Profecia O Lorde dos Signos - Livro 1 · Capítulo 7 de 14
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Profecia

- O Selo Enfraquecido… Não será Mantido… Selado Por Três. - O sussurro reverberou em minha mente. Então acordei, levantando-me com pressa, assustada, confusa. As palavras seguiam um ritmo frenético, como se várias vozes estivessem enunciando algo a uma só voz, um só suspiro. - Cinco Vezes Renascido… Com Diferentes Nomes…

Um vento soprou pelo meu pescoço e, quando me virei, um susto: uma figura humanoide espectral, pálida, de longos cabelos brancos, de olhos profundos, de aparência velha como o próprio tempo. Ela olhou para mim, encarando.

- A Velha Profecia, esquecida pelo mundo, não será lembrada. - Disse ela, um sorriso terrível se abrindo em seu rosto. - Afinal, esse é o Destino. Ela, então, acorda novamente, pois a Sombra se ergue.

Vi quando as figuras negras, mãos obscuras, formas perturbadoras com sete, oito braços, corpos pequenos, médios, grandes, gigantescos, olhos perturbadores em todo o corpo, todos encarando o céu dourado. O local onde estava era uma ruína, de pedras cinzentas cobertas de vinhas, de grama escura nascendo pelas frestas. Do chão nasciam árvores negras retorcidas, galhos nascendo em uma espiral pingando seiva negra como carvão. A mulher saiu andando, passando pelas ruínas ao mesmo tempo que explosões soavam pelo campo.

- Primeiro, deve provar-se sendo aquela que ela é para relembrar a profecia. - Ela riu, um grasnado terrível e seco como o deserto, arranhado como um garfo arranha um prato. - Venha. - Então se afastou, voltando a caminhar em direção ao horizonte.

- Espera! - Minha voz soou grave e aguda ao mesmo tempo, sem decidir o seu próprio tom, seu próprio gênero. Quem sou eu? - Volta aqui! - Sai correndo, perdendo o equilíbrio com mais uma explosão à minha direita. Finalmente vi que muitas das figuras negras e cheias de olhos, semelhantes a homens, entoavam cânticos e encantamentos enquanto gesticulavam com as mãos. As criaturas maiores olhavam, estáticas. Um estalar de dedos, mais uma explosão. Era uma guerra, uma guerra de feiticeiros. Me apressei e corri ainda mais, a mulher já sumindo no horizonte.

Então, era um arremesso similar ao pular de um precipício e estávamos em um mundo sendo destruído. Guerras engoliam o mundo sob um sol escuro como carvão. Chamas engoliam o mundo, chamas negras do abismo serpenteando e lacerando a pele de cada ser que encostava, desintegrando aos poucos o mundo abaixo. Titãs negros de escuridão com olhos brilhantes como estrelas arrebatavam cidades inteiras enquanto lâminas negras de escuridão cortavam a terra e nuvens de vento vermelho-sangue assobiavam violentamente nos céus. Homens e mulheres, crianças e velhos, todos agonizavam. Oceanos de sangue fervente pareciam devorar a terra encharcada de sal e lágrimas.

- O fim é o começo. O começo é o fim. O ciclo eterno de destruição e construção. - A voz etérea ecoava em todas as direções. - Mortais, tolos, em desespero, mergulham pelo destruidor à espreita como se fosse possível parar a morte de um universo em declínio. - A voz ria, um riso delirante, um riso vil. - Tudo o que nasce, morre. Tudo o que começa, termina. Todo ciclo se encerra…

Então, escuridão. Silêncio.

- Para um novo ciclo… começar.

Luz. Luz em todas as direções. Um mundo novo, puro, verde e azul, perfeito e imaculado. O assoviar do vento como uma canção, o mover da terra como uma poesia, o som do oceano na costa completando a melodia. Seres primordiais mais uma vez andando pelo mundo, os mortais fascinados tentando decifrar seu canto. O universo estava em paz novamente.

Mas a voz ria, um riso rouco, um riso rachado, quebrado como vidro estilhaçado.

