Nas Ruínas de Kronum O Lorde dos Signos - Livro 1 · Capítulo 2 de 7
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Nas Ruínas de Kronum

A Rachadura no céu parecia se expandir conforme a luta se desenrolava. A esta altura da batalha, era possível ouvir um grito lamentoso como se milhares de almas em sofrimento gritassem nos ouvidos de todos. Ao mesmo tempo, o som dos destroços se desprendendo da Cidadela e caindo em direção ao abismo soava como trovões, o que se unia aos ventos que assoviavam enquanto subiam em direção à Fenda, que engolia tudo o que estava a seu alcance. Aos ouvidos de todos, aquilo soava como uma verdadeira tempestade.

A espada de Trevor colidia vezes seguidas contra os ossos dos lacaios do Necromante, por vezes parando para defender seu espadachim de bolas de fogo e ataques com lâminas de ar e escuridão pura. O mago era poderoso demais, até mais poderoso que seus Cavaleiros e com habilidade comparável até mesmo com a Trindade. Algo não estava certo. Dadas as proporções dos eventos se desenrolando nesta guerra, sua maná deveria ter se esgotado a muito tempo. Invocar legiões de mortos-vivos, erguer um castelo inteiro até os céus, abrir aquele corte profundo que rasgava os céus, lançar feitiços devastadores contra os exércitos aliados, conjuraraquilo…e ainda assim lutar como se não estivesse sequer perto da exaustão? Que tipo de poder era este que ele havia obtido?

Mais uma lâmina de escuridão cantou em seu ouvido, Trevor desviando por muito pouco de ser atingido por ela. Aquelacoisa… ela ainda se formava, logo atrás do Necromante. Em sua volta, tudo se tornava um breu. O que quer que aquilo fosse, sugava para si qualquer vida que pudesse haver naquele ambiente. Era algo atormentador.

- É inútil, Aragon! - Gritou o Necromante, conjurando mais mortos-vivos que surgiam de fendas pútridas no chão, a escuridão ainda engolindo seus ossos. - A Maldição está quase concluída e em breve o mundo inteiro será consumido pelo caos! A Sombra surgirá e engolirá todo o mundo em sua escuridão! Não restará vida neste mundo, apenas trevas e morte!

Mais uma lâmina obscura, desta vez cortando a face do combatente, o sangue correndo em seu rosto. Trevor caiu no chão pela primeira vez naquela batalha, mas se ergueu rapidamente para não dar chance do inimigo revidar. Luzes irradiaram de sua lâmina enquanto conjuravaHestianela, a lâmina cortando a escuridão dos mortos que surgiam. Não parecia estar sendo efetivo. "O que raios é este poder?",pensou o paladino.

- Poupe-me de sua ladainha, Nagimprout. - Disse, cuspindo o nome do Rei Necromante com sua boca como se fosse veneno. - Eu não sei que poder infernal é esse que você está usando, mas você ainda não passa de um mortal como todos nós. Você não pode sacrificar um país inteiro em prol da sua insanidade!

Mais uma vez, o ar silvou próximo ao ouvido de Trevor enquanto ele desviava de mais um golpe. Desta vez, porém, a face de escarnio de Nagimprout revelou rapidamente o erro: os mortos golpearam-no em sua nuca e colocaram-no de joelhos, um deles imobilizando-o em seguida. Trevor tentou resistir, mas a força que unia os ossos das criaturas era forte demais para desfazer.Hestianão funcionava, fogo não funcionava, nada havia funcionado até então. O que quer que Nagimprout estivesse usando, aquilo só podia ser algum tipo de magia proibida desconhecida. Aquilo certamente não era necromancia comum.

- A imortalidade é minha. - Aproximou-se o Rei Necromante. - A Sombra garantirá que eu reine sobre os escombros deste mundo pela eternidade. Vocês, inferiores, irão ser meus servos mesmo após a morte. Não há nada que você possa fazer que possa me impedir. - Agora a um palmo de distância do inimigo, o Rei curvou-se para ver o homem face a face. - Vocês perderam.

- Não… - Falou Trevor. - …Ainda não.

