam — ressoou o tambor.

A criatura se transformou uma última vez.

Hummmmmmmmmmmmm… Um coro melodioso soou, como se um milhão de vozes murmurassem. Uma sensação estranha de que todos os seres se curvavam surgiu, mas ela sabia que não precisava se curvar. Diante dela, um cajado surgiu. Ele cintilava com um brilho tênue, um cristal em sua ponta parecia tremer de tanto poder. Runas e palavras antigas estavam gravadas ao longo de todo o corpo de madeira dele, uma aura tremulava à sua volta. Começo. Meio. Fim. Criação, Transformação e Destruição. Equilíbrio. Um homem surgiu diante dela e pegou o cajado para si, e ela soube que era a ele a quem todos em todas as direções se curvavam. Seus olhos olhavam-na com ternura, como os olhos de uma mãe. Seu sorriso era pacífico, como o sorriso de um sábio. O manto branco e dourado que pendia sobre seus ombros cobria suas vestes polidas, elegantes como as vestes de um rei. Entretanto, ali estava ele, sem arrogância, sem prepotência. Embora sua aparência fosse régia, ele não transparecia nada além de humildade e compaixão. Suas mãos seguravam firmemente o cajado, demonstrando que detinha todo o poder do mundo e, ainda assim, não o usava como arma. Ela olhou para o homem e, por um instante, seu semblante pareceu-lhe familiar, mas ela não sabia dizer o porquê. Seus olhos encheram-se de lágrimas. De repente, o desespero a tomou por completo. Ela sabia o que estava em jogo e, embora normalmente jamais assumisse que estava com medo, naquele momento, diante dele, ela estava desarmada.

— Criança… — Disse o homem, sua voz ressoando como se fosse emitida de todas as direções simultaneamente. — …Você parece estar enfrentando um inimigo para além de sua habilidade. Sem ajuda, você não sairá viva daqui.

— E o que eu devo fazer? — Perguntou Angélica, com lágrimas quentes escorrendo de seus olhos. — Todos irão morrer se eu não fizer nada! O que eu devo fazer?

— Não se preocupe, querida… — Disse o homem, tomando o rosto da garota com sua mão e enxugando suas lágrimas. — Eu vou te ajudar.

---

Meu corpo doía, como se inúmeras lâminas cortassem minha pele. Eu sabia que ia morrer. Era só questão de tempo. Eu fui nada mais do que um tolo, e agora iria pagar por isso.

A areia escorria pelo meu corpo, apertando-me, torcendo-me, e mesmo assim eu não era capaz de me mover.

Já está desistindo? Sussurrou aquela voz em meu ouvido. Não é forte o suficiente para meu poder? Que decepção…

De fato, era decepcionante. Mas a tolice foi minha. Eu não deveria ter ficado com aquele grupo. Houve sinais de que este sonho era instável, e muito mais do que um, e ainda por cima um sonho com fortes indicativos proféticos. A tempestade que se formava era uma clara alusão a problemas futuros. Os equivocados enviados pela Trindade surgem como ordenados formados. Eu próprio surgindo com as vestes de um andarilho de Abadia. Isso tudo não era coincidência. Mas o sinal mais terrível foram os Nilphim. Mortos-vivos em sonhos? Mortos não sonham. E um Pesadelo…

Eu fui tolo. Vivi como um tolo e morrerei como um tolo.

De repente, a areia ficou imóvel. A criatura preparava-se para dar um último golpe? Não… não podia ser isso. Não… não seria ele, seria? Disse a voz em meus ouvidos. Será? Será que é? Pela terceira vez?

Eu tentei olhar para a frente, mal conseguindo enxergar entre as frestas de areia, ossos e trevas adensadas. Algo brilhava lá fora, um brilho como ouro liquefeito, e o vento soprava forte em todas as direções, revolto, dispersando energia para longe. Sim. Três vezes. Três vezes renascido, como dito há muito tempo. Você é honrado, menino sudito. Você é honrado.