- Mas não será mantido por Três. - O mundo rachou, despedaçou, esfarelou e virou pó. Um mundo perfeito que não existia, o mundo era apenas um imenso vazio. A voz ladrava, o riso aumentando de volume. - Vã tolice. - Mãos seguraram meus ombros. Ombros que não eram meus. - Uma luta jamais ganha, mais velha que o fim dos tempos, mais nova que a aurora do mundo. - Olhos vazios surgiram ao meu lado, encarando, observando o mundo despedaçado. - O tempo despedaçado, lento, travado, como uma engrenagem enferrujada. Quem é o responsável? Quem controla o destino?

Criaturas surgiram do chão, suas mãos obscuras me puxando para baixo, me afogando, me sufocando, me submergindo na escuridão. Todas elas riam, gritavam e lamentavam, em uma cacofonia de sensações e sentimentos, o verdadeiro desespero encarnado. Elas gritavam:

- Cinco vezes renascido. - Berraram… - Com diferentes nomes. - …mais alto… - Com diferentes vidas. - … mais alto. - A Sombra renasce enquanto o Plano Infalível espera o tempo. - As últimas palavras ressoam em ecos, repetindo como um disco quebrado, as mãos chegando ao meu rosto. Enfim, a escuridão tomou-me por completo.

Silêncio mais uma vez, completando a escuridão.

- Levante. Abra os olhos.

Os meus olhos, não meus olhos, que antes pensei estarem abertos, finalmente se abrem. Uma terra banhada em sangue onde cadáveres andam empunhando espadas e escudos foi o primeiro vislumbre que tive, eu mesmo empunhando minha própria espada, meus companheiros cavalgando em corcéis brancos. Luzes irradiam de suas mãos, os mortos se dissolvendo em escuridão. Meu corpo anda e luta contra os mortos, eu, mesmo sem conseguir controlá-lo — um destino enlaçado não pode ser alterado — a morte à minha espreita. Esse era meu destino, morte. As mãos frias tocavam meus ombros, guiando a lâmina brilhante. Um homem surge à minha frente, este, enfim, vivo, mas não aliado, um sorriso doentio em seu rosto. Chamas surgem no ar e um círculo de fogo queima tudo à minha volta. Os mortos dançam, os vivos queimam, os gritos rugem, as vozes riem.

- Um rei tolo… - A risada perturbadora soa. - … um rei sedento. - A criatura surge em frente ao meu corpo, a mesma figura de pele cinza e aparência cadavérica de antes. Ela se inclina, olhando-me diretamente nos olhos com suas órbitas vazias. - Um peão perfeito. Tolo. TOLO!

A voz ecoa, a escuridão ressurge. Meu corpo se levanta para lutar, dessa vez do lado dos mortos, rindo, dançando, fatiando a viva carne.

- Ela desperta para reiniciar o destino, para encerrar a guerra criada sem significado. - Ela ri. - Outra pessoa, outra guerra, mesma profecia. - O corpo dança, os mortos riem, um olho dourado olha de cima. Um barulho quebrado ressoa, os mortos caem mais uma vez. - Ah, o Rei perdeu. Ah, claro. Ah, claro. Mas… será mesmo? - A figura graceja e dança em meio aos mortos, os pés sujos de sangue. Dias e noites passam em um instante, o sol e a lua se alternando em segundos no céu acima, o cenário mudando, corpos desaparecendo, cidades se erguendo, mares subindo e descendo, o riso sumindo, pessoas rindo, pessoas chorando… - O destino, tão cruel. Levante. - Ela sorriu um sorriso desdentado e vazio. - Está na hora de voltar. - Ela riu, riu tão alto que desapareceu mais uma vez.