Luzes irradiaram do solo, das paredes e do teto do salão. Trevor sabia que aquele era seu último recurso, afinal, toda maldição cobrava seu preço no final. As luzes engoliram as criaturas, que se desmaterializaram por completo em menos de um segundo.Finalmente, algo em que elas são fracas. O Infinito corria por seu corpo, sua alma abraçada à concentração de um único suspiro. Era como se a sua própria mente detivesse a verdade. Conforme o fluxo passava por seus canais e a energia exalava de cada poro de seu corpo, ele apreciava cada segundo como se fosse o último.

- Eu ainda tenho uma carta na manga, Necromante. - Então agarrou as vestes do mago com força. O próprio Necromante não conseguia revidar aquilo, pois aquela reação a esta altura parecia-lhe surreal. De onde o espadachim havia tirado tanta força de vontade? Não. Ele não poderia estar perdendo, não o grande Nagimprout.

- Como?! - Ele gritou, sem entender como seus lacaios foram dispersados. A luz dourada formava padrões nas paredes, indicando o feitiço conjurado. Um Selo Perpétuo. - Como você…?!

Ainda segurando o necromante pelas vestes, o homem riu ao saber o que ele faria em seguida. Seu último suspiro seria o fim desta guerra. Infelizmente, ele não voltaria a ver seu filho novamente. Com a mão que segurava o Necromante, ergueu o dedo mínimo e o indicador. O gesto espantou o Necromante.

- Você não ousaria! - Gritou, com o horror estampado em sua cara.

- Será? - Respondeu o homem, zombando do inimigo. - Veremos.

***

Abaixo do castelo que pairava nos céus, legiões de soldados mortos guerreavam contra os exércitos aliados, que lutavam com o auxílio dos magos da Trindade. A lâmina brilhante do príncipe de Brishar cortava os ossos dos inimigos renascidos, porém sem lhes conferir dano algum. A magia do Rei Necromante era algo estranho para a maioria dos combatentes. As caveiras ressuscitadas pareciam escarnecer seus adversários. Cada sonoro ruído dos escombros da Cidadela caindo era uma preocupação, muitos foram soterrados pelos pedregulhos e não sobreviveram. Outros lutaram para se desenterrar apenas para serem apunhalados pelos soldados das legiões de Nagimprout. Aquela guerra sem sentido se prolongaria até quando?

-Hestia!- Gritou o príncipe. A magia de purificação, entretanto, não funcionaria. A necromancia de Nagimprout era estranha. Entretanto, era necessário tentar. Não havia muito o que fazer. Outros três paladinos da ordem Gighudan se aproximaram do príncipe, ele próprio pertencente à ordem. - Eles são muitos! Não sobreviviremos muito tempo.

- Hestia não funciona contra eles, Melódias. Esse feitiço… - Falou um dele, a preocupação estampada em sua face. - …Dessa forma, essa guerra logo se tornará um massacre!

De repente um estrondo abrupto, mais alto que os demais, foi ouvido em todo o campo de batalha e um arrepio correu a espinha de Melódias. Uma alteração forte no fluxo foi sentida por todos os paladinos e magos no campo de batalha, como uma onda de choque, vinda da Cidadela. Em seguida, todos os esqueletos reanimados pareceram se dissolver no ar, como se nunca tivessem existido, e o campo de batalha se esvaziou das tropas inimigas.

- Trevor! - Gritou um dos Gighudan. - A equipe dele conseguiu! Só pode ser!

Mas havia algo errado. Aquele fluxo todo, aquilo não era normal. Somente um feitiço extraordinário poderia ter criado aquela alteração no fluxo. Eaquiloainda estava ali, pairando no ar, enquanto a Cidadela lentamente descendia. A Fenda ainda parecia crescer no céu. Não, as coisas não foram como planejado.