De repente, os tentáculos me soltaram. Eles corriam pela areia, tentando cobrir o rosto da criatura disforme diante de nós. Gabriel olhava, incrédulo. O vento rugia em fúria enquanto os céus se abriam, finalmente revelando o céu claro que existia por trás das densas nuvens da tempestade. Mais um sinal. Um sinal de que a turbulência seria resolvida. Mas por quem? A criatura parecia agonizar com os feixos de luz. Foi então que eu vi, por um breve instante, aquela silhueta.

— Desapareça, ser desprezível. — A voz ressou em todas as direções, como uma ordem. De alguma forma, aquela aparência irada era incrivelmente serena. Seus olhos eram calmos e pacíficos, sua aparência era régia e empoderada, mas ele segurava nada mais do que um cajado. E era da ponta deste cajado que as luzes irradiavam para todas as direções, cortando os tentáculos obscuros do Pesadelo. A escuridão derretia ao mero toque de qualquer dos feixos de luz, os ossos sopravam para longe como névoa; a areia retornava ao chão onírico da praia imaginada. Aquele único comando encerrara tudo. — Retorne para o local de onde veio. Não permitirei que causes mal algum a estes seres. Então vá. Suma!

Então, como se obedecesse ao comando de um rei absoluto, a criatura foi arremessada de volta para o horizonte. Apenas por um instante, a luz pareceu ainda mais forte, mas então evanesceu. De repente, não parecia que houvera sequer uma tempestade. Tudo era tranquilo. O sol onírico se punha no horizonte. Não havia ilha, não havia ser oculto. Apenas serenidade. No lugar de uma presença maligna agora havia uma presença benevolente.

Então, olhei para o homem. Estava claro quem ele era, pois aquele rosto era inigualável e atemporal. Não, qualquer pessoa minimamente sã saberia quem ele era ao mero vislumbre. Vá, seu tolo! O que está esperando? Curve-se! Mas como haveria de ser?

Ele não havia retornado, não é?

O homem se voltou para nós, para mim e para Gabriel. Olhei para os lados e não vi sinal da garota Angélica. Gabriel olhava para o homem, claramente com a mesma compreensão que eu possuía. Claro, ele não sabia que aquilo era real, não ainda. Talvez quando acordasse? E mesmo quando notasse, ele não entenderia os sinais. Se ele estava diante deles, aquele era um sinal claro de seu retorno. Mas algo não estava certo. Aquele homem não surgia como uma visão. Não, ele estava ali.

Ele olhou para nós com um olhar terno. Ele sabia que eu havia entendido. Estava claro em seu olhar.

— Fiel amigo protegido pela luz, Espada e Escudo da Trindade. Criança devota envolta em sombras, filho de Djabädh, o que regressará. Quando a hora chegar, protejam a menina. Ela muito precisará de seu fiel auxílio. — Ele sorriu. O sonho pareceu desvanecer aos poucos, tremeluzindo. — Vão. Está na hora de acordarem deste sonho.

E assim eu fui arrebatado daquele sonho, como um arremesso de volta para a realidade. Acordei mais uma vez daquela meditação profunda, como ao emergir das profundezas de um lago. Estava de volta a Abadia. Ainda era noite, o ar e o piso de madeira do meu quarto eram frios, a cortina de minha janela tremulava com o vento que soprava para dentro. A lua crescente brilhava no céu estrelado.

Meu corpo doía, mas estava em choque. Meus olhos não pareciam querer se fechar nem mesmo por um instante. O encontro com aqueles dois era claramente algo do destino, e nós três possuímos uma forte conexão. Havia muitos sinais naquele sonho, sinais auspiciosos e de desastre. Havia caos no futuro, guerras, talvez uma catástrofe sem precedentes. Mas mesmo assim, uma euforia tomou minha mente de uma só vez, uma alegria insensata que nunca experienciei em minha vida simples de abádio.

O Glorioso regressara uma terceira vez, e eu testemunhei isso. E só havia um significado coerente para isso…

1/1
Menu

Fazer anotação