O mundo girou, se comprimiu e se dilatou. Quem era eu? Quem eram eles? Sombras se erguiam, gigantes cadavéricos preenchidos por sombras. Acima, em um palácio sombrio, um homem se coroava com uma coroa de sangue, olhos dourados brilhando com malícia. Ele ergue os braços, os mortos saem do chão mais uma vez. Era impressão minha, dela, ou outra sombra se erguia atrás dele? Uma sombra maléfica, prendendo-o com fios negros. Um peão. O Rei dos Mortos reina supremo, mas é apenas mais um peão. Um peão Dele. Mas quem era Ele? Quem era a negra sombra à espreita no fim do mundo? Quem era a sombra ao Leste que se erguia para devorar os vivos? Quatro homens se erguem, todos mortos, todos decrépitos. A marionete da sombra toca a coroa de cada um e eles rejuvenescem, suas forças e sua magia fluindo em seus corpos mais uma vez. Eu ergo minha lâmina em direção a ele, não uma espada, mas um punhal de luz. Quatro espectros de luz surgem à minha volta, cada um deles lutando contra um dos quatro generais do homem coroado, eu indo de encontro ao Rei. Um estalo, o mundo grita, os ventos rugem. O destino estava selado.

- Destinada à fama ou à ruína? - Perguntou a criatura. O homem cai morto no chão, mas mãos negras saem de seu peito; uma criatura colossal surge para desafiar a morte. A terra geme, os ventos gritam em desespero. O mar se revolta e se transforma, seu fundo surgindo como montanhas enquanto o que eram montanhas antes eram devoradas pelas águas salgadas. A criatura ruge, suas mãos segurando um martelo de luz negra e vermelha vindo ao meu encontro. Com a lâmina eu me defendo, mas o mundo grita em desespero enquanto as chamas surgem de fendas que se abriam em todo o mundo, engolindo cidades inteiras enquanto as que restavam eram demolidas pelo caos. - Ah, criança, se fosse assim tão fácil. Nem toda fama é glória, nem toda ruína é maldição. O Destino já está traçado. - Então, a criatura toma o lugar do ser que segurava o martelo, rindo de minha desgraça enquanto o martelo me afundava. Por um instante, eu me volto para o leste onde uma sombra maligna se ergue, a mesma sombra de antes, engolindo o mundo mais uma vez. - Veja, garota renascida. O selo enfraquecido, selado por Três, já não é uma barreira. O Sombrio ergue-se mais uma vez. Seria você nossa escolhida?

Um sino toca e, em um instante, o mundo se verte em luz. Criatura, martelo, guerra e destruição desaparecem. Restam apenas as ruínas. Ao leste, a sombra se acalmou mais uma vez - um disfarce ou uma vitória? Então, sol e lua passaram como um flash enquanto montanhas se erguiam e cidades eram construídas e reconstruídas. Ventos sopram em todas as direções. Guerras eram travadas e se encerravam. Inverno, primavera, verão e outono se intercalavam, a neve caindo tão rápido como as flores desabrochavam.

- O tempo é como o espaço, apenas mais uma direção. - Disse a mulher, observando ao meu lado. - Tempo, algo que você não tem. - Um som estridente soou e o céu escureceu, nuvens negras cobrindo o mundo. A terra gemeu e o mundo pareceu se despedaçar. Olhei para cima, o Infinito sendo dilacerado, desaparecendo aos poucos. - Enganada pelo acaso, você não seguirá para descobrir seu destino. - Ela surgiu em minha frente e olhei no fundo de seus olhos, sua alma, a própria escuridão. - Tal qual o mundo sucumbiu várias vezes em muitos éons, este mundo sucumbirá pela ambição. Não sobrará coisa alguma. Você aceitará seu destino?

- Chega.

Tudo desapareceu com a voz reverberando no vazio dourado a minha volta. O Infinito ressurgiu completo acima de mim. Mãos espectrais levantaram, minhas mãos descarnadas, meu espírito desnudo. Eu… quem era eu? Era eu um grande e poderoso rei, governante da sabedoria, que em minhas mãos segurava a flecha do destino? Era um profeta de grandes poderes, responsável por reconstruir o mundo, erguendo o cajado que selaria o futuro? Eu era a princesa que segurava a lâmina sagrada em minhas mãos, aquela que salvaria o mundo e traria sua ruína? Era eu o andarilho que vagava pelo tempo, sem identidade, sem nome, mas mantendo o destino do Enredo em minhas mãos? Eu era o jovem rebelde que reivindicaria o caos para si, aquele que destronaria o mal para trazer de novo a paz ao mundo? Era eu o portador da Espada do Destino, única capaz de dissipar o mal com sua luz? Era eu algum deles? Era eu nenhum? Quem era eu?