- Fiquem aqui. - Por um momento, um vazio. Em seguida, o fluxo estático do Infinito percorreu todo o corpo do príncipe, eriçando os pelos por onde quer que sua energia passasse. Melódias se concentrou como se o ar estivesse preso em seus pulmões, embora sua respiração corresse livremente. A concentração era plena. Runas pareceram brotar do chão em feixes de luz dourada e branca, e um selo complexo surgiu sob seus pés. Para ele, por apenas um instante, foi como se o mundo houvesse sido transformado em luz, desde o chão e seus companheiros até o seu próprio corpo. E então, com apenas um desdobramento, ele surgiu no salão principal do castelo flutuante, a gravidade querendo levantá-lo devido à queda da estrutura. - Trevor! - Gritou, mas não obteve resposta. Ele sabia que Nagimprout deveria estar no topo da Cidadela, no terraço do andar superior. Mais um estalido soou, indicando o colapso de mais uma estrutura. Ele precisava correr.

Melódias avançou pelos corredores até encontrar as escadas que levavam para o andar superior. O lugar, outrora bonito e majestoso, desabava aos poucos conforme a força do feitiço de Nagimprout se dispersava. Em breve estaria completamente demolido, não restando uma única parede em pé quando a estrutura encontrasse o chão. Ele continuou sua corrida por mais dois ou três andares, encontrando esqueletos caídos por todo o local. Os mortos-vivos não se levantavam para defender o local, o que só poderia indicar que Nagimprout estava derrotado, por fim. Mas por que aquele feitiço ainda não cessara? O que era aquela coisa se formando?

Por fim, ele chegou no terraço. A coisa tomava forma, crescendo e absorvendo toda cor a sua volta. Aquele ser indescritível continuava a ganhar corpo, como a formar um ser diabólico. O que quer que fosse aquilo, não poderia ser algo bom. Quando ele parou para analisar o restante do cenário, o choque tomou seu rosto: Trevor jazia no chão, gravemente ferido e aparentemente desacordado, com uma estátua do Necromante a não mais que dois passos dele. O Necromante olhava para suas próprias mãos, o terror estampado em seu semblante.Não, isso não!

- Trevor! - Gritou o príncipe, largando a espada prateada no chão enquanto se ajoelhava ao lado do homem caído. Melódias não pode conter as lágrimas de caírem por seu amado amigo, quase irmão, que agora deveria estar…não… ainda não… por favor… -Por favor, Trevor! Você não pode ir! Não agora!

Como a atender sua súplica, um suspiro passou pelos lábios do companheiro caído, enquanto ele abria mais uma vez os olhos azuis quase sem vida para fitar o príncipe.

- Já… já está feito. - Disse ele, a voz lutando para passar por sua garganta. O sofrimento era visível em seu rosto. - Não dá mais para… - Sangue voou pelo ar conforme o homem tossia, tingindo o manto branco encardido do príncipe com o carmesim. - …não dá mais para voltar atrás.

- Seu louco! - Falou Melódias, aos prantos, conforme via a vida de Trevor se esvair. - Você não podia… por que você fez isso?

- Não… temos tempo para isso… Oddy. - Falou o homem. - Escute… dê um jeito naquela coisa… você deve ser o único capaz de fazer isso no campo de batalha. Você… você precisa dar um jeito nisso… e levar Nagimprout para longe. Ele… - Seu semblante se fechou, a preocupação e o terror evidentes. - …ele vai… voltar… - Ele apertou a mão do amigo, com um último sorriso em seu rosto. Uma lágrima pareceu brotar no canto do seu olho. - …Diga… diga ao meu filho… que… eu sinto… muito…

As últimas palavras de Trevor Aragon soaram como um lamento sofrido, o brilho da vida deixando seus olhos a cada palavra proferida. Melódias pôde sentir o vazio crescendo em seu peito, tomando conta de seu próprio ser. Ele estava morto. Então mais um trovejar da estrutura que desabava conseguiu removê-lo do transe. As lágrimas pararam de cair no mesmo instante, a ira tomando o lugar do vazio. Aquela coisa… Ele usaria tudo o que havia em si. Por ele.

- Você! - Gritou, seus pés levando-o até a criatura obscura antes que pudesse perceber, o calor do Infinito queimando seus canais como chamas. Os olhos que cobriam o corpo dela viraram-se todos para Melódias, encarando-o. Até mesmo o rosto daquilo virou-se para encará-lo. O medo surgiu no príncipe, como se um buraco abrisse em seu estômago. Mas o calor da sua ira pulsando em suas veias era mais forte. -Atractum est!