Chama. Cajado. Lâmina. Máscara. Espada. Destino.

Cinco. Um. Todos. Nenhum.

Começo. Meio. Fim.

Criação. Transformação. Destruição.

Uma profecia. Um destino.

Velho como o tempo. Novo como a aurora.

Não pode ser impedido, deve ser cumprido.

Apenas uma história. Apenas um Enredo. Apenas um Destino.

Para impedir a destruição. Para impedir o fim.

Para a todos salvar, o Enredo deve ser mantido.

Acorde, criança.

Acorde.

Então um ser de luz estendeu minha mão. Seus olhos sábios observavam diretamente minha alma. O mundo era pura transformação, e assim era eu também. Ora Rei, ora Profeta, ora Princesa, ora Andarilho, ora Rebelde, ora Portador, cada vez segurando um dote diferente. A não me ergueu e fios de luz me seguraram. As mãos negras ressurgiram, tentando me puxar para baixo mais uma vez, mas o ser as expulsou com sua luz.

Acorde.

- Garota! - A luz banhou minha visão, e aos poucos o salão se refez a minha volta. Além do Sábio que aplicava o teste, três outros magos pareciam cuidar de mim. Dois deles eram rostos familiares. Um era o Mago da Corte, Marezar, claro. O outro, um rosto amigável e familiar, com um sorriso terno desabrochando sob seu semblante de preocupação.

- Tio? - Ele me puxou para um abraço. Me puxou? Puxou ela. Ela. Não, eu. Ela. Por quê? Por que minha mente se mistura? Quem? Eu. Lothen. Eu sou… Lothen? Quem sou… - Por que… o que aconteceu?

Ele a afastou, olhando novamente para seus olhos, aqueles olhos azuis de sua linhagem antiga. Linhagem de seus antepassados, que eram também os dele.

- Você… - Ele parecia muito preocupado. - Você caiu na Divinação e… e se perdeu no mundo espiritual. - Ele deu um longo suspiro. - Mas conseguimos te resgatar; felizmente, a conexão não se perdeu.

- Nunca! - O homem que aplicava a Divinação parecia tentar se explicar para Marezar aos berros. - Em todos os anos desde que fui ordenado, nunca deixei tal atrocidade acontecer! Por muito pouco consegui manter a conexão com ela. Escute o que digo, Marezar! Algo influenciou as visões dela, algo externo, um espírito delirante!

- Nada deste tipo aconteceu em toda a história da Trindade. - Falou friamente o Mago da Corte. - Nem há qualquer precedente de algo do tipo acontecer durante uma Divinação. Um espírito errante atacando alguém no Mundo Espiritual? Tenha dó, isso seria um absurdo!

- Mas estou certo disto! Eu vi! Eu vi tudo!

- Se viu tudo… - Falou Alther, virando-se para o homem com um olhar de censura. Claramente aquilo não deveria ser tratado diante de mim. Dela. Diante dela. - … Então diga qual é a sua análise, afinal, este é seu dever.

- Bom. Claro. Certo. - O homem estava constrangido por seu rompante. - É algo, digamos, assustador, por certo. Mas, sim, claro, seu destino parece bastante, digamos, singular. - Ele apressava-se para ajeitar suas vestes, nervosamente buscando por algo desconhecido sob suas mangas, a ansiedade transparecendo. - Um destino de glória e de muita fama, uma maga imensamente habilidosa, ela será, decerto. Uma conexão tão profunda com o Infinito terá de ser treinada à altura. Seu espírito é bastante volúvel, mas…

- Espera. - Disse a garota, levantando-se de uma vez. - O que disse? Maga?

- Eu sinto muito, garota. - Falou ele, olhando para mim. - Mas este é meu veredito. Maga, não Paladino como você gostaria. Todos os traços apontam para isso. É tão certo que, de alguma forma, acredito que é convergente com a Oniração. Eu… espera! Garota!

Ela saiu em um rompante porta afora, irritada, triste, frustrada, lágrimas quentes arranhando seu rosto como facas. Ela corria, apressada, distanciando-se daquela sala maldita, a sala a que nunca mais queria retornar.

- É o bastante. Retorne.

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