Correntes de luz branca brotaram do chão, acorrentando os vários braços e as duas pernas da criatura. Com um gesto, Melódias a fez ficar de joelhos. A criatura parecia confusa, quase desesperada. Com o Infinito queimando sua própria alma, ele gerou a intenção de impedi-la. Luzes irradiaram do piso sob seus pés e três anéis inscritos um no outro surgiram, com dois triângulos sobrepostos em sentidos opostos e um outro círculo em seu centro. Letras indistinguíveis pareciam formar as linhas que moldavam o Selo Triplo. A dor corria por todo seu corpo. Ele sabia que ainda não era capaz de conjurar algo tão complexo, mas não havia escolha. Uma lâmina de chamas douradas surgiu em sua mão.Por ele, pensou.Por ele e todos os outros.

***

Quando os portões maciços se abriram, a brisa perfumada de incenso do Salão dos Sábios bateu no rosto de Melódias. Guardas o escoltavam para dentro do salão, uma honra concedida apenas em algumas circunstâncias especiais, pois o local de deliberação da Trindade era muito sagrado. Exatamente treze pilares sustentavam o salão, uma grande abóbada em seu centro pintada com um detalhado afresco com a imagem dos treze Signos, e abaixo dela três tronos foram posicionados em volta de um único selo formado por três anéis com um único triângulo inscrito. Em cada anel, no que parecia um elaborado desenho de padrões complexos, ele sabia que estavam escritas exatamente três afirmações. Ninguém sabia o que estava escrito, exceto a Trindade.

Melódias mancou salão adentro, vislumbrando as paredes ornadas de desenhos que lembravam constelações que brilhavam fracamente em azul-escuro. Exatamente vinte e seis piras pendiam das paredes, cada uma ardendo em chamas de um brilhante azul e que exalavam um aroma adocicado que preenchia todo o local. Vestido com as vestimentas brancas e azuis de seu novo cargo e portando consigo apenas uma sacola, seus passos eram lentos e pesados conforme lutava com os ferimentos da batalha de Kronum, que ainda o atormentavam mesmo após meses do fim da guerra. Ele só havia estado ali outras três vezes, uma quando fora nomeado Gigudhan, uma quando fora nomeado Mago Formado, e mais uma vez quando fora laureado com o título de Sábio. Quando chegou próximo ao circulo central, iluminado por uma bola de luz etérea que flutuava sobre o salão, aguardou o porta-voz anunciar sua chegada. O homem adentrou o círculo, sendo banhado pela luz alva, postou-se no centro e anunciou:

- Diante da Trindade, Rei Melódias I de Brishar, Primeiro Rei Branco da Nova Dinastia desde Lumiem X, o Lorde da Luz, Sábio nomeado pela Trindade, paladino emérito da ordem dos Gighudan. Venha, filho de Kah, diante dos Sábios da Trindade.

Enquanto ele saía pelo lado oposto que entrou, Melódias adentrou o círculo pelo mesmo caminho, sentindo o estranho calor da luz que o banhava, que vez ou outra parecia lhe arrefecer. Ao chegar no Centro, o mundo parecia estar em um profundo silêncio. Ainda não podia levantar o rosto, não até ser chamado.

- Bem-vindo novamente à sua casa, Sábio Melódias. - A voz clara e suave de Aogon, o Sábio da Luz, reverberou como o bater de um sino. Olhei para ele, sabendo que agora era permitido. Com seus cabelos negros firmemente amarrados em um coque em sua cabeça e olhos de um verde brilhante como jade, o Sábio sentava-se em um trono de mármore branco com veios dourados e vestia uma grande túnica branca e azul naquela manhã, contratando com sua pele cor de bronze. Seu rosto, de juventude resplandecente, escondia os milênios que estivera presidindo a Trindade. Nem um único ano parecia ter se passado desde sua posse há mais de sete mil anos, com a fundação da Trindade. Em verdade, parecia ainda mais novo que o próprio Melódias. - Uma verdadeira lástima que vosso pai, Rei Darius V, tenha partido tão cedo com a Guerra.

- E pesado é o fardo que tens de carregar. - A voz profunda de Zandor, o Sábio das Trevas, soou como o bater de um tambor de som bastante grave. Voltei-me então para ele. O homem corpulento, de pele clara e cabelos brancos como leite, fitava Melódias com seus olhos dourados com seriedade estampada em seu rosto. Acima de seu trono negro como basalto, suas vestes negras e carmesim conferiam-lhe poder tal qual as roupas imperiais dos antigos senhores da noite. Não parecia sequer um ano mais velho que o Sábio da Luz, embora estivesse ali há tanto tempo quanto ele. - Tão jovem, apenas vinte e cinco anos vividos, e já tens de assumir a responsabilidade de um rei. Ainda mais sendo nomeado como Rei Branco, um título tão único que não é concedido pela Trindade há mais de cinco mil anos!

- Não se deixe abater pelas palavras de Zandor, querido. - Falou novamente o Sábio da Luz. - Porém, por mais que tenhamos muitos conselhos para o novo Rei Branco, há assuntos urgentes para tratar.

- É verdade. - O som das palavras proferidas soavam como o cantar de uma harpa, ou o vibrar das cordas de um violino. Um frio subiu pela espinha de Melódias. A voz de Metain, o Sábio do Equilíbrio, sempre era uma grande surpresa. Econômico nas palavras, sua voz tinha o poder de dobrar reis e encerrar impérios. Assim era a sua influência no mundo, embora não muito diferente dos outros três. Olhei para ele, com cautela. Erguido em seu trono dourado como as areias do deserto e ornado com selos e palavras na Língua Sábia, seu olhar possuía a cor de uma tempestade e quase parecia brilhar por conta própria. No lugar de longos cabelos como os outros, seu couro cabeludo via-se marcado com símbolos de significado oculto, sua testa sendo adornada com um ponto negro como carvão. Sua pele emitia um aspecto dourado, conferindo-lhe um ar régio como nenhum outro, quase tirando o brilho do manto branco e dourado que vestia. Seu rosto era sereno, e Melódias nunca o vira com nenhum outro semblante. Aparentando ser poucos anos mais velho, sua presença ofuscava a dos outros dois Sábios, e ambos sabiam perfeitamente disto. - Mostre-nos o que foi forjado naquela terrível noite.

Sem dizer uma única palavra, Melódias deixou a sacola que carregava consigo cair no chão e se abaixou para retirar dela seu conteúdo. Um a um, ele depositou os pergaminhos amarelados no chão, todos selados com uma fita vermelha e um selo de cera negra, cada um com um símbolo rúnico diferente em cor dourada estampado no selo. Ao todo, sete pergaminhos. Uma aura perturbadora emanava dos objetos. Melódias sentia repulsa ao simplesmente tocar em um deles. Ao sentir aquela aura, Aogon contorceu sua face em um semblante preocupado, enquanto uma incredulidade disfarçada de ira surgia no rosto de Zandor. Metain permanecia impassível.

- Isto… isto é… - Balbuciou o Sábio da Luz.

- Tudo o que pude fazer naquela noite. - Falou o rei, por fim, seus olhos marejados ao se lembrar de seu falecido amigo. A sensação de ter falhado ainda era nítida em sua mente. - A criatura era poderosa demais para apenas um único selo, e eu não fui tão habilidoso como deveria ser. De certo um sábio mais habilidoso do que eu poderia ter feito um trabalho mais fino, e esta aura repugnante não estaria vazando dos pergaminhos. Apenas a mera presença de um deles é capaz de afetar o fluxo em sua volta. Nunca vi nada parecido.

- Esta aura… - Falou Zandor, consternado. - …Para invocar um ser que precisasse de sete selos, este ser deveria ser terrível e muito poderoso. Como conseguiu dividí-lo?

- Com dificuldade, nobre Zandor. - Disse o rei. - Ainda tenho muitas sequelas daquela batalha, e minha habilidade em conjurar ficou seriamente comprometida. Alguns especialistas em cura dizem que meus canais foram prejudicados seriamente com o feitiço de selamento.

- Um sacrifício nobre que não será esquecido. - Disse Aogon, tentando tranquilizar o homem. - Você será para sempre lembrado como o homem que…

- Com todo o respeito, nobre Aogon… - Melódias levantou-se, deixando-se levar pelas emoções. - Nenhum de nós estaria vivo se não fosse por Trevor Aragon. Meu sacrifício em nada se compara com o dele. Ele deu sua vida por nós.

- E a estátua? - Falou Metain, com um corte abrupto na conversa. Melódias olhou-o com ira no inicio, mas acalmou-se tão logo recobrou seus sentidos. Aquela não era a forma apropriada de dirigir-se à Trindade.

- A mesma aura doentia emana dela. - Falou ele, contido. - Está confinada nas catacumbas do Castelo de Luz, mas até mesmo os guardas temem se aproximar dela. Eu vos digo, tanto os pergaminhos como a estátua são amaldiçoados por uma força estranha.

- Vocês fizeram um bom trabalho, Melódias. - Falou Metain. - Você e Trevor salvaram Sião naquele dia, cada um a sua maneira. E mesmo que os feitiços conjurados por ambos sejam proibidos pela Trindade, não há como negar o benefício que fizeram com seus honráveis sacrifícios.

- Mestre Metain, se me permite. - Disse Melódias. - Há mais uma coisa que aconteceu naquela noite que me assombra até hoje.

- Diga. - Ordenou o Sábio. Os outros dois olhavam, intrigados. Metain com certeza falara mais hoje do que em muitas outras sessões como aquela.

- Trevor… - Falou, lágrimas desejando descer de seus olhos. - …Ele disse que ele voltaria. Que o Necromante voltaria.

- Tem certeza disso? - O Sábio se inclinou lentamente para fitar o homem. A menos que seus sentidos o estivessem enganando, a voz de Metain soou um pouco mais tensa do que antes.

- Sim. Plenamente. - Falou Melódias.

- E o quanto podemos confiar nessa previsão? - Disse Zandor, cético. - Trevor não era conhecido por seu dom em vidência, nem como psicomante. Ele pode muito bem ter falado isso no delírio de seus últimos suspiros. - A última fala doeu no coração do rei.

- Se ele voltar, temos que dar um jeito nestes pergaminhos. - Falou Aogon, imerso em seus próprios pensamentos. - Talvez possamos convocar magos especialistas nas artes herméticas para reforjar os selos dos pergaminhos, impedir que eles sejam quebrados. Podemos esconder para lá das Terras Distantes, o Necromante nunca irá….

- Basta! - Falou Metain, levantando-se do trono. Sua voz reverberou por todo o salão, os outros dois Sábios perplexos com o gesto súbito dele. Diante dele, Melódias sentiu-se diminuto. O Sábio se aproximou dele lentamente, tomou sua mão e o levantou. Ele também parecia reticente em se aproximar dos pergaminhos. - Não faremos nada disso. O que por magia é feito, nem por magia poderá ser desfeito. Ainda que o selo seja reforjado, ele ainda apresentará os mesmos defeitos de sua criação. - Os Sábios permaneceram em um silêncio sepulcral enquanto o terceiro parecia pensar em alguma coisa, seu olhar distante. Então, ele ergueu seu olhar para Melódias. - Filho da Luz, é isto que irás fazer.

Naquela noite, nos vagões do Trem Celestial, o Rei de Gaia pensou no que foi dito por Metain no Salão da Trindade. Ao chegar à Brishar, ordenou a construção de um templo na ilha de Hetras e convocou um conselho com os cinco governantes das nações iluminadas. Sete meses se passaram, e cada um deles fez um pergaminho ser escondido. Quando enfim a estrutura estava pronta, trancafiou a estátua no andar mais profundo e selou este com um selo perpétuo extensamente elaborado que só poderia ser quebrado usando o sangue do próprio conjurador. A relíquia vinculada a aquele selo também fora escondida em um dos outros cinco reinos das Terras da Luz, de forma que nem mesmo Melódias sabia de seu real paradeiro. Sem a relíquia, ninguém jamais poderia abrir aquele andar mesmo possuindo o sangue do rei consigo.

E por sessenta anos, nenhum ser jamais entrou naquele recinto.

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